“Greta” mostra Marco Nanini nu e em ardentes cenas de sexo homoafetivo
Marco Nanini © Rogério Resende

Por Maria do Rosário Caetano, de Fortaleza (CE)

O Cine São Luiz estava lotado na sétima e última noite da competição ibero-americana. Todos queriam ver Marco Nanini, o protagonista de “Greta”, na pele de um septuagenário enfermeiro homoafetivo.

O filme, longa-metragem de estreia do cearense Armando Praça, estreou na mostra Panorama do Festival de Berlim, e agora concorre ao Troféu Mucuripe, na principal competição do Cine Ceará.

Nanini, que por 13 anos interpretou o comportado Lineu, o pai da “Grande Família”, se expõe por inteiro no filme cearense. Aparece nu e em tórridas cenas de amor homossexual. Aos 71 anos, ele, que é um dos nomes mais prestigiados da TV Globo, teve coragem de correr todos os riscos. Primeiro, de expor-se num papel complexo, o de um velho e solitário homossexual, apaixonado por Greta Garbo. Segundo, por atuar sob a direção de um estreante cearense, num filme de baixo-orçamento e rodado integralmente em Fortaleza.

“Greta” é uma adaptação muito livre de um dos maiores êxitos comerciais do teatro brasileiro da década de 1970: “Greta Garbo, Quem Diria, Acabou no Irajá”, de Fernando Melo.

Na peça original, Pedro, um enfermeiro homossexual já entrado nos anos e apaixonado pela deusa de Hollywood Greta Garbo (1905-1990), recebia em sua casa um jovem, Renato, cujo sonho era estudar Medicina. O estilo de Fernando Melo e de muitas equipes que encenaram o texto, era de comédia rasgada. O protagonista apresentava-se como o protótipo da “bicha louca” (o personagem teve em Nestor de Montemar seu mais histriônico intérprete).

Armando Praça, autor do roteiro, fez grandes alterações na trama, por considerá-la anacrônica. Passados mais de 40 anos, a conquista de direitos dos homossexuais é evidente (embora o Brasil viva agora sob governo hostil ao movimento LGBT). Não há porque reforçar a imagem de homossexuais como seres caricatos. O cineasta aposta na complexidade, na nuance, nos sentimentos. E Marco Nanini tem performance formidável.

A principal modificação do filme em relação à peça de Fernando Melo diz respeito ao jovem que o enfermeiro abrigará em sua casa. Ao invés de um rapaz interiorano, que quer estudar Medicina, surge Jean (o ator cearense Démick Lopes), que acaba de cometer um crime. Matou e foi ferido. Vai parar no hospital onde trabalha o enfermeiro Pedro. A outra modificação, também relevante, está no tom: a comédia rasgada transforma-se em drama de fundo social, banhado em melancolia e dor (mas com final esperançoso). E com muitas cenas de nu e sexo (quase, mas nunca explícito).

A sueca Greta Garbo, musa da peça e do longa cearense, transformou-se na atriz mais bem paga de Hollywood. Depois de protagonizar filmes como “Grande Hotel”, “Anna Karenina” e “Ninotchka” e tornar-se um ícone de celulóide, ela abandonou os sets. Tinha apenas 36 anos. Preferiu o anonimato. Não foi buscar nem o Oscar honorário com o qual a Academia de Hollywood a distingiu, em 1954. Preferiu viver reclusa até sua morte.

O sonho do enfermeiro Pedro é ser Greta Garbo. Por isto, o filme reserva um final tocante à fugidia estrela (vista na tela em cenas de ensaio, adquiridas pelos produtores) e a seu fã Pedro.

“Greta” chegará aos cinemas (estreia agendada para 10 de outubro) com recomendação etária para maiores de 18 anos. Além destes nossos perturbadores tempos de moral conservadora, o filme deve causar espécie por não fazer concessões. As cenas de sexo entre Pedro e Jean (e também numa sauna gay) são tórridas.

Além de Nanini e Démick, o filme conta com poderosa participação da atriz Denise Weinberg, durante anos a primeira dama do Tapa, importante companhia teatral brasileira. Ela interpreta Daniela, uma cantora de enfumaçada casa noturna, amiga muito querida de Pedro. Com graves problemas de saúde, ela necessita de urgente internação. Mas não quer terminar seus dias num hospital. Seu desejo de morrer no palco ou em casa será fundamental à trama, pois colocará o marginal Jean na casa do enfermeiro.

A atriz trans Gretta Sttar faz participação especial (e importante) na trama, concentrada em poucos atores. O curioso na presença destas duas mulheres, é que a cisgênero Denise Weinberg faz uma cantora trans (arrebatadora em sequência em que interpreta “Bate Coração”, megassucesso de Elba Ramalho) e Gretta, que é trans, faz personagem cisgênero (Meire, amante do personagem de Démick Lopes).

Equipe e elenco de "Greta", no debate do filme © Rogério Resende

No debate do filme, Denise lembrou que fizera, com Gretta, um curta-metragem (“Os Sapatos de Aristeu”, de Renê Guerra) e que o filme, visto por Armando Praça, uniu as duas mais uma vez. Já Gretta, que se definiu como “integrante da segunda geração de trans que fizeram carreira internacional”, arrancou aplausos e risos ao falar de sua personagem. “Minhas amigas, na Europa, viram o filme em Berlim ou na Itália. Adoraram. Então perguntei: e da minha participação? Vocês não vão dizer nada?” Então elas disseram: “você está horrível, um lixo”.

Denise completou: “eu fui montada para interpretar Daniela e você foi desmontada para fazer a Meire”. Ao que Gretta adicionou: “adorei o desafio, pois pude mostrar que posso interpretar qualquer papel. Apareço totalmente desglamurizada, mas desconto nos palcos dos festivais e pré-estreias, com muito glamour. O cinema precisa disso também”.

Houve quem, após os efusivos aplausos recebidos por “Greta”, no Cine São Luiz, quando se deu sua première brasileira, visse certa teatralidade na narrativa de Armando Praça. Claro que o filme se passa, em grande parte, dentro de quatro paredes. Mas a calorosa e impactante fotografia de Ivo Lopes Araújo (junto com Petrus Cariry, o maior nome da fotografia cearense) sabe explorar, com maestria, interiores e exteriores. O resultado é notável.

O roteiro, que foi precedido de intensa pesquisa do dia-a-dia de hospitais públicos, saunas e boates gays, é verossímel, com diálogos curtos e certeiros. Os atores — em especial o trio Nanini-Weinberg-Démick — constróem personagens críveis e calorosos.

O filme terá pré-estreia em São Paulo no próximo dia 30, e no Rio, dia 3 de outubro.

Quatro curtas-metragens completaram a competição nacional do Cine Ceará, formada por doze produções. O primeiro, “Rua Augusta, 1029″, um filme-guerrilha, tem como autores militantes de movimentos de moradia, que trabalharam coletivamente com a diretora Mirrah Iañez.

Com pouca luz, filma-se embate entre ocupantes Sem-Teto e um representante do poder constituído, empenhado em desalojá-los. Estes reagem e lembram que o imóvel (de número 1029, na famosa rua paulistana) estava desocupado. E que, dali em diante, exerceria sua função social servindo de moradia a centenas de famílias.

Os representantes do curta paulistano (Mirrah e Daniel Santiago) subiram ao palco com camiseta na qual se lia “Contra a criminalização dos movimentos sociais”. Os dois discursaram, com calma e argumentos, em defesa de moradia popular, lembrando que o curta foi realizado, sem nenhum orçamento, na madrugada de 13 de abril de 2015, quando seis mil famílias ocuparam 18 prédios sem função social. Ou seja, ociosos. Mas as manifestações políticas no Cine Ceará tornaram-se episódicas, e em nada lembraram a noite inaugural, quando o Cine São Luiz ferveu com protestos e slogans contra o governo Bolsonaro e o reitor, terceiro nome da lista, indicado pelo MEC, para comandar a Universidade Federal do Ceará.

O segundo curta — o potiguar “O Grande Amor de um Lobo” — foi representado pelo realizador paraibano Kennel Rogis, que o dirigiu em parceria com Adrianderson Barbosa. “Lobo” é uma produção da Hecco, produtora de Eugenio Puppo, e nasceu de oficina realizada na Mostra de São Miguel do Gostoso, no litoral do Rio Grande do Norte.

A trama registra os sonhos de um jovem gostosense, filho adotivo, que deseja ser ator de cinema. Ele imagina roteiros calcados em tramas de ação ou terror hollywoodianas e se vê como o astro que as protagoniza.

Integrantes do Núcleo Nós do Audiovisual, de São Miguel, dividem-se como atores ou técnicos desta narrativa divertida, que a plateia do Cine São Luiz recebeu com euforia (palmas consagradoras e riso solto).

O terceiro curta chegou de Alagoas: “Ilhas de Calor”, de Ulisses Arthur, jovem cineasta formado pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Com exaltadas, mas envolventes, performances de 18 estudantes-adolescentes, o filme se constrói, todo em versos.

Um dos jovens alunos, homossexual, é assediado por colegas, outros brigam e são vistos em suas relações com os professores. Um deles, professor de Literatura, é também poeta. Aliás, o poema que deu origem ao filme foi escrito pelo cineasta, quando era adolescente: “O amor explodiu/ Dentro de uma das Torres Gêmeas/ E agora voa como o ar/ como poeira/ Procurar por ele é o mesmo que procurar piolho em cabeça de cobra/ Ou cabelo em casca de ovo/…/ Como crateras no oceano/ Somos ilhas de calor”.

O curta cearense “Pop Ritual” é um filme de gênero (horror) e não se constrange em namorar o trash. O diretor Mozart Ferreira funda sua trama na estranha relação entre um padre, que faz experimentos científicos, com um “vampiro” (decalcado do Nosferatu, de Murnau, recriado por Werner Herzog).

Em tom blasfemo, o curta mostra os encontros dos dois personagens como “uma relação alucinada entre o erótico e o sobrenatural”. O realizador contou que foi criado numa família católica e que a mãe tinha imenso respeito por determinado sacerdote. Mas tarde, soube-se que ele era acusado de pedofilia.

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