Morre no Rio a atriz, cineasta e escritora baiana Conceição Senna
Conceição Senna, em "Gitirana"

Por Maria do Rosário Caetano

Conceição Senna, atriz de “Iracema, uma Transa Amazônica” e “Gitirana”, documentarista e professora baiana, radicada no Rio de Janeiro, morreu na última quarta-feira, 27 de maio.

O cinema baiano e o brasileiro perdem, além de uma intérprete apaixonada por seu ofício, uma de suas defensoras mais serenas e convictas, dedicada, junto com o marido, o cineasta Orlando Senna, às principais lutas em defesa de nosso audiovisual. O nosso e o latino-americano, já que o casal viveu em Cuba, onde atuou na EICTV (Escola Internacional de Cinema e TV de San Antonio de los Baños), criada por Gabriel García Márquez e Fernando Birri.

Orlando Senna foi um dos diretores da instituição, situada nos arredores de Havana, e Conceição integrou seu corpo docente como professora de Interpretação. No país caribenho, ela desempenhou, também, a função de apresentadora de programa de TV muito popular, o “Ventana al Sur”. Conceição, que morreu aos 83 anos, atuou, também, como professora e incentivadora da Escola de Dramaturgia e Cinema do Centro Dragão de Mar de Fortaleza, no Ceará.

A trajetória da atriz-cineasta e do companheiro Orlando Senna chegará, ano que vem, aos cinemas (ou ao streaming) como foco central do documentário “O Amor Dentro da Câmera”, das jovens realizadoras baianas Lara Belov e Jamille Fortunato. Para narrar as aventuras do casal Senna pelo cinema baiano, brasileiro e cubano, Belov e Fortunato contaram com apoio do projeto Rumos Itaú Cultural, que tem produzido inventivas biografias de cineastas, músicos, escritores, dramaturgos e artistas plásticos.

O teatro e a música marcaram o início da carreira de Conceição e Orlando Senna. Com o boom, no final dos anos 1950, do Ciclo Baiano (Roberto Pires, Luiz Paulino dos Santos, Rex Schindler, Glauber Rocha, Helena Ignez, entre outros), os dois jovens entusiasmaram-se com a possibilidade de fazer cinema. Dividiram-se, dali em diante, entre peças teatrais, filmes, o magistério e a gestão pública.

Orlando e Conceição Senna

O primeiro longa-metragem da jovem atriz Conceição Senna, que fizera figuração em “Tocaia no Asfalto”, foi “Caveira my Friend”, projeto underground de Álvaro Guimarães, com música dos Novos Baianos e elenco que trazia também Baby Consuelo, Sônia Dias, Nilda Spencer, Gessy Gesse, Nonato Freire e Manoel Costa. Um filme bem doidão. “Desbundado”, para entrar no espírito (e vocabulário) do tempo. Depois do “Caveira”, Conceição atuou em “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”, que Glauber filmou em Milagres, no sertão baiano.

O melhor momento da carreira da atriz viria a seguir, na década de 1970. Afinal, ela integrou o coletivo que realizou o seminal “Iracema, uma Transa Amazônica”, de Jorge Bodanzky e Orlando Senna. Conceição não protagonizou o filme (o papel de Iracema coube à paraense Edna de Cássia), mas integrou seu elenco e atuou como preparadora não só de Edna, mas de outras mulheres do povo, mobilizadas para o filme.

No ano seguinte, a atriz protagonizou “Gitirana”, dirigido pela mesma dupla (Senna e Bodanzky). No filme, um documentário que dialoga abertamente com a ficção, a atriz “atua” ao lado de habitantes de Juazeiro, terra baiana de João Gilberto, Petrolina, em Pernambuco, e Juazeiro do Norte, a cidade cearense que cultua o “santo” Padre Cícero. O filme mergulha no universo do cordel, na vida difícil do povo pobre do Nordeste e nos problemas trazidos pela construção de uma grande hidrelétrica.

Com a separação de Orlando Senna e Jorge Bodanzky, cada um tomou novo rumo cinematográfico. Bodanzky foi cuidar de “Os Mucker”, que dirigiu com o alemão Wolf Gauer, e Senna regressou à sua Lençóis, na Baixada Diamantina, para, baseado no romance “Bugrinha”, realizar com José Wilker e Gilda, “Diamante Bruto”. Conceição integrou o elenco e preparou a novata Gilda, a bugrinha, para protagonizar a narrativa. A atriz encerrou a década trabalhando com Geraldo Sarno na cinebiografia do “Coronel Delmiro Gouveia”, interpretado por Rubens de Falco. E começou os anos 1980, atuando em uma rara ficção científica brasileira, “Abrigo Nuclear”, do conterrâneo Roberto Pires.

Nas décadas seguintes, faria participação em dois longas que merecem registro especial: “Iremos a Beirute”, do cearense Marcus Moura, formado pela Escola de Cinema de Cuba, e “Chega de Saudade”, o delicado filme de Laís Bodanzky. Em 2007, as famílias Bodanzky e Senna já haviam se reaproximado, as mágoas da separação estavam curadas.

Os anos vividos em Cuba e no Ceará pelo casal Senna (que nunca abriu mão do apartamento, em Ipanema, estabelecido como porto seguro) estimularam a atriz a dedicar-se à direção cinematográfica. Em 1987, ela realizou um primeiro curta, “Memória do Sangue”. Este documentário elabora tema que sempre a apaixonou, a Guerra de Canudos. Antônio Conselheiro e seus penitentes são rememorados com depoimentos de moradores da região de Monte Santo e Cocorobó.

Em 2006, Conceição estreou no longa-metragem com “Brilhante”, uma espécie de “making of póstumo” de “Diamante Bruto” (1977). Em Lençóis, ela reviveu o impacto causado pelo filme (principalmente pela presença do astro televisivo José Wilker) num pequeno município baiano. E registrou as belezas da Chapada Diamantina.

Dois anos atrás, Conceição mostrou, no Cine Ceará, seu segundo e derradeiro longa documental “Anjos de Ipanema”. Um filme sobre os jovens que frequentaram, ao longo de dois intensos verões, as Dunas do Barato (ou Dunas da Gal), em torno de pier construído para levar esgoto ao alto mar.

A realizadora, que dedicara seus dois primeiros documentários à sua Bahia natal, contou, no Cine Ceará, que “tinha uma dívida com o Rio de Janeiro”, por ser “uma baiana radicada em Ipanema há muitas décadas”. Por isso, baseada em suas vivências, amizades e afetos, colheu, ao longo de cinco anos, depoimentos de amigos unidos por razão “espacial e afetiva”. Aqueles que frequentaram o Pier de Ipanema para conversar, elaborar projetos artísticos, fumar um baseado, saudar o sol, abraçar, beijar, dançar, divertir-se e, se fosse o caso, fazer sexo livre e casual. Vivia-se, então, aquela turma de Ipanema, sob influência do movimento hippie e das ideias da Contracultura.

Além de seus filmes como atriz ou diretora, Conceição Senna deixa dois livros (disponíveis também em e-book, na Amazon): “A Menina, a Guerra e as Almas” e “Ser Tão Mulher”. O primeiro será filmado pela dramaturga e cineasta (“Love Film Festival”) Manoela Dias, autora da série “Justiça”, tão logo ela termine de escrever a telenovela “Amor de Mãe”. O segundo (“Ser Tão Mulher”, livro de contos) é a matriz de série ficcional de Hermes Leal.

 

FILMOGRAFIA

Como diretora:

. 2018 – “Anjos de Ipanema” (longa doc)
. 2006 – “Brilhante” (longa doc)
. 1987 – “Memória do Sangue” (curta doc)

Como atriz:

. 1962 – “Tocaia no Asfalto”, de Roberto Pires
. 1963 – “Rebelião em Novo Sol”, de Orlando Senna & Geraldo Sarno (curta)
. 1963 – “Ziriguidum”, de Rex Schindler (curta)
. 1969 – “Caveira my Friend”, de Álvaro Guimarães
. 1969 – O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, de Glauber Rocha
. 1975 – “Iracema, uma Transa Amazônica”, de Bodanzky e Senna
. 1976 – “Gitirana”, de Senna e Bodanzky
. 1977 – “Diamante Bruto”, de Orlando Senna
. 1978 – “Coronel Delmiro Gouveia”, de Geraldo Sarno
. 1981 – “Abrigo Nuclear”, de Roberto Pires
. 1985 – “Ópera do Malandro”, de Ruy Guerra
. 1992 – “Oswaldianas” (episódio “Perigo Negro”, de Rogério Sganzerla)
. 1994 – “Me Hace Volar”, de Marcone Simão (curta)
. 1978 – “Cinemação Curtametralha”, de Sérgio Peo (curta)
. 1999 – “Iremos a Beirute”, de Marcus Moura
. 2007 – “Chega de Saudade”, de Laís Bodanzky
. 2010 – “Luz nas Trevas, a Volta do Bandido”, de Helena Ignez e Ícaro Martins
. 2009 – “De Velha Basta Eu”, de Victor dos Santos (curta)
. “Em Casa”, de Juliana P. Silveira (curta)
. 2010 – “O Último Romance de Balzac”, de Geraldo Sarno
. 2012 – “A Coleção Invisível”, de Bernard Attal

Como tema:

. “O Amor Dentro da Câmera”, de Lara Belov e Jamille Fortunato (em finalização)

Como escritora:

. 2010 – “A Menina, a Guerra e as Almas”
. 2017 – “Ser Tão Mulher”

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(1) Reader Comment

  1. Linda e carinhosa matéria da Maria do Rosário Caetano sobre a partida da querida Conceição Senna. De emocionar!! Disse tudo dessa Mulher talentosa, amorosa e guerreira que foi Conceição! Sentiremos sua falta!
    Parabéns Hermes Leal, por adquirir os direitos de filmar o “Ser Tão Mulher”. Está em boas mãos!
    Abs a todo o pessoal da equipe dessa Revista de Cinema maravilhosa!!

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