“Desvio” e “Soldados da Borracha” vencem as principais competições do Festival Aruanda
Os premiados do festival © Maria do Rosário Caetano

Por Maria do Rosário Caetano, de João Pessoa

O longa-metragem “Desvio”, ficção paraibana de Arthur Lins, foi o grande vencedor da competição nacional do 14º Festival Aruanda do Audiovisual Brasileiro. E o longa documental “Soldados da Borracha”, do cearense Wolney Oliveira, triunfou na mostra Sob o Céu Nordestino, destinada à produção dos oito Estados do Nordeste. Ambos venceram por decisão do júri oficial e do júri popular. Já a Crítica preferiu o documentário “Indianara”, de Aude Chevalier-Beaumel e Marcelo Barbosa, sobre a ativista trans Indianara Siqueira, amiga de Marielle Franco.

Não houve bairrismo na escolha de um filme paraibano como o melhor da competição nacional. “Desvio”, longa de estreia do jovem Arthur Lins, venceu por suas qualidades, que são muitas. Afinal, o filme traz um tema urgente e contemporâneo, exercita a crença no poder da imagem, conta com elenco afiado e roteiro enxuto, com ótimos e cortantes diálogos. Que ninguém espere, ao ver “Desvio”, um Nordeste (locações na capital João Pessoa e na interiorana Patos) folclórico, miserável ou idealizado. O que se vê na tela é uma juventude urbana, plugada no punk rock, rebelde, em crise com a família tradicional, próxima (ou não) do mundo das drogas e do crime.

O protagonista de “Desvio” é Pedro (Daniel Porpino, que dividiu o prêmio de melhor ator com Bukassa Kabengele, de “Pacificado”), integrante de uma banda punk rock, que foi parar na prisão. Ao obter “indulto de Natal”, ele poderá desfrutar de poucos dias com seus familiares e amigos, desde que não frequente bares e locais assemelhados, enfim, não transgrida as rígidas normas dos códigos penitenciários. Num trabalho marcado mais por seu corpo físico, que por pelo discurso verbal, Pedro transitará pela casa materna, irá ao encontro da avó e de amigos e, ponto nevrálgico do filme, se envolverá em um assalto. Como o filme é lacunar e pouco explicativo, o espectador ficará intrigado. Aquele crime se dá no tempo presente? Ou foi o crime que, no passado, levou o jovem à prisão (com sentença de 14 anos para cumprir)?

Arthur Lins, que tem cara e gestualidade de roqueiro, escreveu um roteiro (também premiado intencionalmente) lacunar e pautado pela ambiguidade. Assim sendo, seu ‘Desvio” é poroso e permite ao espectador a montagem de uma espécie de quebra-cabeça. Duas sequências do filme são notáveis por sua potência visual e sonora. Numa delas, Pedro testa um carro num terreno poeirento em círculos infernais. No segundo, um incêndio encherá a tela de vermelho e fúria.

“Soldados da Borracha” integra, junto com o longa “Os Últimos Cangaceiros” e o curta “Sabor a Mí”, a trinca de melhores documentários de Wolney Oliveira. O realizador cearense, formado pela Escola Internacional de Cinema e TV de San Antonio de los Baños, em Cuba, narra a saga dos nordestinos, em maioria, que foram colher látex na Amazônia, dentro do esforço de guerra empreendido pelos Aliados no enfrentamento do Nazifascismo. Com o Sudeste Asiático sob domínio do eixo Alemanha-Japão-Itália, a borracha não vinha mais da Malásia. Os EUA acertaram (com Getúlio Vargas) a compra do látex amazônico. Para dispor de matéria-prima nas imensas quantidades necessárias, o Governo Brasileiro recrutou mais de 50 mil trabalhadores (1.200 deles saíram de presídios cariocas), gente que nunca tinha visto uma seringueira. Na floresta, malária, onças, cobras e tocaias esperavam pelos recrutados. Muitos, milhares, morreram em solo amazônico.

O longa “Soldados da Borracha” teve suas qualidades técnicas e artísticas valorizadas pelo júri composto pelos cineastas Emília Silveira e João Batista de Andrade e pelo professor da UFPB, Fernando Trevas. Foram premiados o trilheiro (o craque DJ Dolores), os montadores (Mair Tavares e Leyda Nápoles), os técnicos de som e esta trama tão significativa. Afinal, o filme mostra que gente do povo, quando é mobilizada para um grande empreendimento brasileiro, é tratada como “carvão”. Ou seja, mão-de-obra barata e descartável. E que suas histórias desaparecem do imaginário coletivo. Wolney contou, no debate do filme, que mesmo sendo cearense (o Ceará mandou metade dos recrutados para os seringais) só ouviu falar nos “soldados da borracha” quando já contava com 44 anos (hoje ele tem 59).

O segundo filme mais premiado na Mostra Sob o Céu do Nordeste foi o também cearense “Currais”, de Sabina Collares e David Aguiar. O documentário tem como protagonistas seres humanos invisíveis: sertanejos flagelados, que, vítimas de terrível seca, tentaram chegar à capital, Fortaleza, em busca de ajuda. O Estado criou, então, “campos de concentração” para impedi-los de chegar ao centro geopolítico-administrativo do Ceará. Um exemplo emblemático da “higienização” empreendida pelos poderes instituídos. Nenhum esforço foi medido para impedir a presença daqueles flagelados em avenidas e ruas de bairros ricos fortalesenses. O filme teve sua direção premiada e, também, a fotografia de Petrus Cariry, um dos grandes nomes do cinema cearense. Como o documentário conta com cenas ficcionalizadas, a atriz paraibana Zezita Matos foi escolhida como melhor atriz.

Um terceiro longa — “Jackson, Na Batida do Pandeiro”, de Marcus Vilar e Cacá Teixeira — ganhou Prêmio Especial de júri e o Troféu Aruanda de “Ator ou Personalidade”, atribuído, postumamente, ao rei do ritmo, Jackson do Pandeiro (1919-1982). O filme é uma sólida biografia do artista paraibano, nascido em Alagoa Grande, que depois partiu para Campina Grande, Recife e Rio de Janeiro, tornando-se o grande intérprete de “Chiclete com Banana” e Comadre Sebastiana”, ídolo de Gilberto Gil, Alceu Valença, Lenine (autor de “Jack Soul Brasileiro”), Gal Costa, Elba Ramalho, Silvério Pessoa e jovens bandas paraibanas. Por causa de sua construção clássica (e biográfica), o filme não vem conseguindo, ao menos nos festivais, a receptividade que merece. Villar e Teixeira definem sua obra como “um longa-metragem em processo”, pois ainda realizam mudanças em sua estrutura. Apresentado neste ano de 2019 em algumas mostras e festivais, o filme integrou o calendário do Centenário de Jackson do Pandeiro. Em 2020, chegará aos cinemas.

O júri da competição internacional formou-se com os atores Suzy Lopes (de “Bacurau”) e Marco Ricca (“Chatô”) e com o escritor Fernando Morais (“Os Últimos Soldados da Guerra Fria”, matriz de “Wasp Network”, de Olivier Assayas). A trinca fez a coisa certa: concentrou seis prêmios em “Desvio” (incluindo melhor filme e direção), reconheceu as qualidades do instigante documentário (na verdade um “híbrido”) “Partida”, de Caco Ciocler, e valorizou o que “Pacificado”, produção brasileira (com parceiros norte-americanos), tem de melhor (o elenco e as imagens, assinadas pela fotógrafa turca Laura Merians).

Vencedor do Festival de San Sebastián, na Espanha (melhor filme e melhor ator, para Bukassa Kabengele), “Pacificado” tem direção do estadunidense Paxton Winters, radicado há nove anos no Brasil (no Morro dos Prazeres). O júri brasileiro premiou seus protagonistas Débora Nascimento, que interpreta jovem mãe favelada, consumidora de drogas e displicente com a filha (a excelente Cássia Nascimento Gil, de 13 anos), e o congolês, naturalizado brasileiro, Bukassa Kabengele. O ator, de 49 anos, 40 deles vividos no Brasil, quebra com todos os estereótipos dos chefes de tráfico, donos de morro. No filme, o vemos saindo da prisão, com a alma “pacificada” e disposto a montar uma pizzaria no Morro (carioca) dos Prazeres. Zen como um “buda nagô”, ele se verá de novo no redemoinho de múltiplas violências. Voltará ao crime? Eis a questão posta pelo filme.

Num júri de três membros, sendo dois atores, deu-se, como era de se esperar, uma certa “reforma agrária” de troféus no ítem “intérpretes feminininas e masculinos”. Outra atriz, ex-aqueo, foi laureada: a indomável e brilhante Georgette Fadel, alma de “Partida”. E outro ator, ex-aqueo, também foi aquinhoado: o ótimo Daniel Porpino. Como o quarteto está muito bem em seus respectivos papéis, o distributivismo não incomodou os críticos. Nem a plateia, que aplaudiu com garra os laureados.
Registre-se, aqui, que houve muita confusão na cerimônia de premiação. Havia dezenas de troféus expostos aos olhos do público. Uns 40. E mesmo assim verificou-se ausência da láurea, composta com desenho estilizado de um vaso de cerâmica enfeitado com flor de celulóide, símbolo de “Aruanda”, seminal filme de Linduarte Noronha.

Daniel Porpino recebeu, tranquilo, o seu Troféu Aruanda. Na hora de Bukassa Kabengele receber o dele, não havia troféu disponível. Educado, o ator congolês-brasileiro agradeceu mesmo assim. Em seguida, falou de seu orgulho de ter sido o primeiro ator negro premiado em San Sebastián (um festival que se aproxima dos 70 anos). Contou que sua família chegou do Congo e radicou-se no Rio Grande do Norte, portanto, no Nordeste, indo depois para São Paulo (o pai, professor universitário, ia dar aulas na USP). Elogiou o Fest Aruanda e o troféu. E avisou que esperaria o seu, em sua casa paulistana. Na hora, num gesto de extrema elegância, Porpino repassou ao colega o seu troféu. Os dois se abraçaram e a plateia aplaudiu calorosamente.

Outra confusão foi causada pelo júri da mostra Sob o Céu Nordestino, que colocou o potiguar “O Grande Amor de um Lobo” e o paraibano “Brasil, Cuba” entre os filmes que analisou. Os dois, no entanto, haviam sido selecionados para a competição nacional (e não para a nordestina). A gafe foi percebida, inclusive, pelo codiretor de “Lobo”, Kenel Rogis. E pelos mais atentos, que viram, estupefatos, um filme ganhar, num mesmo festival, dois prêmios do júri popular.

A falta de um catálogo, que não saiu em tempo hábil, pode ser creditada aos atropelos deste primeiro ano da era Bolsonaro, tão hostil com o setor artístico-cultural. Mas que, ano que vem, o Festival Aruanda (a edição de número 15 acontecerá de 3 a 9 de dezembro) disponha de catálogo no dia de sua abertura e dedique ao cinema feminino, força revitalizadora do cinema brasileiro contemporâneo, a atenção que merece e horários nobres.

Este ano, o único debate, que reuniria um grande time de mulheres-diretoras, foi cancelado por atropelo de horário. Faltou tempo para o cinema no feminino, que seria o último tema de uma série de quatro debates, todos previstos para uma mesma manhã. Houve um remendo: o debate, improvisado, aconteceu no Cinepólis Manaíra, palco fílmico do festival, depois de exibição (no péssimo horário das 14h) de curtas-metragens dirigidos por cineastas paraibanas.

Na noite da atribulada entrega dos prêmios (com muitos discursos, homenagens, erros e falta de troféus), três cartas de categorias cinematográficas foram lidas. Todas em defesa da democracia, contra a censura, a favor Ancine (que foi, agora, “higienizada” de cartazes físicos e digitais de importantes produções brasileiras). A favor, também, de outros mecanismos de fomento ao cinema brasileiro (como o Fundo Setorial), da regionalização e da interiorização do cinema.

Manifestações devem ser livres e aceitas em tribunas como festivais. Mas faltou síntese às duas cartas paraibanas, imensas, a ponto de entendiar a plateia e atrasar a exibição do convidado da noite, o longa documental “O Barato de Iacanga”, de Thiago Mattar. Um exercício de síntese faria muito bem aos cineastas e ao festival.

Os curtas vencedores foram “Apenas o que Você Precisa Saber de Mim”, de Santa Catarina , dirigido por Maria Augusta Nunes (mostra nacional), e “Quitéria”, do paraibano Tiago Neves (Sob o Céu do Nordeste). Outro curta paraibano foi, merecidamente, muito premiado: o instigante “Faixa de Gaza” (melhor direção, Prêmio da Crítica e mais dois troféus). Os prêmios de melhor atriz (para Arly Arnaud, a Quitéria) e Jean-Claude Bernardet (pelo pernambucano “Nuvem Negra”) foram perfeitos.

Um reparo: o curta paulista “De Longe Ninguém Vê o Presidente”, de Rená Tardin, merecia figurar na lista de premiados. Bernardet, grande estudioso da presença do povo (incluindo o operariado) no cinema documental brasileiro (tema de seu livro “Cineastas e Imagens do Povo”) foi certeiro ao comentar o filme paulistano: “trata-se da obra mais conceitual do festival”. Por 15 minutos, este documentário mostra o discurso final do ex-presidente Lula, no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, antes de partir para a prisão curitibana, e estabelece complexo contraponto com imagens da ultra-moderna fábrica da Mercedes Benz, capaz de montar um imenso caminhão em menos de 10 minutos. Estaria o discurso do metalúrgico, por duas vezes eleito presidente, em sintonia com este admirável mundo novo, capaz de trocar dez (ou mais) operários por uma única máquina? O filme nos instiga a pensar.

Um comentário final: além da turca Laura Merians, dos cubanos Leyda Nápoles e Arturo de la Garza, mais um nome internacional brilhou no Fest Aruanda, na hora dos prêmios, o lusitano Vasco Pimentel, parceiro de Wim Wenders e de outros grandes realizadores europeus, considerado um dos maiores técnicos (e teóricos) de som do planeta.

Confira os vencedores:

LONGA-METRAGEM NACIONAL

. “Desvio” (PB) – melhor filme, diretor (Arthur Lins), ator (Daniel Porpino), roteiro (Arthur Lins), trilha sonora (Vitor Colares), direção de arte (Shiko), melhor filme pelo Júri Popular

. “Partida”, de Caco Ciocler (SP) – Prêmio Especial do Júri, melhor atriz (Georgette Fadel), montagem (Thiago Marinho), som (Vasco Pimentel)

. “Pacificado”, de Paxton Winters (Brasil-EUA) – Melhor atriz (Débora Nascimento), melhor ator (Bukassa Kabengele), fotografia (Laura Merians), menção especial para Léa Garcia.

. “Indianara”, de Aude Chevalier-Beaumel e Marcelo Barbosa (RJ) – Prêmio da Crítica (Abraccine), melhor figurino, menção honrosa.

. “Barretão”, de Marcelo Santiago (RJ) – menção honrosa

MOSTRA SOB O CÉU NORDESTINO

. “Os Soldados da Borracha” (CE) – melhor filme, trilha sonora (DJ Dolores), montagem (Mair Tavares e Leyda Nápoles), som (José Louzeiro, Fernando Cavalcanti e Lênio Oliveira), melhor filme pelo Júri Popular

. “Currais”(CE) – melhor direção (Sabina Collares e David Aguiar), atriz (Zezita Matos), fotografia (Petrus Cariri), direção de arte (Caroline Vieira, Sabina Colares e Thaís Campos)

. “Jackson – Na Batida do Pandeiro”, de Marcus Vilar e Cacá Teixeira (PB/PE) - Prêmio Especial do Júri, melhor ator ou personalidade artística (Jackson do Pandeiro, in memoriam).

. “O Que os Olhos Não Veem”, de Vânia Perazzo (PB) – melhor roteiro (de Vânia Perazzo)

CURTA-METRAGEM NACIONAL

. “Apenas o que Você Precisa Saber de Mim” (SC) – melhor filme, melhor direção (Maria Augusta Nunes), atriz (Alice Doro), figurino

. “O Grande Amor de um Lobo” (RN) – melhor filme pelo júri popular, roteiro (Adrianderson Barbosa e Kenel Rogis).

. “Brasil, Cuba”, de Bertrand Lira e Arturo de la Garza (Brasil/Cuba) – melhor fotografia (Arturo de la Garza)

. “Nuvem Negra”, de Flávio Andrade (SP) – melhor ator (Jean-Claude Bernardet)

. “Um”, de Daniel Kfouri e e João Castellano (SP) – melhor montagem (Diógenes Moura e Daniel Kfouri), direção de arte (Daniel Kfouri)

. “Nadir”, de Fábio Rogério (SE) – melhor trilha sonora

. “Gravidade”, de Amir Admoni (SP) – melhor som (Felipe Grytz)

CURTA-METRAGEM (SOB O CÉU DO NORDESTE)

. “Quitéria”, de Tiago Neves (PB) – melhor filme, melhor atriz (Arly Arnaud),

. “Faixa de Gaza” (PB) – Melhor direção (Lúcio César Fernandes), ator (Paulo Phillipe), som (Diogo Rocha), Prêmio da Crítica (Abraccine)

. “Costureiras”, de Virgínia Gualberto (PB) – melhor roteiro (de V. Gualberto, Mailsa Passos e Rita Ribes).

. “Fim”, de Ana Diniz (PB) – melhor roteiro (de Anna Diniz)

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