Alejandro Amenábar tempera, na Netflix, drama histórico sobre o “cativo” Miguel de Cervantes com ingredientes homoafetivos

Por Maria do Rosário Caetano

Para muitos, a narrativa em prosa que construiu os esteios do romance moderno tem duas matrizes – a satírico-picaresco-paródica, oriunda do “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes, e a dramática, vinda da escrita teatral de William Shakespeare.

Nesse exato momento, estes dois escultores da moderna fabulação ocidental têm suas vidas (ou parte delas) narradas pelo cinema. O primeiro é a razão de ser de “O Cativo” (El Cautivo), do espanhol Alejandro Amenábar, disponível na Netflix, e indicado em sete categorias aos Prêmios Goya, o Oscar de Espanha. O segundo, o bardo inglês, é coprotagonista de “Hamnet – A Vida Antes de Hamlet”, da sino-americana Chloé Zhao (em cartaz nos cinemas), um dos dez finalistas ao Oscar de Hollywood.

Do filme que uniu esforços dos EUA e Grã-Bretanha já se falou muito. E ele já foi visto por 300 mil espectadores brasileiros. Já de “O Cativo”, pouco (quase nada) se disse.

Os dois longas-metragens são fruto de interpretações livres de seus diretores e roteiristas. Para fundamentar a concepção norteadora de ”Hamnet” — Shakespeare teria criado o maior de seus textos teatrais, “Hamlet”, a partir da dor da perda de um filho — a autora do romance que lhe deu origem, Maggie O’Farrell, escanteia duas comédias escritas pelo bardo enlutado (“As You Like It” e “Muito Barulho por Nada”) antes de estrear a complexa trama do Príncipe da Dinamarca.

As liberdades tomadas por Alejandro Amenábar ao escrever o roteiro de “El Cautivo” são ainda mais ousadas. Ao optar pela construção de um drama histórico queer (ou “homoerótico” em sua própria definição), o diretor do oscarizado “Mar Adentro” soltou as asas da imaginação. Para ele, o soldado (e futuro escritor, cânone da língua castelhana) Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1616) viveu uma história de amor físico e intelectual com o Paxá Hassan, governador de Argel, grande cidade situada na África árabe.

O que se sabe é que, por volta dos 28 anos, o militar, que defendia a Coroa espanhola, caiu prisioneiro de corsários berberiscos. E foi levado, junto a outros detidos (incluindo religiosos), para Argel. Onde permaneceria preso por cinco anos (de 1575 a 1580).

A vivacidade e inteligência do prisioneiro — nos mostrará o filme — suplantariam suas imensas cicatrizes físicas (no ombro e numa mão avariada) provocadas pelas refregas da Batalha de Lepanto (no Porto Patras-Grécia). Até o tinham como manco (mas o Cervantes de Amenábar, interpretado por Julio Penã, é lindo de morrer, não manca e passa anos vestido com o mesmo e atraente conjuntinho preto).

Dono de imaginação fértil e protegido pelo Padre Antonio de Sosa (Miguel Rellán), também prisioneiro, o jovem vai ler muitos livros (inclusive o seminal “Lazarillo de Tormes”), inventar histórias que encantarão os encarcerados e até os carcereiros. E que seduzirão o Paxá Hassan (Alessandro Borghi, de olhos mediterrâneos de tão azuis). Este, nascido em Veneza, criado em Bolonha, fluente em cinco línguas e convertido ao Islã, fora designado como o poderoso governador de Argel. E seria atendido, em suas horas de alcova, por vários mancebos.

A história oficial de Cervantes diz que ele era heterossexual, que viveu amores na Lusitânia e, na Espanha natal, casou-se com Catalina de Palácios Salazar. Amenábar sentiu-se à vontade para preencher as imensas lacunas existentes na vida do criador de “Novelas Exemplares” e de “Dom Quixote” (“O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha”, cuja primeira parte foi publicada em 1605, e a segunda, “O Engenhoso Cavaleiro Dom Quixote de la Mancha”, em 1615).

O cineasta disse a jornais de seu país que se sentiria “um mojigato” (um hipócrita, um falso moralista) se tivesse ocultado “o homoerotismo existente entre Cervantes e seu ‘captor’”. Ou seja, o governador, que o mantinha prisioneiro.

“El Cautivo” dura 134 minutos. No começo, nos deparamos com um drama histórico muito bem filmado, com ótimas locações (palácios e praças árabes, movimentados mercados populares), figurinos bem desenhados, cabelos e maquiagem que nos remetem, com certa liberdade, ao século XVI.

Das sete indicações ao Goya recebidas por “O Cativo”, duas são para atores (Miguel Rellán, um velho padre, o grande destaque do filme, e Julio Peña, o protagonista, como revelação), uma para direção de produção e as restantes para som, direção de arte, figurino e maquiagem e cabelos. Pelas categorias principais (melhor filme, direção, atores principais, roteiro, fotografia), o novo longa de Amenábar passou batido. E olha que o cineasta fez sua estreia no Goya, quase 30 anos atrás, já causando furor (melhor diretor estreante e melhor roteiro para “Tesis”). E chegaria ao cume da glória com “Mar Adentro”, laureado com 14 “cabeçudos” (apelido do prêmio que homenageia Francisco de Goya y Lucientes).

Até aparecer, numa movimentada rua argelina, um homem abraçado a uma “odalisca” (logo descobriremos tratar-se de acompanhante transexual), o roteiro de Amenábar parece interessado em retratar as experiências que fertilizarão o imaginário do futuro escritor. Veremos, inclusive, um homem muito magro montado num alazão branco, tendo ao lado um ajudante gordo e baixinho, enganchado em montaria parecida com um reles burrico. Protótipos, claro, do cavaleiro da triste figura, Dom Quixote de la Mancha, e seu escudeiro Sancho Pança. Depois, veremos no filme uma misteriosa barbearia, fachada de casa de libidinosos encontros. Aí, sim, teremos todos as pistas de que, sim, estamos diante de um drama histórico queer.

A trajetória de Amenábar no cinema soma sucessos imensos (como “O Outro”, “Mar Adentro”), surpresas (como “Tesis”) e dois dramas históricos bem-recebidos pelo público (o belo “Enquanto Durar a Guerra” e, agora, “El Cautivo”). E fracassos (como “Regressão” e “Alexandria”).

Um dos principais críticos da Espanha, Carlos Boyero (tema do filme “O Crítico”, disponível na HBO Max), não se entusiasmou com o novo filme de Amenábar. Para os espanhóis, que desde o ensino básico convivem com o Cavaleiro da Triste Figura, “Dom Quixote de la Mancha” é um livro fundador, formador. Para Boyero, “um tratado de humor, sabedoria, lucidez e alucinação”. Mas nada o atraiu na trama engendrada pelo badalado realizador nascido (por acaso) no Chile. Só o intérprete do Padre Antonio de Sosa, o veterano Miguel Rellán, o entusiamou. O resto lhe pareceu “artificioso e inútil”.

“El Cautivo” não deve colocar número significativo de novos troféus Goya nas estantes do mega-apartamento de Amenábar, situado denfronte ao Palácio Real, em Madri. A edição desse ano está com os sentidos tomados por “Los Domingos”, de Alauda Ruiz de Azúa (13 indicações), “Sirât”, de Oliver Laxe (11), e do homoafetivo “Maspalomas”, de José Mari Goenaga e Aitor Arregi (9). Este, aliás, ofuscou “O Cativo” Cervantes. Mas, para aqueles que quiserem conhecer o período mais obscuro da tumultuada existência do jovem Miguel de Cervantes, décadas antes dele tornar-se o grande nome da literatura em língua espanhola, “El Cautivo” há de ter seus méritos. Lembremos que o criador do fidalgo (depois cavaleiro andante) Dom Quixote abriu caminhos para a literatura anti-ilusionista de Fielding, Sterne, Machado de Assis e para o teatro de Brecht (vide “O Espetáculo Interrompido – Literatura e Cinema de Desmistificação”, de Robert Stam, Ed. Paz e Terra, 1981).

Amenábar fez questão de respeitar o idioma cervantino, o espanhol, que este ajudou a transformar no instrumento de comunicação do império cristão de Castela. E o colocou em diálogo com o árabe, a língua falada em Argel. E, à moda anti-ilusionista de seu ilustre conterrâneo, também fez um de seus personagens-cativos perguntar ao fabulador (alegria do cárcere com suas histórias lidas ou inventadas), como certo personagem se expressara em espanhol se era alheio ao idioma. Há pequenos detalhes, como este, no filme amenabariano, que podem encantar os admiradores de Miguel de Cervantes Saavedra. Basta assistir ao longa espanhol na Netflix.

O Cativo | El Cautivo
Espanha, Itália, 2025, 134 minutos
Direção, roteiro e trilha sonora: Alejandro Amenábar
Elenco: Julio Penã (Miguel de Cervantes), Alessandro Borghi (Paxá Hassan), Miguel Rellán (Padre Antonio de Sosa), Fernando Tejero (Padre Blanco de Paz), Luna Berroa (Zoraida), César Sarachu (Frei Juan Gil), Luis Callejo (Dorador), José Manuel Poga (Diego Castñeda), Roberto Álamo (Abderramão, o barbeiro), Julien Paschal (prisioneiro André)
Fotografia: Álex Catalán
Locações: nas províncias de Alicante (Castelo e Fortaleza de Santa Pola), Andaluzia (Real Alcázar de Sevilha) e Valência (Palácio dos Condes de Cervellón).
Orçamento: 14 milhões de euros
Onde assistir: na Netflix

INDICAÇÕES DE “O CATIVO” AO GOYA:
A quadragésima edição do Oscar espanhol, acontecerá em Barcelona, dia 28 de fevereiro próximo

. Melhor ator coadjuvante (Miguel Rellán)
. Ator revelação (Julio Peña)
. Direção de produção (Sergio Díaz Bermejo)
. Direção de arte (Juan Pedro de Gaspar)
. Figurinos (Nicoletta Taranta)
. Maquiagem e cabelos (Ana López-Puigcerver, Belén López-Puigcerver e Nacho Díaz)
. Melhor som (Aitor Berenguer, Gabriel Gutiérrez e Candela Palencia)

FILMOGRAFIA

Alejandro Amenábar nasceu em Santiago do Chile em 31/03/1972, e mudou-se, com a família, para a Espanha, na primeira infância. Estudou na Faculdade de Ciências da Informação, na Universidade Complutense, de Madri.

2025 – “O Cativo” (com Julio Peña, Miguel Rellán, Alessandro Borghi)
2021 – “La Fortuna” (série de TV)
2019 – “Enquanto Durar a Guerra” (com Karra Elejade e Eduard Fernández)
2009 – “Alexandria” (Ágora – Hipátia de Alexandria”, com Rachel Weiz e Oscar Isaac)
2015 – “Regressão” (com Ethan Hawke e Emma Watson)
2004 – “Mar Adentro” (com Javier Bardem, Oscar internacional)
2001 – “Os Outros” (com Nicole Kidman)
1997 – “Preso na Escuridão” (“Abre los Ojos”, com Penélope Cruz)
1996 – “Morte ao Vivo” (“Tesis”, com Ana Torrent)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.