Mostra de Tiradentes festeja “Soberania Imaginativa”, exibe dois inéditos de Julio Bressane e “Anistia 79”, de Anita Leandro

Foto: “Anistia 79”, de Anita Leandro

Por Maria do Rosário Caetano

A ditadura militar brasileira, pano de fundo de “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, vencedor do Oscar internacional ano passado, e de “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, o novo indicado brasileiro à festa hollywoodiana, faz-se cenário e tema de reflexão de um dos filmes mais aguardados da competição Olhos Livres da Mostra de Tiradentes (o longa documental “Anistia 79”, da cineasta e professora universitária Anita Leandro). O festival mineiro realiza a sessão inaugural de sua vigésima-nona edição nessa sexta-feira, 23 de janeiro.

O longa-metragem da festejada diretora de “Retratos de Identificação”, também sobre as feridas da ditadura militar brasileira, vai disputar o Troféu Barroco com mais seis produções. A seleção pautou-se pela busca de filmes 100% inéditos e “desenvolvidos por realizadores com significativa circulação por festivais”. Ao contrário da Aurora, outra competição da Mostra de Tiradentes, não se exige dos participantes da Olhos Livres que sejam diretores de primeiras obras.

Os escolhidos, além de “Anistia 79”, são os paulistas “As Florestas da Noite”, de Priscyla Bettim e Renato Coelho, e “Tannhäuser”, de Vinícius Romero, o capixaba “Meu Tio da Câmera”, de Bernard Lessa, o pernambucano “Ao Sabor das Cinzas”, de Taciano Valério, e os cariocas “O Enigma de S.”, de Gustavo Jahn, e “Amante Difícil”, de João Pedro Faro.

Historicamente, a quase balzaquiana Mostra de Tiradentes firmou-se como vitrine de filmes mais experimentais. Com o passar do tempo, produções de temática explicitamente política começaram a ganhar (certo) espaço. Esse é o caso de “Anistia 79”.

Quem assistiu ao festejado (e premiado) “Retrato de Identificação” – tema de brilhante ensaio de Roberta Veiga, da UFMG, no livro “Feminino e Plural” (Papirus, 2017) – conhece os propósitos de Anita Leandro. O maior deles consiste em “tirar imagens do esquecimento”. Ou seja, recriar materiais de arquivo, transformando-os em filmes que, mesmo dialogando com o passado, nos tragam reflexões sobre o presente.

O apreço da realizadora e professora da UFRJ por arquivos audiovisuais é tão grande que, entre 2003 e 2008, ela coordenou, na França, o master profissional “Realização de Documentário e Valorização dos Arquivos”, na  Universidade Bordeaux 3.

Ao regressar ao Brasil, Anita seguiu prospectando arquivos, até realizar o obrigatório (e ousado) “Retrato de Identificação” (2014). Um filme capaz de provar que política e invenção não são incompatíveis e podem gerar obras necessárias e muito criativas.

Com “Retrato de Identificação”, Anita revisitou a trágica história da militante (e exilada) política Maria Auxiliadora Lara Barcellos, a Dodôra, que lançou-se sobre os trilhos de um trem em território germânico. Agora, a cineasta fixa seus olhos em muitos daqueles que a ditadura militar expulsou de nosso país entre 1964 e primeiros anos da década de 1970. Entre eles estão Gregório Bezerra, Branca Moreira Alves, Helena Greco, Diógenes Arruda, Manuel da Conceição (líder do Sindicato de Trabalhadores Rurais), José Maria Crispim, Jean Marc van Weid e José Pedro da Silva. E um participante muito especial da conferência romana – Apolônio de Carvalho, herói de duas guerras (a Civil Espanhola, que o teve como brigadista internacional, e a Segunda Grande Guerra, na qual lutou contra o nazi-facismo).

Estes personagens chegaram, impressos em imagens, às mãos de Anita Leandro quando, na França (território onde realizaria seus cursos de mestrado e doutorado), ela pesquisava arquivos. A documentarista deparou-se, em 2014, em biblioteca parisiense, com um conjunto de fitas mini-DV. Eram registros da Conferência Internacional pela Anistia e Liberdade Democrática no Brasil, realizada ao longo de três dias, em Roma, nas dependências do Parlamento Italiano.

A pesquisadora brasileira percebeu que as fitas não tinham som. Uma das bibliotecárias da instituição forneceu, então, à cineasta, o contato do autor das imagens, o carioca Hamilton Lopes do Santos, que cresceu em Brasília (onde era chamado de Pantera Negra), e exilou-se primeiro no Chile, depois na França. Sem nenhuma experiência cinematográfica, Hamilton, que participava, ativamente, da luta pela Anistia, resolveu realizar, com película 16 milímetros, o registro audiovisual da conferência internacional. Ajudado por microequipe, resolveu filmar o encontro sediado em Roma. Incumbiu outro exilado político, Luis Travassos, de entrevistar os participantes do encontro. O que foi feito.

Passados mais de 40 anos, Hamilton pôde, graças aos esforços da diretora Anita Leandro e de suas produtoras, a cineasta Alice de Andrade (diretora de “Diabo a Quatro” e “Memória Cubana”) e Maria Flor Brazil, ver as imagens daquele distante junho de 1979, sincronizadas com os sons de seu filme “esquecido”.

Hamilton contou à Revista de CINEMA que “nunca ouvira o som captado nas filmagens italianas acoplado às imagens”. Por isso, esta foi, de todas as emoções a ele permitidas por Anita e Alice, a que mais o tocou. Além, claro, de reencontrar cinematograficamente com personagens como Apolônio de Carvalho, Gregório Bezerra, Marcito Moreira Alves, integrantes da família Crispim e, inclusive, seu “parceiro” de aventura cinematográfica, o ex-presidente da UNE (União Nacional de Estudantes) Luis Travassos (1945-1982).

Para revisitar o passado, Anita Leandro procurou onze participantes da reunião italiana de junho de 1976: crianças, que hoje são senhoras, e jovens daquela época, que hoje são senhores. Dão seus testemunhos ao filme o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, Jean-Marc van Weid, Denise Crispin, Heloísa Greco (filha de Helena Greco), entre outros. As lembranças de cada um deles brotam das imagens do passado. Entre os assuntos em pauta está a “transição à brasileira”, que anistiou “torturados e… torturadores”.

A vigésima-nona edição da Mostra de Cinema de Tiradentes dura nove dias (de 23 a 31 de janeiro). Serão exibidos 137 filmes, espalhados por várias mostras e espaços. Incluindo a principal praça da cidade colonial mineira.

A atriz e roteirista Karine Teles, com presença viva no cinema brasileiro (“Benzinho”, “Que Horas Ela Volta?”, “Bacurau” e “A Vilã das Nove”) e, também, na televisão e no teatro, receberá o Troféu Barroco-Homenagem por sua trajetória.

“O Fantasma da Ópera”, de Julio Bressane e Rodrigo Lima

A sessão de abertura, a que festejará a atriz carioca, acontecerá no imenso Cine-Tenda, e exibirá programa duplo – o curta “O Fantasma da Ópera”, de Julio Bressane e Rodrigo Lima, e o longa “Pitico”, protagonizado por Paulo Betti.

A escolha dos dois novos projetos bressanianos se deu pela importância do realizador carioca, que em fevereiro completará 80 anos, e por tratar-se de filmes de um experimentador contumaz. Os curadores de Tiradentes lembram que o curta, com 25 minutos de duração, foi construído a partir de imagens captadas durante os intervalos de filmagem de “Pitico”. E estabelece “diálogo com a tradição do making of, deslocando-se para reflexão especulativa sobre a própria construção da imagem cinematográfica”. Já que este é “o traço central da estética de Bressane”, que se soma “a seu fascínio pela metalinguagem do processo de criação”.

O ator (e cineasta) Paulo Betti derrama entusiasmo por seu primeiro trabalho sob direção de Bressane: “foi uma coisa maravilhosa trabalhar com ele num filme produzido pelas filhas Noa e Tande Bressane. Rodamos numa casa na Tijuca. Meu personagem adora escrever. Como eu também sou adepto a um ‘manoescritura’, foi um encontro!”

O tema “Soberania Imaginativa” pautará a edição desse ano do festival mineiro. E o fará somando política e estética. Ou seja, reivindicando a regulação do streaming, fonte de soberania, e celebrando a “imaginação”. Em simbólica (e livre) homenagem às rebeliões de 1968, nas ruas de Paris, que lutavam pela “imaginação no poder”.

MOSTRA OLHOS LIVRES

“Anistia 79”, de Anita Leandro (RJ)
“As Florestas da Noite”, de Priscyla Bettim e Renato Coelho (SP)
“Meu Tio da Câmera”, de Bernard Lessa (ES)
“Tannhäuser”, de Vinícius Romero (SP)
“O Enigma de S.”, de Gustavo de Jahn (RJ)
“Amante Difícil”, de João Pedro Faro (RJ)
“Ao Sabor das Cinzas”, de Taciano Valério (PE)

MOSTRA AURORA

“Sabes de Mim, Agora Esqueça”, de Denise Vieira (DF)
“Vulgo Jenny”, de Viviane Goulart (GO)
“Obeso Mórbido”, de Diego Bauer (AM).
“Politiktok”, de Álvaro Andrade (BA)
“Para os Guardados”, de desali e Rafael Rocha (MG)
“A Voz da Virgem”, de Pedro Almeida (RJ)

MOSTRA PRAÇA

“Pequenas Criaturas”, de Anne Pinheiro Guimarães (RJ)
“Herança de Narcisa”, de Clarissa Appelt e Daniel Dias (RJ)
“Ladeiras da Memória – Paisagens do Clube da Esquina”, de Raabe Andrade e Daniel Caetano (MG/RJ)
“O Último Episódio”, de Maurílio Martins (MG)
“Dolores”, de Marcelo Gomes e Maria Clara Escobar (SP)
“Querido Mundo”, de Miguel Falabella (RJ)
E três sessões compostas com 15 curtas-metragens (média de cinco em cada uma)

MOSTRA AUTORIAS

“Atravessa minha Carne”, de Marcela Borela (GO/DF)
“Aurora”, de João Vieira Torres (RJ)
“Uma Baleia Pode Ser Dilacerada como uma Escola de Samba”, de Felipe M. Bragança e Marina Meliande (RJ)”Estopim”, de Tiago A. Neves (PB)
“Antes do Nome”, de Luiz Pretti (MG)

MOSTRA VERTENTES

“Sérgio Mamberti – Memória do Brasil”, de Evaldo Mocarzel
“Palco-Cama”, de Jura Capela (sobre José Celso Martinez Corrêa)

MOSTRA INVENÇÃO

“Amuleto”, de Heraldo HB e Igor Barradas (RJ)
“Noites sem Diálogo”, de João Pedro Faro, Bruno Lisboa, Miguel Clark, Hannah Maia, Joana Liberato, Vinícius Romero e Pio Drummond (RJ/SP)

CLÁSSICOS DE TIRADENTES

“Ocidente”, de Leonardo Sette (curta)
“A Fuga, a Raiva, a Dança, a Bunda, a Boca, da Mulher Gorila”, de Felipe Bragança e Marina Meliande (longa)

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