“extremistas.br” retrata brasileiros que abraçaram o radicalismo em defesa de golpe militar

Por Maria do Rosário Caetano

Seis capítulos da impressionante série “extremistas.br”, novo trabalho do documentarista Caio Cavechini, de 39 anos, encontram-se disponíveis na Globoplay. Os dois episódios que encerram o ambicioso projeto – retratar os radicais de direita que recentemente invadiram e depredaram o Supremo Tribunal Federal, o Palácio do Planalto e o Congresso Nacional – serão disponibilizados nessa quarta-feira, 25 de janeiro.

O jovem realizador paulista, que dirigiu filmes polêmicos (e impactantes) como “Carta para um Ladrão de Livros”, “Marielle” e “Escola Base – Um Repórter Enfrenta o Passado”, transformou-se, em uma década, em documentarista disposto a enfrentar os temas mais espinhosos da vida política e social brasileira.

Sua nova série — esta dedicada aos extremistas verde-amarelos — resulta de tentativa de jogar luz sobre os brasileiros que abraçaram com fúria indômita (e muita fake news) Jair Bolsonaro, o candidato derrotado. E esperam, em estado de exacerbação, que ele seja reconduzido à presidência da República, com recurso extremo – um golpe de Estado comandado pelas Forças Armadas.

Os extremistas.br defendem, também, o uso irrestrito de armas por civis e estão dispostos a tudo para “enfrentar o Comunismo”. Vestem-se, na quase totalidade, a camisa da Seleção Brasileira (ou camisetas estampadas com imagem de Bolsonaro) e participam diuturnamente de redes sociais. Que fique claro: aquelas que não permitem o contraditório, pois só abrem espaço para materiais que reafirmam “pensamento” comum.

A força da série está em sua atualidade. Desde 2021, Cavechini trabalhava com sua equipe no projeto dedicado aos radicais de direita. O material já estava pronto quando o país foi surpreendido pelo trágico “Oito de Janeiro”, o dia da bárbarie bolsonarista. O dia do golpe frustrado.

Os profissionais, sob o comando de Cavechini, trabalharam incansavelmente por dois dias e duas madrugadas. Dia 11 de janeiro, a série chegava, quentíssima, aos assinantes da Globoplay. Ou seja, com imagens dos extremistas esfaqueando obra de Di Cavalcanti, quebrando relógio do francês Martinot (trazido ao Brasil por Dom João VI), destruindo portas e paredes de vidro de palácios niemáricos e, até, urinando ou defecando nos locais vandalizados.

Caio Cavechini formou-se em Jornalismo na ECA-USP (Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo), agregou-se ao “Profissão Repórter”, programa comandado, na Rede Globo, por Caco Barcelos, realizou curtas (um deles o premiado “A Casa de Vovó Neide”) e chegou aos festivais com “Carne, Osso”, parceria com Carlos Juliano Barros, sobre a dura rotina dos trabalhadores de um frigorífico (2011).

Cinco anos depois, ainda em parceria com Carlos Juliano, lançaria o filme que o projetou nacionalmente – “Carta para um Ladrão de Livros”, sobre o maior ladrão de obras raras do país, o ex-ajudante de pizzaiolo Laessio Rodrigues de Oliveira.

O fascinante documentário ultrapassou as páginas culturais dos jornais e causou sensação, indo parar em outras editorias – inclusive na policial –, pois importantes instituições (bancário-financeiras, inclusive) haviam comprado obras roubadas por Laessio.

O grupo Globo, que já tivera o jovem jornalista e cineasta em seu “Profissão Repórter”, passou a abrigar suas novas produções. E Cavechini começou a enfrentar temas ainda mais urgentes, caso do bárbaro assassinato da vereadora Marielle Franco (e seu motorista Anderson Gomes) pela milícia carioca (em “Marielle – O Documentário”, de 2022). Seguiu-se o longa “Cercados”, sobre o famigerado “cercadinho”, no qual o então presidente Jair Bolsonaro destratava jornalistas da grande mídia corporativa e trocava amabilidades com seus seguidores-admiradores. Todos de verde-amarelo e loucos por selfie com “o mito”.

Produtivo, Cavechini realizou, ainda em 2022, o longa documental “Escola Base – Um Repórter Enfrenta o Passado”, em parceria com Eliane Scardovelli, sobre um dos mais graves erros da imprensa brasileira, que sem questionar declarações de delegado aparício (Edélsio Lemos), destruiu a vida de dois casais paulistanos, que mantinham, em sociedade, escolinha de atendimento infantil.

Os quatro foram acusados de abuso sexual dos infantes. Mentira deslavada, como provaria a Justiça, quando o delegado incompetente acabou afastado do kafkiano processo. O Governo de São Paulo e muitos veículos de imprensa foram obrigados a pagar indenização a Ishikuro Shimada e sua esposa, Maria Aparecida, e a Maurício Monteiro. A esposa de Maurício, Paula Monteiro Alvarenga, que viu seu casamento destruído, não foi indenizada até hoje (por problemas pessoais e pelas injustiças geradas pela burocracia). Documentário obrigatório, que continua na grade da Globoplay.

Caio Cavechini é um workaholic. Vai trabalhando, com grande dedicação e em companhia de seus colaboradores (equipe de roteiristas e de pesquisadores), temas cada vez mais explosivos. O documentarista já nem se preocupa em colocar seus filmes nos cinemas ou festivais. Abraçou o jornalismo investigativo com raro empenho.

No caso de “extremistas.br”, Cavechini mostra que sabe mobilizar personagens de grande potencial. É impressionante e reveladora a presença de Rosângela Pessanha, carioca de classe média, fã alucinada de Bolsonaro e de Roberto Jefferson, o ex-deputado que transformou-se em espécie de decrépito Rambo do Terceiro Mundo, sem a gordura de outrora, já velho e com aparência esquálida (aliás, há que se registrar – como fez o jornal O Globo – que 70% dos presos do “Oito de Janeiro” têm mais de 40 anos; só 8% são jovens). Pois Jefferson crivou de balas carro da Polícia Federal que levava os agentes encarregados de prendê-lo.

Rosângela aparece no documentário de Cavechini como se estivesse participando de uma comédia sofisticada na Côte d’Azur. Recebe a equipe nos aposentos de sua bela casa, se deixa filmar maquiando-se ou pregando seu ideário. Dizendo os absurdos que costumam ser ditos pelos extremistas. E, claro, defendendo o uso de armas pesadas como as exibidas por seu ídolo petropolitano (o pistoleiro Roberto Jefferson).

Outra figura impressionante é a de um operador de redes sociais (anônimo, mas que se deixa vislumbrar, com seu corpo magro e nervoso). Ele emite confissões de causar arrepio. Conta que era viciado em drogas e que encontrou no novo ofício – disparar memes e vídeos nas redes sociais, bem remunerados pelos políticos contratantes – o seu ganha-pão. O rapaz sabe que é tudo fake news, mas – diz à série “extremista.br” – que não se sente incomodado em destruir reputações de pessoas honestas, pois “eu vivo disso”.

Outro personagem que se destaca na série é André Janones, o parlamentar mineiro que apoiou a candidatura Lula usando a internet de forma semelhante à dos radicais bolsonaristas. Ou seja, com agressividade e sem nenhum bom-mocismo. Caso contrário, falaria aos mesmos (os já convertidos) e não chegaria ao público ávido por sensações que nada têm de reflexivas. Jovem e atrevido, Janones merece um documentário só para ele.

A transformação de imagens em desenhos em preto-e-branco, somada à voz calma da atriz Malu Mader, que faz narrações pontuais e bem-equilibradas, constituem-se em momentos de necessária trégua. Afinal, quem aguenta frequentar o sanatório geral em que o Brasil se transformou com a ação desabrida (acampamentos de porta de quartel e toneladas de fake news) dos extremistas da direita brasileira?

Será que os radicais seriam tão exibicionistas quanto o são na série, se ela tivesse sido gravada depois do “Oito de Janeiro”?

Hoje, somos, a cada novo dia, informados sobre o prontuário de muitos dos encarcerados devido à barbárie do fatídico domingo de janeiro: além de predadores do patrimônio público alguns são traficantes (caso de moradora idosa de Tubarão, no Paraná, e do destruidor do relógio Martinot, residente em Catalão-Goiás, que encontra-se foragido).

A série ouve estudiosos das redes sociais (caso de Pablo Ortelado), cientistas sociais e dupla de universitários que criou o Slepping Giants (movimento destinado a alertar empresas e consumidores sobre páginas digitais que disseminam discursos de ódio). Ouve, também – entre outros radicais – a esquecida Sara Winters. E uma infiltrada em grupos extremistas, além de jovem de apenas 19 anos, empenhado em monetizar seu canal divulgando ideias de extrema direita.

A série documental dedica espaço significativo a dois trágicos momentos de nossa história recente – o assassinato de um militante petista (Marcelo Arruda), assassinado (por Jorge Guaranho) durante a festa de seus 50 anos e dentro de sua própria casa em Foz do Iguaçu-PR. E o policial militar baiano, Wesley Soares, que num surto (“paranóide, não psicótico”, explicará a psicóloga Fernanda Bassani), amotinou-se com o rosto pintado em verde-amarelo e fortemente armado, no Farol da Barra-Salvador. Depois de proferir palavras de ordem extremistas e atirar em colegas que tentavam demovê-lo, foi morto.

Quem assistiu ao longa-metragem “Intervenção – Amor Não Quer Dizer Grande Coisa”, de Rubens Rewald, Thales Ab’Saber e Gustavo Aranda (2017), encontrará em “extremista.br” um complemento de grande (e pedagógica) valia.

 

extremistas.br
Série em 8 capítulos
Direção: Caio Cavechini
Roteiro: Carol Pires, Carlos Juliano Barros e Caio Cavechini
Onde: GloboPlay

 

FILMOGRAFIA
Caio Cavechini (São Paulo, 1983)

2006 – “Antes, um Dia e Depois” (longa-metragem)
2011 – “Carne, Osso”, em parceria com Carlos Juliano Barros (longa)
2015 – “Jaci, Sete Pecados de uma Obra Amazônica”, com Carlos Juliano Barros (longa)
2016 – “Entre Homens de Bem”, com Carlos Juliano Barros (longa)
2017 – “Carta para um Ladrão de Livros”, com Carlos Juliano Barros (longa)
2022 – “Marielle – O Documentário” (série em seis episódios)
2022 – “Cercados” (longa)
2022 – “Escola Base – Um Repórter Enfrenta o Passado”, dirigido em parceria com Eliane Scardovelli (longa)
2023 – “extremistas.br” (série em 8 capítulos)

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