CineBH premia “Cuba y la Noche”, “Nuestro Cuerpo és uma Estrella que se Expande” e “Muganga”

Foto © Leo Lara/Universo Produção

Por Maria do Rosário Caetano, de Belo Horizonte (MG)

Três documentários filmados em Havana, capital da ilha de Cuba, participaram da vigésima edição da CineBH – Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte. Dois deles, “Cuba y la Noche”, de Sérgio Fernández, e “Jankee”, de Yam Thompson, foram premiados. O melhor dos três —  “Calle Cuba”, de Vanessa Batista — foi ignorado.

“Cuba y la Noche” ganhou o Troféu Horizonte de melhor filme dedicado a diretores estreantes. A polêmica escolha se deu por decisão de júri formado com a argentina Clarisa Navas (“El Príncipe de Nanawa”), a pernambucana Cintia Lima (“Banho de Choque”) e o mineiro Marcos Pimentel (“O Silêncio das Ostras”). O documentário é uma produção espanhola, pois seu diretor deixou Cuba, que vê como uma feroz ditadura, e radicou-se em Madri.

“Jankee”, da mexicana Yam Thompson, foi o eleito do júri jovem, formado por estudantes de três universidades mineiras (UFMG, PUC e UNA). A escolha se deu pela natureza e frescor do filme. A jovem realizadora, aluna da Escola Internacional de Cinema de San Antônio de Los Baños, resolve filmar a vida de um pescador, também muito jovem. Ele se apaixona por ela e se deixa filmar. Um jogo de sedução se estabelece entre os dois. Sempre mediado pela câmara, que está nas mãos dela.

O que “Cuba y la Noche” tem de panfletário, o olvidado “Calle Cuba” tem de poroso, sensível e dialético. Afinal, traça retrato matizado de um país que vive a maior de suas crises, desde o triunfo da Revolução de 1959. Parte significativa da população quer ir embora da Ilha, faltam medicamentos, os apagões de energia elétrica são cada vez mais frequentes e delitos de opinião são punidos com penas rigorosas. Mesmo assim, os quatro personagens retratados por Vanessa amam seu país, trabalham, cuidam de seus cabelos (capricham no megahair), dançam e bebem muito rum. Principalmente, em reuniões em que mulheres relembram momentos dolorosos. Em especial, perdas amoroso-conjugais. A diretora também vive fora da Ilha, há décadas (em Barcelona, na Espanha).

O outro prêmio da Mostra Horizonte (o Destaque do Júri) foi entregue ao longa brasileiro “Sabes de Mim, Agora Esqueça”, de Denise Vieira. O filme é, não há como negar, o que de melhor se viu no segmento Horizonte. Ousado e inventivo. Resta, porém, torcer para que os representantes brasileiros nas competições latino-americanas da CineBH sejam inéditos, já que produção brasileira, ultrapassou, em anos recentes, os 200 títulos anuais. O longa de estreia da arquiteta, diretora de arte (dos filmes de Adirley Queirós) e agora longa-metragista ceilandense estreou na Mostra Tiradentes e integrou a principal competição do Festival de Brasília.

Na outra mostra competitiva da CineBH — a Território —, o júri (composto pela cineasta Alice Riff, pela diretora de fotografia Wilssa Esser e pelo hispano-americano Gregório Rodriguez) optou pelo longa documental queer “Nosso Corpo é uma Estrela que se Expande”, de Semillites Hernández Velasco e Tania Hernández Velasco. O filme, de composição livre, valoriza o corpo de suas protagonistas e soma intimidade, animação, colagem e paisagens sensoriais.

O documentário brasileiro “Telúrica: a Íntima Utopia”, de Mariana Lacerda, fez jus ao Prêmio Destaque. O filme nos apresenta o valioso trabalho do coletivo paulistano Ueinzz, que, com suas ações teatrais, enriquece a vida cotidiana de portadores de sofrimento psíquico.

A noite belo-horizontina, aliás, veria a realizadora pernambucana, autora também de “Gyuri”, subir ao palco por mais três vezes, pois seu novo projeto, “Aña”, brilhou no Brasil CineMundi, dedicado a filmes em processo de pré-produção, realização ou finalização.

A Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) atribuiu o Prêmio da Crítica ao documentário chileno “La Vida que Vendrá”, de Karin Cuyul. Um belo (e perplexo) testemunho de jovem realizadora sobre os últimos 50 anos de história de seu país, vividos sob breves momentos de euforia e longos períodos de desencanto.

Seis dos 21 projetos apresentados ao Brasil CineMundi receberam grande atenção de diversos comitês de premiação. O primeiro deles — “Muganga”, do paulista Rodrigo Rybeiro — venceu na principal categoria (melhor projeto segundo o júri oficial, formado por Joana Oliveira, Fred Burle e Jesús Pimentel).

Outros cinco projetos ganharam três (ou dois) prêmios, o que deve ajudar na viabilização de suas trajetórias. Com três prêmios cada foram destacados o pernambucano “Aña”, de Mariana Lacerda, e o gaúcho “Primas”, de Bruno Gularte Barreto.

Com dois reconhecimentos (cada) foram premiados os mineiros “A Luta que Não Pode Parar”, de Éverton Bélico, “Coração Americano”, de Aiano Bemfica, e “Bom Retorno”, de Breno Alvarenga.

“Muganga” é uma ficção que mergulha na fantasia. Rodrigo Ribeyro pretende mostrar dois amigos, Júlia e Alex, que decidem faltar a um dia de trabalho na caótica cidade de São Paulo. Pretendem, afinal, descansar na natureza bucólica da Serra da Cantareira. Enquanto estão no local, um ataque nuclear atinge o centro da metrópole paulistana, tornando-a radioativa. Os dois jovens serão obrigados a viver na região rural por tempo indeterminado.

O projeto de Mariana Lacerda, o terceiro de longa duração em sua carreira, foi muito elogiado pelos comitês que a premiaram. Proposto como documentário, o filme tem sua ambiência na Floresta Amazônica, às margens do Rio Tiquié. Observadores indígenas registram os movimentos sutis da natureza em seus diários. Assim, compõem “uma memória da floresta e acompanham os efeitos das mudanças climáticas no mundo que os rodeia”. O fazem enquanto “aguardam o nascer da constelação de Aña”.

Realizador testado (e premiado) em festivais, Bruno Gularte Barreto (Troféu Mucuripe de melhor filme no Cine Ceará 2021, com “5 Casas”), também recebeu grandes elogios de comitês de premiação. Seu projeto foi definido como “proposta qualificada a dialogar com públicos internacionais”. Ao receber prêmio do Festival de Montreal, que ajudará a viabilizar sua produção, Gularte brincou: “Ih, nem tenho roupa para usar no frio canadense!”. Que as providencie, pois.

“Primas”, seu novo projeto, se dedica a acompanhar quatro irmãos e seus descendentes em uma pequena cidade no extremo Sul do Brasil. Nascidos em fazenda isolada, eles enfrentam a perda precoce da mãe, vítima do câncer que assola uma região marcada por décadas de contaminação por agrotóxicos utilizados na monocultura do arroz. Criados por seu pai, um ex-combatente da Segunda Guerra Mundial, cuja violência física e emocional moldou profundamente suas vidas, acabam todos deixando ou sendo expulsos de casa. Anos depois, eles e seus descendentes confrontam as marcas deixadas pela separação e pela violência, tentando romper ciclos de trauma geracional e construir um futuro diferente.

“A Luta que Não Pode Parar”, do mineiro Éverton Bélico, coloca a produção documental no campo da militância política e da história do próprio cinema brasileiro ao mergulhar na memória setentista do movimento sindical paulista. Não há proposta de diálogo com a ficção científica, nem com lutas identitárias. A narrativa, que será construída com materiais de arquivo, partirá de manifestação que ocupou a Praça da Sé paulistana, no final dos anos 1970, portanto, durante a ditadura militar.

Mais um, entre tantos, filme sobre os chamados anos de chumbo?

Sim, mas com enfoque original. Bélico e sua equipe se propõem a “recuar no tempo” para “reconstruir, a partir de arquivos dispersos, depoimentos e imagens em ruína, a formação de uma rede de cineastas e militantes de sindicatos e movimentos populares, que transformaram o cinema em instrumento de organização política”. E mais: “o filme acompanhará, entre prisões, torturas, cineclubes operários e produções coletivas, a criação e circulação de imagens das lutas populares impressas em 16 milímetros ou vídeo”, para investigar “como se constrói — e como se perde — a memória de uma revolução cotidiana”.

Outro projeto mineiro — “Coração Americano”, de Aiano Bemfica — também segue pelas trilhas do documentário político. O título vem de empréstimo do primeiro verso de “San Vicente”, composição de Milton Nascimento e Fernando Brant (“Clube da Esquina”, 1972), para mergulhar na história da Nueva Trova Latinoamericana.

O cineasta e sua equipe se propõem a investigar tempos festivaleiros, em especial, os realizados nas décadas de 1960 e 70, pois eles foram palco e vitrine de canções que fizeram da América Latina tema recorrente.

Por meio da montagem de arquivos, “Coração Americano” se propõe a “articular música, história e política, revelando como artistas (destaque para Mercedes Sosa, Victor Jara, Violeta Parra, Sílvio Rodriguez, Pablo Milanés, Milton Nascimento e Chico Buarque) transformaram a canção em instrumento de resistência às ditaduras latino-americanas”. Ao conectar “passado e presente”, promete Bemfica, “‘Coração Americano’ reafirmará a memória, a democracia e o poder da arte como força de transformação social e identidade continental”.

“Bom Retorno”, o sexto filme mais premiado do segmento Brasil CineMundi, também navega pelo universo do cinema político e social. Seu diretor, o mineiro Breno Alvarenga, se propõe a acompanhar a saga de um conterrâneo, o jovem Antônio. Ele passou cinco anos, como ‘indocumentado’, nos EUA. Depois de sofrer ataque xenofóbico no país de Trump, regressou ao Brasil.

O documentarista se propôs, ao longo de uma noite, a seguir o jovem pelas ruas de Belo Horizonte. Antônio será visto em sua tentativa de se reconciliar com o passado. Mesmo que a cidade e seus amigos já não sejam os mesmos que ele deixara anos atrás. Para encontrar seu lugar, “ele se dá conta que, primeiro, deve encontrar a si mesmo”. Para Alvarenga, “Bom Retorno” se propõe como “uma história sobre a busca por pertencimento e os dilemas da vida adulta”.

Confira os premiados:

MOSTRA HORIZONTE

. “Cuba y la Noche”, de Sérgio Fernández Borrás (Cuba e Espanha) – melhor filme pelo Júri Oficial
. “Sabes de Mim, Agora Esqueça”, de Denise Vieira (Brasil) – Prêmio Destaque do Júri Oficial
. “Jankee”, de Yam Thompson (México-Cuba) – melhor filme pelo Júri Jovem

MOSTRA TERRITÓRIO

. “Nosso Corpo é uma Estrela que se Expande”, de Semillites Hernández Velasco e Tania Hernández Velasco (México) – melhor filme pelo júri oficial
. “Telúrica: A Íntima Utopia”, de Mariana Lacerda (Brasil) – Prêmio Destaque do Júri Oficial
. “La  Vida que Vendrá”, de Karin Cuyul  (Chile) – Prêmio Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema)

PRÊMIOS PARA PROJETOS (BRASIL CINEMUNDI)

. “Muganga”, de Rodrigo Rybeiro  (produção de Julia Alves, São Paulo) – melhor projeto pelo júri oficial
. “Aña”, de Mariana Lacerda (produção de Carol Ferreira – Pernambuco) – Escolhido por três júris: Leonard Cortana (Cinecolor, CTAv, DOT, Edna Fuji, O2 Pós, Parati Films), Prêmio Conecta (Paola Castillo) e Casa Latina Films (Gregório Rodríguez)
. “Primas”, de Bruno Goularte Barreto (produção de Marina Torre, Rio Grande do Sul) – Três prêmios: #LINK (lsona Admetlla), DOCSP (Paulo Carvalho) e Prêmio RIDM (Festival de Documentários de Montreal, escolha de Séverine Roinssard)
. “A Luta que Não Pode Parar”, de Éverton Bélico (produção de Vítor Graize – Minas Gerais) –  Dois prêmios: Prêmio Foco Minas (Cinecolor, CTAv, Edina Fuji, Parati Films, escolha de Yanis Gaye) e Prêmio DOCSP Study Center (Paulo Carvalho)
. “Coração Americano”, de Aiano Bemfica (produção de Tatiana Mitre – Minas Gerais) – Dois prêmios: EuroDOC (Leonard Cortana) e Casa Latina Films (Gregório Rodriguez)
. “Bom Retorno”, de Breno Alvarenga (produção de Carol Silva, Minas Gerais) – Dois prêmios: WIP Finalização O2 Pós (Ana Sanz) e WIP Mistika (Eduardo Gasparian)
. “Fogo Dentro”, de Daniel Calil (produção de Renata Ogata, Elaine Ferreira e Ludmila Rodrigues, Goiás) – WIP Finalização O2 Pós (Ana Sanz)
. “Sol a Pino”, de Ana do Carmo (produção de Rubian Melo, Bahia) – WIP The End (Maisa Joanni)
. “Em Nome do Pai e do Filho”, de Gabriel Freire (produção de Marília Cunha – Bahia) – Prêmio #LINK (Isona Admetlla)
. “O Presidente Negro”, de Gabriel F. Marinho (produção de Carolina Villa-Lobos, Distrito Federal) – Prêmio Nuevas Miradas (Ivette Liana)
. “Cavalo”, de Valentina Homem (produção de Maíra Falur Auad, Pernambucano e São Paulo) –  Prêmio Burning (Diego Castillo)
. “Boi de Conchas”, de Daniel Barbosa (produção de Sabrina Garcia e Nikolas Maciel, Rio de Janeiro) – Prêmio Mecas (Paulo Carvalho)
. “Kiki – Uma Ponte Entre Mundos”, de Dario Aldana, Werá Alexandre e Patrícia Para Yxapy (produção de Sirli Freitas, Santa Catarina) – Prêmio MAFF (Festival de Málaga-Espanha, Leonardo Ordonez) em parceria com Projeto Paradiso
. “Dona da Minha Cabeça”, de Nash Laila (produção de Letícia Simões e João Vieira Jr, Pernambuco) – Prêmio da produtora Filmes de Plástico (Maurilio Martins)
. “BPM: Batidas por Minutos”, de Gabriel Marcos (produção de Marina Soares, Minas Gerais) – Menção Especial com Consultoria (Filmes de Plástico)

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