Festival Varilux homenageia Brigitte Bardot com série e os clássicos “E Deus Criou a Mulher” e “O Desprezo”

Foto: “O Desprezo”, de Jean-Luc Godard

Por Maria do Rosário Caetano

A décima-quarta edição do Festival Varilux de Cinema Francês será dedicada à atriz Brigitte Bardot. Não à senhora que ano que vem fará 90 anos e, depois de abandonar a carreira artística, assumiu os papéis de ativista da causa animal e eleitora da extrema-direita francesa.

A festa cinematográfica gaulesa será inaugurada nessa quinta-feira, 9 de novembro, em todo o território brasileiro (94 cinemas de 50 cidades), e exibirá dois dos clássicos que transformaram BB em símbolo sexual planetário e sinônimo de liberdade e ousadia – “E Deus Criou a Mulher” (Roger Vadim, 1956) e “O Desprezo” (Godard, 1963).

Será exibida, também, minissérie em seis capítulos, dirigida por Danielle Thompson, que narra, em seis episódios, um fragmento (dos 15 aos 25 anos) da vida da linda modelo que virou atriz e tornou-se conhecida no mundo inteiro. Uma femme fatale que povoava os sonhos de jovens e adultos nas décadas de 50 e 60 do século passado. A trama de Thompson se restringe, portanto, aos anos em que BB era pura beleza, sensualidade e ousadia cinematográfica. E para interpretá-la foi escolhida, pela semelhança física, a jovem Julia de Nuniz. Que estará no Brasil, como integrante da delegação de convidados franceses do Varilux. E apresentará ao público a série televisiva que a tem como protagonista absoluta.

A parisiense BB fez tanto sucesso em meados dos anos 1950, e ao longo dos 60, que, além de fazer um filme atrás do outro, trocava de namorado (ou marido) com imensa desenvoltura. E, claro, cobertura midiática. Um deles, Bob Zagury, de origem marroquino-brasileira, a trouxe a Búzios, no litoral fluminense, por duas vezes. No começo de 1964 e no Réveillon de 1965.

A atriz causou, em solo brasileiro, imenso furor e atraiu dezenas e dezenas de paparazzi. Aliás, já causara frisson antes de pisar nas areias quentes do aprazível balneário. Em 1960, Jorge Veiga gravou a marchinha carnavalesca “Brigitte Bardot”, composta por Miguel Gustavo.

A descolada marchinha embala, 63 anos depois, a vinheta do 14º Varilux, não mais na voz de Jorge Veiga, mas na de cantora que enuncia os versos: “Brigitte Bardot, Bardot/ Brigitte beijou, beijou/ Lá dentro do cinema/Todo mundo se afobou…”. Para prosseguir: Bebê, bebê, bebê/ Por que é que todo mundo/Olha tanto pra você?/ Será pelo pé? (Não é)/ Será o nariz? (Não é)/ Será o tornozelo? (Não é)/ Será o cotovelo? (Não é)/ Você que é boa e que é mulher/ Me diga então por que é que é”.

O compositor preferiu não precisar as razões do poder “de abafar” da atriz francesa e transferiu a tarefa para as mulheres.

O cinema brasileiro também prestou atenção na deusa do celuloide francês. Numa chanchada estrelada pelo baiano Zé Trindade, ele chegava em casa e tinha que enfrentar a fúria da mulher (Violeta Ferraz). Mulherengo como ele só, a esposa desconfiada o inquiria. Afinal, uma insinuante BB ligara para ele. Seria Brigitte Bardot? – “Não”, responderia o gaiato: “Belém Brasília”.

Espirituoso como ele só, Zé Trindade qualificaria uma “macaca” que telefonara para ele. Quando a mulher assegura que a tal “macaca” falara em francês, ele rebatia com cara de sonso: “ô macaca inteligente!!!”

O Festival Varilux Brasil prossegue em dezenas de cinemas espalhados pelas cinco regiões brasileiras até dia 22 de novembro. O público assistirá, além dos três títulos dedicados a BB, 19 produções recentes, que serão apresentadas e debatidas por 23 atores e diretores. Um deles é o cineasta Cédric Kahn, que causou sensação na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo com seu penúltimo filme (“O Caso Goldman”), escrito com o também cineasta (e ator) Arthur Harari. Mas, no Varilux Brasil, Kahn vai apresentar o novíssimo “Making Of”. Ele desembarcará no Brasil em companhia do ator Stefan Crepon, indicado ao César-revelação por sua atuação em “Peter Von Kant” (François Ozon, 2022).

Cena de “Making Of”, de Cédric Kahn

“Making Of” segue inédito até na França (sua estreia está agendada para o início de 2024). O novo longa de Cédric Kahn gira em torno de filmagem que sai dos trilhos. Um cineasta experiente começa a rodar um longa-metragem sobre a luta de operários empenhados em salvar uma fábrica. No entanto, o profissional precisa enfrentar a ira dos financiadores, os chiliques do astro principal e muitas confusões no set. No elenco, além de Stefan Crepon, estão Denis Podalydès, Jonathan Cohen, Emmanuelle Bercot e Valérie Donzelli.

O cineasta Bruno Chiche, com 37 anos de experiência no mercado audiovisual, estará no Brasil para apresentar o longa “Maestro(s)”. Já a realizadora Anna Novion mostrará e debaterá o drama “O Desafio de Marguerite”. Mesmo caso de Baya Kasmi, que dirigiu a comédia “O Livro da Discórdia”. Ela tem em sua estante um César de melhor roteirista por filme inspirado em sua própria vida.

O cineasta Rémi Bezançon, que os frequentadores do Varilux conhecem pela comédia “O Mistério de Henri Pick” (protagonizada pelo formidável Fabrice Luchini e por Camille “Dix pour Cent” Cottin), estará no Brasil para apresentar “O Renascimento”. Nicolas Giroud, outra presença confirmada, traz “O Astronauta”, produção da qual, além de diretor, é ator.

A seleção do Varilux 2023 traz, além do grande vencedor da Palma de Ouro no último Festival  de Cannes (“Anatomia de uma Queda”, de Justine Triet), filmes de nomes grifados como André Téchiné (“Alma Gêmea”), Catherine Breillat (“Culpa e Desejo”), Rodrigo Sorogoyen (“As Bestas”) e Paul B. Preciado (“Orlando, minha Biografia Política”).

Techiné é um velho conhecido dos cinéfilos brasileiros. Catherine Breillat, uma realizadora que gosta de causar polêmica (e escândalo) com seus filmes. O espanhol Sorogoyen é autor de um dos filmes mais impactantes do cinema europeu contemporâneo. “Las Bestias” causou furor na festa dos Prêmios Goya, o Oscar espanhol. E o que ele está fazendo num festival de cinema francês?

O premiadíssimo longa-metragem está representando uma coprodução que uniu organicamente dois países – a Espanha e a França. A trama conta com quatro protagonistas. Dois são camponeses galegos, arraigados à terra e muito teimosos. Eles entrarão em conflito com dois franceses, que, cansados da metrópole, instalar-se-ão na campanha galega, dispostos a viver em paz com a natureza. Só que uma empresa se dispõe a comprar as terras dos camponeses galegos. O casal francês se negará a vender a sua gleba. As consequências serão das mais complexas. E o filme, imperdível. Por seu magnífico trabalho em “Las Bestias”, o parisiense Denis Ménochet ganhou o Goya de melhor ator.

Paul B. Preciado, teórico das novas sexualidades, ganhou, com sua “Biografia Política”, o Teddy Award no Festival de Berlim e o Prêmio Especial do Júri da mostra Encounters. Seu filme é uma adaptação de “Orlando” (Virgínia Woolf, 1928) e se configura como um híbrido de documentário e ficção. O cineasta convoca 25 pessoas para um teste de elenco, todas trans e não binárias. Cada um poderá ganhar o papel da personagem fictícia de Woolf. Enquanto isso, todos narram as suas próprias vidas.

Cena de “Anatomia de uma Queda”, de Justine Triet

FILME A FILME

. ANATOMIA DE UMA QUEDA (França, 152 minutos). De Justine Triet (roteiro dela e de Arthur Harari)- Com Sandra Hüller, Swann Arlaud, Milo Machado Graner. Falado em inglês e francês, o drama vencedor da Palma de Ouro 2023 investiga a morte de um homem em área isolada e coberta pela neve. Uma escritora, esposa do morto, é tida, pelas circunstâncias  que a cercam, como principal suspeita .

 . CULPA E DESEJO (França, 104 minutos) – De Catherine Breillat. Com Léa Drucker, Samuel Kirchner, Olivier Rabourdin — O filme mergulha na intimidade provocante e erótica de sua protagonista (Drucker), tendo como pano de fundo um escândalo familiar.

 . O DESAFIO DE MARGUERITE (França, 112 minutos) – De Anna Novio. Com Ella Rumpf, Jean-Pierre Darroussin, Clotilde Coutinho. O filme acompanha a saga de uma jovem que atua na matemática de alto nível, mas decide dar uma guinada e começar tudo de novo.

 . A MUSA DE BONNARD (França, 122 minutos). De Martin Provost — Com: Vincent Macaigne, Cécile de France, Stacy Martin. — O filme narra a vida do pintor francês Pierre Bonnard e de sua esposa, Marthe de Méligny, ao longo de cinco décadas.

. ALMA GÊMEA (França, 100 minutos). De André Techiné. Com: Benjamin Voisin (de “Ilusões Perdidas), Noémie Marlant, Audrey Dana – Drama que acompanha a recuperação de um tenente francês, sob a cuidadosa vigilância de sua preocupada irmã Jeanne. Mas, estranhamente, ele não parece muito ansioso para se reconciliar com quem era.

. CONDUZINDO MADELEINE  (França, 91 minutos)- De Christian Carion. Com Line Renaud, Dany Boom, Alice Jack – O filme registra o envolvimento emocional de um taxista, um tanto desiludido, ao conhecer uma idosa durante uma viagem.

. CRÔNICA DE UMA RELAÇÃO PASSAGEIRA (França, 100 minutos). De Emmanuel Mouret. Com Sabine Kiberlain, Vincent Macaigne e Geórgia Scalliet – Comédia dramática, à moda francesa, com personagens livres e que, portanto, agem fora dos códigos da tradição burguesa e em fina sintonia com nosso tempo em busca de novas relações amorosas. Apresentado na Première no Festival de Cannes, em 2022, recebeu boas críticas  da mídia especializada.

. DISFARCE DIVINO (França, 98 minutos) – De Virginie Saveur. Com: Karin Viard, François Berléand, Nicolás Cazalé. Esse drama narra a saga de Charlotte que, após descobrir que o falecido padre da paróquia, na verdade era uma mulher e praticava sua vocação por anos sem que ninguém suspeitasse, decide iniciar uma investigação em meio à comunidade.

. MAESTRO(S) — 96 minutos. De Bruno Chiche. Com Pierre Arditi,  Yvan Attal, Milu-Miou, Caroline Anglade. Os dois personagens  atuam juntos e interpretam pai e filho. Eles são dois talentos da música clássica no cenário francês contemporâneo, mas que se encontram em situação delicada e precisam resolver um impasse.

. MEMÓRIAS DE PARIS (França, 100 minutos). De Alice Winocour. Com: Virginie Efira, Benoît Magimel, Gregório Colin. Drama. Paris está em transe, depois dos atentados de 13 de novembro 2015, que mataram 130 pessoas e deixaram 413 feridos. Entre os sobreviventes dos ataques a um bistrô está uma jornalista de rádio. Ela lutará para reconstruir sua existência e conseguir força para novamente enfrentar sua a vida cotidiana.MEU NOVO BRINQUEDO (França,112 minutos) — De James Hult. Com Daniel Auteil, Jamel Debouze, Simon Faliu. Remake de “O Brinquedo”, comédia francesa de 1976. Daniel Auteuil interpreta o homem mais rico da França que, ao abrir a seção de brinquedos de sua loja, comunica ao seu mimado filho que ele pode escolher o que mais desejar como presente de aniversário. O garoto escolhe como seu novo brinquedo Samy, o vigia da loja (interpretado pelo cômico francês Jamel Debbouze).

. O ASTRONAUTA (França, 110 minutos) . De Nicolas Giraud. Com Nicolas Giroud, Mathieu Kassovitz, Helena Vincent. O filme traz visão interna sobre a indústria espacial. Giraud interpreta o personagem central, um engenheiro de aeronáutica que se dedica por anos a um projeto secreto.

. O LIVRO DA DISCÓRDIA (França, 97 minutos) De Baya Kasmi. Com: Ramzy Bedia, Noémia Lvosky,  Zahmani, Tassidit Mandi. Comédia baseada no romance parcialmente biográfico  “O Livro da Discórdia”, de Youssef Salem, inspirado em sua juventude e, em particular, nos tabus que rodeiam a sexualidade no ambiente onde ele cresceu. O livro causará certa tensão familiar e o autor precisará manter a união de todos.

. O RENASCIMENTO (França, 95 minutos). De Rémi Bezançon. Com Vincent Macaigne, Bouil Lancers, Bastien Ughetto. O filme traz história de amizade pouco comum e cheia de reviravoltas entre um pintor em plena crise existencial e um galerista – dois homens que sempre foram amigos e que, apesar de todos os contratempos, são unidos pelo amor à arte.

. SOB AS ESTRELAS (França, 110 minutos) — De Sébastien Tulard. Com Riadh Belaiche, Loubna Abidar, Christi Citti —Comédia que acompanha a saga de Yazid, menino do subúrbio, cujo maior sonho é trabalhar com os maiores confeiteiros e se tornar o melhor.

. A VIAGEM DE ERNESTO E CELESTINE  (França, 82 minutos) — De Julien Chheng e Jean-Christophe Roger, Animação. O filme mostra as aventuras do ratinho e de um urso músicos, desta vez num mundo onde todas as formas de música – e com ela a felicidade – foram proibidas há muitos anos.

OS CLÁSSICOS

“E Deus Criou a Mulher” (Roger Vadim, 1956, 95 minutos) – Com Brigitte Bardot, Jean-Louis Trintgnant, Curd Jurgens, Donovan Leitch Jr. Em Saint-Tropez, a jovem órfã Juliette é objeto de desejo de homens. Ingênua livre e provocadora, um símbolo de feminilidade, ela provocará o milionário Éric e se sentirá atraída por Antonieta. Para fugir do orfanato, aceitará se case com Michel, irmão mais novo de Antoine.

 “O Desprezo” (Jean-Luc Godard, 1963).  – Sétima maior bilheteria do ano e maior sucesso de público do cineasta, com Brigitte Bardot, Michel Piccolli, Jack Palace e Fritz Lang. Baseado em romance de Alberto Moravia.

A SÉRIE: O festival exibirá “Brigitte Bardot”, série inédita no país, com seis episódios de 52 minutos que narram a ascensão da atriz na França do pós-guerra, entre 1949 e 1959 – dos seus 15 até os 25 anos, desde a sua educação rigorosa até quando se transforma em femme fatale, rumo ao estrelato internacional. Codirigida por Danièle e Chistopher Thompson, a produção estreou com sucesso na TV francesa em 2023 e causou boa  impressão pela caracterização de Julia de Nuniz, jovem atriz com grande semelhança com Bardot. O elenco principal conta ainda com Victor Belmondo, Hippolyte Girardot e Géraldine Pailhas.

Festival Varilux de Cinema Francês 2023 (Ano 14)
Data: 8 a 22 de dezembro
Locais: em 94 cinemas de 50 cidades: Afogados de Ingazeira (PE), Aracaju (SE), Araraquara (SP), Balneário Camboriú (SC), Belém (PA), Belo Horizonte (MG), Botucatu (SP), Brasília (DF), Campinas(SP), Campo Grande (MS), Campos dos Goytacazes (RJ), Caxias do Sul (RS), Cotia (SP), Cuiabá (MT), Curitiba (PR), Florianópolis (SC), Fortaleza (CE), Goiânia (GO), Granja Vianna (SP), Itaipava (RJ), João Pessoa(PB), Juiz de Fora (MG), Jundiaí (SP), Londrina (PR), Macaé (RJ), Maceió (AL), Manaus (AM), Maringá (PR), Natal (RN), Niterói (RJ), Nova Friburgo (RJ), Palmares (PE), Palmas (TO), Pelotas (RS), Petrópolis (RJ), Poços de Caldas (MG), Porto Alegre (RS), Recife (PE), Ribeirão Preto (SP), Rio Branco (AC), Rio De Janeiro (RJ), Salvador (BA), Santos (SP), São Carlos (SP), São José Dos Campos (SP), São Luís (MA), São Paulo (SP), Teresina (PI), Triunfo (PE), Vitória (ES) e Volta Redonda (RJ).

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