Brasil disputa o Urso de Ouro em Berlim
“Todos os Mortos”, de Marco Dutra e Caetano Gotardo

Por Maria do Rosário Caetano

O longa ficcional “Todos os Mortos”, de Marco Dutra e Caetano Gotardo, é o representante brasileiro na competição pelo Urso de Ouro, láurea máxima do Festival Internacional de Cinema de Berlim. Um dos três mais importantes festivais do mundo (junto com Cannes e Veneza), a Berlinale realiza sua septuagésima edição de 20 de fevereiro a primeiro de março.

O Brasil leva ao evento alemão mais 16 produções, sendo 14 de longa duração, um média-metragem e um curta. Participa, ainda, de três coproduções, uma de origem argentina, outra uruguaia e a terceira colombiana (ver tabela abaixo).

Marco Dutra e Caetano Gotardo integram, com Juliana Rojas (em “Todos os Mortos” ela desempenha a função de montadora), um dos núcleos de criação mais férteis do cinema brasileiro contemporâneo, o coletivo Filmes do Caixote. Dutra já dirigiu, sozinho ou em parceria com Juliana, cinco longas-metragens. Um deles, “Trabalhar Cansa”, constitui momento dos mais criativos e instigantes de nossa produção recente. Gotardo dirigiu, além de diversos curtas, dois longas – “O que se Move” e o ainda inédito “Seus Ossos e seus Olhos”.

“Todos os Mortos” é fruto de parceria entre a produtora brasileira Dezenove Filmes, de Sara Silveira, com a França (pela Good Fortune Films). Essas duas empresas repetem a bem-sucedida parceria que deu origem ao longa “As Boas Maneiras”, também selecionado para importantes festivais internacionais.

Os diretores e roteiristas de “Todos os Mortos” mobilizaram elenco que soma atores vindos do teatro (território em que Dutra e Gotardo também se exercitam com frequência), caso de Mawusi Tulani e Carolina Bianchi, a parceiros de longa data (como Clarissa Kiste, protagonista de “Lençol Branco”, curta que revelou Juliana Rojas e Marco Dutra), a nomes da música brasileira (a cantora Alaíde Costa) e, em participação especial, uma convidada ilustre, a portuguesa Leonor Silveira, a “Bovarinha” de Manoel Oliveira (no belíssimo “Vale Abraão”). Estão, também, no filme, uma das musas do cinema independente (Gilda Nomacce) e um ator vindo do elenco de “Bacurau” (Thomás Aquino).

Em fina sintonia com nosso tempo (e de olho na trágica herança herdada da escravidão), Dutra e Gotardo assinam sua primeira incursão (de longa duração) na ficção de época. A trama se desenvolve na São Paulo de 1899. A atmosfera capta um tempo em que “fantasmas do passado ainda caminham entre os vivos”.

No centro da narrativa, estão duas famílias, uma branca (os Soares) e uma negra (os Nascimento). As mulheres da família Soares, antigas proprietárias de terra, tentam se agarrar ao que resta de seus privilégios.

Já Iná Nascimento (Mawusi Tulani), que viveu muito tempo escravizada, luta para reunir, em um mundo hostil, seus entes queridos. Tal esforço a conduzirá ao questionamento de suas próprias vontades. “Entre o passado conturbado do Brasil e seu presente fraturado” – propõe o filme –, “essas mulheres tentam construir um futuro próprio”.

Para Marco Dutra, “Todos os Mortos” é, sim, o primeiro longa-metragem de época da Filmes do Caixote. Mas lembra que ele e Gotardo já haviam experimentado narrativas em tempos passados. “O Caetano fez ‘Os Barcos’, um curta de época, e eu dirigi episódios da série ‘O Hipnotizado’”, da HBO, também de época”.

No novo filme – detalha –, “nos debruçamos sobre os anos de 1899 e 1900, na São Paulo em processo de transformações naquele começo do período republicano e das políticas relacionadas ao café”. Para nós, “certas relações de trabalho (e sociais), que apareceram ali ainda fazem parte do que a cidade e o país são hoje”.

Quem se acostumou com o fértil diálogo dos Filmes do Caixote com o cinema de gênero, em especial o horror (notável em “Sinfonia da Necrópole”, “As Boas Maneiras” e “Trabalhar Cansa”), verá, desta vez, que os roteiristas estabelecem novas fontes de diálogo.

Dutra reflete sobre as matrizes do longa que terá sua pré-estreia mundial em Berlim: “Caetano e eu sempre tivemos grande interesse pela dramaturgia de Anton Tchekhov, e neste filme nos aproximamos um pouco dele, do seu jeito de abordar o mundo”. Tanto que “a história surgiu como uma espécie de estudo da vida doméstica das personagens num momento social crítico (no caso, o fim do século XIX em São Paulo)”. Para ponderar: ” ‘Todos os Mortos’ é um drama e há nele elementos sombrios, mas não se trata de um filme de horror”.

O espírito de equipe segue como marca firme da criação dos “Caixotes”: “Todos os Mortos” – registra Dutra – “acabou virando minha primeira parceria, na direção, com Caetano, apesar de sermos amigos e colaboradores há mais de vinte anos”. E, desta vez, “Juliana Rojas nos ajudou a montar o filme (Caetano havia montado ‘As Boas Maneiras’)”.

Nosso concorrente ao Urso de Ouro é um dos onze filmes brasileiros que estarão em Berlim com apoio do Projeto Paradiso, iniciativa filantrópica do Instituto Olga Rabinovich. Os outros dez estão em outros três segmentos da Berlinale (Encontros, Panorama e Geração) e no Co-production Market (este para filmes em projeto).

O BRASIL EM BERLIM:

Mostra Principal (Urso de Ouro)

. “Todos os Mortos”, de Marco Dutra e Caetano Gotardo (Brasil/França)

Mostra Panorama

. “O Reflexo do Lago”, de Fernando Segtowick (Pará)
. “Vento Seco”, de Daniel Nolasco (Goiás)
. “Cidade Pássaro”, de Matias Mariani (SP)
. “Nardjes A.”, de Karim Aïnouz (BR, França, Argélia)

Mostra Geração

. “Meu Nome é Bagdá”, de Caru Alves de Souza (SP)
. “Irmã”, de Luciana Mazeto e Vinícius Lopes (RS)
. “Alice Jr”, de Gil Baroni (PR)
. “Rã”, de Júlia Zakia e Ana Flávia Cavalcanti (curta-metragem, SP)

Mostra Fórum

. “Luz nos Trópicos”, de Paula Gaitán (RJ)
. “Vil, Má”, de Gustavo Vinagre (SP)

Mostra Fórum Expandido

. “(Outros) Fundamentos”, de Aline Motta (RJ)
. “Apiyemeiyeki?”, de Ana Vaz (Brasil/Portugal)
. “Jogos Dirigidos”, de Jonathas de Andrade (PE)
. “Vaga Carne”, de Grace Passô e Ricardo Alves Jr (MG-média-metragem)
. “Letter From a Guarani Woman in Search of her Land with Devil”, de Patrícia Ferreira

Parcerias (Coproduções)

. “Un Crimen Cómun”, de Francisco Márquez (Argentina) – Mostra Panorama
. “Chico Ventana También Quisiera Ser un Submarino”, de Alex Piperno (Uruguai) – Mostra Fórum|
. “Los Conductos”, de Camilo Restrepo (Colômbia) – Mostra Encontros

FILMOGRAFIA DE MARCO DUTRA E CAETANO GOTARDO

Marco Dutra (São Paulo, capital, 1980)
Diretor, roteirista, montador, autor de trilha sonora, graduado pela ECA-USP

Longas-metragens

. “Todos os Mortos” (2020 – com Caetano Gotardo)
. “As Boas Maneiras” (2018 – com Juliana Rojas)
. “O Silêncio do Céu” (2016)
. “Quando Eu Era Vivo” (2014)
. “Trabalhar Cansa” (2011 – com Juliana Rojas)

Curtas-Metragens

. “O Lençol Branco” (2005 – com Juliana Rojas)
. “Um Ramo”(2007 – com Juliana Rojas)

Caetano Gotardo (Vila Velha-ES, 1981)
Diretor, roteirista, ator e montador, graduado em Cinema pela ECA-USP

Longas-metragens

. “Todos os Mortos” (2020 – com Marco Dutra)
. “Seus Ossos e seus Olhos” (2019)
. “O que se Move” (2012)

Curtas-metragens

. “Merencória”(2017)
.“Choclo” (2015)
. “Matéria” (2013)
. “Os Barcos” (2012), parceria com Thaís de A Prado
. “Outras Pessoas” (2010)
. “O Menino Japonês” (2009)
. “Areia”(2008)
. “O Diário Aberto de R.”(2005)
. “Feito Não para Doer” (2003)

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