Festival exibe 120 filmes em Salvador e Cachoeira e premia cinema da Bahia, dos Brasis e do exterior

Foto: “Samba Antes do Samba”, de Paulo Alcoforado

Por Maria do Rosário Caetano

Salvador, capital da Bahia, sedia, dessa quarta-feira, dois de abril, até dia nove, a vigésima edição de seu maior festival, o Panorama Internacional Coisa de Cinema. Serão exibidos para maratonistas-cinéfilos mais de 120 filmes, 62 deles em mostras competitivas de curtas e longas-metragens.

O evento cinematográfico terá uma extensão em Cachoeira, cidade histórica situada às margens do Rio Paraguaçu e a poucos quilômetros de Santo Amaro da Purificação. Ou seja, da terra natal dos filhos de Dona Canô – Maria Bethânia e Caetano Veloso.

Os turistas que quiserem curtir o Panorama Coisa de Cinema nas duas cidades (Salvador e Cachoeira) poderão, portanto, fruir, nem que seja por poucas horas, de um pitstop na terra caetana. E seguir viagem.

Já em terra cachoeirana, decerto os visitantes irão encantar-se pela cidade que serviu de locação ao “Coronel Delmiro Gouveia”, de Geraldo Sarno, a “O Mágico e o Delegado”, de Fernando Côni Campos, e “Café com Canela”, de Glenda Nicácio e Ary Rosa. Os dois primeiros diretores são baianos legítimos. A dupla Glenda e Ary, são baianos adotivos, pois nascidos em Minas Gerais.

Aliás – há que se registrar – Cachoeira transformou-se em fértil polo cinematográfico, sob o estímulo dos diretores “mineiros-baianos”, que já contam com seis longas-metragens no currículo (e cuidam da produção de três outros: “Quem Tem com que me Pague Não me Deve Nada”, “Todo o Sentimento” e “Por Elisa”). A dupla e a galera que vem despontando no efervescente município baiano estão nucleadas na UFRB (Universidade Federal do Recôncavo Baiano).

Quem quiser restringir sua permanência a Salvador, irá desfrutar de dois espaços de exibição com muitas histórias para contar: o Cine Glauber Rocha, defronte ao Atlântico e abençoado por famosa estátua de Castro Alves, o vate que ajudou a construir, pela poesia, o monumental patrimônio artístico da velha Bahia. Já a Sala Walter da Silveira, situada nos Barris, não dispõe de tantas belezas arquitetônicas. Mas está fixada na memória de milhares de soteropolitanos, por tudo que fez (e continua fazendo) pela vida cultural da mais velha das capitais brasileiras. E, além do mais, o espaço presta tributo ao “Paulo Emilio Salles Gomes soteropolitano”, o cineclubista, crítico, pesquisador e agitador cultural de saudosa memória, Walter da Silveira (1915-1970).

Como a Cidade da Bahia (assim Jorge Amado chamava Salvador) tem atrações turísticas em demasia e carnaval que seduz multidões de turistas – além de contar com a melhor culinária do país – pode ser que até cinéfilos empedernidos ainda desconheçam o Cine Glauber Rocha. Precisam conhecê-lo, com urgência.

Houve um tempo em que lá funcionava o Cine Guarani. A região que o cercava estava meio degradada e esquecida. Aí, o paulista Adhemar Oliveira, em parceria com o casal Cláudio Marques e Marília Hughes (baianos e criadores do Panorama Coisa de Cinema), fez uma reforma daquelas no local. Transformou a imensa (e decadente) sala em um cinema de ponta, com múltiplos espaços de exibição. E mais: criou uma charmosa varanda que oferece ao visitante a mais linda vista disponibilizada por um cinema brasileiro.

O CineSesc paulistano, sabemos disso, é lindo, conta com bar que nos permite comer-bebericar e, ao mesmo tempo, assistir a um filme. Mas a vista externa cinesesquiana não descortinará, jamais, para a bela Bahia de Todos os Santos. Então, cinéfilo-forasteiro, você ainda não foi à Bahia do Cine Glauber Rocha? Pois vá!

Dito isso, voltemos ao XX Panorama Internacional Coisa de Cinema e à sua programação. Além das três mostras competitivas haverá sessões especiais, debates, oficinas, homenagem (a Sérgio Machado), Seminário (sobre o circuito de exibição de filmes formado à margem dos multiplexes) e um PanLab (laboratório de novos projetos cinematográficos). Em oito dias, os participantes vão correr de um lado para outro, caso queiram assistir à metade (no caso dos fominhas) ou, pelo menos, um terço dos títulos selecionados.

O Panorama Coisa de Cinema dá a devida atenção ao audiovisual da Bahia. Tanto que os dois maiores prêmios (R$50 mil para o melhor longa e R$10 mil para o melhor curta), são patrocinados pelo Instituto Flavia Abubakir.

Irão disputar a robusta grana, cinco produções em longa-metragem. Um filme de Cachoeira, “Catadoras”, de Dayse Porto, que se somará a obras documentais ou ficcionais, como “Samba Antes do Samba”, de Paulo Alcoforado, “Quem é essa Mulher?”, de Mariana Jaspe, “WR Discos – Uma Invenção Musical”, de Nuno Penna e Maira Cristina, e “Jamex e o Fim do Mundo”, de Ramon Coutinho. A disputa de curtas-metragens soma dezesseis concorrentes.

“A Bahia me Fez Assim”, de Sérgio Machado

O Primeiro Seminário da Exibição, que movimentará o Panorama Coisa de Cinema, reunirá dezenas de gestores, programadores e integrantes da AEXIB (Associação de Pequenos e Médios Exibidores do Brasil) a autoridades da Ancine (Agência Nacional de Cinema) e do MinC (Ministério da Cultura).

Um convidado internacional, Rafael Maestro, presidente da Petite Exploitation Fédération Nationale des Cinémas, estará numa das mesas do Encontro. Ele apresentará tema de imenso interesse para cineastas, produtores e exibidores brasileiros – “O Modelo Francês e Como a França Reconquistou seu Próprio Mercado”. Como este é o Ano Brasil-França, o Panorama Coisa de Cinema está em sintonia fina com o país dos irmãos Lumière.

A intenção do Seminário é promover o intercâmbio de experiências entre profissionais da exibição brasileira, contando com diversos painéis e mesas de debates. Os participantes aprofundarão discussões sobre o funcionamento de 400 salas alternativas de cinema. Que, somadas aos cinemões, totalizam pouco mais de  3.500 salas em atividade, distribuídas, a maioria, em menos de 10% dos municípios brasileiros.

Os debates pretendem revelar o potencial de público dos espaços alternativos, espalhados por todo território brasileiro, muitos deles ligados a instituições municipais, estaduais ou federais (centros culturais, cine-teatros, universidades etc.). E há, também, diversas salas privadas (incluindo cinemas de rua) dedicadas à exibição de filmes de arte e ensaio. E não só de blockbusters.

O festival baiano assistirá à posse da nova diretoria da Associação de Pequenos e Médios Exibidores do Brasil (AEXIB) e seus integrantes terão direito a programação exclusiva. E poderão aferir a obra que fizer jus ao Prêmio de Exibição AEXIB. Tal distinção consiste na garantia de exibição do filme vencedor em pelo menos uma sala de cinema dos profissionais mobilizados pelo Seminário.

O Panorama, em sua edição de número 20, programou duas sessões especiais para sua noite inaugural, ambas gratuitas. Uma apresentará cópia restaurada de “Iracema – Uma Transa Amazônica”, de Jorge Bodanzky e Orlando Senna (Bodanzky e a protagonista do filme, Edna de Cássia, estarão presentes para debate com o público). A outra mostrará o longa documental “A Queda do Céu”, de Gabriela Carneiro da Cunha e Eryk Rocha. O cineasta, filho do baiano Glauber Rocha, vai debater o filme com o público.

Na noite de encerramento, será exibido programa temático, um verdadeiro tributo do cinema black brasileiro. O longa documental “Brasiliana, o Musical Negro que Apresentou o Brasil ao Mundo”, de Joel Zito Araújo, mostrará as andanças de grupo de bailarinos e músicos, comandado por Haroldo Costa, por grandes palcos internacionais. E, como complemento, serão exibidos dois curtas-metragens – “BELA LX-404”, de Luiza Botelho, e “Dois Nilos”, de Samuel Lobo e Rodrigo de Janeiro. Registre-se que Luzza, filha de Joel Zito, homenageia a atriz Léa Garcia (1933-2023), numa “ficção cibernética”. Já Lobo e Janeiro prestam tributo ao cineasta afro-carioca Afrânio Vital, de 77 anos.

Confira os concorrentes:

COMPETIÇÃO BAIANA

Longas-metragens

. “Catadoras”, de Dayse Porto (ficção, 70′)
. “Jamex e o Fim do Mundo”, de Ramon Coutinho (ficção, 72′)
. “Samba Antes do Samba”, de Paulo Alcoforado (Doc., 96′)
. “Quem é Essa Mulher?”, de Mariana Jaspe (doc, 70′)
. “WR Discos – Uma Invenção Musical”, de Nuno Penna e Maira Cristina (doc., 78′)

Curtas-metragens

. “A Ligação”, de Marcelo Levandoski
. “Ataques Psicotrônicos”, de Calebe Lopes
. “Através do Som”, de PH Silva
. “Bárbara”, de Vilma Carlas Martins
. “Desconstruindo Lene”, de Guilherme Maia
. “Marcos Errante”, de Thiago Brandão
. “Meu Pai e Praia”, de Marcos Alexandre
. “Na Volta Eu Te Encontro”, de Urânia Munzanzu
. “Palavra”, de DF Fiuza
. “Tigrezza”, de Vinícius Eliziário
. “Ymburana”, de Mamirawá
. “Borderô”, de Hilda Lopes Pontes e Klaus Hastenreiter
. “Vovó Foi Pro Céu”, de Hilda Lopes Pontes e Klaus Hastenreiter
. “Volta ao Mundo, Kamará”, de Eduardo Tosta e Karol Azevedo
. “O Amor Não Cabe na Sala”, de Marcelo Matos de Oliveira e Wallace Nogueira
. “Menina Espoleta e os Super-Heróis Secretos”, de Paula Lice, Pedro Perazzo e Tais Bichara

COMPETIÇÃO BRASILEIRA

Longas-metragens

. “Ainda Não É Amanhã”, de Milena Times (PE)
. “Suçuarana”, de Clarissa Campolina e Sérgio Borges (MG)
. “Vasta Natureza De Minha Mãe, de Aristótelis Tothi e Inez dos Santos (GO)
. “A Queda do Céu, de Gabriela Carneiro da Cunha e Eryk Rocha (RJ)
. “Centro Ilusão”, de Pedro Diógenes (CE)
. “Mambembe” , de Fábio Meira (RJ)
. “O Deserto de Akin”, de Bernard Lessa (ES)
. “O Silêncio das Ostras”, de Marcos Pimentel (MG)

Curtas-metragens

. “Amarela”, de André Hayato Saito (SP)
. “Cavalo Marinho”, de Leo Tabosa (PE)
. “Como Nasce um Rio”, de Luma Flores (BA)
. “Da Pele Prata”, de Safira Moreira (BA)
. “O Seu Corpo é Belo”, de Yuri Costa (RJ)
. “Fenda”, de Lis Paim (CE)
. “Júpiter”, de Carlos Segundo (MG)
. “Linda do Rosário”, de Vladimir Seixas (RJ)
. “Maputo”, de Lucas Abrahão (SP)
. “Mar de Dentro”, de Lia Letícia (PE)
. “O Mediador”, de Marcus Curvelo (BA)
. “O Silêncio Elementar”, de Mariana de Melo (MG)
. “Queimando por Dentro”, de Enock Carvalho e Matheus Farias (PE)
. “Vollúpya”, de Eri Sarmet e JocimarDias Jr (RJ)
. “Zoya”, de Larissa Dardânia

COMPETIÇÃO INTERNACIONAL

Longas-metragens

. “Ánimu”, de Miguel Kohan (ficção, 61′, Argentina)
. “Agárrame Fuerte”, de Ana Guevara e Letícia Jorge (ficção, 74′, Uruguai)
. “A Savana e a Montanha”, de Paulo Carneiro (ficção, 77′, Portugal-Uruguai)
. “Intercepted”, de Oksana Karpovych (doc., 93′, Ucrânia, Canadá, França)
. “Les Âmes Bossales”, de François Perlier (doc., 82′ – Haiti-França)
. “Marching in the Dark”, de Kinshuk Surjan (doc, 111′, Índia, Holanda, Bélgica)

Curtas-metragens

. “Across the Waters”, de Viv Li (França)
. “Aferrado”, de Esteban Azuela (México)
. “A Move”, de Elahe Esmaili (Reino Unido)
. “Ce Qui Apartient à César”, de Violette Gitton (França)
. “City of Poets”, de Sara Rajaei (Holanda)
. “Cross my Heart and Hope to Die”, de Sam Manacsa (Filipinas)
. “Deus-e-Meio”, de Margarida Assis (Portugal)
. “Lees Waxul”, de Yoro Mbaye (Senegal, França, Bélgica)
. “Loveboard”, de Felipe Casanova (Bélgica, Suíça)
. “Mango”, de Randa Ali (Egito)
. “Sea Salt”, de Leila Basma (Líbano, Catar)
. “Sparare Alle Angurie”, de Antônio Donato (Itália, Reino Unido)

Homenagem a Sérgio Machado, com retrospectiva de sua produção documental

. “3 Obás de Xangô” (74′, 2025)
. “A Bahia me Fez Assim” (76′, 2024)
. “A Luta do Século” (78′, 2016)
. “Onde a Terra Acaba” (75′, 2002)

Sessão “Celebrando a Trajetória”

. “O Som ao Redor”, de Kleber Mendonça, vencedor da oitava edição do Panorama Coisa de Cinema, seguido de debate com o realizador

Panorama Brasil (fora de competição)

. “Anna Mariani – Anotações Fotográficas”, de Alberto Renault
. “Edna, 50 Anos Depois de Iracema”, de Alessandro Campos
. “As Muitas Mortes de Antônio Parreiras”, de Lucas Parente
. “Um Dia de Negão”, de Analu e Rebeca Carmo
. “O Sonho de Clarice”, de Fernando Gutiérrez e Guto Bicalho
. “Salomé”, de André Antônio
. “Rixa”, de Fegus
. “Tsuru”, de Pedro Anias
. “A Mulher Invisível”, de R.B. Lima
. “Cavaram Uma Cova no Meu Coração”, de Ulisses Arthur
. “Déa e Dete”, de Bruna Schelb e Francis Frank
. “Pioinc”, de Alex Ribondi e Ricardo Makoto
. “Meça Três Vezes Antes de Cortar”, de Iago Araújo
. “Tiramisù”, de Leônidas Oliveira
. “Outro Lugar”, de Perseu Azul
. “A Menina e o Pote”, de Valentina Homem e Tati Bond
. “A Menina Que Queria Voar”, de Taís Amordivino
. “Samurai Cowboy”, de Igor Marinho
. “Espiral”, de Marina Lomi
. “Gabi Guedes: Música e Ancestralidade”, de Vanessa Aragão
. “Guerreira de Fé”, de Marvin Pereira
. “O Céu Não Sabe Meu Nome”, de Carol Aó
. “Samuel Foi Trabalhar”, de Janderson Felipe e Lucas Litreno
. “Iroco”, de Denis Leroy
. “Estaos Vivos e Atentos: Mutirão Payayá”, de Edilene Payayá, Sarah Payayá e Alejandro Zywica
. “Insubmissas”, de Carol Benjamin, Ana do Carmo, Julia Katharine, Luh Maza e Thaís Amordivino

Mostra de Filmes Restaurados

. “Bye, Bye Brasil”, de Cacá Diegues
. “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, de Bruno Barreto
. “Greve!”, de João Batista de Andrade
. “Nacionalidade: Imigrante”, de Sidney Sokhon
. “Os Homens Que Eu Tive”, de Tereza Trautman
. “Também Somos Irmãos”, de José Carlos Burle
. “Terceiro Milênio”, de Jorge Bodanzky e Wolf Gauer
. “Iracema – Uma Transa Amazônica”, de Bodanzky & Senna

Mostra Clássicos

. “Jules e Jim”, de François Truffaut
. “A História de Adèle H.”, de François Truffaut
. “Na Idade da Inocência”, de François Truffaut
. “A Jaula do Amor”, de René Clément

Panorama Infantil

. “A História Sem Fim” (1984), de Wolfgang Petersen.

Cineclube Matinê

. “O Portal do Paraíso” (1980), de Michael Cimino)

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