Olhar de Cinema começa com “Vai e Vem”
Vai e Vem

Noite inaugural teve ainda cinema latino-americano e Thelonius Monk

Por Maria do Rosário Caetano, de Curitiba

A décima-primeira edição do Olhar de Cinema, o Festival Internacional de Curitiba, começou sob frio intenso, chuva e documentário que somou experimentação e assunto mobilizador. O longa da noite inaugural — “Vai e Vem”, da brasileira Fernanda Pessoa e da mexicana-brasileira-estadunidense Chica Barbosa — adicionou política, pandemia e dispositivo ligado às artes visuais. Ou seja, aos experimentos que buscam romper fronteiras entre o cinema e as artes plásticas, hibridizando-as. Tanto que o filme dialoga com cineastas experimentais das Américas, como Maya Deren, Paula Gaitán e muitas outras. E o faz através de cartas audiovisuais enviadas pela brasileira Fernanda, a partir de São Paulo-Brasil, já sob o governo de Jair Bolsonaro, para Chica Barbosa, em Los Angeles, nos EUA governados por Donald Trump. E vice-versa. No primeiro ano da pandemia do coronavírus, portanto, sob dupla motivação para muita inquietação das duas amigas-cineastas.

Fernanda e Chica são, ambas, dedicadas ao estudo e à práxis do cinema experimental, mas sem xiitismo. A primeira fez mestrado na Sorbonne e ocupa-se, atualmente, de doutorado na USP. “Vai e Vem” é seu terceiro longa. O primeiro dedicou-se ao universo da pornochanchada — “Histórias que nossos Filmes (Não) Contavam”. O segundo (“Zona Árida”) relembrou sua rica experiência, aos quinze anos, como estudante em período de intercâmbio na cidade de Mesa no desértico Arizona, nos EUA, para aperfeiçoar seu inglês. Chica, com raízes mexicanas e brasileiras, fala espanhol no filme, e o enriquece com a experiência de quem vive na cosmopolita Los Angeles californiana, tão latina e tão hollywoodiana.

Não há razão para temer que as cartas trocadas entre as duas jovens sejam estéreis exercícios formais, escravos do dispositivo. Quem quiser entrar no jogo metalinguístico e adivinhar que cineasta experimental elas estão homenageando neste ou naquele momento, poderá fazê-lo. Quem não souber que o filme baseia-se no livro “Women’s Experimental Cinema: Critical Frameworks”, organizado por Robin Blaetz, seguirá em frente, fascinado com a beleza das imagens e, principalmente, com o testemunho das duas jovens, que falam de suas apreensões com os países onde vivem (ambos governados por presidentes de extrema-direita) e a epidemia que vai se alastrando pelo mundo, matando milhões de pessoas e encerrando multidões em casa. Fernanda abrirá espaço para divertido depoimento da sogra, moradora da paranaense Maringá. Com sinceridade, ela contará, ali da base territorial de certo juiz lavajatista, que adora seus pássaros batizados com os nomes Lula e Dilma. Sob pressão, viu-se compelida a rebatizá-los. Para um providenciou o nome Inácio!

Fernanda fez, ainda, sua primeira campanha político-audiovisual: a das eleições municipais de 2020. Ligou-se ao Coletivo Juntas, de candidatas a vereadora da periferia, mulheres negras, integrantes da coligação de apoio ao candidato Guilherme Boulos, do PSOL. Ele teve desempenho surpreendente, mas não se elegeu. Nem a candidata do Coletivo Juntas. Desalento na carta fílmica enviada a Chica Barbosa.

De Los Angeles, sob a imponência do letreiro da meca H.O.L.L.Y.W.O.O.D. (bosque sagrado), Chica continua acompanhando coletivo de mulheres chicanas e negras. E mandando suas cartas fílmicas. “Vai e Vem” resulta em um belo filme que deve chegar aos cinemas com distribuição da Boulevard Filmes. Quem sabe este ano ainda. No mais tardar no primeiro semestre de 2023.

Com o fechamento do Espaço Itaú de Cinema curitibano (consequência da pandemia), o centro nevrálgico do Olhar de Cinema mudou-se para o Cine Passeio, um belo complexo cultural comandado pela Prefeitura de Curitiba, e para o Circuito Cinemark Mueller (com projeção nota dez). “Vai e Vem” foi projetado no Cine Passeio. Fernanda, vestida de vermelho, fez o “L” de Lula e torceu por tempos de profundas mudanças. Chica Barbosa, que veio de Los Angeles para Curitiba, desejou boa sessão ao público, naquela que seria a avant-première do filme. Antes, ele fora exibido no FAM (Festival de Florianópolis), mas como Working in Progress, ou seja, como obra em processo, em busca de recursos para sua finalização. Causou ótima impressão. Vê-lo pronto confirmou seu imenso potencial.

Antônio Gonçalves Jr, diretor do Olhar de Cinema, deu boas vindas aos convidados do Festival, falou das mudanças e da alegria de reencontrar o público depois de duas edições virtuais. Explicou que por três dias (de 7 a 9 de junho), o Olhar estará acessível via streaming, com ingressos a 6 reais. Poderão ser vistos todos os filmes de curta-metragem, toda a Mostra Mirada Paranaense (curtas e longas-metragens), a Mostra Outros Olhares inteira, a Pequenos Olhares (dedicada ao público infantil, com dois longas e dez curtas) e alguns longas do segmento Exibições Especiais. Os interessados devem consultar o site do Festival para conhecer os títulos que tiveram exibições on-line autorizadas por seus produtores.

É impressionante que um festival com apenas onze anos de idade mostre tamanha maturidade e organização. E curadoria tão madura. Como vem fazendo nos últimos anos, a equipe de curadores, sob o comando de Antônio Jr, sentou-se com a imprensa e convidados (e frente às câmeras de TV) para explicar seus pressupostos de trabalho e fazer destaques da programação de todos os seus segmentos.

Kariny Martins, Carol Almeida, Gabriel Borges, Carla Italiano, Camila Macedo (e Eduardo Valente, ausente devido a compromisso acadêmico no exterior, mas que enviou texto e suas sugestões por escrito) expuseram as coordenadas de seus trabalhos e justificaram as sugestões de curtas, médias e longas-metragens que indicaram ao público. Quem quiser conhecê-las, em detalhes, pode assistir à gravação, disponibilizada no site do Festival. Destacamos aqui, duas sugestões de Kariny Martins, que recomendou um curta produzido pela Unila (Universidade Federal da Integração Latino-Americana), situada em Foz do Iguaçu — “O Hábito de Habitar”, e “Tudo que é Apertado Rasga”, este por evocar Grande Otelo.

Carla Italiano e Carol Almeida colocaram ênfase na mostra de sete dos 25 filmes da norte-americana Su Friedrich, que serão exibidos no Olhar Retrospectivo. Elas lembraram que a realizadora, que é lésbico-feminista, fez do média-metragem o formato de muitas de suas realizações. Por isso, foi duplamente ignorada no Brasil. A indústria do cinema e os festivais privilegiam o longa-metragem e o curta Na hora de restaurar materiais privilegia estes dois formatos. E dá-se o apagamento. Então, ver os médias de Su, restaurados, é mais que necessário. A cineasta não estará em Curitiba, mas além de ver seus filmes, o público poderá assistir a palestra dela, no site do Olhar.

O jovem curador Gabriel Borges recomendou, com entusiasmo, os quatro curtas e dois longas do boliviano Kira Russo, formado pela Universidade de Buenos Aires. Seu longa “Viejo Calavera” já passara por edição anterior do Olhar de Cinema. Mas o filme que vem causando sensação é “O Grande Movimento”, seu trabalho mais recente, exibido em Veneza, ano passado. Trata-se de longa documental, do artista escolhido esse ano para a Mostra Foco. Russo tem 38 anos e uma imensa inquietação criativa. Seu cinema dialoga com as variantes do filme documental e é tributário de todos os hibridismos.

“O Grande Movimento”, exibido na primeira noite da mostra competitiva, o fez em diálogo com “A Ferrugem”, da Colômbia. Antes, foi exibido o filme haitiano “Freda”, de Gessica Généus, atriz, cantora e realizadora, que assina sua estreia no longa ficcional. Uma história de jovens numa Porto Príncipe marcada pela violência e por enorme falta de confiança nos destinos da paupérrima nação centro-americana. Um Haiti assolado por males que parecem nunca chegar a termo.

O Grande Movimento

O cinema colombiano, que vive fase das mais instigantes, que o levou aos Oscar internacional com o poderoso “O Abraço da Serpente” e aos festivais internacionais como “Pássaros de Verão”, participa do Olhar com “La Roya” (“A Ferrugem”), de Juan Sebastian Mesa. O filme é protagonizado por Jorge (Juan Daniel Ortiz), um rapaz que vive numa pequena fazenda, do plantio de café, distante dos amigos e de uma namorada de juventude. Ele se relaciona sexualmente com uma parente, cuida do avô enfermo e trabalha pesado na lavoura cafeeira. Mas a ferrugem ataca a plantação. E uma febre estranha começa a consumir suas forças. O reencontro com amigos e o antigo amor da juventude o colocará numa encruzilhada. O filme tem, sim, pontos em comum com “O Grande Movimento”. Mas a proposta do boliviano, exibido fora de concurso, é mais radical.

Na tradição de “O Homem e sua Câmera”, de Vertov, e “Berlim, Sinfonia de uma Metrópole”, de Walter Ruttman, Kiro Russo constrói a sinfonia de uma La Paz marcada pela altitude e pela pobreza. Uma sinfonia de uma cidade dilacerada pela miséria, pelo desemprego e luta pela vida, com estranha epidemia pairando no ar. Três homens saem das entranhas de uma mina, na Bolívia, rumo a La Paz, em busca de trabalho. Um deles, Elder, tem problemas respiratórios e um imenso mal-estar, um cansaço que só faz crescer. Mesmo assim trabalha com bicos em imensa e caótica feira carregando grandes fardos, em troca de míseros trocados. Uma sinfonia do espaço urbano, mas também uma cacofonia laboral. Um filme realmente impressionante.

O público presencial do Olhar de Cinema — e o público on-line, portanto de todo o território brasileiro — deve ficar atento à Mostra Olhar Paranaense, pois a produção do estado está crescendo de modo significativo. Na noite inaugural, o diretor do Festival Internacional de Curitiba, Antônio Jr, passou a palavra a Edson Bueno, diretor da Fundação Cultural de Curitiba, que falou em nome do prefeito Rafael Greca. Sem nenhuma demagogia, o gestor foi conciso e exato em sua fala. Lembrou a luta do segmento cultural pelas leis Aldir Blanc e Paulo Gustavo, vitais para o desenvolvimento cultural do país e citou cinco filmes que vê como vitrines de projeção do estado (nacional e internacionalmente) nos últimos anos: “Deserto Particular”, de Aly Muritiba, “Mirador”, de Bruno Costa, “A Mesma Parte de im Homem”, de Ana Yohan, “Alice Júnior”, de Gil Baroni, e “Lamento”, de Diego Lopes e Cláudio Bittencourt.

A maior parte dos realizadores destas produções e dos nomes que realizam o Olhar de Cinema são quadros formados pelo curso de Audiovisual da Unespar (Universidade do Estado do Paraná). E, agora, a Unila (Universidade Federal de Integração da América Latina) começa a enviar seus primeiros curtas para a Mostra Mirada Paranaense. A sinergia vai-se dando de maneira orgânica.

E, como registro final, voltemos do particular (o regional) ao internacional: o Olhar de Cinema abriu seu primeiro dia de atividades plenas, depois da noite inaugural, com um filme de apenas 65 minutos, que valeram por duas horas: “Rewind & Play”, vindo da França (parceria com a Alemanha), dentro da rubrica “Exibições Especiais”. Todo cinéfilo gosta de correr risco. Duas da tarde de uma quinta-feira gelada e chuvosa. Sala vazia do Cinemark Muller, cujo foyer estava enfeitado com cartazes de blockbusters como o filme de Tom Cruise e do Parque dos Dinossauros. Que tal um arriscar-se com um pequeno filme sobre um deus do jazz, o pianista Thelonius Monk (1917-1982)?

O público foi chegando de mansinho. Umas 30 pessoas, em estado de graça, assistiram a um documentário apresentado no último Festival de Berlim, desencavado dos magníficos arquivos do INA (Instituto Nacional do Audiovisual da França), verdadeira fonte de tesouros cinematográficos. Lá estavam guardados registros de uma desastrada tentativa de entrevista de um amante do Jazz (de naturalidade francesa, claro) com seu ídolo, o estadunidense Monk, realizada em 1969. O pianista chega a Paris para uma série de apresentações, acompanhado da mulher Nellie Smith, adornada por um óculos muito do fashion.

Ao piano, o artista genial toca e sua em bicas, como se estivesse no Saara. A cada pergunta dá resposta tautológica. O perguntador se contorce. Nada consegue tirar do entrevistado. O filme mostra tudo que acontece. Dos dedos do pianista saem sons sublimes. De sua boca, quase nada. Só o óbvio. Das teclas do piano “Round Midnight”. Tomara que o documentário de Alain Gomis tenha espaço nobre em nossos canais a cabo e no streaming. E que ganhe um nome mais atrativo, revelador e explícito.

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