Olivier Assayas forma trio criativo com Carrère e Da Empoli para narrar história de “O Mago do Kremlin”

Foto © Carole Bethuel

Por Maria do Rosário Caetano

“O Mago do Kremlin”, novo thriller político de Olivier Assayas – estreia dessa quinta-feira nos cinemas brasileiros –, deve muito ao cientista político e escritor ítalo-francês Giuliano da Empoli e ao romancista e roteirista Emmanuel Carrère.

Da Empoli, de 52 anos e autor de “Engenheiros do Caos”, escreveu, em francês, a ficção que dá origem ao filme e pode ser lida em português (Vestígio Editorial, 2022). E escolheu Assayas como o diretor a quem caberia levar o romance às telas.

De início, o diretor dos eletrizantes thrillers “Carlos” e “Wasp Network” (este baseado no livro “Os Últimos Soldados da Guerra Fria”, de Fernando Morais), vacilou. Como transformar o diálogo (praticamente um monólogo) entre o estrategista político de Putin (o Mago do Kremlin) e seu interlocutor, um jornalista estadunidense, em narrativa cinematográfica?

O convencimento do cineasta e ex-crítico de cinema da Cahiers du Cinéma se processou quando Emmanuel Carrère, escritor cada vez mais envolvido com o cinema, abraçou o projeto. Apaixonado pela história da Rússia (país ao qual dedicou alguns de seus livros) e filho profundamente influenciado por mãe russóloga, Carrère assumiu a função de corroteirista. Assayas, que gosta de assinar sozinho seus roteiros, dividiu a tarefa com bom grado. Sabia que “O Mago do Kremlin” ganharia consistência com a colaboração especializada do autor de “Kolkhoze” (2025), “Limonov” (2011), matriz do filme de Kirill Serebrennikov, e “Um Romance Russo” (2007).

Produtores internacionais foram mobilizados. E a Rússia e o idoma russo escanteados. O inglês tornou-se o esperanto do filme. O conselheiro e estrategista Vadím Baranov (Paul Dano) fala inglês mesmo quando conversa reservadamente com Vladimir Putin (Jude Law, em convincente caracterização). Ou seja, personagens russos (oligarcas, governantes e seus altos funcionários utilizam a língua de Shakespeare como meio de comunicação). Full time.

Superar essa servil opção idiomática é um dos empecilhos à plena entrada do público mais exigente nas entranhas de “O Mago do Kremlin”. O filme começa com a visita de um jornalista, interpretado pelo afro-americano Jeffrey Wright, ao ex-estrategista e corresponsável pela criação da imagem do Putin contemporâneo (o dirigente que comanda a Rússia desde a renúncia de Boris Ieltsin, em 2000).

A conversa que se estabelecerá entre o norte-americano e o russo constitui-se como breve artifício narrativo. Até porque dará origem a um longo flashback. Vadím Baranov (este protagonista fictício inspirado em um dos conselheiros de Putin, o publicitário e estrategista Vladislav Surkov) relembrará momentos importantes da história russa, durante a última década do século XX e os primeiros quinze anos do século XXI.

A ênfase se fará nos momentos que se seguiram ao desmonte da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), a ascensão do presidente Boris Ieltsin, a ostensiva riqueza de oligarcas da indústria petrolífera, a formação de imensas empresas de comunicação, o crescimento da corrupção, a Guerra da Chechênia, passando pelo trágico acidente do submarino Kurski, que resultou na morte de seus 118 tripulantes (agosto de 2000), até chegar aos Jogos de Inverno de Sochi, balneário às margens do Mar Negro (fevereiro de 2014), e à anexação da Crimeia, ocorrida no mês seguinte.

A busca de solução política para o “impasse Ieltsin” se tornava urgente. O presidente, vítima de três infartos, tornara-se, junto à opinião pública, um “bêbado”, símbolo de má gestão. E a Rússia parecia um país dominado pelo crime e pelo poder avassalador das oligarquias.

Em maio de 2000, Ieltsin renunciou à presidência e entregou o poder a Vladimir Putin, advogado e ex-vice-prefeito de Leningrado, oriundo dos quadros da KGB (a polícia secreta da era soviética). O ungido somava apenas 47 anos.

O novo dirigente, que de início desfrutava de simpatia e apoio dos oligarcas russos, passou a contar com a assessoria de diversos estrategistas e conselheiros. O principal deles será recriado (no romance e no filme), no fictício Vadím Baranov (Paul Dano, em interpretação sem viço), que até então se dedicava à TV comercial, produzindo programa de grande apelo popular (em especial reality show).

No filme, Vadím trabalha para o bilionário Boris Berezovsky (lembram da incursão do megaempresário russo no time do Corinthians?). Mas, na vida real, o modelo do personagem prestaria serviços reais a outro oligarca, Mikhail Khodorkovsky, amigo de Putin naquela ocasião, depois, um de seus mais decididos opositores.

Em análise de “O Mago do Kremlin”, no jornal La Repubblica, de Roma, o jornalista e crítico Alberto Crespi (colaborador do Hollywood Reporter) lembrou “ter parecido mais conveniente” a Assayas e seus colaboradores, colocar o fictício Vadím Baranov a serviço de um morto (Boris Berezovsky, 1946-2013), que de um bilionário vivo (Khodorkovsky), que do exílio combate, com todas as suas forças, o Governo Putin.

Na trama estendida do filme de Assayas, Vadím conhecerá, nos loucos festejos que comemoram o fim da URSS, a bela Ksenia (Alicia Vikander), por quem se apaixonará. Mas ela acabará unindo seu destino a um outro jovem, bonito e despachado, que logo, logo se transformará em oligarca russo, Dimitri Sidorov (criação, também, ficcional).

Registre-se que apenas dois personagens com papeis importantes na trama – o presidente Vladimir Putin, hoje com 73 anos, e o oligarca Boris Berezovsky – aparecem na tela com seus nomes reais. E são interpretados por atores que emulam suas figuras.

Caberá a Dimitri Sidorov, pois, colocar-se como um dos vértices de triângulo amoroso (com Ksenia e Vadím) que acompanharemos ao longo da trama. E proferir uma das frases mais explosivas do filme: “Não há ditador mais sanguinário que o povo”.

Depois que o desajeitado Vadím se transforma em uma espécie de “Rasputin de Putin” e Dimitri Sidorov cai em desgraça, o estrategista reencontrará a bela Ksenia. A sueca Alicia Vikander, de 37 anos, empresta beleza e frescor à atrevida mulher dos sonhos de Vadím. Da juventude louca até os dias de maturidade e maternidade, ela estará exuberante.

“O Mago do Kremlin” estreou, ano passado, no Festival de Veneza, na competição principal (a do Leão de Ouro), mas não recebeu nenhuma láurea. Foi, mesmo assim, bem recebido pelo público francês, já que vendeu 682 mil ingressos. Não é muito para uma superprodução internacional orçada em US$22 milhões e rodada em Riga, na Letônia, ex-República Soviética e terra natal de Sergei Eisenstein. Mas está longe de ser um fracasso.

Os melhores momentos do filme são aqueles protagonizados por Jude Law. Além da ótima caracterização do personagem, o ambicioso Putin mostrará logo a que veio. Destruirá os que pensavam que ele seria marionete de fácil manipulação (o “novo czar”, no poder desde 2000, engolirá, um a um, os oligarcas do petróleo, das comunicações etc. etc). E não medirá esforços para tirar seus inimigos do caminho. O filme não abordará o único momento em que Putin passou para “o segundo plano” (quando tornou-se primeiro ministro do presidente eleito, com apoio dele, Dimitri Medvedev).

A trinca Da Empoli-Assayas-Carrère construirá trama complexa, portanto, livre de maniqueísmos e primarismos. Tentarão, juntos, compreender as estruturas que permitem a construção de dirigente político que prometerá a seus eleitores tornar-se o “Restaurador da Grande Rússia”. Ou um novo Stálin. Um presidente que chega para exercer o “poder vertical”.

No romance de Da Empoli – e no filme – leremos (ouviremos) frases como essas: “Como você faz quando quer partir um arame? Você o dobra para um lado, depois para o outro. É o que faremos”. Para depois, acrescentar: “Você se dará conta de que há temas aos quais as pessoas se apegam mais que tudo. Não sei quais. Os cliques dirão”.

Numa entrevista, Assayas citou um dos filmes com os quais dialogou na construção de “O Mago do Kremlin”: o rosseliniano “A Tomada do Poder por Luís XIV” (1966). O que fez o monarca francês? Estabeleceu estratégia calculada para centralizar o poder e subjugar a nobreza, focando na rotina e desmistificando a figura real. No caso de Vladimir Putin, basta trocar a nobreza pela oligarquia. O resto é astúcia e desejo de perpetuar-se no poder.

 

O Mago do Kremlin | The Wizard of Kremlin
EUA-França, 2026, 146 minutos
Direção: Olivier Assayas
Roteiro: Olivier Assayas, Emmanuel Carrère e Giuliano da Empoli
Elenco: Paul Dano (Vadín), Jude Law (Putin), Alicia Vikander (Ksenia), Tom Sturridge (Dimitri), Jeffrey Wright (o jornalista Rowland), Will Keen (Berezovskv), Andrei Zayats (Igor Sechine), Mane-Harvar Brekke (Limonov)
Fotografia: Yorick Le Saux
Montagem: Marion Monnier
Distribuição: Imagem Filmes

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