Olhar de Cinema mostra “Noite e Dias” dos deserdados de Ouro Preto, “Calendário” do desmonte do sonho coletivo do petróleo e “O Mez da Grippe”
Foto: “A Noite e os Dias de Miguel Burnier”, de João Dumans
Por Maria do Rosário Caetano, de Curitiba (PR)
As belezas barrocas de Ouro Preto, cidade do ciclo do ouro mineiro, não aparecem no filme “A Noite e os Dias de Miguel Burnier”, de João Dumans, quarto concorrente ao Troféu Olhar, no Festival Internacional de Cinema de Curitiba.
Os protagonistas desse longa documental mineiro, dirigido por um dos realizadores do festejado e premiado “Arábia”, são os deserdados das riquezas geradas nos tempos coloniais. Aqueles que, no início do século XX, ergueram, na periferia ouro-pretana, o distrito de Miguel Burnier. E transformaram-se em pequenos garimpeiros ou mão de obra de fábricas minerárias. Aquelas que vivem da coleta e processamento industrial de minerais estratégicos.
O tempo passou e uma grande empresa, a Gerdau, assumiu a exploração de imensa siderúrgica ouro-pretana. E se empenhou em comprar as casas dos moradores do distrito. Muitos, a maioria, vendeu suas pequenas propriedades. Outros, em menor número, resistiram. São justamente os resistentes que serão documentados em sua vida cotidiana por Dumans e sua pequena equipe.
Durante cinco anos, de 2019 a 2025, o cineasta, nascido em Ouro Preto, conviveu com Dadá (Claudete Carlos), Zezé (José da Conceição), Rita (Rita Carolina), Jussara, Setenta e garimpeiro que faísca ouro. E, também, com outros moradores de Miguel Burnier.
A convivência mais duradoura se deu com Dadá e Rita, duas mulheres, uma já avó, entusiasmada com a vida, e a outra, fechada dentro de casa, capaz de encontrar ânimo somente quando consome bebida alcoólica. As duas são amigas de Zezé, que também busca no álcool o lenitivo para a falta de oportunidades dominante no distrito de Miguel Burnier. Eles sabem que não serão empregados pela Gerdau, pois as vagas são oferecidas a quem dispõe de currículo adequado, “tem instrução”.
Desempregados, os moradores fazem do álcool “o companheiro das noites e dos dias”, formando um grupo de amigos que se esforça para levar a vida adiante. Dadá e Rita protagonizarão as melhores sequências do filme. Na primeira delas, dançam, ao som de “Doce de Mel”, da banda Calipso, com Zezé, às vezes em duo, às vezes em trio. Em outra, Rita realiza envolvente performance-cover de “Disk Me”, de Pabllo Vittar.
O documentário de Dumans, ao acompanhar seus personagens, assume um tom de réquiem, reafirmado pela trilha sonora e por muitas de suas sequências noturnas. Afinal, perceberemos, os dias dos moradores, daqueles que resistiram, parecem contados. As soluções para as agruras de suas vidas se apresentam longínquas.
Um das cenas mais iluminadas do filme, pois captada em dia claro, mostra imenso trem-de-ferro, com infindáveis composições, transportando carga industrial de alta tecnologia. Algo distante do dia-a-dia dos resistentes ouro-pretanos de Burnier, que sobrevivem de pequenos bicos.
Haverá registros de muito afeto ao longo da narrativa. Em especial, aqueles protagonizados por mulheres. Dadá, sempre animada, disposta a levantar o astral dos amigos e da família, será vista vestindo, com zelo ímpar, a netinha recém-nascida. Ou pescando tilápia, sempre assertiva, garantindo que, apesar das dificuldades, conseguirá a quantidade necessária para alimentar a todos em sua casa.
Caberá a ela, a sempre animada Dadá, liderar um dos mínimos momentos de esperança do filme, aquele em que alguns moradores plantam mudas de alface numa horta comunitária. Ela desempenha a tarefa decidida, medindo a distância correta entre cada muda. E alertando o colaborador-amigo que ele não estaria seguindo a linha reta e a distância necessária.
“A Noite e os Dias de Miguel Burnier” sequencia a fértil parceria de João Dumans com Affonso Uchoa, cujo fruto mais ben-sucedido é o longa “Arábia”. Uchoa, que participa do Olhar de Cinema como diretor do média-metragem “Disciplina” e como montador de “Maxita”, é também o responsável pela edição de “A Noite e os Dias…”. O filme se fez com equipe mínima. Dumans assina, além da direção, a fotografia; Laura Godoy, também ouro-pretana, a produção, e Rafael dos Santos Rocha comanda o som.
No debate que se seguiu à exibição do filme, no Museu Oscar Niemeyer, Dumans fez questão de registrar que nem tudo está perdido para os moradores, pois mesmo colocados em situação de vulnerabilidade, eles resistem. Lutam, inclusive na Justiça, para continuar vivendo em Miguel Burnier.
A liderança dos moradores, representada pelo jovem Paulinho (ele será visto coordenando reunião coletiva no começo do filme), continua lutando por políticas públicas (ou compensatórias), capazes de atender aos ouro-pretanos não-indenizados. E excluídos do processo de extração de riquezas minerais comandado pela Gerdau.
“Esta empresa”, lembrou Dumans, “é responsável por 50% da arrecadação de impostos efetuada pelo município”. Para concluir: “Nosso filme faz parte da luta dos moradores que resistem”.

Na competição de longas internacionais do Olhar de Cinema, foi exibido o longa canadense “Um Calendário Incompleto”, da realizadora iraniana Sanaz Sohrabi. Ela, que vive em Montreal, é artista visual e se pauta pela criação de trabalhos voltados “à reflexão sobre a busca de soberania dos povos do Sul global e à ecologia pós-colonial”.
Sohrabi, que assina também a montagem de “Um Calendário Incompleto” (junto com Muhammad El Kairy), não poderia ter escolhido tema mais oportuno que o petróleo. Há pelo menos dois séculos, esse combustível, motivo de sangrentas disputas imperiais, derruba governos e motiva guerras frequentes. A documentarista sabe disso, pois em seu país de origem, o Irã, um governo, o de Mohammed Mossadegh (1882-1967), foi derrubado por forças apoiadas pela Grã Bretanha e EUA, em 1953. Dois anos antes, Mossadegh fora empossado como primeiro-ministro do Irã, tornando-se responsável pela nacionalização de companhia petrolíferas, incluindo a poderosa Anglo-Iranian Oil Company inglesa. Seria deposto por plano articulado pela CIA.
Em 1956, outro fato histórico agitaria o mundo árabe: a luta pela nacionalização do Canal de Suez, comandada pelo criador do Pan-Arabismo, o egípcio Gamal Abdel Nasser (1918-1970). E países do Terceiro Mundo ergueriam, em 1961, o Movimento dos Países Não-Alinhados. Todos empenhados no desmonte dos impérios coloniais.
A OPEP (Organização do Países Produtores de Petróleo), concebida em 1959 e institucionalizada em 1960, nascia sob o lema “petróleo árabe para os árabes”. Diversos países se associariam ao projeto: Iraque, Irã, Arábia Saudita, Catar, Kuwait. Nações africanas também (Nigéria, Líbia, Gabão, Argélia). E um sul-americano, a Venezuela. Foi justamente um acontecimento artistico-cultural (ocorrido em moderníssimo teatro venezuelano, com teto composto com peças de Alexander Calder) a fonte motivadora de Sohrabi na realização de seu “Calendário Incompleto”.
Em 1980, por ocasião do vigésimo aniversário da OPEP, a instituição patrocinou a gravação de disco de vinil (“Rhymes and Songs for OPEC”, em português “Rimas e Canções para a OPEP”). Além de cenário, a Venezuela ofereceu o Coro de sua Universidade Central, comandado por Teresa Jaéz, para interpretar canções folclóricas de países árabes e africanos.
Um dos integrantes do Coro contará a Sohrabi, que a experiência foi inesquecível, embora extremamente desafiadora. “Não falávamos uma palavra em árabe, nem em farsi. Nada sabíamos dizer em iorubá. Cantamos, em nossos ensaios e na noite de gala, foneticamente, sem saber o significado das palavras que estávamos interpretando”. Grandes instrumentistas sinfônicos da Venezuela acompanharam o Coral, que contava com quase 30 integrantes. E o disco foi gravado e difundido. Mas não por muito tempo.
E por que?
O filme, de sintéticos 70 minutos, nos mostrará o desmanche do sonho coletivo engendrado pela OPEP. Insatisfeitos com os rumos anti-imperialistas assumido pelas nações mobilizadas pelo grupo petroleiro, EUA e grandes economias ocidentais armaram o Iraque, que invadiu o Irã. Dois estados fundamentais na estruturação da OPEP estavam em guerra.
Consolidava-se a debacle do projeto que antagonizou os países produtores de petróleo, nucleados no Oriente Médio, contra o Cartel das Sete Irmãs (Exxon, Mobil, Texaco, Chevron, Gulf Oil, Schell e Britsh Petroleum).
O Iraque invadiu o Irã no dia 22 de setembro de 1980, um mês depois da gravação do disco celebratório e coletivista. A nação persa vivia os conturbados meses que se seguiram à Revolução dos Aiatolás, ocorrida em 1979. O conflito se estenderia por longos oito anos. Hoje, quem ouve falar da OPEP, tão presente no noticiário daqueles tempos, nos jornais e telejornais?
Vinda das artes visuais, Sanaz Sohrabi construirá o “imaginário cartográfico” de seu filme recorrendo a selos (todos com símbolos identificadores dos anos de ouro da OPEP), fotografias, trechos de filmes e, claro, com o canto dos artistas venezuelanos, envoltos em vistosas túnicas oitentistas e comandados pela esbelta Teresa Jaéz, penteada como uma Farrah Fawcett caribenha.
O filme contou, claro, com o apoio fundamental do Canadá. E manteve parcerias com o Irã, a Turquia, a Venezuela e Vanuatu, um pequenino país situado na Melanésia, no Pacífico Sul. Para evocar os bons anos da rebelião opepiana contra as Sete Irmãs, Sohrabi utilizará, até, registro cinematográfico da cantora sul-africana, Miriam Makeba (1932-2008). Que aparece cantando em árabe e sob os holofotes de câmeras da Argélia, país que conquistara, cinco anos antes do show da diva “Pata Pata”, sua independência do jugo francês.
“Um Calendário Incompleto” serve como espelho para nossos dias. Afinal, o Oriente Médio voltou a ser cenário de nova guerra imperial. Os EUA, sempre nutridos por sentimento de “país eleito”, aliou-se ao governo de extrema-direita de Israel e invadiu o Irã, nação petrolífera. Em causa, o mesmo petróleo, que patrocinou “Rimas e Ritmos pela OPEP”. E que continua atiçando as ambições da mais rica nação do mundo e de seus aliados.
Registre-se, por fim, que Sanaz Sohrabi, de 37 anos, ao combinar canções e arquivos raramente vistos, fez questão de destacar recorte que focaliza o petróleo “não como uma mercadoria, mas como alavanca política para as lutas de libertação (inclusive da Palestina) e para a construção da solidariedade pan-árabe ao longo de duas décadas (1960 e 1970)”.

“O Mez da Grippe”, terceiro filme 100% inédito exibido pelo Olhar de Cinema em seu quarto dia de múltiplas competições, causou sensação entre os cinéfilos e, em especial, espectadores curitibanos. Afinal, seu diretor, William Biagioli, de 38 anos, empreendeu instigante mergulho na história da capital paranaense.
O ponto de partida do realizador é a gripe espanhola, que assombrou o mundo (e Curitiba), de 1918 a 1920, portanto no momento em que a Primeira Guerra Mundial ceifava vidas de milhões de soldados europeus. Quem não morria de bala, sucumbia à epidemia.
Para evocar a Curitiba do “Mez da Grippe”, Biagioli recorreu a livro homônimo de Valêncio Xavier Niculitcheff (1933-2008), publicado em 1981 e definido por Décio Pignatari como “um romance gráfico”.
A narrativa se passa na capital paranaense, onde um professor universitário, muito do irreverente, inicia pesquisa sobre a gripe espanhola. À medida que ele vai reunindo fotografias, relatos e fragmentos de memória, sua investigação começa a escapar do controle. Imagens de arquivo (em especial de um filme centenário, “Pelo Paraná Maior”) e centenas de fotografias do século passado comporão a visualidade desse documentário ensaístico (ou filme-colagem). Cinema de arquivo de imensa qualidade, pois inventivo, inquieto e muito bem articulado.
BIagioli e sua equipe (destaque para a montagem de Victor Bussolini) foram tomados pelo espírito transgressor de Valêncio Xavier, que construiu seu livro com palavras, colagens visuais e sonoras, manchetes e anúncios de jornal. E o que mais se oferecesse aos sentidos. No filme-ensaio “O Mez da Grippe” ouviremos vozes de imigrantes, que trarão ecos de uma cidade assombrada pela gripe espanhola.
Para trazer o passado-enigma de volta, Biagioli filmou (em 16 milímetros) pessoas do tempo presente (caso do cineasta Eloi Pires Ferreira, outro apaixonado pela cidade-cenário de seu “Curitiba Zero Grau”). Mas as imagens captadas pela equipe contemporânea não se diferenciam do todo. Constituem, isto sim, amálgama de imagens centenárias e recentes, interessadas em mergulhar na memória de uma cidade. Que passou pela experiência da gripe espanhola e, recentemente, pela pandemia da Covid-19.
Que ninguém espere cabeças-falantes rememorando o passado como se costuma fazer em documentários de corte didático-explicativos. O filme de Biagioli, de natureza sensorial, quis, e conseguiu com louvar, prestar tributo a uma cidade e a um de seus mais apaixonados intérpretes: o paulistano (curitibano por adoção e devoção) Valêncio Xavier. Se, de onde estiver, o pesquisador-cineasta-escritor assistir ao filme, ele há de ser tomado pela mais anárquica das felicidades.
