Prêmios Platino consagram “A Ausência que Seremos” , “O Agente Duplo” e “Pátria”
“A Ausência que Seremos”, de Fernando Trueba

Por Maria do Rosário Caetano

A oitava edição dos Prêmios Platino, láurea atribuída aos melhores do cinema ibero-americano, consagrou, em Madri, os filmes “A Ausência que Seremos”, do espanhol Fernando Trueba, “O Agente Duplo”, da chilena Maite Alberdi, e a série “Pátria”, produção da HBO Europa.

O Brasil, que concorria ao Platino de melhor atriz com Regina Casé, por seu notável desempenho no longa “Três Verões”, com Bárbara Paz (o melhor documentário, por “Babenco – Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou”) e com Nelson Botter Jr. (pelo longa animado “O Pergaminho Vermelho”) ficou sem nenhum troféu.

O viés hispano-americano do prêmio segue explícito. Em parte, pelo histórico afastamento cultural das Américas Hispânica e Lusitana, em parte pela incúria brasileira, já que nossas autoridades não conseguem enviar filmes legendados para melhor compreensão dos jurados. Além do mais, os ibero-americanos de fala espanhola são bem mais numerosos (só Brasil e Portugal expressam-se no idioma de Camões, enquanto os de língua cervantina são mais de vinte e se fazem representar por empenhadas Academias).

O triunfo da chilena Maite Alberdi, com seu documentário “O Agente Duplo” (“El Agente Topo”), era mais que esperado. O filme transformou-se na sensação latino-americana da temporada. Foi finalista ao Oscar e encantou plateias internacionais. Disponível no streaming (Globo Play), o longa de Maite registra a história de octogenário “espião” infiltrado em casa geriátrica nos arredores de Santiago. Ele deve “investigar” se certa idosa, ali recolhida, vem sofrendo maltratos. Não há quem resista ao charme do “agente duplo” tão diligente, embora pouco habituado ao uso de equipamentos digitais.

Já o triunfo do colombiano “A Ausência que Seremos” (cinco troféus Platino, incluindo melhor filme e melhor direção) resultou em grande exagero. O mexicano “Nuevo Orden”, de Michel Franco, e o guatemalteco “La Llorona”, de Jayro Bustamante, lhe eram (são) infinitamente superiores.

“Nuevo Orden” é um drama sobre a violência político-social no México contemporâneo e foi premiado com o Leão de Prata, no Festival de Veneza de 2020. Coube ao adrenalinado filme de Franco abrir, como convidado de honra, a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, ano passado.

“La Llorona”, em cartaz nos cinemas brasileiros, é um drama banhado em horror, que mistura genocídio do povo maya-ixiles, com a lenda da Chorona, mulher que mata os filhos e, como um espectro, transforma seus remorsos em rios de lágrimas. E, de quebra, traz a nossos dias imagens documentais de Pamela Yates, registradas no filme “Cuando las Montañas Tiemblan, 1983.

“A Ausência que Seremos”, disponível na programação da Netflix, não é mau filme. Tem qualidades, em especial seu protagonista, o espanhol (e almodovariano) Javier Cámara. Que, finalmente, conquistou seu merecido Platino de melhor ator.

Cámara, o atencioso enfermeiro de “Fale com Ela”, representa, em “Ausência…”, o médico sanitarista, professor universitário e político progressista Héctor Abad Gómez (1921-1987), assassinado por integrantes de esquadrão da morte. A narrativa se desenvolve em Medelín, a outrora conflagrada cidade colombiana.

O novo filme do espanhol Fernando Trueba (premiado com Oscar de melhor produção estrangeira pelo delicioso “Sedução-Belle Époque”) é por demais previsível e convencional. Sua vitória confirma que júris formados, em maioria, por produtores, diretores, atores e presidentes de Academias de Cinema não resistem a filmes edificantes.

“El Olvido que Seremos” foi realizado em solo colombiano e registrou a história de importante cidadão de Medelín. Mas o filme tem DNA espanhol. Tanto que seu diretor, seu roteirista (David Trueba, irmão de Fernando), seu protagonista (Cámara) e parte de seus técnicos são genuínos cidadãos de Castela. O longa-metragem dos irmãos Trueba já chegou à Noite dos Platinos (transmitida pelo Canal Brasil) recomendado por láurea (junto com o Oscar) de maior impacto entre os votantes: o Goya espanhol. Nesse respeitado prêmio, cuja estatueta homenangeia o genial pintor Francisco de Goya, “A Ausência que Seremos” foi eleito o melhor filme ibero-americano.

O Platino, láurea que nasceu de iniciativa da Fipca e Egeda, duas oganizações ligadas a produtores audiovisuais e arrecadadores de Direitos Autorais no mundo ibérico, tem sede em Madri. Mas, registre-se em favor de seus dirigentes: nas sete edições anteriores, a Espanha só triunfou com o magnífico (e franco favorito) “Dor e Glória”, de Pedro Almodóvar. E, neste ano, divide com a Colômbia o prêmio atribuído ao filme dos irmãos Trueba.

No terreno da animação, o vencedor foi “La Galina Turuleca”, da Espanha. Esta é uma categoria em que o Brasil conquistou um de seus (raros) troféus Platino (para o belíssimo “O Menino e o Mundo”, de Alê Abreu). Só dois outros filmes brasileiros foram “platinados”: “Que Horas Ela Volta?”, de Anna Muylaert (Troféu Educação em Valores, entregue por Riogoberta Menchu, Prêmio Nobel da Paz) e “O Sal da Terra”, de Wim Wenders e Juliano Salgado (melhor documentário).

No terreno das séries de TV, o grande destaque foi “Pátria”, eleita a melhor em sua categoria. E que somou mais três troféus Platino: melhor autor (Aitor Gabilondo), atriz protagonista (Elena Irureta) e coadjuvante (Loreto Mauleón).

Quem quiser conferir os oito capítulos desta série basca, poderá fazê-lo no streaming (HBO Max). Trata-se de narrativa dramática, baseada em romance de Fernando Aramburu, que mostra as consequências da luta empreendida por separatistas bascos no seio de duas famílias. Como se sabe, o ETA (Exército Armado do País Basco-Euskera) passou décadas dedicado a atos guerrilheiros para contrapor-se ao poder de Madri e tornar-se um país autônomo. Intento não obtido.

O ator mexicano Diego Luna, parceiro de Gael García Bernal no filme “Y Tu Mamán También” (Alfonso Cuarón, 2001) e na produtora Canana, fez jus ao Platino de Honor. Esta láurea, que já foi entregue a Sonia Braga, Rita Moreno, Antonio Banderas e Ricardo Darín, destaca anualmente um grande nome do cinema de fala hispânica ou portuguesa.

Luna, que protagoniza a segunda temporada de “Narcos” (dedicada ao Cartel de Guadalajara) tem carreira consolidada no México e nos EUA. Ele foi o intérprete mais jovem (41 anos) a receber tal reconhecimento. Os organizadores do Platino lembram que os laureados nessa categoria são “aqueles narradores audiovisuais que contam histórias de suas respectivas nações neste momento em que as plataformas de streaming rompem as barreiras dos idiomas e permitem a produções muito locais conquistar audiências em vários lugares do mundo”.

O jovem mexicano estreou como diretor de cinema dirigindo um longa documental sobre seu conterrâneo, o boxeador Julio Cesar Chavez (Chavez, 2010). Prosseguiu com “Mister Pig” (2016) e, agora, para a Netflix, realizou o novíssimo “Todo Va a Estar Bien”, uma tragicomédia familiar. Seu último trabalho como ator no mercado estadunidense se deu na série em 12 episódios “Guerra nas Estrelas: Andor”, ainda inédita. Ele atuou, também, nos filmes (made in USA) “Guerra nas Estrelas: Rogue One”, “Elysium”, “Milk – A Voz da Igualdade” e “Dirthy Dancing: Havana Nights”.

Confira os premiados:

CINEMA

. “A Ausência que Seremos” (Colômbia/Espanha): melhor filme, diretor (Fernando Trueba), ator (Javier Cámara), roteiro (David Trueba), direção de arte (Diego López)

. “O Agente Duplo” (Chile): melhor documentário, Prêmio Educação em Valores

. “La Boda de Rosa”, de Pilar Miró (Espanha): melhor atriz (Candela Peña) e melhor coadjuvante (Nathalie Poza)

. “La Lhorona”, de Jayro Bustamante (Guatemala): melhor fotografia (Nicolás Wong), montagem (Gustavo Matheu e Jayro Bustamante), som (Eduardo Cáceres)

. “Las Niñas”, de Pilar Palomero (Espanha): melhor opera prima (filme de diretor estreante)

. “La Galina Turuleca” (Espanha): melhor longa animado

. “El Príncipe”, de Sebastián Muñoz (Chile) – melhor ator coadjuvante (Alfredo Castro)

. “Akelarre” (“Silenciadas”), de Pablo Aguero (Espanha/Argentina): melhor trilha sonora (Aránzacu Calleja e Maite Arroitajauregui) – Disponível na Netflix

TELEVISÃO

. “Pátria” (Espanha)- melhor série, autor (Aitor Gabilondo), atriz protagonista (Elena Irureta), atriz coadjuvante (Loreto Mauleón)

. “El Robo del Siglo”: melhor ator (Andrés Parra), melhor ator coadjuvante (Christian Tappan)

Platino de Honor

Para o ator e diretor mexicano Diego Luna

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