Entrevista: para Christian de Castro, regionalização do FSA é fundamental
Castro (1º à esq.), durante assinatura do acordo com o BNB

As duas vagas que ainda estavam pendentes na diretoria da Agência Nacional do Cinema (Ancine) foram ocupadas, no dia 20 de outubro, com a nomeação de Alex Braga Muniz – que já trabalhava como procurador-chefe da Procuradoria Federal na agência – e Christian de Castro, que atua no setor audiovisual desde o final dos anos 1990, especialmente, como consultor financeiro e produtor. Para a sua palestra no 3º Mercado Audiovisual do Nordeste (MAN), realizada no primeiro dia do evento, em Fortaleza, Castro foi convidado a falar sobre a regulamentação do vídeo sob demanda (VoD) no Brasil e as discussões sobre a Condecine, que deverá incidir sobre os players desse segmento. Além de enfatizar a importância de trazer empresas do porte da Netflix e da Amazon para investirem no mercado nacional, o novo diretor reforçou que, neste primeiro momento, as cotas para o conteúdo brasileiro nessas plataformas ainda não serão discutidas pelo grupo de trabalho que está analisando a questão das taxas. Tal discurso se mostrou plenamente alinhado com as últimas entrevistas e palestras proferidas pelo ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, de quem Castro é bastante próximo desde o começo da sua carreira.

Nesta entrevista para a Revista de CINEMA, ele falou sobre a regionalização dos recursos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) e o papel dos bancos locais para agilizar os processos de fluidez e desburocratização, a exemplo do termo que foi firmado pela Ancine com o Banco do Nordeste, durante o 3º MAN.

Na foto, Christian de Castro (o primeiro à esquerda) está ao lado de Fabiano Piuba (Secult-CE), Marcos Holanda (BNB), Débora Ivanov (Ancine), Inácio Arruda (Secitece), Wolney Oliveira (CONNE), Fernanda Farah (BNDES) e Alex Braga Muniz (Ancine), no momento da assinatura do acordo com o Banco do Nordeste (BNB).

 

Revista de CINEMA – Ao longo da sua palestra, você mencionou a sua trajetória no mercado financeiro e na produção de longas-metragens, assim como a transição para a diretoria da Ancine nas últimas semanas. Poderia detalhar melhor quais são os seus desafios ao entrar para uma agência reguladora e o que pretende fazer nos próximos quatro anos de mandato como diretor?

Christian de Castro – O desafio é trazer essa visão do mercado privado para dentro da agência, com o objetivo de simplificar os processos. Eu sou um cara do mercado financeiro, mas também trabalhei com governança e gestão, capacitando empresas.

Revista de CINEMA – Você chegou a atuar na RioFilme também, não é?

Christian de Castro – Sim, na estruturação daquele modelo de negócio, com o Sérgio Sá Leitão. Eu fui assessor do Sérgio na primeira passagem dele pela Ancine, na estruturação do Fundo Setorial do Audiovisual, participei daquele grupo de trabalho, naquele primeiro minuto do PL 29. Quando o Sérgio foi para a RioFilme, ele me convidou para ir junto e nós montamos aquele modelo de negócio, que, no fundo, era um asset manager de conteúdo, um gestor de conteúdo. Deixou de ser aquele modelo de negócio de distribuidora – que era o que funcionava até então e que não precisava, não tinha mais razão de ser – para virar realmente um indutor, uma agência de desenvolvimento do mercado audiovisual carioca. Fiquei pouco tempo, até a máquina rodar, e saí. Com a minha empresa de consultoria, que eu tinha até antes de entrar na Ancine, fui trabalhando justamente em governança, gestão e planejamento estratégico de empresas, trazendo isso para dentro da agência, com o objetivo de olhar para a simplificação dos processos e trazer mais dinheiro, procurar estimular o investidor privado a entrar nesse mercado de uma maneira mais firme. Porque a partir do momento em que a gente simplifica os processos da agência, nós damos previsibilidade para a execução e conseguimos trazer o privado.

Revista de CINEMA – Essa nova diretoria que está chegando à Ancine tem um pouco esse perfil, não é? Essa será a linha de atuação?

Christian de Castro – É. A Débora Ivanov vem do mercado. O Alex Braga Muniz, apesar de ser um servidor da Procuradoria, acompanhou todo esse crescimento da agência e tem um embasamento regulatório muito forte, que serve de base para a gente trabalhar a simplificação disso. Ele também vem com essa pegada da simplificação, da desburocratização, o que é muito bom.

Revista de CINEMA – Você também falou na sua palestra que o BRDE não estava conseguindo dar conta de toda a demanda financeira do FSA. Até que ponto esses entraves do banco também acabaram segurando os R$ 3,9 bilhões que ainda estão parados no fundo?

Christian de Castro – Acho que esse é um dos elementos, mas a burocracia do processo acaba travando o dinheiro no meio do caminho. Isso sem dúvida. A forma como o regulamento do FSA foi concebido, é um regulamento muito intrincado, rebuscado, complicando a execução. E isso retarda alguns processos internos. A agência já sabe disso, a própria equipe da Superintendência de Desenvolvimento Econômico sabe quais são os processos que estão mapeados, o fomento já mapeou. Existe um trabalho interno da Ancine, não é nenhuma novidade. Tudo isso já foi identificado e tem sido trabalhado para poder executar mais rápido. Porque nunca teve, né? De uma hora para outra, passa a ter um volume grande. Não é simples você executar um volume grande de dinheiro com segurança, em um mercado em formação, com um monte de empresas novas entrando, sem ter referências dessas empresas. Tem que ter um pouco de segurança e controle, só que hoje a gente já tem reconhecimento do mercado que possibilita chegar e reavaliar certos processos e entender como que a gente pode investir e fazer esse recurso circular de uma maneira mais rápida, eficiente e eficaz.

Revista de CINEMA – Além do Banco do Nordeste, quais são os outros bancos que poderão entrar no processo para também dar maior agilidade?

Christian de Castro – Nós estamos conversando tanto com bancos privados quanto com os bancos públicos. Mas, por enquanto, só o Banco do Nordeste está alinhado. A partir do Banco do Nordeste, a gente espera criar um case para poder conversar com outros e ver como podemos trabalhar.

Revista de CINEMA – Na área da produção, a sua empresa atuou especialmente em Brasília, que faz parte da região CONNE.  Como você vê esse processo de regionalização dos recursos do FSA?

Christian de Castro – É fundamental. A gente ter firmado esse termo de intenções com o Banco do Nordeste é fundamental na agilidade, porque ele conhece os players locais, a forma de lidar localmente. É mais fácil executar no Nordeste com um banco do Nordeste, com essa região fora do eixo. Daqui para frente, com a execução sendo mais fluida, isso passa por uma capacitação dos produtores e dos empreendedores locais. Acho que um evento como este [o 3º Mercado Audiovisual do Nordeste] é muito importante. Quando a gente traz uma equipe da Ancine, com os caras que sabem tudo, para passar uma tarde explicando como funciona o processo, respondendo dúvidas, indicando como é que se faz e mostrando os caminhos, acho que, cada vez mais, a gente vai fazendo isso para poder tornar o processo mais fluido. A regionalização passa por isso.

 

Por Belisa Figueiró

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