Brasília aplaude o documentário “O Tempo que Resta”
© Mayangdi Inzaulgarat

Por Maria do Rosário Caetano, de Brasília

Os aplausos foram calorosos e prolongados para o longa documental “O Tempo que Resta”, de Thaís Borges, representante de Brasília na competição nacional. Se Eduardo Coutinho contou a história de um “Cabra Marcado para Morrer”, Thaís narrou as vivências de duas mulheres da Amazônia marcadas por ameaças de morte vindas de grileiros de terra e madeireiros.

Maria Ivete Bastos dos Santos e Orvalinda Marcelino Pereira são as agricultoras que vivem na região de Santarém, no Pará, sob o medo de, a qualquer momento, serem assassinadas.

Ivete, que foi dirigente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Santarém, já ganhou o Prêmio Mahatma Ghandi por sua luta pelos povos da floresta. Osvalinda é agricultora familiar. Ela vive (vivia) com o marido, Daniel, numa gleba de terra, extraindo polpas de frutas (açaí, cupuaçu, maracujá), auferindo sustento da agricultura familiar e de algumas colmeias. Gosta tanto de abelhas, por “produzirem algo tão saboroso e serem tão operosas”, que — se nascesse bicho — queria ser uma (abelha). Mas, neste último ano, ela e o marido foram obrigados a pedir proteção ao Estado.

Thaís Borges, formada em Jornalismo pela UnB, exercia seu ofício e estava bem empregada, quando sentiu imensa necessidade de fazer documentários. Foi estudar Cinema na Escola de San Antonio de los Baños e realizou seus primeiros filmes. “O Tempo que Resta” é seu primeiro longa-metragem.

Ela contou que fez múltiplas viagens à Amazônia, primeiro, para acompanhar a trajetória da agricultora e sindicalista Maria Ivete, que seria sua personagem central. Acabou conhecendo Osvalinda, com trajetória muito parecida com a de Ivete: “ambas marcadas para morrer, mesma idade (51 anos), casadas há mais de 30 anos com os mesmos maridos e muito apaixonadas por eles e mães de filhas desaparecidas por longo tempo”. E mais: “ambas com histórico de problemas graves de saúde” (desde a infância). “Quando me apresentaram Osvalinda” — relembra Thaís —, “me avisaram: esta mulher é uma farmácia!”

A cineasta, com o fotógrafo cubano (radicado no Brasil) Mayangdi Inzaulgarat, registrou inúmeras encontros com Ivete, Osvalinda e suas famílias. Registrou a vida cotidiana destas mulheres em momentos familiares, de trabalhos ou lazer (jogando dominó, contando piadas). Embora tenha formação como jornalista, Thaís fugiu do filme informativo-televisivo. Optou por um longa observacional, de grande beleza e serenidade narrativa.

O medo, claro, paira no ar. Mas o foco principal está na vida destas mulheres, em especial de Osvalinda, em seus afazeres (sempre em parceria com o marido Daniel), seja como extrativista, produtora de mel ou praticante de agricultura familiar.

No caso de Ivete, algo muito especial chama bastante atenção no filme: por sua militância sindical, ao ser jurada de morte, ela passou a contar com proteção do Estado. Um policial (às vezes dois) a acompanhava em sua vida cotidiana e sindical. E, claro, dormia na casa dela. “Se eu ia comprar uma calcinha, morria de vergonha, pois ele entrava na loja comigo”, revelou no debate.
Ivete contou a Thaís (está no filme) que o povo comentava, em tom de provocação: “quem é o marido dela? O careca ou o que tem cabelo?”. Para sintetizar a vida de uma mulher da Amazônia sob proteção policial, Thaís construiu imagem potente. Vistos de cima, são mostrados dois cômodos da casa da sindicalista. Numa rede, ela dorme abraçada com o marido. No outro cômodo, está seu guardião armado.

Um fato retirou Osvalinda e Daniel de sua gleba de terra. “Um dia de manhã”— contou ela, no debate do filme —, “nos deparamos com duas covas e duas cruzes. Era um alerta para que entregássemos os pontos, desistíssemos, senão seríamos mortos. Vi naquelas cruzes e naqueles dois buracos, que a ameaça se estendia também ao meu marido. Entrei em desespero, liguei para uma amiga e ela me disse: registre tudo. Peguei meu celular e fiz aquelas imagens”. Imagens que aparecem no filme de Thaís, depois que uma lista de quase 500 nomes, preparada pela Pastoral da Terra, da CNBB, dá conta dos mortos em conflitos de terra na Amazônia.

Dali em diante, o casal viu que a situação era grave demais e pediu proteção ao Estado. “Hoje, estamos fora de nossa casa, de nossas plantas, de tudo, mas queremos voltar, pois lá é nosso lugar”.

Ivete passou apenas 20 minutos no debate, pois tinha retorno marcado. A diretora, seus produtores, fotógrafo e, principalmente Osvalinda, responderam a todas as perguntas. Só a jornalista, crítica de cinema e curadora de festivais Lorena Montenegro, que é paraense, questionou a opção narrativa do filme. Esperava uma obra mais contundente, sem tanta beleza plástica e com música menos suave. Não citou um modelo, mas lembrou a potência de “Martírio”, o filme de Vincent Carelli sobre a tragédia secular do povo Guarani.

Thaís Borges recebeu as críticas com calma e lembrou que “ O Tempo que Resta” era seu primeiro longa-metragem. Durante todo o debate, ela reafirmaria seu compromisso ético com suas “personagens”.

“Gravei dezenas de entrevistas e momentos de muita emoção”— detalhou. “Mas nossa opção foi abrir mão de entrevistas, de emoção advinda do choro de Osvalinda e Ivete, de reencontros familiares. Queríamos um filme reflexivo”. Entre as sequências descartadas — também por razão ética —, estava o reencontro de Osvalinda com uma filha que ela pensava estar morta (a filha também pensava que a mãe já morrera). Quando as notícias da realização do filme saíram na imprensa (na internet, inclusive), as duas puderam se reencontrar. A mãe recebeu a filha, grávida do quinto filho, e conheceu os quatro netos pequenos. Foi uma alegria, muitos abraços e choros”.

Na hora da edição, Thaís, seus produtores (Talita Dias e Walter Guimarães) e montadores (Marília Albuquerque, Alê Paiva e ela própria), depois de muita discussão, concluíram que não seria conveniente expôr a filha e os netos de Osvalinda e Daniel.

Outra decisão: não explorar os problemas de saúde de Ivete (que já sofreu enfarte e fez várias cirurgias), nem de Osvalinda, “esta mulher que é uma farmácia”. Se assim agisse — entende a diretora —, “eu vitimizaria as duas, o que não era, de forma alguma, minha intenção”. Por isto, “mostrei a farmácia de Osvarina, que toma dezenas de remédios por dia, e simbolizei, em sequência que é a única ficcional do filme, cada uma se olhando no espelho. Ivete mostra o ventre, que passou por cirurgia, e Osvalinda a imensa cicatriz que a corta verticalmente, pois fez duas grandes cirurgias no coração”.

Ao final de debate, a equipe foi aplaudia, mais uma vez, calorosamente.

A sétima noite do Festival de Brasília contou com mais dois dos 14 curtas selecionados. O primeiro, o cearense “Marco”, ficção de Sara Benvenuto, protagonizado por Ana Luiza Rios. Ela interpreta Isadora, moça de hábitos modernos e rebeldes, que regressa a Iguatu, no interior do Ceará, ao saber de doença grave do pai. A perda paterna fará com que ela se torne ainda mais rebelde e interfira na modorrenta e religiosa vida do local. A ponto de botar para fora amigas da mãe (a atriz Martha Aurélia) que rezavam pelo momento de luto. A rebelde Isa fará um acerto de contas com seu passado e com sua mãe.

O segundo curta da competição nacional foi o documentário “Chico Mendes – Um Legado a Defender”, de João Inácio, representante de Brasília na competição nacional (na Mostra Brasília BRB, ele concorre com outro filme de tema ecológico, “#Somosamazonia“). Inácio partiu, em “Um Legado a Defender”, de carta escrita pelo seringalista e ambientalista Chico Mendes (1944-1988) aos jovens que o lessem no futuro. Com depoimentos de Lucélia Santos, Ângela e Raimundo Mendes, Mary Allegretti, entre outros, o filme, de formato tradicional, evoca a memória do mais conhecido dos mártires da causa ambientalista no Brasil.

A noite da competição pelos Troféus Candangos teria sido das mais harmoniosas se a equipe de “O Tempo que Resta” não tivesse cedido a palavra a Ivete e Osvalinda, que se prolongaram na denúncia da situação hoje vivida por elas (sob proteção do Estado, já que ameaçadas de morte). Um dos coordenadores do festival, o cineasta Pedro Lacerda, gritou “filme!”. Jovens realizadoras, entre elas a fotógrafa e cineasta Júlia Zakia, se indignaram com a atitude dele e protestaram. Ele discutiu com elas e o clima ficou tenso.

Se os discursos dos realizadores da Mostra Nacional foram calmos, o mesmo não aconteceu na Mostra Brasília BRB. Depois de exibir três longas-metragens (“Mãe”, “Dulcina” e “Mito e Música – A Mensagem de Fernando Pessoa”), chegara a vez dos curtas candangos. Sala lotada (com entrada franca) assistiu a seis produções: a animacão “Clara e o Crocodilo”, de Raquel Piantino, “Ambulatório”, de Júlia Lannoy, “A Terra que Pisar”, de Fáuston da Silva, “Luis Humberto – O Olhar Possível”, de Mariana Costa e Rafael Lobo, “O Véu de Amani”, de Renata Diniz, e “#Somosamazonia”, de João Inácio.

Algumas das equipes que subiram ao palco realizaram protestos inflamados. Novas críticas foram dirigidas à Secretaria de Cultura e Economia Criativa do DF, que “não promovera Edital de Produção Audovisual 2019″, que “censurara ator que lia texto com reivindicações do setor artístico-cultural na noite inaugural”, sobrando protesto até contra “a elitização” do festival. Tal elitização — registraram — “se fez sentir no aumento dos ingressos para as sessões nobres, de 12 e 6 reais para 20 e 10 reais (inteira e meia) e no aumento dos custo de inscrição em eventos formativos e de mercado”.

Houve espaço, na Mostra Brasília BRB, até para uma jovem chilena, integrante da equipe de um dos filmes, que levou a bandeira de seu país e leu manifesto em defesa de “milhões de chilenos que protestam na rua contra aposentadorias aviltadas” e que são recebidas com extrema violência policial”. Clamou-se até para que “o Brasil pare de vender gás lacrimogêneo para o Chile, pois este químico vem sendo utilizado pela repressão, causando cegueira em dezenas de manifestantes”.

A maior emoção da Mostra Brasília aconteceu quando o arquiteto, professor da UnB e fotógrafo Luis Humberto, de 86 anos, um dos mais importantes do país, subiu ao palco numa cadeira de rodas e clamou contra “os desatinos do desgoverno atual — negou-se a citar o nome do presidente — que está entregando as riquezas nacionais, agredindo a democracia e tirando a esperança de milhões de brasileiros”. Para concluir que, apesar de tudo, ele ainda acredita “num futuro que há de ser melhor”.

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