Oscar 2019 revela o imperdível “Absorvendo o Tabu”

Foram tantas as polêmicas que se seguiram à cerimônia do Oscar 2019, que o triunfo de um filme muito especial – o documentário “Absorvendo o Tabu”, da norte-americana, de origem iraniana, Rayka Zehtabchi – acabou relativamente obscurecido. Mesmo que sua equipe, totalmente feminina, tenha feito a maior festa ao receber a estatueta de melhor documentário de curta-metragem, no palco do Dolby Theatre de Los Angeles, na madrugada do domingo, 24 de fevereiro.

E, afinal de contas, o que tem de tão especial o curta “Absorvendo o Tabu” (no original “Period. End of Sentence”, em tradução livre: “Período Menstrual. Ponto Final”)?

Tem muitos e notáveis méritos. A começar pela originalidade de seu tema: a necessidade de uso de absorventes íntimos por mulheres pobres em idade fértil, naqueles dias em que as regras se impõem.

Como usá-los, num país do tamanho da Índia (mais de um bilhão de habitantes, em vias de superar a população chinesa), onde o assunto é tabu e comunidades carentes não dispõem de recursos para adquirir pacotes de “modess” fabricados por grandes empresas?

Pois procurem na Netflix o documentário de sintéticos 25 minutos, que, em português, ganhou o belo e potente título de “Absorvendo o Tabu”. Menstruação e absorvente íntimo são palavras-chave nas belas sequências que abrem o filme. Jovens contam que chegaram a abandonar a escola por causa do período menstrual. Com o sangramento mensal e sem ter como absorvê-lo, sentiam-se humilhadas a ponto de preferirem deixar a instituição educacional (muitas residiam em lugares distantes e, às vezes, não dispunham nem de banheiros para se lavarem/trocarem). Outras confirmam a impossibilidade de comprar absorventes nas farmácias, devido ao alto custo. Há, ainda, aquelas que ficam coradas ou mudas ao serem indagadas sobre o ciclo menstrual. Um tema tabu.

Os rapazes indianos, então, mostram total desconhecimento sobre as regras femininas, parte da natureza de toda mulher em fase fértil. Primeiro, eles fogem do assunto. Alguns nem se arriscam a esboçar resposta frente ao tema em foco. Um dos raros a ter algo a dizer garante tratar-se de “uma doença de mulheres”.

A jovem diretora Rayka Zehtabchi e sua pequena equipe registram tudo com uma câmera envolvente e com a profusão de cores da Índia. Focam no rosto dos entrevistados, mostrando pessoas envergonhadas, olhos de espanto, pudor total na abordagem de assuntos ligados ao sexo.

O documentário ganha novo rumo – sem temer o desempenho de papel de utilidade pública – ao entrevistar um engenheiro indiano (Arunachalam Murunantham), inventor de máquina muito simples (e portátil), que fabrica absorventes íntimos a baixíssimo custo.

Nesta altura da narrativa, já sabemos que apenas 10% da população pobre do imenso país asiático usa absorventes. Muitas mulheres recorrem a panos improvisados e, até, papel-jornal para conter o sangramento mensal. Tudo em precaríssimas condições sanitárias.

Antes de entrarmos na segunda parte do filme, vale lembrar sua origem. Uma professora de colégio norte-americano, Melissa Berton, costumava encaminhar suas alunas para o enfrentamento de desafios sociais. Um deles as levou à questão do baixíssimo uso de absorventes íntimos por mulheres indianas. Afinal, no país de Ghandi, há, inclusive, templos religiosos que não recebem mulheres menstruadas por entender que, durante as regras, elas estão “sujas”. Fora este grave problema, de consequências trágicas para a autoestima da mulher, há a tragédia financeira. Como comprar absorvente quando o que se tem mal dá para alimentar a família?

Melissa Berton resolveu produzir com suas alunas, graças ao croundfounding (vaquinha), o seminal “Absorvendo o Tabu”. Para dirigi-lo, convidaram Rayka, que apaixonou-se pela causa. A trupe feminina saiu filmando por comunidades pobres da Índia. Mas ninguém pense que o problema estava circunscrito aos grotões asiáticos. Não. A região que ambienta o filme fica a míseros 60 km de Nova Déli, a capital indiana.

Com a inovadora máquina de fabricação de absorventes à mão (e um pouco de algodão, uma tira de plástico e invólucro para acondicionar o material), a equipe registrou o treinamento de um grupo de mulheres. Elas aprenderam logo a fabricar o inusitado e tão útil produto. E, claro, a utilizá-lo e a vendê-lo a preços camaradas a centenas de outras mulhres.

Espectadoras e espectadores brasileiros, não percam tempo, sintonizem a Netflix para apreciar este filme único, que a Academia fez muito bem em premiar. E informem-se sobre “The Pad Project”, que segue, pelo mundo, divulgando a inovadora máquina de Murunantham, que tanto conforto traz às mulheres naqueles dias em que elas sangram.

 

Absorvendo o Tabu / Period. End of Sentence
EUA, 25 minutos, 2018
Direção: Rayka Zehtabchi
Produção: Melissa Berton (The Pad Project)
Na Netflix

 

Por Maria do Rosário Caetano

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