Cinemateca exibe “O Manuscrito de Saragoça”, “Os Feiticeiros Inocentes” e filme-tributo de Wajda a Zbigniew Cybulski
Foto: Zbigniew Cybulski em “O Manuscrito de Saragoça”, de Wojciech Has
Por Maria do Rosário Caetano
O ator Zbigniew Cybulski é o protagonista absoluto de “Cinzas e Diamantes”, obra máxima de Andrzej Wajda e um dos filmes de cabeceira de Francis Ford Coppola, que o colocou em sua lista dos “dez mais” solicitada pela revista britânica Sigth & Sound.
Os cinéfilos paulistanos terão, nesse mês de agosto, a chance de assistirem a três filmes do grande ator, conhecido como “o James Dean da Polônia”. Dois com ele no elenco. Um, fruto de tributo de Wajda a um de seus intérpretes preferidos.
O aposto que aproxima Cybulski de Dean é mais que pertinente. Os dois eram donos de beleza magnetizante, carisma e talento raros. E ambos morreram de forma trágica. Dean, em 1955, num acidente de carro. Tinha 24 anos. Zbigniew Cybulski em 1967, aos 39, num acidente de trem. Ambos estavam no auge de suas carreiras. Eram ídolos populares.
A Cinemateca Brasileira exibe nessa quinta-feira, 6 de agosto, na quinta edição da Mostra SAC (Sociedade de Amigos da Cinemateca), o longa “O Manuscrito de Saragoça”, de Wojciech Has, baseado em livro do Conde Jan Potoccki (1761-1815). O narrador o criou sob influência das “Mil e Uma Noites” árabes e do “Decameron” italiano. Um romance definido como um dos momentos mais notáveis do “gótico europeu”.
Livro e filme compõem narrativa fabular dessas que encantam gerações. E que, por sorte, encantaram Coppola e Martin Scorsese. Os dois grandes cineastas norte-americanos ajudaram a restaurá-lo em 2001. Aí o filme, realizado pela Polônia em 1965 (o livro é de 1815), renasceu. No Brasil, causou sensação no Olhar de Cinema curitibano, que, alguns anos atrás, o programou em seu segmento dedicado aos clássicos.
Além de “O Manuscrito de Saragoça”, a Cinemateca Brasileira vai exibir Mostra de Filmes Raros de Andrzej Wajda (1926-2016), cujo centenário vem sendo comemorado mundo a fora. De 14 a 16 de agosto (sexta a domingo) serão exibidos seis filmes do realizador polonês. Os mais raros. Dois deles têm Zbigniew Cybulski como ator (“Os Feiticeiros Inocentes”) e “personagem” ou razão de ser (“Tudo à Venda”, 1968).
Agnieska Drewno, pesquisadora do cinema polonês, definiu, no catálogo do Olhar de Cinema deste ano, “Os Feiticeiros Inocentes” como “um filme que traz a melancolia urbana e o romantismo da solidão” tão presentes na obra do realizador nascido em Suwalki. “Wajda capturou a essência da juventude de Varsóvia, cercada pelo jazz, lambretas e um tédio intelectual que remete à Nouvelle Vague francesa”. E mais: “sob a máscara de cinismo e indiferença do protagonista, esconde-se um desejo tipicamente romântico de conexão humana e de algo que dê sentido à sua vida”.
A pesquisadora polonesa – depois de lembrar que Scorsese (sempre ele, tão apaixonado pelos cinemas do mundo!) define “Os Feiticeiros Inocentes” como “uma obra-prima” – acrescenta: “um filme minimalista e comovente, com trilha sonora de Krzystof Komeda”, capaz de “nos mostrar a história de uma única noite, durante a qual nasce uma complexa relação entre dois jovens. O flerte, o jogo de aparências e as emoções ocultas criam tensão, revelando o medo da intimidade”.
Neste filme, Zbigniew Cybulski não está na linha de frente do elenco. Ele, que estreara no primeiro longa-metragem de Wajda, início de sua Trilogia da Guerra (“Geração”, de 1955, seguido de “Kanal”, 1957, e “Cinzas e Diamantes”, 1958) só se transformaria num astro internacional com este último.
A maior raridade da Mostra de Wajda, maior cineasta da história polonesa (junto com Krzystof Kieslowski) é “Tudo à Venda”. Trata-se de um filme sobre o desaparecimento trágico de Zbigniew Cybulski.
Depois de tornar-se um astro graças à repercussão nacional e internacional de “Cinzas e Diamantes”, o ator passou a ser requisitado para filmes com outros diretores, para montagens teatrais e TV. É nesse contexto que ele irá protagonizar “O Manuscrito de Saragoça”, outro projeto de imenso alcance gerado no Leste Europeu. Mas, num país socialista, um astro não andava num Porsche 550 Spyder prateado, forrado de vermelho, como o que levara James Dean à morte.
Apesar de famosérrimo, Zbigniew Cybulski andava de trem. E foi ao saltar de um deles, que ele encontrou a morte. E seu fim trágico deixou esposa, amigos e Wajda em estado de choque. E seus fãs, claro, que eram milhares. Ainda no calor da hora (o ator veio a óbito em janeiro de 1967, Wajda quis homenagear o amigo e ator-fetiche com um filme.

No emblemático ano de 1968, fez “Tudo à Venda”, produção de título misterioso, definida por Agnieska Drewno como “um dos filmes mais pessoais de Wajda”. Pois serviu “como forma artística de lidar com a morte de Zbigniew Cybulski”.
Para exorcizar a dor da perda, o cineasta construiu um longa-metragem metalinguístico. Tudo começa com imagens “documentais” em preto-e-branco, que mostram uma pessoa caindo de um trem em movimento. Corte. Aí veremos, em cores, uma equipe de filmagem posta em processo de espera. Só que o esperado (e procurado por todos os lugares), o ator Zbigniew Cybulski não aparece. Para angústia do realizador, de sua própria esposa e da esposa do protagonista de “Cinzas e Diamantes”.
O tempo passa e o ator segue sem dar pistas. Até que duas mulheres, a esposa do cineasta e a esposa do ator, resolvem procurá-lo por todos os cantos. Até serem surpreendidas por notícia radiofônica: Cybulsky está morto, sofrera acidente ao embarcar num trem em movimento, fora socorrido, mas não resistira.
Wajda terá um alter-ego, Andrzej (o ator Andrzej Lapicki) no filme, uma ficção complexa e cheia de camadas. Ele está filmando e o processo já vai pela metade. O ator-protagonista (Zbigniew Cybulski) não apareceu no set. Justo para filmar cena em que ele deveria saltar de um trem em movimento.
A esposa de Andrej Lapicki, Beata (Beata Tyszkiewicz), que já teve um caso com o famoso ator, se une à esposa de Cybulski, a jovem Elzbieta (Elzbieta Czyzewska), para buscá-lo, estivesse ele onde estivesse. Detalhe significativo: Elzbieta já foi casada com o cineasta (complicado, não?). Ambas acreditam que o ator esteja vivo. Até que ouvem a indesejada notícia pelo rádio.
A morte prematura de Zbigniew Cybulski, aos 39 anos, deixou a Polônia em estado de choque. E muitas hipóteses foram levantadas. Ele estaria bêbado? Se estava, por que embarcou em um trem em movimento?
Ou ele teria recorrido ao suicídio? Nesse caso, por que?, se era um astro requisitadíssimo, amado pelo público, que protagonizava filmes e filmes de grande repercussão.
Cybulski havia, em 1965, portanto 12 meses antes de sua morte prematura, interpretado Alfonse van Worden, capitão da guarda Walloon, um aventureiro que teria sua vida narrada ao longo de 183 minutos na superprodução (“O Manuscrito de Saragoça”) dirigida por Wojciech Has.
As peripécias vividas pelo nobre militar, empenhado em cruzar a Serra Morena pelo caminho mais curto, será marcada por muitos contratempos. Bem que ele fora alertado. Por aquele caminho, o belo Capitão teria que enfrentar espíritos malignos, verdadeiras assombrações. Teimoso, ele seguiu pelo trajeto desejado. Marcado pela fantasmagoria, o filme serve como poderosa vitrine audiovisual para a história de Jan Potoccki e para o talento de Zbigniew Cybulski.
Mesmo assim, a tese do suicídio ganhou vulto. Mas qualquer consulta, pela internet, nos responderá que “pelo que se sabe, não há evidências de que a morte de Zbigniew Cybulski tenha sido suicídio”.
A versão “aceita por historiadores e biógrafos é que ele morreu em acidente ferroviário em 8 de janeiro de 1967, na estação principal de Wrocław. Ao tentar embarcar em um trem que já estava em movimento — algo que, segundo relatos de conhecidos, ele costumava fazer — escorregou, caiu sob o trem e sofreu ferimentos fatais”.
E mais: “Documentos da investigação da época, examinados décadas depois por jornalistas e pesquisadores, continuam gerando discussões sobre detalhes do acidente, mas não apontam para suicídio. As controvérsias envolvem circunstâncias do ocorrido (quem estava com ele, seu estado físico, o que aconteceu nos minutos anteriores) não permitem uma conclusão de morte voluntária”.
A IA (Inteligência Artificial) traz detalhadas informações sobre “os rumores e teorias alternativas” que cercaram a morte do protagonista de “Cinzas e Diamantes”. Os rumores teriam surgido, principalmente, porque “a morte de Zbigniew Cybulski foi tão dramática e inesperada, que muita gente teve dificuldade em aceitar a explicação oficial de um simples acidente”.
Daí o surgimento dos principais fatores que alimentaram especulações:
1. “Sua personalidade intensa e impulsiva” – Cybulski tinha fama de viver com pressa, dormir pouco, assumir muitos compromissos e frequentemente correr para pegar trens no último instante. Amigos relatavam que ele realmente tinha o hábito de embarcar em trens já em movimento. Isso levou alguns a questionarem se, naquela madrugada, havia algo mais por trás do comportamento.
2. “Incertezas sobre seus últimos momentos” – Décadas depois, jornalistas tiveram acesso a documentos da investigação e depoimentos de testemunhas. Esses documentos esclareceram vários detalhes, mas também mostraram que havia dúvidas na época sobre fatores como seu estado físico e a sequência exata dos acontecimentos. Isso gerou novas discussões históricas.
3. “A questão do álcool” – Um dos pontos mais debatidos é que documentos posteriores mencionaram uma taxa muito alta de álcool no sangue. Alguns pesquisadores consideraram esse dado estranho, porque testemunhas descreveram Cybulski como alguém que conseguia conversar e se deslocar normalmente pouco antes do acidente. Essa discrepância alimentou controvérsias, embora não tenha produzido evidências de suicídio.
4. “A criação de uma lenda cultural – Cybulski era visto como o ‘James Dean polonês'” – Ao morrer aos 39 anos, no auge da fama, em circunstâncias cinematográficas: correndo para um trem, de madrugada, após uma noite de trabalho e encontros com amigos. Com o passar dos anos, essa imagem acabou gerando interpretações romantizadas e teorias alternativas.
Para concluir: “O que é importante destacar é que as investigações da época concluíram que se tratou de um acidente ferroviário, não de suicídio, nem de homicídio. Os debates posteriores concentraram-se em detalhes do acidente, não em evidências de intenção suicida”. Mas, “curiosamente, alguns biógrafos observam que ele fazia planos profissionais para os meses seguintes e mantinha vários projetos em andamento, algo que também pesa contra a hipótese de suicídio deliberado. Embora isso não prove nada de forma absoluta, reforça a visão predominante de que sua morte foi acidental”.
Mostra de Filmes Raros de Wajda
Data: 14 a 16 de agosto
Local: Cinemateca Brasileira
Entrada: franca
O MANUSCRITO DE SARAGOÇA
Polônia, 1965, 183 minutos
Direção: Wojciech Has
Roteiro: baseado no livro do Jan Potoccki
Nessa quinta-feira, 6 de agosto, na V Mostra SAC (Sociedade de Amigos da Cinemateca
Elenco: Zbigniew Cybulski e grande elenco
Horário: 19h00
OS FEITICEIROS INOCENTES
Polônia, 1960, 83 minutos
Direção: Andrzej Wajda
Roteiro: Jerzy Skolimpowski e Jerzy Andrzejewski
Elenco: Tadeusz Lomnicki, Krystyna Srypukpwska, Wanda Koczska, Kalina Jedrusik e Zbigniew Cybulski
TUDO À VENDA
Polônia, 1968, 94 minutos
Direção: Andrezj Wajda
Elenco: Beata Tyszkiewicz, Elzbieta Czyzewska, Andrzej Lapicki, Daniel Olbrychski, Malgorzata Potocka, Witold Holtz
Filme realizado por Wajda para lidar com a morte de Zbigniew Cybulski
