Bafta consagra “Uma Batalha Após a Outra”, a atriz Jessie Buckle e o ator Robert Aramayo, símbolos da mais fina prata-da-casa
Foto: “Uma Batalha Após a Outra”, de Paul Thomas Anderson
Por Maria do Rosário Caetano
O Brasil nunca havia participado com tantos representantes de uma edição do Bafta, o “Oscar britânico”. Foram necessários 79 anos para que isso acontecesse.
O cinema brasileiro recebeu três indicações diretas (melhor filme em língua não-inglesa e roteiro original para “O Agente Secreto”) e melhor documentário (“Apocalipse nos Trópicos”, de Petra Costa). E uma indicação indireta (para o fotógrafo, e corintiano, Adolpho Veloso, autor das imagens de “Sonhos de Trem”, produção norte-americana).
Nenhum deles foi premiado. O que se torna preocupante para as candidaturas de “O Agente Secreto” e para Veloso, pois não há prêmio mais parecido com o Oscar hollywoodiano que o Bafta. São irmãos siameses.
EUA e Reino Unido, países anglo-saxões, o primeiro ex-colônia do segundo, trabalham juntos em muitas produções, intercambiam atores, técnicos e histórias. Fora o prêmio de melhor protagonista, que coube ao notável Robert Aramayo (também eleito pelo público como “talento emergente”), as coincidências são gritantes. Jessie Bucckley, que interpreta a esposa de William Shakespeare em “Hamnet – A Vida Antes de Hamlet”, já pode preparar novo traje gala para subir ao podium na cerimônia do Oscar.
O mesmo não poderá acontecer com Aramayo, de 33 anos, porque ele nem foi indicado a melhor ator pela Academia de Hollywood. Na verdade, protagonizou um filme independente escocês, que causou sensação localizada na Grã-Bretanha. E arrasou por lá.
O Bafta de melhor protagonista não foi parar nas mãos de Aramayo por brodagem dos súditos do Rei Charles III. O ator enfrentou pesos-pesados como Leonardo DiCaprio (“Uma Batalha Atrás da Outra”), Timothée Chalamet (“Marty Supreme”), Ethan Hawke (“Blue Moon”), Michael B. Jordan (“Pecadores”) e Jesse Plemons (“Bugônia”). E a todos derrotou.
Robert Aramayo, ainda considerado um “rising star”, passou por elencos de “O Senhor dos Anéis” e “Game of Thrones”. Ao receber a convocação para recriar personagem real, um portador de Síndrome de Tourette chamado John Davidson, foi tomado de paixão, fúria e “boca suja”. E brilhou.
A Síndrome de Tourette é um transtorno neuropsiquiátrico marcado por múltiplos tiques nervosos e pela incontinência verbal (ou coprolalia). O portador profere palavras e expressões de baixo calão, socialmente inadequadas nos mais diversos ambientes. Tipo “Vá se foder!”, “vadia”, “vagabunda” e assemlhados. E, sem filtro, diz na cara do interlocutor (no filme de interlocutora que busca ajudá-lo): “você vai morrer de câncer!”.
John Davidson contou, na vida real, com a ajuda de dois bons samaritanos – a mulher, uma enfermeira, que “ia morrer de câncer!” e o personagem interpretado por Peter Mullin (“Meu Nome é Joe”), que o empregou e defendeu, nas barras dos tribunais, quando ele foi encarcerado e submetido a julgamento. Foi acusado de obscenidade e troca de socos na rua.
A luta do cidadão escocês em defesa de outros portadores da Síndrome de Tourette o levaria a ser condecorado pela Rainha Elizabeth II. O que não o impediu de, no palácio real, dizer “vai se foder!” até para a monarca. Mas aí o Reino Unido já conhecia esta compulsão e sabia que John Davidson não o fazia por malícia, nem safadeza.

“Eu Juro” brilhou também nas categorias direção de casting e “rising star” (talento em ascensão). Três reconhecimentos na cerimônia do Bafta. Um a mais que o melhor filme britânico (categoria em que “I Swear” era um dos dez finalistas). O vencedor foi “Hamnet – A Vida Antes de Hamlet”, da sino-americana Chloé Zhao, também laureado na categoria melhor atriz protagonista (Jessie Buckley). Mas este longa-metragem, produzido por Steven Spielberg e parceiros britânicos, não foi muito longe. Acabou ofuscado pelo furor causado por “Uma Batalha Após a Outra”, de Paul Thomas Anderson (melhor filme, direção, ator coadjuvante para o impagável Sean Penn, roteiro adaptado, fotografia e montagem).
Outro filme britânico, que recebeu muitas indicações, foi “Bugônia”. Não levou nada. Sinal de que a onda Yorgos Lanthimos está passando. Os excessos do realizador grego, que escolheu o Reino Unido como pátria adotiva e Emily Stone como musa, já não estão causando sensação nos festivais e outras festas badaladas. Filme também muito do doidão, individualista e desmedido – “Marty Supreme”, de Josh Safdie – passou batido. Não converteu nenhuma de suas onze indicações.
O Bafta já foi acusado de ignorar artistas afros. Dessa vez, reconheceu o talento de Ryan Coogler (autor do melhor roteiro adaptado) e da atriz Wunmi Mosaku, britânica de origem nigeriana (ambos por “Pecadores”). O terceiro prêmio do ousado filme black estadunidense coube ao músico nórdico Ludwig Goransson.
Vieram da Nigéria, também, os pais de Akinola Davies Jr, diretor de “A Sombra do meu Pai” (My Father’s Shadow”). Akinola e Wale Davies foram reconhecidos com o Bafta de melhor estreia em filme britânico (a categoria pode escolher um produtor, diretor ou roteirista). Os cinéfilos puderam assistir, na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, a essa estreia de Davies Jr. na direção.
O filme, uma ficção de base documental temperada com ingredientes fantásticos, causou ótima impressão entre o público, foi bem votado, fez jus ao Prêmio da Crítica Brasileira e ganhou sessão-repescagem (da Mostra), num CineSesc lotado.
O norueguês “Valor Sentimental”, belo, profundo e bergmaniano filme de Joachim Trier, foi eleito pelo Bafta a melhor produção em língua não-inglesa. Mas não converteu nenhuma das outras sete categorias a que concorreu. É difícil, muito difícil, romper as barreiras impostas pelo cinema anglo-saxão.
A centralidade dos EUA e Reino Unido na premiação se fez sentir, também, na categoria animação e filme infantil e familiar: a Bélgica, com “A Pequena Amélie”, de Mailys Vallade e Liane-Cho Han, e a França, com “Arco”, de Ugo Bienvenu, chegaram a figurar na lista de finalistas. Mas foram atropeladas. O primeiro por “Zootopia 2”, blockbuster norte-americano. O segundo por “Boom”, mas aí, pelo menos, trata-se de filme indiano, dirigido por Kaizad Gustad. E a Índia, há que se lembrar, é o maior produtor de cinema do mundo. Até a Academia de Hollywood acabou seduzida pelo poder de invenção do fascinante “RRR – Revolta, Rebelião, Revolução”, detentor do Oscar de melhor canção, poucos anos atrás. Mas, registre-se, subestimou as qualidades dos três RRRs. Ele merecia outras estatuetas.
No terreno dos chamados prêmios técnicos, os laureados foram “Frankenstein”, de Guillermo del Toro (melhor design de produção, figurino, cabelo e maquiagem), “F1 – O Filme”, de Joseph Kosinski (melhor som) e “Avatar: Fogo e Cinzas”, de James Cameron (efeitos especiais).
Nessa semana, dois filmes brasileiros estarão em disputas internacionais – “O Agente Secreto” concorre na categoria melhor filme internacional no César, o “Oscar francês” (nessa quinta-feira, 26 de fevereiro), e “Manas”, de Marianna Brennand, disputa a categoria melhor filme ibero-americano nos Prêmios Goya, o “Oscar espanhol” (no sábado, 28).
No dia 15 de março, o vibrante e disruptivo thriller do pernambucano Kleber Mendonça Filho disputará o Oscar em quatro categorias – melhor filme, melhor ator, melhor filme internacional e melhor casting (direção de elenco). A sorte está lançada.
Confira os vencedores:
. “Uma Batalha Após a Outra”, de Paul Thomas Anderson (EUA) – melhor filme, direção, ator coadjuvante (Sean Penn), roteiro adaptado (Paul Thomas Anderson), fotografia (Michael Bauman), montagem
. “Hamnet – A Vida Antes de Hamlet”, de Chloé Zhao (Reino Unido-EUA) – melhor atriz (Jessie Bückler), melhor filme britânico
. “Eu Juro” (“I Swear”), de Kirk Jones (Reino Unido) – melhor ator (Robert Aramayo), melhor direção de casting (Lauren Evans), Prêmio Rising Star (talento em ascensão, pelo Júri Popular) para Robert Aramayo
. “Pecadores”, de Ray Coogler (EUA) – melhor roteiro original (Ryan Coogler), atriz coadjuvante (Wunmi Mosaku), trilha sonora (Ludwig Goransson)
. “Valor Sentimental”, de Joachim Trier (Noruega) – melhor filme em língua não-inglesa
. “Frankenstein”, de Guillermo del Toro (EUA) – melhor design de produção, figurino, cabelo e maquiagem
. “A Sombra do meu Pai” (My Father’s Shadow”), de Akinola Davies Jr – melhor estreia em filme britânico para os roteiristas Akinola Davies Jr. e Wale Davies
. “Boong”, de Kaizad Gustad (Índia): melhor filme infantil e familiar
. “Zootopia 2”, de Jared Bush é Byron Howard – melhor longa de animação
. “Mr. Nobody Against Putin”, de David Borenstein e Pasha Talankin (República Tcheca) – melhor documentário
. “F1 – O Filme”, de Joseph Kosinski – melhor som
. “Avatar: Fogo e Cinzas”, de James Cameron (efeitos especiais)
. “Isto É Endometriose” – melhor curta britânico
. “Two Black Boys in Paradise” (Dois Garotos Negros no Paraíso) – melhor curta de animação britânico
