É Tudo Verdade comemora 25 anos
“Segredos do Putumayo”, de Aurélio Michiles

Por Maria do Rosário Caetano

O ETV (É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários) vai comemorar, em São Paulo e no Rio, seus 25 anos com homenagem a Santiago Álvarez e ao cinema feminino, mostra inédita de série de Chris Marker e mais filmes na competição brasileira (agora são dez longas documentais), que se somarão a doze internacionais.

Para rever sua história e reafirmar sua condição de mais importante festival do gênero na América do Sul, o ETV vai promover mostra de filmes que marcaram suas concorridas edições ao longo dos últimos 24 anos. Entre os ótimos títulos selecionados para este olhar retrospectivo, um destaque, “O Prisioneiro da Grade de Ferro”, única produção brasileira premiada como melhor documentário nacional e internacional. O diretor Paulo Sacramento acompanhará a sessão especial de cópia restaurada de seu filme mais ousado e de maior repercussão junto ao público.

O grande homenageado da edição número 25 será o documentarista habanero Santiago Álvarez (1919-1998), cujo centenário de nascimento foi comemorado ano passado. A trajetória do diretor de “Now” e “79 Primaveras” será lembrada com exibição especial do inédito “Santiago das Américas – Ou o Olho do Terceiro Mundo”, de Silvio Tendler, amigo e discípulo do mais festejado dos documentaristas cubanos.

A noite de abertura paulistana do ETV (dia 25 de março, no Auditório Ibirapuera, para convidados) contará com um filme incendiário, o britânico “Golpe 53”, de Taghi Amirani. O público terá oportunidade de ver este “autêntico thriller documental” ao longo dos onze dias de maratona cinéfila.

“Golpe 53” investiga o envolvimento da Grã-Bretanha e dos EUA no golpe de Estado que liquidou em 1953, tempo de Guerra Fria, o regime democrático iraniano, liderado pelo primeiro-ministro Mohammad Mosaddegh (1882-1967). O documentário conta com a participação do ator britânico Ralph Fiennes e do lendário montador americano Walter Murch (de “O Poderoso Chefão”), que, além de assinar a edição, colaborou no roteiro.

No Rio, o festival será inaugurado dia 30 de março, no Estação Net Botafogo, com o franco-chileno “A Cordilheira dos Sonhos”, de Patricio Guzmán, vencedor do Olho de Ouro de melhor documentário, em Cannes 2019. Guzmán encerra, com este filme, a trilogia iniciada com “Nostalgia da Luz” (2012) e sequenciada com “O Botão de Pérola” (2015). O novo filme, como os anteriores, resulta em ensaio que “transita entre o memorialístico e o político” e reflete sobre “os avanços sociais do governo Allende, a repressão brutal da ditadura Pinochet e a dura herança atual da política econômica desenvolvida no período autoritário”.

Duas séries inéditas e muito relevantes vão movimentar os maratonista do ETV. Uma traz na direção um dos mais importantes documentaristas do mundo, o francês Chris Marker (1921-2012). A outra, dedicada ao cinema feminino, comprova a força criativa de realizadoras oriundas de vários cantos do planeta (incluindo a brasileira Petra Costa).

O festival vai apresentar “A Herança da Coruja”, série que Marker construiu em treze episódios (26 minutos cada), a partir de treze palavras incorporadas ao vocabulário moderno. O diretor de “O Fundo do Ar Ainda é Vermelho” discute com mais de 50 convidados o legado cultural e político da Grécia clássica para o mundo contemporâneo. Entre os nomes mobilizados pelo cineasta, estão Theo Angelopoulos, Angélique Ionatos, Giulia Sissa, Cornelius Castoriadis, Elia Kazan, George Steiner, Jean-Pierre Vernant e Michel Serres.

O tributo às mulheres cineastas se dará com exibição da série “Women Make Film – Um Novo Road Movie Através do Cinema”, do elétrico realizador irlandês Mark Cousins. Diretor e narrador da monumental série “A História do Cinema – Uma Odisseia”, ele partiu para nova empreitada: contar parte da história do cinema feminino mundial. São cinco episódios criados a partir de mais de mil clips de filmes rodados em treze décadas, em cinco continentes, por mais 183 diretoras. Desta vez, ele entregou a narração às mulheres (Jane Fonda, Tilda Swinton, Sharmila Tagore, Adjoa Andoh, Thandie Newton, Kerry Fox e Debra Winger).

O crítico-documentarista, que resumiu sua primeira “Odisseia” cinematográfica no livro “História do Cinema – Dos Clássicos Mudos ao Cinema Moderno” (Martins Fontes, 2013), discute em “Mulheres Cineastas – Um Novo Road Movie Através do Cinema” as imagens produzidas por nomes da grandeza de Agnès Varda, Jane Campion, Alice Guy, Heddy Honigmann, Kinuyo Tanaka, Maya Deren, Safi Faye, Sally Porter, Sumita Peries e Petra Costa.

Veja abaixo as listas de longas-metragens da competições de longas e médias brasileiros, internacionais (ambos com júri oficial) e o Foco Latino-Americano (Júri Popular):

COMPETITIÇÃO BRASILEIRA 

LONGAS OU MÉDIAS-METRAGENS (10 filmes):

. “Fico te Devendo uma Carta sobre o Brasil”, de Carol Benjamin – A história de três gerações de uma família que teve o destino estilhaçado pela ditadura militar, por meio das investigações da cineasta, filha de César Benjamin, preso político em 1971.

. “Jair Rodrigues – Deixa que Digam”, de Rubens Rewald – O retrato de um artista e de um Brasil tão próximo e tão distante.

. “Segredos do Putumayo”, de Aurélio Michiles – Retrato de um dos pioneiros nos inquéritos sobre a violação de direitos humanos, o irlandês Roger Casement (1864-1916), celebrado por escritores como Joseph Conrad e Vargas Llosa.

. “Dentro da minha Pele”, de Toni Venturi – Documentário sobre o preconceito de raça e classe no Brasil, visto em perspectiva histórica, do passado até os dias de hoje.

. “A Ponte de Bambu”, de Marcelo Machado – A partir da trajetória do jornalista brasileiro Jaime Martins, testemunhos e imagens de uma família que a mais de meio século divide sua jornada entre o Brasil e a China.

. “Atravessa a Vida”, de João Jardim – Retrato de alunos do 3º ano do ensino médio de escolas públicas, no interior de Sergipe, que se preparam para a prova que pode determinar o resto de suas vidas.

. “Libelu – Abaixo a Ditadura”, de Diógenes Muniz – Onde estão e o que pensam agora, os jovens trotskistas que foram às ruas contra os generais na década de 1970?

. “Meu Querido Supermercado”, de Tali Yankelevich – A rotina de funcionários de um supermercado.

. “Não Nasci para Deixar meus Olhos Perderem Tempo”, de Claudio Moraes – Pelo olhar aguçado do fotógrafo Orlando Brito, ao longo de seus 50 anos de profissão, o documentário relembra fatos e personagens marcantes de nossa história.

. “Os Paralamas do Sucesso – Os Quatro”, de Roberto Berliner e Paschoal Samora – A música e a amizade entre a banda (Herbert, Bi e João), formada em 1983, e a crucial contribuição de um quarto membro, o empresário José Fortes.

COMPETIÇÃO INTERNACIONAL

LONGAS OU MÉDIAS-METRAGENS (12 filmes)

. “O Espião”, de Maite Alberdi (Chile-EUA-Alemanha-Holanda-Espanha) – Um espião neófito é infiltrado em um asilo de idosos.

. “Ficção Privada”, de Andrés Di Tella (Argentina) – Durante vários dias e noites, um ator e uma atriz lêem a correspondência entre Torcuato e Kamala – ele da Argentina, ela da Índia, pais do diretor. Escritas entre os anos 1950 e 1970, as cartas referem-se a amor e idealismo, registram viagens pelo mundo, falam sobre socialismo e psicanálise, sobre dor e sonhos desfeitos.

. “ Silêncio de Rádio”, de Juliana Fanjul (Suíça-México, 2019) – Um retrato da radialista e repórter mexicana Carmen Aristegui, vencedora do Prêmio María Moors Cabot/2008. Em sua luta contra notícias falsas, corrupção do governo e o tráfico de drogas, Aristegui foi demitida de sua estação de rádio em 2015, lançando sua própria emissora on-line.

. “Forman vs. Forman”, de Helena Třěštíková e Jakub Hejna (República Tcheca-França) – Registros públicos e privados combinam-se para compor retrato original de Milos Forman (1932- 2018), de seu papel central na Nova Onda tcheca dos anos 1960 até a premiada carreira em Hollywood (“Estranho no Ninho”, “Amadeus”).

. “Cidade dos Sonhos”, de Weijun Chen (China) – Um veterano vendedor de rua de Wuhan – a maior cidade da região central da China – luta contra a ordem das autoridades municipais de desalojar seu quiosque.

. “ Collective”, de Alexander Nanau (Romênia) – Um grupo de jornalistas do diário Gazeta Sporturilor revela a corrupção nos altos círculos do poder ao investigar um incêndio na boate Colectiv, em Bucareste, que matou dezenas e feriu mais de uma centena de pessoas.

. “Dick Johnson está Morto”, de Kirsten Johnson (EUA) – Um psiquiatra aposentado de 86 anos celebra a vida com sua filha em encenações e fantasias sobre a morte e o além.

. “O Fator Humano”, de Dror Moreh (Reino Unido) – A história dos bastidores de quatro décadas de negociações em busca da paz entre Israel e seus vizinhos do Oriente Médio (Egito, Palestina e Síria), a partir de depoimentos exclusivos dos diplomatas dos EUA que participaram dos esforços de mediação.

. “Influência”, de Richard Poplak e Diana Neille (África do Sul-Canadá) – Uma investigação exclusiva sobre a ascensão e queda de uma das maiores empresas de relações públicas, a britânica Bell Pottinger, e de seu fundador, lorde Tim Bell (1941-2019) – de assessor de Margaret Thatcher a explorador de tensões raciais na África do Sul pós-apartheid.

. “Pão Amargo”, de Abbas Fahdel (Líbano) – A rotina de um campo de refugiados sírios no Líbano.

. “O Rei Nu – 18 Fragmentos Sobre a Revolução”, de Andreas Hoesslin (Alemanha-Polônia-Suíça) – Inspirado em escritos de Ryszard Kapuscinski (1932-2007), um ensaio sobre a ruptura do poder a partir de dois movimentos quase simultâneos: a derrubada, no Irã de 1979, do Xá Reza Pahlevi pela revolução xiita liderada pelo Ayatolá Khomeini, e a repressão sob comando soviético da “primavera polonesa”.

. “O Rolo Proibido”, de Ariel Nasr (Canadá) – Um mergulho na rica e popular produção cinematográfica do Afeganistão antes de sua brutal repressão pela ascensão do regime do Talibã a partir de 1996.

FOCO LATINO-AMERICANO (sete títulos)

A seleção inclui sete filmes (os três abaixo, mais os três latino-americanos da competição internacional e o brasileiro “Santiago das Américas ou o Olho do Terceiro Mundo”, de Silvio Tendler), que concorrerão a prêmio do Júri Popular.

. “Brouwer, a Origem da Sombra”, de Katherine Gavilan e Lisandra Lopez Fabe (Cuba) – Ao completar 80 anos, um dos mais importantes músicos cubanos, o compositor e trilheiro Leo Boower,  reflete sobre sua vida, sua obra e seu país.

. “1982”, de Lucas Gallo (Argentina-Brasil) – Como um programa de televisão chapa-branca, chamado “60 Minutos”, transmitiu a versão oficial da ditadura militar argentina sobre os 74 dias da Guerra das Malvinas de 1982.

. “Suspensão”, de Simón Uribe (Colômbia) – As ruínas da obra interrompida de uma grande ponte, visando rota mais segura de transportes pelas selvas do sul colombiano, erguem-se como metáfora a um só tempo da força da natureza, das artes da arquitetura e da atemporal corrupção política.

 

25º É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários
Data:
26 de março a 5 de abril (em São Paulo) e de 31 de março a 5 de abril (no Rio de Janeiro)
Curadoria e direção: Amir Labaki
Filmes premiados pelos júris oficiais qualificam-se à disputa pelo Oscar na categoria documentário
Entrada franca nas nove salas de exibição nas duas cidades
A programação reúne 83 títulos, debates e palestras
Informações completas de mostras competitivas de curta-metragem (nacionais e internacionais) e mostras retrospectivas, homenagens e debates estão disponíveis no endereço www.etudoverdade.com.br

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