“Uma Batalha Após a Outra” e “Pecadores” triunfam na noite do Oscar e “O Agente Secreto”, mesmo sem troféu, brilha na vitrine planetária do cinema
Por Maria do Rosário Caetano
“O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, não conseguiu reverter em prêmio nenhuma de suas quatro indicações ao Oscar da Academia de Artes e Indústrias Cinematográficas de Hollywood. A noite das estatuetas douradas foi direcionada ao tardio reconhecimento de Paul Thomas Anderson, de 55 anos, e de seu adrenalinado “Uma Batalha Após a Outra” (foto), o grande vencedor. A noite foi, também, de “Pecadores”, o drama de época, que soma o blues pactário das encruzilhadas ao vampirismo. Ray Coogler, de 39 anos, conseguiu direcionar o cinema de terror a grandes conquistas.
Há que se registrar, porém, que o cinema brasileiro encontrou, na clareira aberta por Fernanda Torres, Walter Salles e “Ainda Estou Aqui”, espaço jamais ocupado na disputa da vitrine planetária da indústria do cinema norte-americano.
Wagner Moura subiu ao palco ao lado de Gwyneth Paltrow, Chase Infiniti, Delroy Lindo e Paul Mescal para descrever o trabalho de Gabriel Domingues, responsável pelo casting de “O Agente Secreto”. Depois, foi destacado entre os concorrentes a melhor ator (categoria vencida pelo “pecador” Michael B. Jordan). O filme recifense ganhou o devido destaque quando foi apresentado como um dos dez concorrentes ao Oscar principal e um dos cinco ao prêmio de melhor filme estrangeiro, vencido pelo norueguês “Valor Sentimental”.
Nunca nos esqueçamos, o Brasil integra o time das chamadas “cinematografias periféricas”. Tem longo caminho a percorrer. 2025 e 2026 são momentos de imensa importância. Que país, entre os “periféricos da imagem”, conseguiu colocar, em dois anos seguidos, seus longas-metragens na lista principal da mais midiática competição cinematográfica do mundo?
Dos dez concorrentes ao Oscar de melhor filme, quatro não levaram nenhuma estatueta – “Marty Supreme”, “Bugônia”, “Sonhos de Trem” e “O Agente Secreto”. A Academia externou seu cansaço com o cinema esquisitão de Yorgos Lanthimos. No caso do filme, também doidão, de Josh Safdie, sobrou para o astro Timothée Chalamet, ignorado por dois anos seguidos (ano passado, com a cinebiografia de Bob Dylan). Aliás, muitas das piadas da noite foram dirigidas ao ator de 30 anos, que resolveu mexer num vespeiro ao desvalorizar o importante trabalho dos que se dedicam à ópera e ao balé. Em cada instante possível, a Academia fez questão de valorizar bailarinos e vozes do bel canto.
“Sonhos de Trem”, que rendera indicação do brasileiro Adolpho Veloso à categoria melhor fotografia, compôs, junto com “O Agente Secreto” e “Valor Sentimental”, o trio de menor orçamento da competição (na casa dos U$20 milhões). Os laureados “Uma Batalha Após a Outra”, “Pecadores” e “Frankenstein” foram realizados com somas infinitamente maiores (média de US$120 milhões). Como registrou o professor Gilberto Maringoni, da Universidade Federal do ABC, “o Oscar não é a olimpíada mundial ou o campeonato internacional de cinema”. É, isto sim, “uma cerimônia anual da indústria cinematográfica estadunidense e ponto”.
Outras superproduções milionárias – em especial “Avathar – Fogo e Cinzas” e “F1 – O Filme” – quase foram ofuscadas por “Frankenstein”, de Guillermo del Toro. A história do monstro construído pelo Doutor Frankenstein converteu três de suas nove indicações (melhor cabelo e maquiagem, direção de arte e figurino).
A quantidade de prêmios para representantes da produção norte-americana foi realmente avassaladora. A começar pelos seis troféus para “Uma Batalha Após da Outra” (melhor filme, direção, roteiro adaptado, ator coadjuvante, o ausente Sean Penn, melhor casting e montagem).
Estadunidense até a medula, “Pecadores” abriu larga avenida para o cinema de terror, gênero historicamente pouco valorizado. Além de melhor ator para Michael B. Jordan, que interpreta os gêmeos Fumaça e Fuligem, o filme rendeu a estatueta de melhor roteiro original a seu diretor Ryan Coogler, o Oscar de melhor fotografia à jovem afro-americana Autumn Durald Arkapaw (em quase cem anos, primeiro troféu destinado, nessa categoria, a uma mulher), e melhor trilha sonora para Ludwig Goransson. Recordista histórico de indicações (16, quantidade jamais alcançada), “Pecadores” foi bem longe em sua caminhada.
Para completar a imensa colheita de troféus por produções norte-americanas, os blockbusters “F1 – O Filme” recebeu o Oscar de melhor som, e “Avathar – Fogo e Cinzas”, o de efeitos especiais. “A Hora do Mal” consagrou sua atriz coadjuvante, Amy Mading, que no agradecimento festejou o ator Ed Harris, seu marido há 42 anos.
Para o “cinema do mundo”, pouco restou. Das nove indicações de “Valor Sentimental”, só uma se materializou (melhor filme internacional). Mais uma vez se confirma que as premiações do francês “O Artista” e do sul-coreano “Parasita” constituem exceções que confirmam a regra. O placar continua péssimo para a internacionalização do Oscar: 96 para os EUA x 2 para os estrangeiros.
“Hamnet – A Vida Antes de Hamlet”, que uniu a Grã-Bretanha aos EUA (produção de Steven Spielberg e direção de Chloé Zhao), só converteu uma de suas oito indicações. A de melhor atriz para Jessie Buckley. De origem irlandesa, a atriz fez questão de valorizar sua terra natal em seu discurso de agradecimento.
Registre-se, aqui, que o divertido e mordaz apresentador Conan O’Brien, aproveitou a raríssima ausência de atores britânicos nas listas de protagonistas e coadjuvantes para soltar uma de suas mais contundentes críticas. “Eles (os britânicos) pelo menos prendem seus pedófilos”. Mais não disse, mas evocava-se ali o Caso Epstein e o fato de, participante dele, o presidente Donald Trump continuar lépido e fagueiro, destituindo presidentes e fomentando guerras brutais.
A festa da nonagésima-oitava edição do Oscar durou 210 minutos (as três horas e meia previstas) e, para os brasileiros, terminou antes da meia-noite. Algo milagroso, já que há décadas, entrava madrugada adentro. A cerimônia desse ano só tornou-se cansativa no segmento de evocação dos nomes dos profissionais do cinema que partiram. Foram lembrados Claudia Cardinale, Terence Stamp, Robert Duval, Bela Tár, Lalo Schifrin, Udo Kier, Val Kilmer, entre outros. Mas – além de esquecer Brigitte Bardot e o brasileiro Silvio Tendler – foram muitos longas as homenagens ao casal Reiner (Rob e Michele), à atriz Diane Keaton e ao ator, cineasta e criador do Sundance Festival Robert Redford.
Esperava-se uma noite politizadíssima, pelo estado do mundo e pela presença de, pelo menos, dois filmes (“Uma Batalha Após a Outra” e “O Agente Secreto”) que botaram para ferver em suas substantivas e complexas narrativas. Mas os agradecimentos dos laureados se mostraram contidos frente ao gravíssimo momento vivido pela humanidade. Os EUA protagonizam, ao lado de Israel, trágica guerra em solo iraniano, depois de juntos barbarizarem a Faixa de Gaza. Só o espanhol Javier Bardem, do elenco de “F1” – ao anunciar e entregar o prêmio de melhor filme internacional (ao lado de Priyanka Chopra Jonas) – exigiu o fim dos conflitos bélicos e clamou pela Palestina. Na lapela trazia um imenso botton, que reafirmava o que dissera ao microfone.
As cutucadas do mestre-de-cerimônia Conan O’Brien foram dignas de nota. Ele elegeu Timothée Chalamet como seu alvo preferencial. Lembrou que o ator, ao atacar a ópera e o balé, esquecera-se do jazz. Cutucou o streaming (em especial a Netflix), por suas narrativas mastigadas, pois muito explicativas. E o fez com reencenação do clássico “Casablanca”. Colocou-se no lugar de Humphrey Bogart para dialogar com o pianista Sam e impregnar suas falas com múltiplas explicações. O resultado foi muito bom. E sobrou para a Amazon, outra gigante do streaming, que “não conseguiu emplacar nenhum filme na competição”. Cutucou também a IA (Inteligência Artificial), ameaça que paira sobre o mercado de trabalho dos artistas audiovisuais. E fez piada com “o pau ereto” do ausente Sean Penn (quem viu “Uma Batalha Após a Outra” entendeu a referência).
A acelerada abertura da festa do Oscar também foi das mais animadas. O’Brien apareceu vestido de “Tia Gladys”, a maluca de “A Hora do Mal”, papel que rendeu à veterana Amy Madigan o Oscar de melhor coadjuvante. E, em ritmo frenético, cercado de crianças apavoradas pela “bruxa” de óculos vermelho, o mestre de cerimônia demonstrou que a Academia de Hollywood quer reconquistar o grande público, cada vez menos disposto a enfrentar maratona de três horas e meia com entrega de prêmios e discursos mornos. Em breve, o YouTube será a única vitrine da Noite do Oscar.
Numa edição com tantos filmes de horror entre os indicados – “Pecadores”, “Frankenstein”, “A Hora do Mal”, “Bugônia” e “A Meia-Irmã Feia” – a Academia mostrou abertura ao gênero e seus múltiplos subgêneros. E, pela voz de O’Brien, garantiu que um bilhão de espectadores (a população mundial já passa de 8 bilhões) prestigiavam a festa. Será?
Por fim, vale registrar os prêmios para documentários e curtas-metragens, categorias pouco valorizadas. “Zé Ninguém Contra Putin”, de David Borenstein e Pasha Talankin, derrotou o favorito, “A Vizinha Perfeita”, de Geeta Gandbhir. A cineasta concorria, também, a melhor curta documental, com “O Diabo Não Tem Descanso”, mas perdeu para “Quarto Vazio”, de Conall Jones e Joshua Seftel.
O Zé Ninguém do título do longa documental vencedor, produção da Dinamarca, Reino Unido e EUA, é um professor russo, que com sua câmara denuncia o que se passa, em termos de “doutrinação patriótica”, numa escola da Karabash, pequena cidade localizada próxima aos Montes Urais, no imenso país eurasiano.
No curta de ficção, uma surpresa: houve empate, ocorrência rara na história da quase centenária Academia. O belíssimo “Os Cantores”, dos estadunidenses Jack Piatt e Sam Davis, inspirado num conto de Turgueniev, teve o mesmo número de votos do francês “Duas Pessoas Trocando Saliva”, de Natalie Musteata e Alexandre Sing, sofisticada história surreal e queer. O figurino deste filme é daqueles capazes de causar frisson e inveja na ex-Vogue Anna Wintour (que aliás, entregou prêmio ao lado de Anne Hathaway).
O melhor curta de animação “A Garota que Chorava Pérolas”, de Chris Lavis e Maciek Szzerbowski, é uma produção do seminal National Film Board do Canadá. No discurso de agradecimento, ao invés de enumerar listas de parentes e agentes (aí está o veneno das festas de premiação!), os representantes do curta evocaram o instituto canadense, criado pelo mestre Norman McLaren e responsável histórico pelo cultivo e difusão da animação autoral.
Confira os vencedores:
. “Uma Batalha Após a Outra”, de Paul Thomas Anderson (EUA) – melhor filme, direção, roteiro adaptado (Paul Thomas Anderson), ator coadjuvante (Sean Penn), casting (Cassandra Kulukundis), montagem (Andy Jurgensen)
. “Pecadores”, de Ryan Coogler (EUA) – melhor ator (Michael B. Jordan), roteiro original (Ryan Coogler), fotografia (Autumn Durald Arkapaw), trilha sonora (Ludwig Goransson)
. “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”, de Chloé Zhao (EUA-Reino Unido) – melhor atriz (Jessie Buckley)
. “Valor Sentimental”, de Joachim Trier (Noruega) – melhor filme internacional
. “A Hora do Mal”, de Zack Cregger (EUA) – melhor atriz coadjuvante (Amy Madigan)
. “Zé Ninguém Contra Putin”, de David Borenstein e Pasha Talankin (Dinamarca, Reino Unido, EUA) – melhor longa documental
. “Guerreiras do Kpop”, de Chris Appelhans e Maggie Kang (EUA-Coreia do Sul) – melhor longa de animação, melhor canção (“Golden”, de 24, Ejae, Teddy Park, Mark Sonnenblick, Lee Yu-han, Gyu-Kwak e Hee-dong)
. “Frankenstein”, de Guillermo del Toro (EUA) – melhor figurino (Kate Hawley), direção de arte (Tamara Deverell), cabelo e maquiagem (Jordan Samuel, Mike Hill e Clinona Furey)
. “F1 – O Filme”, de Joseph Kosinski (EUA) – melhor som (Al Nelson, Gareth John, Juan Perata, Yates Whittle e Garry Rizzo)
. “Avathar – Fogo e Cinzas”, de James Cameron (EUA) – melhores efeitos especiais (Joe Leteri, Eric Saindon, R. Baneham e Daniel Barrett)
. “Os Cantores”, de Jack Piatt e Sam A. Davis (EUA) e “Duas Pessoas Trocando Saliva”, de Natalie Musteata e Alexandre Sing (França) – empatados como melhor curta de ficção
. “A Garota que Chorava Pérolas”, de Chris Lavis e Maciek Szzerbowski (Canadá) – melhor curta de animação
. “Quartos Vazios”, de Conall Jones e Joshua Seftel (EUA) – melhor curta documental
