Memórias de Festivais

Por Maria do Rosário Caetano

A Revista de CINEMA prossegue, nessa semana, série de relatos, contendo lembranças cinematográficas ambientadas em festivais brasileiros (ou internacionais).

A terceira dessas lembranças tem, mais uma vez, o Festival de Gramado – que festejará seus 50 anos de 12 a 20 agosto – como cenário. Aliás, vale lembrar que as inscrições para as mostras competitivas do festival gaúcho estão abertas até 20 de abril e com uma novidade: renasce a mostra de longas documentais.

A produção brasileira, portanto, se dividirá – por decisão da curadoria, formada com as atrizes Dira Paes e Soledad Villamil e o crítico Marcos Santuário – nas categorias ficção e documentário. Já a produção ibero-americana, que tem priorizado obras ficcionais, não rejeitará longas documentais. Para a mostra competitiva nacional de curtas-metragens serão aceitos filmes de animação, documentários e ficção.

O fato relembrado nessa série de memórias tem origem em um país centro-americano, a Nicarágua. Portanto, fonte de cinematografia emergente, que apresenta alguns sinais de crescimento, principalmente depois que a revolução digital democratizou a produção audiovisual (a distribuição e a exibição, no entanto, continuam complicadíssimas, sem solução à vista).

Em Gramado 2009, na Mostra Ibero-Americana, a Nicarágua se fez representar pelo filme “La Yuma”, de Florence Jaugey, atriz e realizadora de origem francesa. À frente do elenco, estava Alma Blanco, intéprete de jovem balconista em loja de produtos importados dos EUA. Com ela, Gabriel Benavides, Maria Esther López, Salvador Espinoza, Eliezer Traña, Sobeyda Téllez e Rigoberto Mayorga.

O filme, um drama realista ambientado em bairro pobre de Manágua, marcado pela criminalidade, acompanha o dia-a-dia da rebelde e determinada Yuma, que sonha ser boxeadora, algo não muito comum entre as moças de sua geração. Mas, obstinada, ela não desiste.

Yuma mora com a mãe e o padrasto, abusivos e indiferentes aos seus sonhos. E ajuda a cuidar dos irmãos menores. Um dia, ela conhece Ernesto (Gabriel Benavides), jovem de classe média e estudante de Jornalismo. Este encontro inesperado acontecerá quando ele sofrer assalto em frente à loja onde ela trabalha. Os dois acabarão se apaixonando.

Durante o debate do filme, em Gramado, a atriz Alma Blanco e outros integrantes da equipe responderam, com interesse, às perguntas do público. Contaram que havia quase vinte anos que não se produzia um longa ficcional na Nicarágua, país de menos de sete milhões de habitantes, onde a produção de documentários, sim, tinha certa tradição. Lembraram produções internacionais como “Alcino y el Condor” (Miguel Littín, 1982) e “Uma Canção para Carla” (Ken Loach, 1996), lá realizadas e comentaram aspectos ligados à fotografia, à interpretação dos atores e à realidade social do país centro-americano, em especial a violência urbana e a presença de gangues. Falou-se, claro, do boxe, se era um esporte apreciado no país e se mulheres costumavam praticá-lo.

O debate transcorreria como muitos outros (em especial os dos filmes hispano-americanos, que costumam despertar menos entusiasmos) se – em certo momento – alguém da equipe (decerto decepcionado!) não trouxesse à tona informação que não ocorrera a nenhuma dos presentes: a protagonista, moça da periferia de Manágua e lutadora de boxe, homenageava “La Yuma brasileña”. Todos os presentes, jornalistas e público, ficamos com cara de paisagem.

– Quem seria a “Yuma” brasileira? Um lutadora de boxe, que desconhecíamos?

Curiosa e muito interessada em cinema latino-americano, pedi detalhes, pois não estávamos ligando o nome à pessoa. E veio o esclarecimento: “la YUMA MARRUÁ”. Aí nossa ficha caiu: tratava-se de Juma Marruá, a bela protagonista da telenovela “Pantanal”, da Rede Manchete (1990), interpretada por Cristiana Oliveira. O folhetim alcançara no país centro-americano tamanho sucesso, que Juma tornara-se sinônimo de moça brava, que não engolia desaforo. Agora, que o remake da Rede Globo para o clássico de Benedito Ruy Barbosa está em fase final de gravação, aguardemos para ver se a nova telenovela causará o mesmo furor que sua matriz. Furor que contagiou até um bairro pobre de Manágua, a capital nicaraguense.

Detalhe que não pode passar sem registro: “La Yuma” não venceu a Mostra Ibero-americana do Festival de Gramado. O vencedor foi o chileno “Mi Vida con Carlos”, de Germán Berger-Hertz. Mas Alma Blanco ganhou o Kikito de melhor atriz e “La Yuma” conquistou o Prêmio Especial do Júri.

Na competição brasileira, dois filmes, ambos de muitas qualidades, dividiram as atenções: o vencedor do júri oficial foi “Bróder”, ficção de Jeferson De, e o documentário “Diário de uma Busca”, de Flávia Castro, foi o escolhido da Crítica Cinematográfica.

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