Produtores espanhóis e latino-americanos apresentam seus projetos ao Mercado+LAB no Festival Florianópolis Mercosul

Foto: Elisangela Dantas, da distribuidora Jalapão Filmes © MRC

Maria do Rosário Caetano, de Florianópolis (SC)

Produtores e realizadores vindos da Espanha e de países latino-americanos apresentam seus projetos cinematográficos ao ECM+LAB, atividade de mercado do FAM (Florianópolis Audiovisual Mercosul), que prossegue na capital catarinense até o próximo dia 9.

O evento, que conta com apoio do fundo de fomento Ibermedia, recebeu 184 inscrições de projetos audiovisuais e selecionou 26, originários de 14 países.

No primeiro dia de atividades do encontro, os representantes de cada produção resumiram seus propósitos. E conheceram aqueles que podem ser seus futuros parceiros (representantes de produtoras, distribuidoras, film commissions e agentes de venda).

O ECM, realizado pela Associação Cultural Panvision, promotora do FAM, escolherá, ao final do processo, os melhores projetos entre os 26 pré-selecionados e analisados durante o encontro florianopolitano.

Entre os projetos vindos da Espanha destaca-se “Días de Azufre” (“Dias de Enxofre”), representado por Sara Bamba e Iván Martín Ruedas. A dupla apresentou o futuro filme como um mix de thriller psicológico e romance queer.

Entre projetos hispano-americanos, chamaram atenção o colombiano “Un Continente Oscuro”, de Daniel Vallejo Gutiérrez e Carolina Mejía Salazar, o boliviano “Dos Corderos”, de Sebastian Fernandez e Mariana Sandoval, o uruguaio “Tango Rosa”, de Camila Bettancur, e o peruano “El Perro Liu”, de Jonatan Relayze Chiang.

A dupla vinda do Peru, que prepara esse segundo longa-metragem, fez divertida apresentação aos participantes do ECM+LAB ao lembrar que trabalhará com “um órfão chinês metido no mundo do hip-hop”. Pois eles, os titulares do projeto, são ligadíssimos no hip-hop peruano. Um país que “conta com imensa colônia de origem chinesa, daí a origem do protagonista de “El Perro Liu”.

Entre os candidatos brasileiros em busca de coprodutores, dois chamaram atenção especial — “Ressuscita-me a Vida de Luis Antônio” (ex-Temporada de Caça), de Lucas Weglinski, e “Paraíso Agora”, de Henrique Schlickmann e Gennaro Fattori. Ambos têm a ver com José Celso Martinez Corrêa (1937-2023), criador do Teatro Oficina Uzyna Uzona. Aliás, tema de longa-metragem que Lucas Weglinski realizou em parceria com Joaquim Castro (“Máquina do Desejo“, 2001).

O documentário “Ressuscita-me…”, da Loma Filmes, é, na definição de seu criador, “um true crime sobre um assassinato queer, ocorrido no momento em que o país já saíra da ditadura militar, mas matava, por homofobia, um grande artista”. O filme se propõe a refletir sobre a tragédia que se abateu sobre Luís Antônio Martinez Corrêa, irmão mais novo de Zé Celso e, como ele, dedicado de corpo e alma ao teatro. Ele tinha apenas 37 anos.

O segundo projeto de alma zecelsiana — “Paraíso Agora” — traz a assinatura da produtora Discroma e se propõe a ser uma espécie de ‘making of tardio’ do longa ficcional “Prata Palomares” (1972), de André Faria. Filmado em Santa Catarina, “Palomares” incendiou os sentidos dos que o fizeram, causou polêmica por suas transgressões político-comportamentais e escandalizou autoridades ditatoriais brasileiras. Quando ficou pronto foi interditado pela Censura. Zé Celso e outros atores do Oficina (Itala Nandi, Renato Borghi, Otávio Augusto e Carlos Gregório) participaram do filme, obra pouco conhecida pelas novas gerações.

Não só de grandes centros de produção vieram os projetos brasileiros apresentados no ECM+LAB. Dois deles têm origem no interior de Minas Gerais. Foram gerados nos municípios de Uberlândia e Uberaba e apresentam-se embalados por desejo de viabilizar (e projetar) suas realizações audiovisuais com parceiros nacionais e internacionais.

A produção uberlandense, “Miragem”, já conta com parceria canadense, mas necessita agregar parceiros hispano-americanos e brasileiros. O projeto de Uberaba, “Black Pantera”, propõe-se a construir narrativa sobre banda anti-racista, oriunda do tradicional município do Triângulo Mineiro, que nesse momento participa do Rock in Rio.

A cineasta Vitã, que dirigiu com Juru, o vibrante longa documental “Salão de Baile”, participa do ECM+LAB com “Rua da Misericórdia”. Este projeto, que marcará a estreia da realizadora na ficção de longa duração, é de responsabilidade da Ritornelo Criações & Estúdio Giz.

Depois que os produtores ibero-americanos apresentaram seus projetos, todos os participantes do ECM+LAB assistiram a substantiva palestra de Valentina Prego, do ICAU (Instituto de Cinema do Uruguai), de Daniel Tonacci, da Ancine (Agência Nacional de Cinema) e de Priscila Andrade, da Recam (Reunião Especializada de Autoridades Cinematográficas e Audiovisuais do Mercosul).

Os três profissionais esclareceram as normas que regem as coproduções entre os países da região. E responderam a muitas perguntas dos produtores e realizadores interessados em ampliar o leque de financiadores de seus projetos.

O produtor gaúcho Beto Rodrigues, com larga experiência em coproduções com países da América Latina (em especial Argentina e Uruguai) relatou sua mais nova participação num projeto internacional — o longa “Retorno à Buenos Aires”, de Marco Bechis.

Na próxima sexta-feira, 11 de setembro, Rodrigues assistirá ao filme (um dos concorrentes ao Leão de Ouro do Festival de Veneza), junto com a equipe artística e técnica mobilizada por Bechis e formada com italianos, argentinos e brasileiros.

Aos participantes do ECM+LAB, Beto Rodrigues, que participou de 17 coproduções internacionais, explicou sua relação com “Retorno à Buenos Aires”, produção ítalo-brasileira, fruto da união das produtoras Fandango e RAI Cinema à brasiliense 34 Filmes, de Patrick Jongh, Cibele Amaral e André Ristum. Coube ao gaúcho Beto Rodrigues atuar como uma espécie de produtor executivo portalegrense de “Retorno a Buenos Aires”.

“A trama do filme selecionado por Veneza” — detalhou Rodrigues — “se desenvolve na capital argentina, e também, em Turim, na Itália”. Como “o cinema argentino passa por momento difícil devido ao desinteresse do atual governo pelo audiovisual, os coprodutores brasileiros pensaram em filmar em São Paulo, mas concluíram que Porto Alegre apresentaria mais semelhanças com a capital portenha e melhores custos”. Por isso — acrescentou Rodrigues, “me procuraram para ajudá-los”, de forma que “quase 60% das filmagens se passam em Porto Alegre, filmada como se fosse a capital argentina”. Claro que “filmagens feitas com drones mostrarão avenidas de Buenos Aires, pois é essa cidade que a trama retrata”.

“Retorno a Buenos Aires” será exibido em data das mais simbólicas, lembra Rodrigues. “No 11 de setembro, dia em que o mundo rememora o quinquagésimo-terceiro ano do golpe de estado que derrubou o Governo Allende e o vigésimo-quinto ano dos ataques às Torres Gêmeas e ao Pentágono, nos EUA”.

Marco Bechis, um ítalo-chileno, nascido em Santiago, viveu no Chile, no Brasil e na Argentina. Em nosso país, ele realizou, com a Gullane Filmes, “Terra Vermelha”, um de seus trabalhos mais conhecidos. Cidadão do mundo, apaixonado por temas políticos e sociais — tanto que sua projeção internacional, deu-se com “Garage Olimpo” (1999) — Bechis regressa ao tema da ditadura militar argentina.

“Retorno a Buenos Aires” é protagonizado por Adriano Giannini (filho do grande Giancarlo Giannini), que interpreta Mariano Guerra. Argentino de 55 anos, ele vive há mais três décadas na Itália. Seu retorno ao país platino será motivado por convocação judiciária para que deponha no julgamento dos militares que o sequestraram, torturaram e mantiveram em cativeiro durante a ditadura iniciada na década de 1976. No elenco estão, além de Adriano Giannini, atores vindos da Argentina (Ana Celentano, Verónica Gérez, Olivia Nuss) e do Brasil (Paula Cohen e Eduardo Hoy).

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