“EO”, diálogo de Skolimowski com Bresson, resulta em canto de amor plástico-punk aos animais

Por Maria do Rosário Caetano

“EO”, marco da volta de Jerzy Skolimowski, de 85 anos, aos cinemas brasileiros, aguarda a adesão do público local para essa obra singular e de beleza arrebatadora, fruto de diálogo do realizador polonês com “A Grande Testemunha” (“Au Hazard, Balthazar”, de Robert Bresson, 1966).

O longa-metragem mais recente de Skolimowski, batizado com o zurro (eô, eô) de um burrinho, chega aos cinemas nessa quinta-feira, 1º de junho. E o faz cercado do reconhecimento da crítica mundial e de posse do Prêmio do Júri do Festival de Cannes 2022.

Se a melancolia católica de Bresson impregnava a obra original, o mesmo não se pode dizer de “EO”, sua recriação livre. O filme polonês-italiano concebido por Skolimowski, ao mostrar a via-crucis de um burrinho por um mundo brutal, lança mão de trilha sonora que soma música clássica (Beethoven) ao punk (ou “metal”) e troca o preto-e-branco e o ascetismo bressonianos por cores exuberantes e uma verdadeira sinfonia da natureza (vide o balé das águas em imensa represa). Se o burrinho de Bresson parecia uma vítima indefesa da maldade humana, o EO polonês toma atitudes, reage.

Ele é o protagonista absoluto de trama rarefeita e de poucos diálogos. Skolimowski e seu fotógrafo (Michal Dymek) captam um mundo em convulsão (da Natureza) e o recriam segundo o ponto de vista equídeo – com formas e cores de beleza plástica única. O resultado é um poema visual hipnotizante, muitas vezes em tons vermelhos, verdes ou azulados.

EO, um burro cinza (e de olhos melancólicos), conhece pessoas boas e más ao longo de seus (des)caminhos. Tudo começa num circo polonês, onde Kassandra, uma linda jovem de vestido vermelho, lhe dedica imenso amor. Mas há outras pessoas que vivem sob a lona e agem de forma diferente. Após deixar o circo, o burrinho percorrerá caminhos adversos até chegar à Itália.

No trajeto desse road movie equídeo, ele enfrentará momentos difíceis. Será engaiolado, arrastado por corda presa à viatura dos bombeiros, enfrentará “moinhos de vento” (as pás de modernos equipamentos eólicos), assistirá a uma partida de futebol protagonizada por jogadores e torcedores fanáticos (parte deles disposta a acabar com o animal de olhos tristes, espancando-o de forma bárbara).

Quem ama os animais verá – além do burrinho-protagonista – camelos, cavalos (muitos cavalos), vacas, pássaros, corujas, esquilos. Afinal, ao concluir seu poema visual, Skolimowski deixará claro que seu filme “foi feito com nosso amor pelos animais e pela natureza”. E virá, claro, o aviso final: nenhum animal foi machucado durante as filmagens.

 

EO
Polônia, Itália, 2022, 88 minutos
Direção: Jerzy Skolimowski
Elenco: Sandra Drzymalska, Thomaz Organek, Olita Chammah, Mateus Kosciukiewicz, Isabelle Huppert e Lorenzo Zurzolo. O burrinho é fruto da combinação de imagens de Hola, Tako, Mariette, Ettore, Rocco e Mela
Roteiro: Jerzy Skolimowski e Eva Piaskowske
Fotografia: Michal Dymek
Música: Pawel Mykietyn

 

FILMOGRAFIA
Jerzy Skolimowski (Lodz-Polônia, 5 de maio de 1938)
Ator e diretor, formado na Escola de Lodz, com carreira na Polônia, França, Itália e nos EUA. Iniciou-se no cinema como co-roteirista de Andrezj Wajda (“Os Inocentes Charmosos”, 1960) e de Roman Polanski (em “A Faca na Água”, 1962)

Como diretor:

2022 – “EO” (Polônia, Itália)
2015 – “11 Minutos” (Polônia)
2010 – “Essential Killing” (Matança Necessária, EUA)
1989 – “Torrents of Springs”
1992 – “Ferdyduke”
1887 – “The Angel”
1985 – “The Lightship” (com Robert Duval e Klaus Maria Brandauer)
1984 – “Success is the Best Revenge” (com Anouk Aimée e Michael York)
1982 – “Moonlighting” (com Jeremy Irons)
1978 – “The Shout” (com Alan Bates e John Hurt)
1972 – “King, Queen, Knave” (Rei, Rainha e Três Corações, com David Niven e Gina Lollobrigida)
1970 – “Deep End” (EUA)
1970 – “The Adventures of Gerard” (“O Invencível Sedutor, com Leonard Whiting e Claudia Cardinale)
1967 – “Le Départ” (“A Partida”, Urso de Ouro em Berlim, com Jean-Pierre Léaud, Polônia-França)
1967 – “Race do Gory” (Polônia)
1966 – “Bariera” (Polônia)
1965 – “Walkover” (diretor e ator, Polônia)
1964 – “Rysopis” (diretor e ator, Polônia)

Como ator:

Além de desempenhar função de ator em alguns de seus filmes, Skolimowiski figura, também, nos créditos de produções europeias e norte-americanas, incluindo blockbusters.

2018 – “O Caravaggio Roubado”, de Roberto Andò (Itália)
2012 – “Os Vingadores”, de Joss Whedon (EUA)
2007 – “Senhores do Crime”, de David Cronenberg (EUA-Canadá)
2000 – “Antes do Anoitecer”, de Julian Schnabel (EUA)
1985 – “O Sol da Meia-Noite”, de Taylor Hackford (EUA)
1981 – “O Ocaso de um povo”, de Volker Schlondorff (Alemanha)

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