Globo de Ouro reconquista Hollywood, premia “Opperheimer”, “Pobres Criaturas”, França e Japão

Por Maria do Rosário Caetano

A octogésima-primeira cerimônia de entrega do Globo de Ouro aos melhores do cinema e da TV serviu para mostrar que a “parceria” da Associação de Imprensa Estrangeira em Hollywood com a empresa Dock Clark Productions deu resultado.

O combalido prêmio, que abre a temporada anual de láureas cinematográficas, recuperou seu esgarçado prestígio. Estavam na sala de festa os nomes de maior prestígio do audiovisual norte-americano – Christhopher Nolan e a esquipe estrelada de “Oppenheimer” (foto), Martin Scorsese e o timaço de “Assassinos da Lua das Flores”, Meryll Streep e dezenas de astros de igual grandeza.

Na hora da entrega dos troféus, foram perceptíveis os sinais de que o aumento de votantes (de 70 para 300 jornalistas e críticos estrangeiros) revigorou os julgamentos deste prêmio que definhava a olhos vistos. Embora continue dividindo o cinema (e a TV) por gêneros fortes na Hollywood clássica (“dramas” e “comédias-musicais”) e ignorando o cinema documentário, cada vez mais importante, o Globo de Ouro deu sinais de que começa a enxergar o grande cinema realizado fora do eixo Hollywood-Nova York.

Dois exemplos dos mais significativos: “Anatomia de uma Queda”, da francesa Justine Triet, grande vencedor da Palma de Ouro em Cannes, conquistou o prêmio de melhor roteiro (de Triet e seu marido, o também cineasta Arthur Harari), além de melhor filme estrangeiro. E, na categoria animação, o mestre japonês Hayo Miyazaki triunfou com “O Menino e a Garça”, marco de seu regresso ao cinema, depois de sua anunciada aposentadoria.

Na pátria dos Irmãos Lumière, a imprensa constatou que a Academia Francesa errou ao negar a “Anatomia de uma Queda” a vaga de candidato a melhor filme estrangeiro junto à Academia de Artes e Indústria Cinematográficas de Hollywood. O escolhido foi “O Sabor da Vida” (“La Passion de Dodin Bouffant”, de Tran Anh Hung, protagonizado por Juliette Binoche e Benoît Magimel). Por sorte, muitos veem chance do vencedor da Palma de Ouro figurar entre os dez finalistas à categoria principal do Oscar (a de melhor filme).

O júri do Globo de Ouro, ampliado e arejado (com profissionais de várias partes do mundo), acertou até nas escolhas da nata do cinema anglo-saxão. Atribuiu cinco prêmios a “Oppenheimer”. Três de imenso peso – melhor drama, direção para Christopher Nolan e ator para o kenloacchiano, e talentosíssimo, irlandês Cillian Murphy. E ainda cravou os troféus de coadjuvante para Robert Downey Jr e trilha sonora para Ludwig Görasnsson.

A escolha de “Pobres Criaturas”, do grego (radicado na Inglaterra) Yorgos Lanthimos, como melhor comédia (ou musical), reafirmou outro vencedor de festival internacional de primeira linha, o de Veneza. O filme, que evoca o universo de Frankenstein, viu premiada sua protagonista, Emma Stone.

Dignos de louvor foram os dois troféus atribuídos ao comovente “Os Rejeitados”, de Alexander Payne. Os desempenhos de Paul Giamatti, eleito o melhor ator de comédia, e da afro-americana Da’vine Joy Randolph (melhor atriz coadjuvante) são mesmo de excelente qualidade, sutis e fascinantes.

Giamatti interpreta (“Os Rejeitados” chega aos nossos cinemas nessa quinta-feira, 11 de janeiro), um professor de História, durão e disciplinador, que recebe a tarefa de cuidar de alunos obrigados, por razões diversas – sendo a principal o desinteresse da família –, a passar o Natal e o Réveillon num colégio interno. O ator, eterno coadjuvante, ganhou de Payne mais um protagonista. E daqueles construídos com ótimos diálogos e capazes de misturar drama e humor com maestria.

Da’vine, a primeira profissional a receber uma estatueta naquela que se revelaria mais uma monótona cerimônia do Globo de Ouro, até que prenunciou noite das mais animadas. Envolta em vistoso e chamativo vestido vermelho, com os seios fartos expostos sem nenhuma inibição, ela encheu a tela. Para o filme do discreto Alexander “Nebraska” Payne, Da’vine construiu desempenho realmente notável.  Cozinheira, do colégio, ela também passará as festas no local coberto pela neve. E remoendo as dores da perda do filho na Guerra do Vietnã (a história se situa no comecinho da década de 1970). Como cozinheira, a atriz fará de sua mãe dilacerada por lembranças tristes, uma personagem complexa e encantadora.

Para o excelente “Assassinos da Lua das Flores’, de Martin Scorsese, sobrou apenas um prêmio, mas dos mais importantes – melhor atriz de drama para Lily Gladstone. O discurso da atriz, descendente de povos originários dos Estados Unidos, foi o mais mobilizador da noite. Ela foi aplaudida de pé. Mostrou a mãe indígena na plateia e contou que ela a estimulara a aprender o idioma blackfoot, de forma que pudesse preservar um pouco da memória das nações originárias.

Para o “filme de marca” dirigido por Greta Gerwig, o cor-de-rosa “Barbie”, sobraram o esdrúxulo troféu de “melhor realização cinematográfica em bilheteria” (para “compensar-justificar” o bilhão de dólares recolhido em cinemas do mundo inteiro) e melhor canção (‘What Was I Made For?’, de Billie Eilish e Finneas O’Connell).

Na hora do discurso, a atriz (e produtora) Margot Robbie, a Barbie, repetiu banalidades e exagerou nos elogios à empresa que bancou o filme, uma fábrica de brinquedos. “Obrigado à Mattel, que correu riscos com nosso filme”. Riscos? A empresa recolocou no mercado produto que estava razoavelmente esquecido. E o fez com um filme que não vai muito além de gigantesca campanha publicitária (com quase duas horas de duração).

No terreno das séries de TV, o grande vencedor foi “Succession”, com quatro estatuetas – melhor série de TV-drama e três prêmios para seus intérpretes: Kieran Culkin e Sarah Snook, como protagonistas e Matthew Macfadyen, como coadjuvante.

Destacaram-se, também, “O Urso” e “Treta”. A primeira amealhou os troféus de melhor comédia ou musical, atriz para Ayo Edebiri, e ator para Jeremy Allen White. “Treta” ficou com a láurea de melhor minissérie ou filme para TV, melhor atriz (Ali Wong) e ator (Steven Yeun).

A cerimônia, com texto imenso de abertura, enunciado pelo cômico Jó Koy, poderia ter durado menos de três horas, se novos (longos e cansativos) textos não fossem “interpretados” por duplas (houve também um quarteto e apresentações solo) de apresentadores. Os discursos de agradecimento, embora sem brilho (com raríssimas exceções), foram objetivos. A francesa Justine Triet cometeu a indelicadeza de colocar o troféu no chão, por duas vezes, para ler cansativa lista de agradecimentos.

Alguém ouviu o nome da Associação de Imprensa Estrangeira em Hollywood destacado ao longo dos 185 minutos de cerimônia?

Não, pois ao adquirir a marca Globo de Ouro, com 81 anos de história, a Dick Clark Productions, ligada à Penske Média Eldridge, mostrou a que veio. Também, quem vai ignorar empresa que edita a Variety, a Hollywood Reporter e a Rolling Stones?

Confira os vencedores:

CINEMA

  • “Oppenheimer” (EUA) – melhor drama, diretor (Christopher Nolan), ator (Cillian Murphy), ator coadjuvante (Robert Downey Jr), trilha sonora (Ludwig Görasnsson)
  • ”Pobres Criaturas’, de Yorgos Lanthimos (Inglaterra) – melhor atriz de comédia/musical (Emma Stone)
  • “Os Rejeitados”, de Alexander Payne – melhor ator de comédia (Paul Giamatti) e melhor atriz coadjuvante (Da’vine Joy Randolph). “Anatomia de uma Queda”, de Justine Triet (França) – melhor filme em língua não-inglesa, melhor roteiro (Justine Triet e Arthur Harari)
  • “Assassinos da Lua das Flores”, de Martin Scorsese (EUA) – melhor atriz de drama (Lily Gladstone)
  • “O Menino e a Garça” (‘Kimitachi wa dô ikiru ka’), de Hayo Miyazaki (Japão) – melhor filme de animação
  • “Barbie”, de Greta Gerwig (EUA) – melhor realização cinematográfica em bilheteria, melhor canção (‘What Was I Made For?’, de Billie Eilish, Finneas O’Connell)

TELEVISÃO

  • “Succession” (EUA) – melhor série de TV (drama), ator (Kieran Culkin), atriz (Sarah Snook), ator coadjuvante (Matthew Macfadyen)
  • “O Urso” (EUA) – melhor série de comédia ou musical, atriz (Ayo Edebiri), ator (Jeremy Allen White)
  • “Treta” (EUA) – melhor minissérie ou filme para TV, melhor atriz (Ali Wong), ator (Steven Yeun)
  • “Armageddon” (EUA) – melhor performance de comédia Stand-up (Ricky Gervais)
  • “The Crown” (Inglaterra) – melhor coadjuvante de drama (Elizabeth Debicki)

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