“Era uma Vez um Menino” celebra os 90 anos Ziraldo

Por Maria do Rosário Caetano

“Eu não daria um grande escritor, pois tive uma infância muito feliz!”

Esta é uma das tiradas de Ziraldo, pai da cineasta Fabrizia Alves Pinto, autora do documentário “Ziraldo, Era uma Vez um Menino”, estreia dessa quinta-feira, 12 de maio, no Canal Curta!, e que contará com quatro reprises. O filme poderá ser visto ao longo de um mês, por não-assinantes do Curta!On, serviço de streaming da emissora a cabo.

O documentário presta homenagem ao pai de filhos de papel (como a Turma do Pererê, a SuperMãe, Jeremias, o Bom, Menino Maluquinho, da cor Flicts, da Professora Maluquinha, de Teleco e Tim) e de três filhos reais: as cineastas Daniela Thomas e Fabrizia e o músico Antônio Pinto.

E por que mais uma homenagem fílmica a Ziraldo Alves Pinto, se tantas já foram feitas em curta e longa-metragem?

Porque este ano, o filho de Zizinha, a Zi, e Geraldo, o Raldo – daí o Ziraldo – torna-se nonagenário (dia 24 de outubro). Gente, ele tem um irmão que se chama Ziralzi. A família caratinguense só perdia para os cearenses na hora de inventar nomes para a pia batismal e registro em cartório. Imagine uma prosa entre Dona Zi & Seu Geraldo com o cordisburguense João Guimarães Rosa! O que ia sair de neologismo deixaria qualquer dicionarista atarantado!

Mas voltemos ao começo. Infância feliz não combina com boa literatura?

Ziraldo acredita que não. Para ele, os grandes escritores são aqueles que têm infância pobre, sofrida, atormentada por verdadeiros pesadelos. A dele, assegura, foi uma maravilha. Menino solto na beira do Rio Doce, sob árvores frondosas, com mãe e pai (mineiros de uma tranquila Caratinga, urbana e rural ao mesmo tempo) que adoravam os sete filhos.

Para brincar, contava com ruas, quintais, terrenos imensos, beira de rio. O espaço urbano de uma pacata cidade mineira era acolhedor e amigo. E a mãe, ao ver o menino arteiro fazendo molecagem, gritava: “vai brincar na rua, danado!” E na rua não havia perigos, só alegrias.

A infância de Ziraldo é lembrada como um tempo paradisíaco. Aos 16 anos, a mãe arrumou “o enxoval” do adolescente e disse: vai, meu filho, construir sua vida.

O desenhista, que queria ser quadrinista, foi para o Rio, tentar se empregar em algum jornal ou revista. Levou dezenas de esperanças, retribuídas com “chás de cadeira” e “nãos”, até que alguém o encaminhou a uma agência de publicidade. Descobriu, ali, que ganharia pouco na imprensa (mas teria compensações emocionais) e muito no mercado publicitário. E que teria que dividir-se entre esses dois territórios. Não imaginava que um dia, uma cor flicts, o transformaria em escritor best-seller. E que sua infância feliz faria dele o pai do garoto mais contente e alto-astral de nossa literatura infantil, o Menino Maluquinho, recordista de vendagem no suporte celulose e (até) no celulóide.

Ziraldo prestaria serviço militar (veremos imagens dele fardado e feliz!). Regressou a Caratinga falando “carioquês”. Fez tanto sucesso com as meninas, que resolveu cursar o terceiro científico na terra natal. Arrumar namorada no Rio não era tão fácil. Mas no lugar onde nascera e falando à moda de Copacabana, nossa!!!, arrasava. Aí foi estudar Direito em Belo Horizonte, pois uma das muitas tias que o paparicavam e o pai sonhavam vê-lo “em um júri, defendendo um réu!” Fez o curso na base do “enrolation” e nem foi buscar o diploma. Já estava enturmado no Jornalismo e nas artes gráficas. Não queria saber de Leis, nem de réus, muito menos de tribunais.

O documentário é todo construído com lembranças ziraldianas. Nenhum sofrimento. Só coisa boa. Até sua prisão nos anos duros do regime militar é contada com humor. “Fiquei vários dias preso, porque ninguém sabia que coronel me prendera, qualquer coronel podia mandar prender. Um militar disse que ia me mandar para a Argélia. Aí eu falei, ah não!, então me arranja papel e tinta preu escrever cartas para minha mulher e pros meus amigos”. Ele escreveu quase 100 cartas. Quem aguenta esse EASY RALDO?

Houve brigas no Pasquim? Ele foi acusado de mercantilista? O filme não está nem aí para essas picuinhas. A fase mais intensa da militância política do ilustrador, cartunista, chargista, quadrinista, jornalista, escritor, publicitário, ator e cartazista (“eu fazia 20% dos cartazes do Cinema Novo”, incluindo o de “Os Fuzis”) está centrada em passeatas e defesa veemente da democracia. No combate que sua geração travou contra o autoritarismo militar.

O fato do filme ter sido feito em família (Fabrizia na direção e Antônio Pinto na trilha sonora) felizmente não atrapalha. Fabrizia contém-se em sua atividade, trabalha bem com a paixão do pai pela chuva, pelo Rio Doce, pela infância, pelos amigos e parentes (sem exagerar na brodagem e no nepotismo!). E Antônio, trilheiro de “Cidade de Deus”, vamos combinar, é um craque. Esperem os créditos finais para fruirem dos nomes de suas composições matreiras e maliciosas, que temperam o filme com brasilidade e balanço. Uma delas se chama “Bosta Nova” (isso mesmo BOSTA Nova). Há coisa mais ziraldiana?

 

Ziraldo, Era uma Vez um Menino
Brasil, 105 minutos, 2022
Direção: Fabrizia Alves Pinto
Trilha sonora: Antônio Pinto
Estreia nessa quinta-feira, 12 de maio, às 22h, no Canal Curta! (reprises: sexta-feira, às 2h e 16h, sábado, às 13h, domingo, às 22h, segunda-feira, às 10h). Disponível, também, no Curta!On (Clube de Documentários): http://curtaon.tv.br/ViaInternet. No site do Canal Curta!, via internet, disponível de 12 a 15 de maio, gratuitamente, às 22h

 

ZIRALDO NO CINEMA

. 2022 – ”Ziraldo, Era uma Vez um Menino” , de Fabrizia Pinto
. 2020 – “Ziraldo, Uma Obra Pede Socorro”, de Guga Dannemann
. 2019 – ”A Turma do Pererê.doc”, de Ricardo Favilla
.2015 – “Uma Professora Muito Maluquinha”, de André Alves Pinto e César Rodrigues (adaptação de seu livro infanto-juvenil)
. 1998 – “Menino Maluquinho 2 – A Aventura”, de Fernando Meirelles e Fabrizia Alves Pinto (nova adaptação de seu livro mais famoso)
. 1995 – “Menino Maluquinho”, de Helvécio Ratton (adaptação de seu livro infanto-juvenil mais famoso)
. 1977 – “Ziraldo”, documentário de Tarcísio Vidigal (tema)
. 1971 – “As Aventuras de Tio Maneco”, de Flávio Migliaccio (Ziraldo assina as animações)
. 1970 – “Quatro Contra o Mundo”, de Sérgio Ricardo (longa em episódios, contendo “Menino da Calça Branca”)
. 1966 – “Rio Verão e Amor”, de Watson Macedo
. 1963 – “Esse Mundo É Meu”, de Sérgio Ricardo (ator) – (argumento e diálogos de Ziraldo)
. 1961 – “Menino da Calça Branca”, de Sérgio Ricardo (ator e autor dos títulos)
. (*) “Simonal, Ninguém Sabe o Duro Que Dei”, “Banda de Ipanema”, “Darcy, Um Brasileiro”, “Rádio Nacional”, “Pitanga”, “Ferreira Gullar – Arqueologia do Poeta”: (depoimentos)

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