Cinemateca estabelece diálogo entre obra de Leon Hirszman e cinema social de Park Kwang-su, fonte da New Wave coreana
Foto: “Chilsu e Mansu”, de Park Kwang-su
Por Maria do Rosário Caetano
O prestígio do cinema da Coreia do Sul só faz crescer desde o reconhecimento internacional de “Parasita”, único filme falado em língua estrangeira a conquistar o Oscar principal. O francês “O Artista”, de Michel Hazanavicius, também recebeu sua cobiçada estatueta, mas trata-se de filme mudo (ou silencioso, como se diz hoje em dia) e de uma ode ao próprio cinema dos EUA. “Parasita” tem DNA 100% coreano.
Nomes como o de Bong Joon-ho, o laureado pelo Oscar 2020, somam-se a Park Chan-wook (em cartaz com “Sem Saída”), Hong Sang-soo, Kim Ki-duk (1960-2020) e Lee Chang-dong para compor o time de artífices dessa era de ouro (reconhecida no Ocidente) do cinema sul-coreano.
A partir dessa quinta-feira, 19 de fevereiro (até 1º de março), a Cinemateca Brasileira nos revelará um novo nome do cinema sul-coreano – o de Park Kwang-su, de 71 anos. Trata-se do criador do longa-metragem “Chilsu e Mansu” (1988), que serviu de marco inaugural à Korean New Wave (ou Nouvelle Vague, se tomarmos a origem francesa desse fértil movimento cinematográfico). Um desbravador com raízes fincadas na renovação do cinema do país asiático de 56 milhões de habitantes, décima-terceira economia do mundo, reconhecida como potência tecnológica.
Obras do realizador sul-coreano estarão, dentro da mostra da Cinemateca, postos em diálogo com realizações do brasileiro Leon Hirszman (1937-1987). O título diz muito do projeto dos dois diretores – O Realismo Crítico de Leon Hirszman e Park Kwang-su. Durante duas semanas, serão exibidos cinco longas-metragens e dois curtas do convidado. E cinco longas e uma dezena de curtas do brasileiro. Há que se registrar que os dois não se conheceram. Hirszman morreu, aos 49 anos, justo no momento em que Kwang-su renovava o cinema coreano com “Chilsu e Mansu”.
Se tivessem se conhecido, teriam pelo menos dois assuntos em comum para alimentar suas conversas: a paixão por temas ligados ao mundo do trabalho (com abordagem fundamentada na luta de classes) e o enfrentamento de governos ditatoriais. Como ambos viveram sob regimes autoritários, tiveram que lutar – com seus filmes – pelas liberdades de expressão do pensamento e da criação artística.
Hirszman, do núcleo básico do Cinema Novo e simpatizante comunista, lutou contra o cerceamento das liberdades civis imposto pela ditadura militar brasileira (1964-1984). Kwang-su, que cresceu sob a ditadura, também militar, instaurada em seu país em 1961, foi universitário e cineclubista em tempos de muita perseguição política. O regime autoritário-fardado da Coreia do Sul duraria seis anos a mais que o brasileiro, já que o primeiro presidente civil coreano só seria eleito em 1987.
A parceria entre a Cinemateca Brasileira, o Centro Cultural Coreano no Brasil e o Korean Film Archive é das mais alvissareiras. Afinal, o público brasileiro poderá assistir a cinco dos mais importantes longas-metragens de um cineasta pouco conhecido entre nós. Os sete filmes por ele assinados serão apresentados em sessões gratuitas, com legendas em português e cópias de boa qualidade técnica (estão em estado respeitável até os filmes que ele realizou em Super-8, já que foram restaurados pelo KFA).
O mais interessante dessa mostra é constatar que a democracia sul-coreana permite (patrocina!) a difusão, fora de suas fronteiras, da obra de cineasta claramente de esquerda. Como ressaltam os curadores de O Realismo Crítico de Leon Hirszman e Park Kwang-su – respaldados por Cheul Hong Kim, diretor do Centro Cultural Coreano no Brasil – o projeto fundamenta-se na crença de que “o cinema é uma ponte poderosa entre culturas”. Daí que, “apoiar mostra como esta é uma forma de aprofundar o diálogo entre Brasil e Coreia do Sul, mostrando como diferentes sociedades enfrentaram desafios semelhantes e como o cinema foi (e continua sendo) um instrumento fundamental de reflexão, memória e transformação social”.
Leon Hirszman participa da programação com os longas-metragens “A Falecida” (1965), “Garota de Ipanema” (1967), “São Bernardo” (1972), “Eles Não Usam Black-Tie” (1981) e “ABC da Greve” (1979-1990). Estes dois últimos têm tudo a ver com alguns dos filmes de Kuang-su (em especial “O Extraordinário Jovem Jeon Tae-il” e “Eles Também São Como Nós”). Na criação desses filmes, os dois diretores estavam em fina sintonia com a luta pela organização da classe trabalhadora de seus respectivos países. Hirszman com os metalúrgicos do ABC Paulista. E o sul-coreano com a operários têxteis (em “Extraordinário Jovem Jeon Tae-il”) e com os trabalhadores de minas de carvão (em “Eles Também São Como Nós”).

Em seu longa-metragem mais famoso e seminal (“Chilsu e Mansu”), o realizador mostra a festejada habilidade do cinema coreano para hibridizar gêneros. Quando o filme começa, somos induzidos a acreditar que assistiremos a uma comédia romântica protagonizada por rapaz pobre, cheio de lábia e vestido como um garotão norte-americano. O filme, porém, tomará caminhos inesperados e nos conduzirá a uma segunda parte eletrizante e muito crítica. Cinema social de alta potência política, criativo e mobilizador.
“A Falecida”, que Hirszman recriou de peça homônima de Nelson Rodrigues, poderá parecer deslocado numa mostra voltada ao mundo do trabalho. Mas, se levarmos em conta a opinião do próprio dramaturgo sobre a recriação cinematográfica de sua obra, o encaixe se fará notar. Para Nelson, Hirszman teria retirado de “A Falecida” a carga de humor nela contida e realizado “um tratado marxista” sobre a alienação. “Garota de Ipanema”, concebido para enaltecer a Bossa Nova e sua musa (e conquistar o público), também resultaria em filme crítico aos valores burgueses.
Já “São Bernardo”, para muitos a obra-prima de Hirszman, afasta-se dos conflitos sociais e emocionais do Brasil urbano para voltar-se – a partir do romance de Graciliano Ramos – ao registro das estruturas agrárias que sedimentam o poder de fazendeiros sobre a terra. E sobre pessoas, já que Paulo Honório, interpretado por Othon Bastos, se julga o dono de seus empregados e de sua esposa Madalena (Isabel Ribeiro).
A presença de Leon Hirszman na mostra brasileira e sul-coreana será enriquecida com programa dedicado a seus curtas abarcados pela série “Cantos de Trabalho”. E, também, às suas incursões em momentos luminosos de nossa música popular (incluindo o imperdível “Nelson Cavaquinho”). Recomenda-se, ainda, “Pedreira de São Diogo” (parte do longa “Cinco Vezes Favela”, produção do CPC-UNE, de 1962) e o impressionante (passados mais de 60 anos) “Maioria Absoluta”, mergulho do diretor carioca no sertão nordestino.
Hirszman queria entender aspectos da pobreza, do subdesenvolvimento, como se dizia na época. E as consequências do analfabetismo entre lavradores desassistidos. Arnaldo Jabor (1940-2022) foi seu assistente de direção e escreveu uma de suas mais belas crônicas (na Folha de S. Paulo) sobre o que viveu, em seus anos de formação como cineasta, ao lado de Leon Hirzman naquele ano de 1964. Filmagens que ele jamais esqueceria.
A Revista de CINEMA assistiu a um curta (“Eles São como Nós”, 18 minutos, 1982), um média-metragem (“A Ilha”, 30 minutos, 1981) e a quatro dos longas-metragens de Park Kwang-su: o seminal “Chilsu e Mansu” (1988), fonte fertilizadora da New Wave coreana; “Eles Também São Como Nós” (1990), ambientado em cidade mineradora marcada pela repressão política; “Quero Ir Àquela Ilha”, em programa duplo com “A Ilha”, e “O Extraordinário Jovem Jeon Tae-il” (1995), baseado em história de personagem real, que transformar-se-ia em símbolo da luta por direitos trabalhistas na Coreia do Sul.
A presença de dois filmes de curta e média duração, realizados nos tempos em que Kwang-su estudava na Universidade Nacional de Seul, mostra-se relevante, pois nos coloca em contato com seu período de formação cinematográfica. “A Ilha” e “Eles São Como Nós” foram filmados em bitola amadora (Super 8) por Kwang-su e outros jovens universitários, integrantes do grupo Yalasheng Research Society.
O que os cinéfilos verão nessa mostra Hirszman-Kwang-su revela as inquietações de um grupo disposto a correr riscos, ao experimentar novas formas narrativas. Todas protagonizadas por jovens. O primeiro título (“A Ilha”) recorre à metalinguagem ao construir um filme dentro do filme. O segundo mostra o jovem Seung-won, que perambula pelas ruas, onde realiza pequenos furtos e o faz na companhia de dois amigos.
Um dia, ele acabará encontrando, em suas andanças, um colega dos tempos de ensino fundamental, agora estudante universitário. Seung-won não ouvirá os conselhos deste antigo colega, que deseja tirá-lo da marginalidade. Prefere armar uma cilada tanto para o universitário, quanto para seus parceiros de furtos.
CHILSU E MANSU
1988, 100 minutos
Este é o marco divisor da New Wave coreana. Seu protagonista, o jovem Chilsu, é pintor de cartazes de um cinema popular, muito do falastrão, metido a bacana e disposto a tudo para conquistar uma jovem (e bela) garota. Ela estuda inglês e espera desfrutar de confortável vida burguesa. Ambos vivem num país que se espelha, avidamente, nos EUA, o maior aliado da Coreia do Sul (depois da Guerra Civil de 1951-1953, que dividiu o país em dois).
Nunca é demais lembrar (e a Guerra do Vietnã será evocada em “O Extraordinário Jovem Jeon Tae-il”) que a Coreia do Sul foi o segundo país que mais enviou tropas ao conflito vietnamita (os EUA foram o primeiro). Ao perder o emprego de cartazista, Chilsu terá que se virar. Acabará fazendo amizade com Mansu, pintor de outdoor, rapaz inteligente, talentoso, mas muito sofrido. Ele não consegue progredir na vida, pois há uma mancha em sua trajetória. Seu pai, simpatizante comunista, encontra-se encarcerado há muitos anos. Mãe e irmã de Mansu esperam convencer o prisioneiro, prestes a completar 60 anos, a dobrar-se às exigências do governo ditatorial para passar ao menos a data natalícia em casa. Mas esse conflito político será apenas o pano de fundo da trama, que se compõe, primeiro, como uma história de amor juvenil. E de amizade. Mas que acabará se transformando em drama social (e político) dos mais eletrizantes. Um thriller que fará suar as mãos de todos os espectadores. Kwang-su dirigirá as sequências derradeiras transformando-as em poderosa vitrine de possibilidades narrativas que seriam abraçadas pelos seguidores da Korean New Wave.
ELES TAMBÉM SÃO COMO NÓS
“Black Republic”, 1990, 100 minutos
Dois anos depois do estouro com “Chilsu e Mansu”, Park Kwang-Su mergulhou ainda mais fundo na vida de trabalhadores braçais. Dessa vez, empregados em minas de carvão, as “repúblicas negras” do título em inglês. Um trabalhador diferenciado chega a uma mina produtora de briquetes (valorizada fonte energética, mistura de restos de madeira com carvão vegetal). Ele diz chamar-se Kim Giyeong (seu intérprete é o ótimo Moom Sung-hoom). A primeira busca de trabalho resultará negativa, pois o recém-chegado não tem documento de identidade. A segunda, casual, o empregará numa mina disposta a contratar (explorar) qualquer tipo de operário. Documentado ou indocumentado. Kim se dedicará com afinco à dura labuta e terá à disposição, sob módico pagamento, moças (garotas de programa) do Clube-Café que serve ao local. Mas o interesse do (diferenciado) trabalhador parece ser outro. E saberemos porque: ele é procurado pela polícia, devido à sua militância política. Saberemos, também, que ele vive momento de intenso questionamento das ações de seu grupo. Mas, de forma surpreendente, será um desentendimento de Kim com o problemático filho do dono da fábrica, o jovem Lee (um “selvagem da motocicleta” à moda coreana, interpretado por Park Joong-hoom, o “Cursi”) que mudará os rumos do filme.
QUERO IR ÀQUELA ILHA
1992, 102 minutos)
Depois de dois filmes de alta potência social e política, Park Kwang-su mergulha em narrativa com algumas doses de comédia, ambientada na ilha de Kwisong. Nela vivem pessoas simples, com seus dramas costumeiros (um velho que quer consumar casamento com uma mocinha bem mais jovem, um marido que agride a mulher). A este local chegará uma balsa. Nela está Moon Chae-gu, que tenta enterrar o corpo do pai, que expressara em vida o desejo de ser sepultado em seu chão de origem. A embarcação, porém, será interceptada pelos ilhéus. Eles se recusam a permitir o desembarque, pois guardam imensas mágoas do morto. Nos anos 1950, ele teria atuado como informante da Polícia, denunciando simpatizantes comunistas.
Vale lembrar que, dia 26, serão exibidos filmes em super-8 de Kwang-Su, devidamente restaurados pelo Korean Film Archive. Entre eles, “A Ilha”, de 30 minutos. Trata-se de um filme dentro do filme, no qual é encenado o conflito entre um pai e dois filhos. O mais velho, Hong-jun, tenta compreender a figura paterna, marcada por erro do passado, e dela se reaproximar. Já o caçula Man-ho, vaga sem rumo, incapaz de aceitar ou entender suas próprias ações. Aos poucos, Hong-ju perceberá que a história que está filmando espelha de forma inquietante a realidade vivida por seu irmão mais novo.
O EXTRAORDINÁRIO JOVEM JEON TAE-IL
1995, 92 minutos
Este, sem dúvida, é o filme que mais tem a ver com as intenções comuns ao cinema de Hirszman e Kwang-su. A principal delas é a que valoriza a presença de trabalhadores em busca do direito à sindicalização e a uma vida melhor. Jeon Tae-il é um garoto pobre, que faz bico como camelô, vendendo guarda-chuva. Ele deixará o comércio ambulante para trabalhar numa precária fábrica de roupas. As condições de trabalho são terríveis e os direitos dos trabalhadores desrespeitados. O jovem resolve comprar livro dedicado à Justiça Trabalhista e passa a estudá-lo com afinco. Procura apoio de autoridades do setor, forma associação de sua categoria profissional e, com seu grupo, chega a dar entrevista a um jornal. Eles, aliás, tudo farão para espalhar a publicação entre a gente pobre que vive nas proximidades da fábrica.
O filme é narrado em dois momentos históricos: em 1965, com imagens em preto-e-branco e retrato cruel das condições dos trabalhadores. Uma jovem operária contrairá tuberculose nas longas jornadas (de média de 14 horas) da fábrica de confecções, que funciona em área inadequada e insalubre. Em cores veremos um pesquisador buscando a história de Jeon Tae-il, o obstinado jovem que encabeça a luta por direitos trabalhistas. Num dos mais belos momentos do filme, veremos os rapazes desfrutando de um dia de verão. E se lançando à água, nus (têm que preservar as roupas enxutas). A ousadia motivará as poucas moças que os acompanham a dar as costas e fugir, enrubescidas, em direção oposta. O filme se compõe assim, com cenas cotidianas e de conteúdo político-sindical, mas sem nenhum panfletarismo ou didatismo. O personagem Jeon Tae-il teve existência real e motivou Park Kuang-su a contar sua história. Que terá final dos mais surpreendentes.
REBELIÃO
1999, 100 minutos
Filme de época, que se passa no alvorecer do Século XX (1901). Para arcar com indenizações de guerra, o governo de Seul, capital do Reino da Coreia, impõe altos impostos a seus súditos. Em Jeju, ilha vulcânica e pobre, situada no extremo sul do Reino, aflora o descontentamento da população. A situação se agrava com o apoio da comunidade católica local aos cobradores de impostos. Frente a tal realidade (e parceria), um grupo de estudos confucionistas decide organizar um exército rebelde para confrontar as injustiças importas pelo Governo Real.
O Realismo Crítico de Leon Hirszman e Park Kwang-su
Data: de 21 de fevereiro a 1º de março
Local: Sala Grande Otelo (210 lugares) da Cinemateca Brasileira (Largo Senador Raul Cardoso, 207 – Vila Mariana, São Paulo)
Entrada: gratuita (retirada de ingresso na bilheteria, uma hora antes do início da sessão)
PROGRAMAÇÃO
Quinta-feira, dia 19:
20h – “Pedreira de São Diogo”, de Leon Hirszman (curta), e “O Extraordinário Jovem Jeon Tae-il”, de Park Kwang-su
Sexta-feira, dia 20:
17h30 – “Eles Também São Como Nós”, de Park Kwang-su
20h – “Maioria Absoluta” (curta) e “Eles Não Usam Black Tie”, de Leon Hirszman
Sábado, dia 21:
20h – “Chilsu e Mansu”, de Park Kwang-su
Domingo, dia 22:
15h – “Quero Ir Àquela Ilha”, de Park Kwang-su
17h30 – “A Falecida”, de Leon Hirszman
Quarta-feira, dia 25:
20h – “Quero Ir Àquela Ilha”, de Park Kwang-su
Quinta-feira, dia 26:
16h – Sessão Curtas em 8 mm de Park Kwang-su – “Eles Também São Como Nós” e “A Ilha”
17h30 – “Chilsou e Mansu”, de Park Kwang-su
20h – “Garota de Ipanema”, de Leon Hirszman
Sexta-feira, dia 27:
15h – “A Rebelião”, de Park Kwang-su
17h30 – “Pedreira de São Diogo” e “ABC da Greve”, de Leon Hirszman
Sábado, dia 28:
15h – “O Extraordinário Jovem Jeon Tae-il”, de Park Kwang-su (“A Single Spark”), de Park Kwang-su
17h30 – Sessão “A Música Popular por Leon Hirszman”: “Cantos de Trabalho: Mutirão” (1975), “Cantos de Trabalho: Cacau (1976), “Cantos de Trabalho: Cana-de-Açúcar (1976), “Nelson Cavaquinho” (1969), Partido Alto (1976–1982)
20h – “A Rebelião”, de Park Kwang-su
Domingo, 01 de março:
15h – “Eles Também São Como Nós”, de Park Kwang-su
17h30 – “São Bernardo”, de Leon Hirszman
