Júri e público de Tiradentes consagram “Anistia 79”, de Anita Leandro, resgate de registro amador da luta de banidos e exilados pelo regresso ao país natal

Fotos: premiados da 29ª edição da Mostra de Tiradentes © Leo Lara/Universo Produção

Por Maria do Rosário Caetano

O longa documental “Anistia 79”, da cineasta Anita Leandro, foi o grande vencedor da competição “Olhos Livres” da vigésima-nona edição da Mostra de Cinema de Tiradentes. O filme recebeu o Troféu Barroco do júri oficial (Prêmio Carlos Reichenbach) e do júri popular.

A dupla premiação reveste-se de algumas singularidades. Duas delas se impõem: a ênfase em tema político (a luta de banidos e exilados da ditadura militar-civil-empresarial brasileira por “anistia ampla, geral e irrestrita”), quando a tônica do festival mineiro fundamenta-se no cinema experimental, e os cabelos já grisalhos da bem-vivida documentarista e professora da UFRJ Anita Leandro (a Mostra Tiradentes cultiva seu “DNA jovem”).

Os integrantes do júri oficial destacaram, em “Anistia 79”, a apropriação criativa de registro amador que “multiplica no filme as possibilidades de cada fotograma”. Enfatizou a presença reveladora de “dois homens negros, um líder camponês e o cinegrafista”, e de “imagens pouco acessadas pelo imaginário coletivo sobre aqueles que lutaram pelo fim da ditadura civil-militar”. E, por fim, a afirmação do cinema como “construção da memória”.

O destaque de presenças afro-brasileiras nos registros da Conferência Internacional pela Anistia e pelas Liberdades Democráticas no Brasil refere-se ao diretor Hamilton Lopes dos Santos, carioca radicado em Paris, conhecido nos tempos de militância estudantil como “pantera negra”, e a Manoel da Conceição, do Sindicato de Trabalhadores Rurais do Maranhão.

Em junho de 1979, Hamilton, sem experiência como documentarista, comandou equipe minúscula e registrou a participação de militantes conhecidos como Apolônio de Carvalho, Gregório Bezerra, Diógenes Arruda, o Arrudão, Helena Greco, Francisco Julião, Jean Marc van der Weid, Marcito e Branca Moreira Alves, Modesto da Silveira e Luis Travassos (este fez parte do pequeno exército de Brancaleone cinematográfico como “entrevistador”).

A Revista de CINEMA assistiu ao filme de Anita Leandro, pelo Vimeo, um dia depois de sua exibição na competição de Tiradentes. Não viu os demais concorrentes da mostra Olhos Livres. Por isso, as considerações feitas nesse registro jornalístico não são comparativas.

Anita Leandro, diretora de “Anistia 79” © Leo Lara/Universo Produção

Uma primeira pergunta se impõe quando iniciamos nosso contato com “Anistia 79”: que novas ousadias Anita Leandro teria adotado, ao retrabalhar materiais de arquivo, depois da originalíssima e poderosa experiência com seu longa de estreia, “Retratos de Identificação” (2014)?

Para estruturar seu filme de doze anos atrás, premiado no Cachoeira DOC e em Trieste-Itália, Anita buscou, nos arquivos da Polícia Política, vestígios da trajetória de Dôra (Maria Auxiliadora Lara Barcelos) e de três de seus companheiros de militância política e-ou afetiva (Antônio Roberto Espinosa, comandante da VPR-Vanguarda Popular Revolucionária, Chael Charles Schreider, assassinado sob tortura em dependência militar, e Reinaldo Guarany, que vivia como exilado político, ao lado da companheira Dôra, na Alemanha, quando ela suicidou-se, jogando-se nos trilhos de um trem).

Chael, nascido e criado no seio de uma família judaica, morreu em 1969, aos vinte e pouquinhos anos. Sua presença no filme se materializa por fotos (inclusive de seu corpo ensanguentado) e prontuários da Polícia Política.

Dôra, que abreviara seus tormentos psíquicos no exílio alemão, reaparece em suas participações em dois documentários realizados no Chile. Um dirigido por Luiz Alberto Sanz e Haskel Wexler (cineasta e fotógrafo de “Cinzas no Paraíso”, de Terence Malick, em parceria com Nestor Almendros). O outro, dirigido por Saul Landau e Pedro Chaskel.

Sobreviventes, Espinosa e Guarany dariam a “Retratos de Identificação”, dois dos mais impressionantes depoimentos da história do cinema político brasileiro.

Anita Leandro apresenta aos dois militantes fotos e textos de prontuários da repressão. Ao vê-los (ou lê-los), eles relembram experiências do tempo da guerrilha urbana e do exílio. O que a cineasta e montadora, agora premiada em Tiradentes, faz com o material retirado dos porões (e oriundo dos depoimentos dos ex-guerrilheiros) resulta espantoso.

Do pouco (muito pouco), ela retira muito (muito mesmo). Ao longo de 72 minutos, somos surpreendidos pela inquietação da documentarista, que quer estimular nosso olhar (e nossa audição) com novos procedimentos de linguagem. O uso da fotografia é espantoso. Uma reflexão sobre a essência da imagem. Apaixonada por fotos fixas, ou em movimento, guardadas em depósitos frios, Anita Leandro as reimprime na tela, em positivo (e, às vezes, em negativo), criando camadas de leitura devastadoras e reflexivas.

Como ela procederia — continuamos a nos inquietar — frente à sua nova matriz (o documentário de Hamilton Lopes dos Santos, um cineasta amador, que com equipe mínima fora a Roma, capital italiana, registrar o encontro de banidos e exilados políticos brasileiros?).

“Anistia 79” não traz a inventividade fertilizadora de “Retratos de Identificação”. Mesmo assim, é um grande filme. Com mais tempo narrativo (104 minutos), a cineasta dispunha de imagens poderosas para mostrar. Restava sintetizá-las em um todo orgânico, capaz de somar os registros colhidos naquele mês de junho romano, passados quase 47 anos.

Primeiro, Anita Leandro fez o que era preciso (e Hamilton nunca conseguira fazer): sincronizar as imagens captadas por Velso Ribas (numa câmara Arriflex 16 milímetros) aos sons gravados por Ciccio (num Nagra). Os registros (amadores no melhor sentido da palavra), pelos cálculos do brasileiro-parisiense, somavam quase 90 minutos. Há que se prestar atenção às imagens de pernas e pés calçados dos líderes sindicais. Uma beleza!

Anita, com olhar de montadora, escolheu momentos de grande força narrativa. E poesia. As imagens que registram caminhada de Denise Crispim ao lado da filha pequena, Eduarda, rumo ao Parlamento Italiano (sede da Conferência) têm a leveza de um filme nouvelle-vague (quem sabe de “Cleo das 5 às 7”, de Agnès Varda). Os discursos, lidos ao microfone, são cirurgicamente editados. E encontros em pequenas rodas – muitas delas em torno de dois tótens da esquerda, o herói de duas Guerras, Apolônio de Carvalho, e o líder comunista pernambucano, Gegório Bezerra) resultam envolventes. Até dotados de leveza. O filme nunca soa didático, explicativo, rebarbativo.

Não há, em “Anistia 79”, testemunhos desestabilizadores e impressionantes como o de Reinaldo Guarany em “Retratos de Identificação”. Nem poderia haver. A cineasta quer permitir ao espectador que ele se transporte para aquele Junho de mais de quatro décadas atrás. Quer, também, dar destaque à participação das mulheres no evento. Além de Helena Greco, Carmela Pezzutti, Denise Crispim, viúva do militante político Bacuri (pai de Eduarda), veremos a atriz luso-brasileira Ruth Escobar lendo, com sua dicção cristalina, importante documento retirado na Conferência.

A reunião de três militantes de linhas divergentes (Arrudão, do PCdoB, Apolônio, do PCBR, e Gregório Bezerra, do Partidão) – entrevistados por Luis Travassos – deve ter exigido de Anita (que monta o filme com Isabel Castro) esforço hercúleo e muito desapego. Havia que sintetisar. Como cortar (podar) uma análise histórico-político engendrada por Apolônio de Carvalho. Anita tirou do esquecimento imagens que, de agora em diante, servirão de matriz para futuros retratos de um tempo em que muitos jovens (estudantes, em especial) acreditaram ser possível derrubar uma ditadura escorada nas Forças Armadas, no apoio do empresariado e em milhares de integrantes da sociedade civil.

A maioria dos participantes da Conferência romana já morreu. Os mais velhos, pelo passar do tempo. Os mais novos, caso de Luis Travassos, vitima de acidente de carro (aos 37 anos). Por isso, a cineasta mobilizou onze pessoas ligadas, de alguma forma, aos acontecimento daquele Junho romano.

O sindicalista José Pedro da Silva e Jean Marc von der Weid podem se rever novinhos, cheios de sonhos e projetos. E rever o projeto que abraçaram na juventude à luz de nossos tempos. Esses estranhos (e tenebrosos) tempos em que a Anistia é reivindicada para um ex-presidente que tramou, com militares, um golpe de Estado. Eleito pelo voto popular, quis permancer no poder contra os desígnios democráticos da Consituição. Em 1979, a Anistia era reivindicada para aqueles que, sob jugo ditatorial, se deram o direito de se insurgir, inclusive pela via armada. Como gosta de lembrar o filósofo Vladimir Safatle, povos submetidos a regimes de força têm direito à insurgência.

Em outro momento de grande riqueza narrativa e histórica, vemos no documentário de Anita três líderes sindicais – o camponês Manoel da Conceição, o líder da Construção Civil Rolando Frati e o dirigente do Sindicato de Oscasco, José Pedro da Silva – refletindo sobre as lutas de operários e camponeses. Mas nada é palavroso, retórico. Até os documentos lidos em plenário são sintéticos. Algo raro na tradição de esquerda. E, por fim, vale uma observação: mesmo sendo professora da UFRJ, dona de currículo quilômétrico e dos mais respeitáveis, Anita Leandro buscou a milionária contribuição do historiador Rodrigo Patto Sá Motta, da UFMG, que sabe tudo sobre o período ditatorial empoderado pelo Golpe de 1964, para assessorá-la.

O filme está pronto para chegar aos cinemas. Tem distribuidora (a Embaúba) e pode atrair parcela do público mais exigente. Chegando assim a seu alvo (o que não aconteceu com “Retratos de Identificação”, jamais lançado comercialmente (pode, felizmente, ser visto em ótima cópia no YouTube). Como disse a cineasta – segundo registro da assessoria de imprensa do festival – ao receber seus dois troféus Barroco: “Vivi, aqui, intensa experiência de recepção. As pessoas em silêncio assistindo a esse filme, um filme difícil, sobre um assunto difícil, e parecia uma liturgia”. Para Hamilton Lopes dos Santos, na madrugada parisiense, ela lembrou a experiência como uma missa leiga.

Confira os premiados:

. Prêmio Carlos Reichenbach de melhor filme na Mostra Olhos Livres (Júri Oficial) e melhor longa segundo o Júri Popular – “Anistia 79” (RJ), de Anita Leandro
. Prêmio do Júri Jovem na Mostra Aurora – “Para os Guardados” (MG), de Desali e Rafael Rocha
. Prêmio de Melhor Curta pelo Júri Oficial na Mostra Foco – “Entrevista com Fantasmas” (RS/SP), de LK
. Prêmio Canal Brasil de Curtas na Mostra Foco – “Grão” (RS), de Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa
. Prêmio de Melhor Curta pelo Júri Popular – “Recife Tem um Coração” (RN), de Rodrigo Sena
. Menção Honrosa na Mostra Formação – “Diálogo Bulbul” (SP, RJ, ES, BA), de Bruno Churuska, Gledson Augusto, Nicole Mendes, Yan Altino e Zimá Domingos
. Prêmio de Melhor Filme na Mostra Formação – “De Barriga para Cima” (ES), do Instituto Marlin Azul e moradores da Comunidade Quilombola de Monte Alegre
. Prêmio Abraccine de Melhor Longa na Mostra Autorias – “Atravessa Minha Carne (GO/DF), de Marcela Borela
. Prêmio Helena Ignez – Destaque Feminino – “Crash” (RJ), de Gabriela Mureb
. Prêmio Cinecolor e O2 Pós – Conexão BCM – “Pedra de Raio” (CE e RJ), de Lucas Parente e Pedro Lessa
. Prêmio CTAV e The End – Conexão BCM – “Bate e Volta Copacabana” (MG), de Juliana Antunes e Camila Matos
. Prêmio Málaga WIP – Conexão BCM – “Pequenas Tragédias” (GO), de Daniel Nolasco
. Prêmio Sesc em Minas – Work in Progress – Conexão BCM – “Paisagem de Inverno” (MG), de Marco Antonio Pereira

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