Russiam Film Festival traz “Oração de Tarkovsky” ao Belas Artes

Por Maria do Rosário Caetano

O cineasta, exibidor e ex-secretário de Cultura da Cidade de São Paulo, André Sturm, não quer saber se russos e ucranianos estão em guerra. Pelo menos quando o assunto é cinema. A questão geopolítica é uma. A produção artística dos povos russo e ucraniano, outra. Seu circuito exibidor – o Belas Artes – está aberto às duas nações eslavas.

Por isto, enquanto a CPC-UMES Filmes espera resposta positiva do CineSesc para a realização da Mostra de Cinema Soviético e Russo em suas dependências, o Belas Artes, em parceria com a Roskino, espécie de Embrafilme moscovita, realiza a terceira edição do Russiam Film Festival – Volta ao Mundo. Trata-se de pequeno festival composto com apenas quatro longas-metragens: três dirigidos por mulheres e um pelo filho do cineasta Andrei Tarkovsky. Se o diretor de “Andrei Roublev” estivesse vivo, ele estaria completando 90 anos.

Para homenagear um dos nomes mais destacados da história cinematográfica soviética, o filme escolhido foi o documentário “Andrei Tarkovsky – O Cinema como Oração”. Os três filmes dirigidos por nomes femininos têm sua escolha justificada pela Roskino com argumento curioso: “nossas mostras anteriores mostraram, na América Latina, que os filmes mais procurados são aqueles dirigidos por mulheres”. Sendo assim, “resolvemos que, além de homenagear Tarkovsky, dedicaríamos o espaço integralmente a filmes contemporâneos comandados por nomes femininos”.

Os escolhidos foram “A Primeira Neve”, de Natália Konchalovskaya, que vem a ser filha de Andrey Konchalovsky e sobrinha de Nikita Mikhalkov, “Um Fôlego”, de Elena Khazanova, e “Quero Casar”, de Sonya Karpunina.

A cereja do Russiam Film Festival é mesmo “O Cinema como Oração”, de Andrei A. Tarkovsky, um dos filhos do diretor de “A Infância de Ivan” e “Solaris”. Já apresentado na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2019, nem por isso sua nova exibição perde importância. Rever a obra tarkovskiana (e este documentário) constitue-se em obrigação cinéfila. Até porque o cinema metafísico do realizador soviético nunca se decifra de uma vez. É misterioso, cheio de camadas, complexo e místico. É de todos sabido que ele, embora tenha nascido na URSS (em 1932) e vivido a quase totalidade de sua vida sob governos marxistas-materialistas, nunca abandonou sua religiosidade.

Filho de um poeta russo (Arsenij Tarkovsky), o menino Andrei tinha nove anos quando a Alemanha nazista invadiu a URSS. Seu pai havia se separado de sua mãe e tentara levá-lo para viver com ele. O garoto não quis, pois confessa ter sido sempre mais apegado à figura materna, embora mantivesse boas relações com o pai. Conta que muito destas relações estão revividas no filme “O Espelho” (1974).

“Cinema como Oração” é um relato subjetivo de Tarkovsky, que revê sua obra e reflete sobre arte, espiritualidade e suas incansáveis buscas criativas. De vez em quando emite opinião política. Sempre para mostrar certo desprezo por figuras engajadas. Conta que Jean-Paul Sartre defendeu, “filosoficamente”, o filme “A Infância de Ivan” (1962). Não se entusiasmou com os argumentos do intelectual francês, pois “eles não eram artísticos”. Admite que, se não fosse o degelo da Era Krushev, jamais teria conseguido realizar os cinco filmes que realizou na União Soviética.

Além de “A Infância de Ivan” (vencedor do Leão de Ouro em Veneza), Tarkovsky assinou o épico místico “Andrei Roublev” (com mais de três horas de duração), “Solaris”, “O Espelho” e “Stalker”. Os dois filmes seguintes seriam feitos no exílio: “Nostalgia”, na Itália (1983) e “O Sacrifício”, na Suécia (1986), lançado no ano de sua morte. Teve problemas sérios com as autoridades político-partidárias soviéticas. Alguns de seus filmes foram incompreendidos. Em especial “Andrei Roublev”, tido por alguns como “anti-histórico, anti-russo e individualista”.

O episódio político mais explícito do documentário de Andrei Filho – e mesmo assim sem grande alarde, pois Tarkovsky prefere temas ligados à arte e à espiritualidade – aconteceu em Cannes 1983. O cineasta concorria à Palma de Ouro com “Nostalgia”, um filme realizado na Itália, mas ainda vinculado à Rússia, já que o escritor Andrei Gorchakov (Oleg Yankovsky) buscava, na Península, a história de músico russo que ali se fixara séculos antes. Buscava, também, adaptar-se a um novo estilo de vida. Frustrado, ele conhece Domenico, homem que havia aprisionado a própria família por sete anos para salvá-la dos males do mundo. O roteiro, do próprio Tarkovsky, em parceria com Tonino Guerra, foi interpretado por numeroso elenco italiano (e pelo grande ator sueco Erlkand Josephson, um dos preferidos de Ingmar Bergman). Destaque para a belíssima Domiziana Giordano, figura que parece saída de um quadro de Boticelli.

“Nostalgia” rendeu a Tarkovsky o Prêmio do Júri (divido com Bresson, por “L’Argent”), o Prêmio Fipresci (Crítica Internacional) e do Júri Ecumênico (Igrejas). O grande vencedor foi “A Balada de Narayama”, do japonês Sohei Ymamura. Indignado, Tarkovsky atribuiu sua derrota ao conterrâneo Sergei Bondarchuk (1920-1994), diretor do monumental “Anna Karenina” (1967), premiado com o Oscar, e figura de proa do staff cultural soviético.

Em tom pouco usual, Tarkovsky garante que Bondarchuk argumentara, junto aos jurados, que o filme não representava a URSS, pois seria italiano. Depois daquela “facada tão traidora nas costas” (palavras do diretor de “Nostalgia”), ele e a esposa Larissa decidiram radicar-se, em definitivo, na Itália.

Ao longo de “O Cinema como Oração”, o diretor que influenciaria, em profundidade, o cinema de Alexandr Sokurov (hoje com 71 anos) vai evocar as grandes paixões artísticas de sua vida – Leonardo da Vinci, Bach, Tolstói e Bresson. E uma obra que ele tem na conta de perfeita, “Hamlet”.

Abaixo, a sinopse dos três filmes assinados por nomes femininos, que completam a compacta versão do Russian Film Festival 2022.

. “A Primeira Neve” (Natália Konchalovskaya, 2021) – Tragicomédia sobre a relação entre mãe e filha, que suscita questões filosóficas e sociais relacionadas a não se depender de ideias convencionais sobre o sucesso e felicidade. Este filme marca a estreia no longa-metragem da filha do famoso diretor russo Andrei Konchalovsky, 83 anos, que realizou em seu país natal filmes importantes como “Tio Vanya”, “Siberíade” e “Queridos Camaradas”. E, nos EUA, “Os Amantes de Maria” (com Nastassja Kinski), “Expresso para o Inferno” e “Sede de Amar”. Natália é sobrinha de Nikita Mikhalkov, premiado com o Oscar por “Sol Enganador”, e prima de Anna Mikhalkova, personagem de “Anna dos 6 aos 18”, belo documentário do pai, e hoje uma das mais famosas atrizes russas. Ela protagonizou a comédia “Vamos nos Divorciar”, de Anna Parmas, um dos oito títulos da primeira edição da Mostra Roskino de Cinema Russo Contemporâneo, realizada no Brasil dois anos atrás.

. “Um Fôlego” (Elena Khazanova, 2020) – Drama esportivo baseado na história de vida de Natália Moltchanova, conhecida como a “rainha do mergulho livre”. Ela começou a praticar esse esporte radical apenas aos 40 anos e, mesmo assim, conseguiu estabelecer mais de 40 recordes mundiais, tornando-se multicampeã mundial e fundando a Federação de Freediving na Rússia. Do ponto de vista técnico, o filme se destaca como “o primeiro longa-metragem russo rodado em alto-mar a uma profundidade de 100 metros”.

. “Quero Casar” (Sonya Karpunina, 2022) – Comédia romântica sobre uma jornalista que mantém tudo dentro do previsto e planejado: seu trabalho como apresentadora na TV, um noivo rico e bem-sucedido. Porém, seu plano de vida sofre abalo profundo, quando encontro casual desencadeará série de eventos que mudarão completamente os rumos de sua vida.

 

Russian Film Festival em São Paulo
Sessões presenciais de 23 a 26 junho, no Petra Belas Artes (Rua da Consolação, 2423)
Ingressos na bilheteria
Mais informações: www.cinebelasartes.com.br/programacao/russian-film-festival

 

Programação:

. Quinta-feira, 23 de junho, 19h00 – “Andrei Tarkovsky. O Cinema como Oração”
. Sexta-feira, 24 de junho, 19h00 “Um Fôlego”
. Sábado, 25 de junho, 19h00 “A Primeira Neve”
. Domingo, 26 de junho, 19h00 “Quero Casar”

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(1) Reader Comment

  1. Belissima matéria, Rosario.
    e um obrigada do tamanho de um bonde, pois soube desse maravilhoso acontecimento graças à você.
    Malu Alves Ferreira

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