Olhar de Cinema mostra “Quase Inverno”, recriação livre de “Três Irmãs”, de Tchecov, e longa argentino que presta tributo ao espírito gregário dos cineclubes

Foto: “Quase Inverno”, de Rodrigo Grota

Por Maria do Rosário Caetano, de Curitiba (PR)

O longa paranaense “Quase Inverno”, de Rodrigo Grota, e o argentino “La Noche Está Marchándose Ya”, de Ramiro Sonzini e Ezequiel Salinas, foram apresentados, com boa recepção pública, na oitava noite da décima quinta edição do Olhar de Cinema, o Festival Internacional de Curitiba. O evento entregará seus prêmios na tarde desse sábado, para evitar choque, no horário noturno, com o jogo Brasil x Marrocos, nesses momentos inaugurais da Copa do Mundo.

“Quase Inverno” é uma ficção fincada em três paixões de Grota, que vive e trabalha em Londrina: a dramaturgia do Tchecov, o cinema de Ingmar Bergman e as encenações do saudoso Antunes Filho. Já Ramiro Sonzini, que representou a ficção cordobesa no Olhar de Cinema, cultivou, com o parceiro Ezequiel Salinas, o próprio cinema, em especial sua vertente noir. Além de falar de cinema e de um dos templos da cinefilia, os cineclubes, a dupla citou trechos de nove longas-metragens, um argentino e oito internacionais. Cinema no cinema e para o cinema.

O longa noir argentino foi realizado com apenas 25 mil dólares. Por isso, não pôde pagar direitos autorais nem aos produtores dos filmes citados, nem aos autores de composições musicais destacadas em suas trilhas sonoras.

No debate ocorrido no Cinema do MON (Museu Oscar Niemeyer), após a sessão, Ramiro deu a entender que confia na generosidade dos detentores de direitos autorais. Ou seja, torce para que a ‘brodagem’ prevaleça no tocante ao uso dos filmes homenageados. Afinal, são utilizados “pequenos fragmentos”. E tal uso se dá pelo mais genuíno amor ao cinema.

Para que o espectador tenha ideia dos títulos selecionados por Ramiro, também crítico de cinema, e por Ezequiel, diretor de fotografia e cineasta, vale enumerá-los.

O culto cinéfilo começa com “fragmentos” de um noir argentino, “Los Tallos Amargos” (Os Caules Amargos, Fernando Ayala, 1956). Prossegue com um western-spaghetti, “O Dólar Furado” (Giorgio Ferroni, 1965) e com dois cult movies — “Une Partie de Campagne” (Jean Renoir, 1936) e “Bom Dia” (Yasujiro Ozu, 1959). Sem esquecer “O Homem Errado” (Alfred Hitchcock, 1956), “Stult” (Fome, de Henning Carlsen, 1965), “O Mordomo da Rede Gap” (Leo McCarey, 1936), “O Paraíso de um Homem” (Frank Borsage, 1933) e “No Rastro da Bruxa Vermelha” (Edward Ludwig, 1948).

No que diz respeito ao filme de McCarey, caso já não seja considerado de domínio público, a cobrança de direitos autorais poderá impedir a difusão de “La Noche Está Marchándose Ya” em redes de cinemas comerciais, na TV e no streaming. Afinal, o que vemos não é apenas um fragmento, mas sim, sequência em que o ator Charles Laughton recita o famoso Discurso de Gettysburg, proferido por Abraham Lincoln na consagração de cemitério de mesmo nome, em novembro de 1863.

“La Noche Está Marchándose Ya” tem como protagonista Pelu (Octávio Bertoni), trabalhador humilde de um cineclube. Ele cuida da projeção de filmes no espaço frequentado-cultivado pelos cinéfilos e mantido pelo poder municipal.

A sede do templo-cenário do filme, localizada na cidade de Córdoba, é de imensa beleza arquitetônica e guarda muitas memórias e afetos. Porém, com os novos ventos que sopram sobre a Argentina, a ordem dominante é explícita: privatizar ou encontrar formas de gerar lucros em todos os espaços públicos. Pelu tem duas alternativas: aceitar sua demissão, ou assumir o cargo de vigilante noturno do Cineclube. Ele escolherá, claro, continuar empregado.

Já devidamente uniformizado, o vigia noturno irá exercer seu novo ofício, com sua inseparável lanterna. Transformará o cinema em seu novo lar. E, claro, projetará filmes para seu deleite solitário. Até que, aos poucos, suas noites de vigília se transformarão com a chegada de outros deserdados da crise argentina. Uma pequena comunidade noturna se formará dentro da espaçosa edificação que abriga o cinema, tão logo ele encerre suas funções diárias.

Os “novos inquilinos” são flanelinhas em busca de abrigo. Eles também passarão a curtir os filmes exibidos nas madrugadas por Pelu. Ou aproveitarão o quentinho do cinema para dormir. Outra “visitante” se fará notar, a jovem e curvilínea Vale (Juana Oviedo), que aproveitará a beleza do lugar para gravar vídeos eróticos. Que serão monetizados em plataforma específica. Ela até propõe socializar parte dos lucros com Pelu.

O filme de Ramiro e Ezequiel nasceu para cultivar a cinefilia. Por sorte, dirige seu olhar, também, ao mundo do trabalho, cada vez mais precarizado. Pelu e seus amigos exercerão a fraternidade do encontro e saberão criar uma comunidade, mesmo que improvável, dentro do espaço público.

Os novos tempos — vitoriosos desde o triunfo de Javier Milei — cobrarão novos cortes de pessoal. Mais arrocho. E, em consequência, a valorização do individualismo e de sua busca desenfreada pelo êxito pessoal. Sem esquecer o culto ao lucro. O administrador do local anunciará tempos ainda mais duros.

Que destino espera por Pelu? Ele se transformará em mais um integrante do ‘precariado’ urbano? Ou num desvalido do lumpem-proletariado? Quem assistir ao filme, descobrirá.

“La Noche Está Marchándose Ya”, de Ramiro Sonzini e Ezequiel Salinas

“Quase Inverno”, décimo longa-metragem (somando documentários e ficções) de Rodrigo Grota, mobilizou a maior plateia da mostra competitiva de longas brasileiros do Olhar de Cinema.

O cineasta, nascido no interior de São Paulo há 46 anos, escolheu Londrina como cidade adotiva. E nela, em sua zona rural, realizou seu filme. “Quase inverno” é um drama histórico, ambientado em zona cafeeira, de terra roxa, na década de 1970.

O país vive sob ditadura militar e os protagonistas de “Quase Inverno” são membros de família que une a matriarca Esther (Esther Góes) aos filhos Ariel (Guilherme Kirchheim), Catarina (Ondina Clain),  Elena (Simone Iliescu) e Valentina (Luiza Quinteros). Em torno deles gravitam personagens interpretados por Fernando Alves Pinto, Sabrina Greve, Erom Cordeiro e  José Maschio.

Londrina estava, naqueles anos do Governo Geisel, imersa nas consequências da Geada de 1975, que traria inúmeros problemas econômicos às famílias cafeeiras. Nesse contexto se dará o encontro de “Três Irmãs” (como na famosa peça teatral de Tchecov), que mantinham esparsas e esgarçadas relações afetivas. A mais velha, Catarina, é atriz, bela e vaidosa. A do meio, Elena, é pesquisadora química, e a caçula vive imersa em seu pequeno mundo, apegada à mãe, atormentada por graves problemas de saúde.

Militares, em jipe verde-escuro, visitam a fazenda. A presença deles traz à tona questões e segredos do passado. Mas o pano de fundo histórico será mostrado de maneira sútil. O que interessa mesmo ao diretor, roteirista (em parceria com Roberta Takamatsu) e montador (com João Vítor Moreno), é mergulhar na vida interior de suas personagens. Principalmente as três irmãs. Cada uma delas ganhará substantivo monólogo, que será dito, sem preocupação com o tempo, como se a fazenda fosse um palco.

Grota não esconde a origem teatral de sua principal fonte de inspiração, o texto tchecoviano. Nem a origem de suas atrizes. As duas irmãs adultas passaram pelo CPT-Sesc (Centro de Pesquisa Teatral), criado por Antunes Filho. A matriarca interpretada por Esther Góes veio do Teatro Oficina, de José Celso Martinez Corrêa. Guilherme Kirchheim, ator londrinense, trabalha, na Itália, em grupo que cultiva os ensinamentos do Teatro Laboratório de Grotowski.

Outra fonte assumida, o cinema de Ingmar Bergman, se faz notar na concepção do filme, no rosto das atrizes, na composição dos quadros, em citações delicadas (como a da Pietà de “Gritos e Sussurros”). Embora tenha alma teatral, “Quase Inverno” não esconde sua preocupação com sua camada visual. Não se encerra entre quatro paredes. São muitas as imagens externas da fazenda, a exuberância da paisagem, mesmo que invernal, a imponência de grandes árvores (em especial, uma de imensas raízes, onde a jovem Valentina se refugia em seus devaneios).

No debate que se seguiu à sessão do longa londrinense no Cinema do MON, a emoção das atrizes era visível. Ondina Claus chorou ao evocar o momento em que foi convidada para interpretar Catarina. Ela preparava, junto com seu grupo teatral, montagem das “Três Irmãs”, de Tchecov. Seria Olga (esse é o nome da irmã mais velha concebida pelo dramaturgo russo). Só que, dez dias antes da estreia, vieram a pandemia e suas consequências. Isolamento, máscaras sanitárias, teatros e cinema fechados. E morte de amigos. Um deles, o colega Sergio Mamberti.

Depois de conter as lágrimas, a atriz lembrou o momento em foi possível voltar aos palcos. E filmar, sob o comando de Rodrigo Grota, “Quase Inverno”. A vida voltou a pulsar em sua plenitude.

Ondina lembrou que não havia contracenado com os colegas de elenco mobilizados pelo filme paranaense. “Trabalhamos, Simone (Iliescu) e eu, com Antunes Filho, mas em tempos diferentes. Foi uma experiência muito enriquecedora para todos nós, que fizemos trabalhos de mesa com Grota e pudemos mergulhar nos espaços da fazenda-cenário”.

Simone Iliescu também destacou a experiência com Grota, com quem já fizera três filmes, e lembrou que ele recomendou às suas atrizes que assistissem a determinados longas-metragens. O principal foi “Os Encontros de Anna”, de Chantal Akerman, no qual uma cineasta percorre cidades para promover seu filme mais recente. E aproveita para refletir sobre deslocamento, identidade sexual e relações mãe-filha.

Grota contou, então, que ouvira de uma terapeuta que a vida, muitas vezes, é feita de “encontros e não de relações”. Ou seja, de contatos breves, que não geram relações profundas. “Depois dos 50 primeiros minutos de conversa com a terapeuta, eu fui embora. E não voltei mais. Então, mantivemos um encontro, não uma relação”. Já no filme, o cineasta quis que relações se aprofundassem, não se reduzissem a meros encontros.

Como o diretor londrinense vem de experiências visuais muito fortes (seja em seus filmes, caso de “Satori Uso”, seja em projetos gráficos, como livros), ele discutiu longamente a fotografia de “Quase Inverno” com o responsável pelas imagens, Anderson Craveiro, e com o diretor de arte Oswaldo Lioi.

“Estudamos, juntos” — testemunhou —, “o visual de ‘Sonata de Outono’, ‘Atrás do Espelho’ e ‘Gritos e Sussurros’”. E também “‘Duas Inglesas e o Amor’, de Truffaut, e ‘Cinzas no Paraíso’, de Terrence Malick, ambos fotografados por Nestor Almendros”.

Para arrematar: “Nossa intenção era acessar o mundo interno das personagens, colar na pele delas em busca do metafísico. Claro que há momentos em que as personagens falam muito (caso dos três monólogos), mas o filme tem, também, seus momentos de silêncio”.

Restará aos espectadores decidir se Grota e seu elenco construíram trama orgânica e capaz de estabelecer comunicação com terceiros. Se este filme, que flerta abertamente com o cinema metafísico de Bergman e com o teatro de Tchevov, conseguiu aclimatar-se à zona rural de Londrina, em ano de geada que dizimou cafezais e desestruturou vidas.

Nos aspectos técnicos, o filme resultou em verdadeiro prodígio. A produção dispôs de modestos R$ 1.250.000,00 para realizar um longa-metragem de época, com grande elenco, locações complexas e jogo de espelhos. São muitas as imagens refletidas nos espelhos que ornamentam a fazenda de Dona Esther, suas filhas e seu filho Ariel.

Com a grana consumida em “Dark Horse”, tumultuada produção da família Bolsonaro e de seus cúmplices, a trupe londrinense de “Quase Inverno” realizaria uns 50 longas-metragens.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.