Prêmio César, o Oscar francês, festeja 50 anos e decide se consagra ou pune “Emilia Pérez”
Por Maria do Rosário Caetano
O cinema francês — que nessa sexta-feira entrega, no Olympia de Paris, os Prêmios César a suas melhores realizações — viveu em 2024 um ano de bilheterias de ouro. Cravou o primeiro (com a comédia “Un P’tit Truc en Plus”), o segundo (“O Conde de Monte Cristo”) e o quinto lugar (“L’Amour Ouf”) no Top 10 dos blockbusters lançados em seu mercado.
“Un P’tit Truc en Plus” (“Um Toque a Mais”, em tradução livre), vendeu 10,8 milhões de ingressos. O segundo lugar, o delicioso folhetim inspirado em Alexandre Dumas, aquele que narra a vingança do Conde de Monte Cristo, conquistou 9,5 milhões de espectadores.
Os dois filmes marcaram, portanto, boa dianteira frente aos megasucessos vindos dos EUA: “Divertida Mente 2” (8,5 milhões) e “Moana 2” (5,9 milhões).
O quinto colocado é outro título francês – “L’Amour Ouf”, de Gilles Lellouche. Do sexto ao décimo, estão produções norte-americanas (“Meu Malvado Favorito 4”, “Duna 2”, “Deadpool & Wolverine”, “Gladiador 2” e “Planeta dos Macacos: O Novo Reino”).
“Emilia Pérez” (foto), de Jacques Audiard, que vendeu 1,2 milhão de ingressos, não figurou no Top 10, mas – pelo menos num primeiro momento – encheu a França de orgulho. Afinal, o filme, rodado em estúdios franceses e produzido com capital local, recebeu 13 indicações ao Oscar, cuja festa acontece nesse domingo de Carnaval, 2 de março. Ou seja, o filme francês, falado em espanhol, largou na condição de recordista do ano.
Os três blockbusters franceses – “Un P’tit Truc en Plus”, “Conde de Monte Cristo” e “L’Amour Ouf” – estão na lista de indicados aos Prêmios César, o Oscar parisiense, cuja quinquagésima cerimônia será festejada em grande estilo, com transmissão ao vivo pelo Canal Plus.
A essa trinca somam-se mais três destaques franceses – “En Fanfarre”, de Emmanuel Courcol, que mobilizou 2,5 milhões de espectadores, “L’Histoire de Suleymane”, de Boris Lojkine, e “Misericórdia”, de Alain Guiraudie, este já lançado nos cinemas brasileiros.
“Souleymane”, assim como o criativo e ousado “Misericórdia”, encaixa-se no escaninho do “cinema de arte e ensaio”. O primeiro vendeu 570 mil ingressos e o segundo, 250 mil.
Depois de tantas estatísticas, vamos à festa do César de número 50, que, além de entregar prêmios a artistas e técnicos, propõe-se a festejar as conquistas da indústria audiovisual francesa.
Como a festa acontece dois dias antes da cerimônia do Oscar, haverá tempo para os franceses, pelo menos os que não viraram as costas para “Emilia Pérez”, festejar as 13 indicações. No domingo, todos saberão se a campanha que (quase) arruinou a trajetória do filme de Audiard se limitará à conquista de uma ou duas estatuetas de Hollywood (melhor coadjuvante para Zoe Saldanã e, quem sabe, melhor canção). Ou se o estrago oriundo de declarações preconceituosas da atriz espanhola Karla Sofía Gascón, a protagonista Emilia Pérez, assumiu proporções avassaladoras.
No César, “Emilia Pérez” também obteve 12 indicações (incluindo melhor filme, diretor, atriz para Karla Sofía e Zoe Saldaña). Para os rigorosos integrantes da Academia Francesa, ambas são protagonistas. No que estão certíssimos.
No Oscar, os produtores de “Emilia Pérez” (os franceses e a Netflix) preferiram colocar a atriz norte-americana como coadjuvante. Nessa categoria, quem há de derrotá-la? Mas, sejamos justos, Zoe Saldanã desempenha o maior papel do polêmico filme de Audiard. E está excelente.
O longa-metragem mais indicado da quinquagésima edição do César é “O Conde de Monte Cristo”, de Matthieu Delaporte e Alexandre de La Patellière (14, duas a mais que “Emilia Pérez”). Foi sua bilheteria, de quase 10 milhões de ingressos, que alavancou, junto com “Un P’tit Truc en Plus”, o market share francês. Uma taxa de ocupação não alcançada por nenhum outro país ocidental (mais de 45% dos ingressos vendidos foram para produções gaulesas). Número assim tão (ou mais) vigoroso só se mostra possível na Índia, China e Coreia do Sul, países com cinematografias capazes de enfrentar a hegemonia hollywodiana.
“Un P’tit Truc en Plus” só cavou uma indicação: a de melhor filme de diretor estreante. Mas seu realizador, o cômico Artus, já disse à imprensa francesa que não marcará presença na festa do Olympia. Afinal, faz temporada com espetáculo humorístico e estará, portanto, ocupado.
Será esta a razão de sua ausência? Quem vendeu exatos 10.823.557 ingressos não poderia cancelar uma sessão teatral? Ou Artus desconfia que o César não lhe dará a estatueta de ‘opera prima’? Que seus concorrentes são muito mais fortes que ele? Vai saber.
Três dos concorrentes a melhor filme francês já foram lançados no Brasil. A superprodução “O Conde de Monte Cristo”, que aqui não superou os 100 mil espectadores; Emilia Pérez” (na faixa dos 150 mil, segue em cartaz), e “Misericórdia” (menos de 10 mil).
“Monte Cristo” tinha tudo para chegar à casa do milhão de espectadores nas bilheterias brasileiras. É muito bem-feito, sua trama é arrebatadora, sua direção de arte e figurinos são coisa do outro mundo e seu protagonista – o franco-favorito ao César, Pierre Niney – não tem concorrente. Nem Tahar Rahim, que interpreta Charles Aznavour em cinebiografia ficcional produzida pela Netflix (e indicada em algumas categorias do César), o ameaça. Como cinema-espetáculo, há muito a Europa não nos mandava exemplar tão sedutor. Mas, pelas trapaças da sorte, o filme, que a Paris lançou com entusiasmo, foi (quase) ignorado por nossas plateias.
“Emilia Pérez”, nessas alturas do campeonato, encontra-se numa espécie de limbo. Conseguirá ao menos metade dos troféus aos quais concorre em seu país de origem?
Karla Sofía Gascón estará no Olympia? Seu castigo será interrompido? Afinal, os integrantes da Academia de Hollywood (mais de 10 mil associados) já votaram, assim como os do César. Ou ela teme ser vaiada ou evitada pelos demais presentes à festa francesa? Qualquer palpite será temerário.
Outro filme com significativas indicações (sete) é “L’Amour Ouf” (“Fou”, louco ao contrário), do ator e cineasta Gilles Lellouch.
Esta superprodução francesa começou sua trajetória na competição pela Palma de Ouro, no Festival de Cannes, ano passado. Teve má recepção crítica, mas ótimo desempenho nas bilheterias (quase 5 milhões de espectadores). Agora concorre a melhor direção, atriz (Adèle Exarchopoulos), ator (François Civil), coajuvantes (Élodie Bouchez e Alan Chabat) e revelações (atriz-ator estreante) com Mallory Wanecque e Malik Frikah.
O filme é uma adaptação à moda francesa do romance “Jackie Loves Johnser OK?”, do irlandês Neville Thompson. O ator belga Benoît Poelvoorde foi quem indicou o livro a Lellouch. Depois de lê-lo, o cineasta ficou entusiasmado e gastou quase dez anos para transformar o filme em realidade.
“L’Amour Ouf” nos oferece uma primeira hora (de um total de 2h40’) surpreendente. Seus dois protagonistas — os adolescentes Mallory Wanecque, como Jackie, e Malik Frikah, como Clotaire — são formidáveis e transgressores. Juntos viverão uma história de amor louco. Ele acabará se envolvendo com o crime e terá La Brosse (Benoît Poelvoorde) como uma espécie de protetor. Um grave contratempo, porém, mudará sua vida.
Na segunda parte do filme, a mais longa, Jackie será interpretada por Adèle Exarchopoulos (de “Azul é a Cor Mais Quente”) e Clotaire, por François Civil, um dos maiores galãs do cinema francês contemporâneo (mas ele estará desglamourizado, com cabelos raspados e cara marcada por cicatrizes).
O filme, que caminhava muito bem, desanda quando a dupla de protagonistas chega aos 28 anos. Desanda e perde o prumo. Soluções folhetinescas começam a dar as cartas e os rebeldes Clotaire e Jackie perdem substância. O papel de Benoît Poelvoorde (a quem coube interpretar chefe mafioso de cidade portuária no norte da França) perde potência e, até, o excelente Vincent Lacoste, que arrasou em “Ilusões Perdidas”, parece mais perdido que cego em tiroteiro (essa expressão está condenada?).
Em uma única categoria, o filme tem alguma chance: melhor atriz para Adèle Exarchopoulos. Isso se a maldição recair, mesmo, sobre “Emilia Pérez”, e – assim – Zoe Saldaña e Karla Sofía Gascón forem ignoradas.
Os 4.500 associados da Academia Francesa são, em maioria, profissionais de cinema. Se fossem críticos, as chances de “Misericórdia” seriam imensas. O filme de Alain Guiraudie (o mesmo do ousado “O Desconhecido do Lago”) é muito bom e surpreendente.
Duas categorias merecem atenção especial dos cinéfilos brasileiros – a de longas documentais e de animação. Na primeira, concorrem o ótimo “Dahomey”, da franco-senegalesa Mati Diop, vencedor de Berlim 2024 e exibido com sucesso na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o novo trabalho do haitiano-francês Raoul Peck (“Ernest Cole, Fotógrafo”, que a Imovision lançará dia 29 de maio) e “Adeus, Tiberiádes”. Este filme tem como personagem a atriz e diretora palestina Hiam Abbas, detentora de mais duas nacionalidades (israelense e francesa). Ela ficou famosa ao protagonizar o filme “Lemon Three” (Eran Riklis, 2008). Trabalhou com Amos Gitai e outros diretores importantes. Agora, sua filha, a documentarista Lina Soualem revê a atitude da jovem Hiam Abbas, hoje com 64 anos, que deixou mãe, avó, sete irmãs e seu vilarejo natal, na Palestina, para dar prosseguimento, na Europa, a seu maior sonho – firmar-se como atriz.
No terreno da animação, estão três pesos-pesados: o letão “Flow”, de Gints Zibalodis, que disputa dois Oscar (melhor filme internacional e melhor longa animado), “Selvagens”, de Claude Barras (exibido no Brasil pelo Festival Varilux), e “A Mais Preciosa das Cargas”, de Michel Hazanavicius.
Tudo indica que o duelo pelo César se dará entre “Flow”, coprodução com a França, e “La Plus Précieuse des Marchandises”, que o vencedor do Oscar 2012, por “O Artista”, Hazanavicius, realizou a partir de romance de Jean-Claude Grumberg, publicado em 2019.
Exibido em Cannes, o filme, cotado com 5 estrelas pela revista Positif, é definido como “uma fábula poética e comovente”, mesmo que seu tema evoque o holocausto.
O crítico Jean-Domique Nuttens, da Positif, registrou em sua avaliação: “Com humildade e delicadeza, levando a lógica do conto ao ponto de escolher a forma da animação, Michel Hazanavicius, que desenhou ele mesmo cada personagem, faz justiça ao material de Grumberg, ao mesmo tempo em que dá origem a uma obra autônoma que aperta o coração e traz felicidades”.
O longa animado vendeu 600 mil ingressos na França, tem lançamento no Brasil (Paris Filmes) agendado para o dia 24 de abril.
A simbólica cerimônia do César número 50 será apresentada por Jean-Pascal Zadi, que se fará acompanhar de atrizes famosas, como Emmanuelle Béart, Cécile de France, Ludivine Sagnier e a palestina Hafsia Herzi, dos atores Vincent Macaigne, Pio Marmaï e Raphaël Quenard. E de Justine Triet, a grande vencedora do ano passado, com o formidável “Anatomia de uma Queda”.
Confira os finalistas:
Melhor filme
“Emilia Pérez”, de Jacques Audiard
“Misericórdia”, de Alain Guiraudie
“ O Conde de Monte Cristo”, de Matthieu Delaporte e Alexandre de La Patellière
“A História de Souleymane”, de Boris Lojkine
“En Fanfarre”, de Emmanuel Courcol
Melhor Direção
Jacques Audiard (Emilia Pérez)
Alain Guiraudie (Misericórdia)
Boris Lojkine (A História de Souleymane)
Matthieu Delaporte e Alexandre de La Patellière (O Conde de Monte Cristo)
Gilles Lellouche (L’Amour Ouf)
Melhor filme de animação
A Mais Preciosa das Cargas (O Mais Precioso dos Bens), de Michel Hazanavicius (França-Bélgica)
Flow, de Gints Zibalodis (Letônia, França)
Selvagens, de Claude Barras (França)
Melhor Documentário
Dahomey, de Mati Diop (Senegal, França)
Ernest Cole, Fotógrafo, de Raul Peck (França, EUA)
La Belle de Gaza, de Yolande Zauberman (França)
Adeus, Tiberiádes, de Lina Soualem (França)
La Ferme de Bertrand, de Gilles Perret (França)
Madame Hofmann, de Sébastien Lifshitz (França)
Melhor filme de estreia
Vinte Deuses, de Louise Courvoisier
Diamante Bruto, de Agathe Riedinger
Os Fantasmas, de Jonathan Millet
O Reino, de Julien Colonna
Un P’tit Truc en Plus, de Artus
Melhor filme estrangeiro
Anora, de Sean Baker (EUA)
A Semente do Fruto Sagrado, de Mohammad Rasoulof (Irã-Alemanha)
O Aprendiz, de Ali Abassi (EUA)
A Substância, de Coralie Fargeat (França-EUA)
A Zona de Interesse, de Jonathan Glazer (Reino Unido, Alemanha)
Melhor Atriz
Karla Sofía Gáscon (Emilia Pérez)
Zoe Saldaña (Emilia Pérez)
Hélène Vincent (Quando Chega o Outono)
Hafsia Herzi (Borgo)
Adèle Exarchopoulos (L’Amour Ouf)
Melhor Ator
Pierre Niney (O Conde de Monte Cristo)
Tahar Rahim (Monsieur Aznavour)
Karim Leklou (Le Roman de Jim)
Benjamin Lavernhe (En Fanfare)
François Civil (L’Amour Ouf)
Melhor atriz Secundária
Élodie Bouchez (L’Amour Ouf)
Anaïs Demoustier (O Conde de Monte Cristo)
Catherine Frot (Misericórdia)
Nina Meurisse (L’Histoire de Souleymane)
Sarah Suco (En Fanfare)
Melhor ator coadjuvante
David Ayala (Misericórdia)
Bastien Bouillon (O Conde de Monte Cristo)
Alain Chabat (L’Amour Ouf)
Jacques Develay (Misericórdia)
Laurent Lafitte (O Conde de Monte Cristo)
Melhor estreante feminina
Maïwène Barthelemy (Vingt Dieux)
Malou Khebizi (Diamant Brut)
Megan Northam (Rabia)
Mallory Wanecque (L’Amour Ouf)
Souheila Yacoub (Planète B)
Melhor estreante masculino
Abou Sangare (A História de Souleymane)
Adam Bessa (Les Fantômes)
Malik Frikah (L’Amour Ouf)
Félix Kysyl (Misericórdia)
Pierre Lottin (En Fanfare)
Melhor roteiro original
Borgo
En Fanfarre
A História de Souleymane
Misericórdia
Vinte Deuses
Melhor roteiro adaptado
O Conde de Monte Cristo
Emilia Pérez
O Mais Precioso dos Bens
Melhor trilha sonora original
O Amor de Deus
O Conde de Monte Cristo
Emilia Pérez
O Mais Precioso dos Bens
Vinte Deuses
Melhor som
O Amor de Deus
O Conde de Monte Cristo
Emilia Pérez
En Fanfarre
A História de Souleyman
Melhor fotografia
O Amor de Deus
O Conde de Monte Cristo
Emilia Pérez
A História de Souleymane
Miséricordia
Melhor Edição
O Amor de Deus
O Conde de Monte Cristo
Emilia Pérez
En Fanfarre
A História de Souleymane
Melhor figurino
O Amor de Deus
O Conde de Monte Cristo
Emilia Pérez
Monsieur Aznavour
Sarah Bernhardt, A Divina
Melhor direção de arte
O Amor de Deus
O Conde de Monte Cristo
Emilia Pérez
Monsieur Aznavour
Sarah Bernhardt, A Divina
Melhores efeitos visuais
O Monstro
O Conde de Monte Cristo
Emilia Pérez
Monsieur Aznavour
Melhor curta-metragem de animação
Beurk!, de Loïc Espuche
Gigi, de Cynthia Calvi
Papillon, de Florence Miailhe
Melhor curta-metragem de ficção
Boucan, de Salomé da Souza
Ce qui Appartient à César, de Violette Gitton
L’Homme qui ne se Taisait Pas, de Nebojsa Slijepcevic
Queen Size, de Avril Besson
Melhor curta-metragem documental
As Noivas do Sul, de Elena Lopez Riera
Little Spartacus, de Sara Ganem
A Lost Heart and Other Dreams of Beirut, de Maya Abdul-Malak
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