Margarita Hernández apresenta, no Cine Ceará, face oculta de Che Guevara
Margarita Hernández © Thiago Gaspar

Por Belisa Figueiró, de Fortaleza

A atuação de Che Guevara como líder da tropa cubana que tinha a missão de fazer a revolução em alguns países da África é um dos motes da diretora Margarita Hernández, no filme “Che, Memórias de um Ano Secreto”. A operação ocorreu em plena Guerra Fria, iniciando no final de 1965, quando o guerrilheiro desapareceu do cenário político. No longa-metragem, ela também aborda a sua passagem de seis meses pela República Tcheca, antes de regressar a Cuba e depois se dirigir à Bolívia, onde acabou morrendo, em 1967.

O filme foi exibido fora de competição no 28º Cine Ceará, e a diretora participou de um debate acalorado com a imprensa. Além do próprio tema ser inédito no cinema, as questões da produção também levantaram pontos cruciais sobre como é fazer um documentário que trata de um dos maiores ícones mundiais e os percalços para se filmar em Cuba.

Margarita é cubana, deixou a ilha aos 32 anos e fixou residência no Brasil, onde se casou e teve seus filhos. Uma boa parte de sua família ainda mora por lá e essa proximidade acabou resultando nesse interesse em pesquisar de forma profunda uma parte da história que quase ninguém conhece. As facilidades de acesso aos arquivos e entrevistados, no entanto, foram quase inexistentes, até mesmo para ela.

“Em Cuba, para você filmar e entrevistar as pessoas, você precisa estar vinculado a uma pessoa jurídica. No caso do meu filme, eu me associei ao ICAIC [Instituto Cubano del Arte e Industria Cinematográficos], mas mesmo assim eles não conseguiram me ajudar a ter acesso a todas as pessoas que tinham participado da operação. Então, eu tive que fazer via Brasil, oficialmente”, relata a diretora.

Para essa intermediação, ela contou com o Ministério das Relações Exteriores brasileiro, que acionou o ministério cubano e, só então, foi possível marcar as entrevistas em vídeo que faltavam ser realizadas na ilha, com os funcionários de alto escalão. Esse processo durou mais ou menos um ano. Enquanto isso, ela seguia com as outras entrevistas e a busca de material em Cuba e na Europa.

Como Che Guevara passou um bom tempo na República Tcheca, existe um arquivo bem vasto de materiais da época. Margarita conta que ficou bastante surpresa com a organização e a importância dos documentos. Ela fez entrevistas por lá e gravou alguns planos em Praga, tentando refazer os passos de Che pela cidade.

Antes de chegar à Europa, Che Guevara passou por um processo de “mascaramento” na África, encomendado pelo governo cubano, para que ele pudesse se disfarçar e circular sem ser identificado pelas autoridades locais, ou ainda pela CIA ou a KGB. Para essa missão, foi enviado um cirurgião-dentista cubano, especializado em realizar as melhores operações estéticas naqueles anos, chamado Luís Carlos García Gutiérrez, mais conhecido como Fisín. A diretora conseguiu gravar um extenso depoimento dele, no qual detalha como foi todo o processo de transformação. Fisín morreu em 2015 e não pode acompanhar o resto das filmagens e nem ver o corte final da obra.

Acervo dos arquivos

Para ilustrar esse e outros depoimentos, Margarita contou com amplo material garimpado no Centro de Estudios Che Guevara, nos arquivos audiovisuais do ICAIC, no francês Institut National de l’Audiovisuel (INA), entre outros. No debate, ela relatou que o INA e o ICAIC inclusive selaram um acordo para restaurar muitas imagens daquela época, que hoje estão disponíveis nos dois institutos. Em Cuba, porém, o acesso ao material é muito mais barato do que na França. Em alguns casos, a minutagem de arquivo do INA pode chegar a mais de 3 mil euros, segundo a diretora.

Nessa pesquisa, ela também encontrou fotografias e documentos inéditos da época. Nem todo esse material foi aproveitado no documentário, mas ela pretende transformá-lo em uma série de televisão, com ao menos cinco episódios, para dar conta de tudo o que conseguiu coletar. No filme, ela estima que 50% das cenas são com base no material de pesquisa e a outra metade é composta de planos atuais e entrevistas realizadas por ela.

Coprodução e festivais

Mesmo tendo apoio do ICAIC, “Che, Memórias de um Ano Secreto” não é uma coprodução com Cuba. O instituto apenas prestou um serviço local. A coprodução se deu de fato com a Argentina, via Programa Ibermedia, fechando um contrato de 30% de participação patrimonial e artística. A produtora responsável foi a Cinema 7 Filmes, que se encarregou, especialmente, da pós-produção da imagem e do som, e algumas entrevistas restantes. Ao todo, o orçamento do filme é de R$ 1,2 milhão.

No Brasil, o filme tem coprodução do Canal Brasil e deverá ser exibido no ano que vem, depois do lançamento nos cinemas, que vai ocorrer pela distribuidora ArtHouse, do Rio de Janeiro. O circuito de festivais começou no É Tudo Verdade, em abril, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Depois do Cine Ceará, poderá ainda ser exibido no Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano, em Havana. Os cubanos ainda não tiveram acesso ao filme e, se essa exibição se confirmar, será a primeira vez que eles assistirão a essas imagens e depoimentos inéditos.

No mercado internacional, o filme ainda não tem um agente de vendas. A partir dessa difusão nos próximos festivais, Margarita espera conseguir encontrar um comprador que possa levar o documentário aos cinemas e canais de televisão europeus. Mas como se trata de um filme sobre Che Guevara, por mais que seja um tema ainda desconhecido do grande público, ela acredita que não será fácil abrir as fronteiras.

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