O octogenário André Téchiné discute, com “As Pessoas ao Lado”, ética profissional e a convivência com o diferente
Foto: “As Pessoas ao Lado”, de André Téchiné
Por Maria do Rosário Caetano
Dois filmes europeus ganham destaque nessa temporada de múltiplos lançamentos (são sete os brasileiros) – o francês “As Pessoas ao Lado”, dirigido pelo veterano André Téchiné, de 83 anos, e o espanhol “Surda”, de Eva Libertad, estreante de 47. Ambos estão disponíveis em nosso circuito de arte, a partir dessa quinta-feira, 14 de maio.
“As Pessoas ao Lado” mostra que Téchiné, conhecido dos cinéfilos brasileiros por “As Rosas Selvagens” e “Minha Estação Preferida”, segue um realizador digno de todas as atenções. Ex-crítico da revista Cahiers du Cinéma, ele sempre foi apaixonado por grandes atrizes. Dirigiu Jeanne Moreau, Catherine Deneuve, Isabelle Adjani, Juliette Binoche e, agora e pela segunda vez, Isabelle Huppert. Os dois haviam trabalhado juntos em “As Irmã Brontë” (1979).
Em “Les Gens d’à Côté”, Huppert, de 73 anos (mas aparentando bem menos), é a protagonista absoluta da trama. Ela interpreta Lucie Muller, agente da Polícia Científica, viúva de outro agente policial, que teria recorrido ao suicídio. A perda é recente e ela curte a solidão batendo ponto na delegacia, fazendo exercícios físicos e cuidando, com imenso zelo, do jardim de sua casa.
Até que conhece Julia (Hafsia Herzi, de “O Segredo do Grão”) e sua filha pequena (a encantadora Romane Meunier), que acabam de mudar-se para a vizinhança. Conhecerá, também, Yann (Nahuel Pérez Biscayart, ator franco-argentino, protagonista de “120 Batimentos por Segundo” e “O Jockey”), marido de Júlia e pai de Rose. O rapaz, que demonstra grande talento para as artes plásticas, é um combativo ativista político, ligado a movimentos black bloc. Por isso, tem sérios problemas com a polícia.
Téchiné, que foi assistente de Jacques Rivette e dirigiu quase 30 filmes e telefilmes, acrescenta (aos costumeiros conflitos familiares de seus melhores trabalhos) pano de fundo marcado por problemas sociais e políticos da França contemporânea. A violência urbana em especial. Sem esquecer a difícil relação com oriundos de ex-colônias (caso dos irmãos Slimane e Serge, interpretados ambos pelo ator Moustapha Mbengue, de origem africana), a falta de empatia do mundo contemporâneo e conflitos ligados à ética profissional.
Atraída cada vez mais pela menina Rose, a policial, que não tem filhos, acabará aprofundando seus laços afetivos com os três vizinhos. E o fará sem revelar sua profissão. Ou seja, sem contar que integra a instituição repressiva que Yann tanto rejeita.
As consequências dos atos de Lucie se desdobrarão ao longo de enxutos 85 minutos, em narrativa marcada por elegância e sobriedade. Marcas, aliás, constantes nos filmes do realizador (pelo menos, dos poucos que chegaram ao circuito comercial brasileiro) já que muitos de seus longas-metragens só chegaram ao Brasil em festivais e mostras. Não às salas de exibição.
O final de “As Pessoas ao Lado” é de beleza singular. E marca impressa no corpo de Lucie, vista em instante fugaz, dialogará com as estátuas africanas que decoram sua bem cuidada residência. Objetos que ela colecionou com o saudoso marido.
“Surda”, longa que vem causando sensação em festivais, mostras e prêmios (como o Goya espanhol e Platino ibero-americano), enquadra-se em categoria muito valorizada em nossos tempos — os filmes que abordam a luta por inclusão. Nesse caso, com atenção aos portadores de deficiência auditiva. Sua protagonista, Ángela (Miriam Garlo, irmã da diretora Eva Libertad, na vida real), é, como pontua o título, surda (desde a primeira infância). E se comunica por sinais.
O filme foi inspirado em curta-metragem homônimo, dirigido pela mesma Eva Libertad. A ideia de realizá-lo veio de desejo que uniu as duas irmãs. Como Miriam gostaria de vivenciar a experiência da maternidade, ela aceitou compartilhar com Eva seus medos e reflexões. A boa recepção do público ao curta serviu de estímulo para nova abordagem, agora num filme de longa-duração. “Surda”, pretendia (e conseguiu) aprofundar os temas levantados.

Miriam, quando da escritura do novo roteiro, já havia abandonado a ideia de ser mãe. Por isso, preferiu distanciar-se de uma suposta autobiografia. Eva Libertad decidiu, então, entrevistar diversas mulheres que haviam vivenciado histórias que poderiam ter sido experimentadas pela irmã (ou por sua personagem ficcional). O parto ganhou o devido relevo na narrativa.
Ángela, a personagem de Miriam Garlo, passa por momento de desespero, pois a equipe médica que a atende não está habilitada a comunicar-se com uma mulher surda em ocasião tão inesperada. Eva ouviu testemunhos de muitas mulheres surdas, que enfrentaram o parto normal.
Miriam Garlo, premiada como “atriz revelação” nos Prêmios Goya, faz de Ángela uma personagem forte e complexa. Uma mulher surda oralizada, que perdeu a audição antes de ser alfabetizada e de desenvolver a fala. A jovem se casará com Hector (Álvaro Cervantes), que ouve (e fala). Ao engravidar, um novo mundo se descortinará para o casal. E trará, mesmo que subliminarmente, uma grande preocupação: a criança nascerá surda?
A tensão crescerá após o nascimento da bebê, primeira filha do casal. Saberemos que a criança não é portadora de deficiência auditiva. Mas surgem novas questões. Quem deverá cuidar dela? Pessoas que ouvem e falam, para que receba os estímulos necessários ao desenvolvimento dos sentidos da audição e fala? E a mãe de primeira viagem? Saberá cuidar bem da filha? Deverá fazê-lo?
O que Eva Libertad mostra em seu primeiro longa será capaz de prender a atenção do espectador. E motivá-lo a refletir sobre o que está vendo. O filme foge do facilitário melodramático. “Surda” constrói-se como drama realista, avesso a apelos sentimentais e lacrimosos. Um filme duro e nada paternalista.
Em fevereiro último, ao receber o “Goya” de atriz revelação, Miriam Garlo registrou seu agradecimento, com força e lucidez. Fez questão de ponderar que “nenhuma pessoa surda é muda. Somos pessoas surdas, temos nossa própria identidade e nossa própria voz, mas nem sempre ela é oral”.
Surda | Sorda
Espanha, 2025, 98 minutos
Direção e roteiro: Eva Libertad
Elenco: Miriam Garlo, Álvaro Cervantes, Elena Irureta, Joaquim Notario
Fotografia: Gina Ferrer García
Montagem: Marta Velasco
Música: Aránzau Calleja
Distribuição: Retrato Filmes
As Pessoas ao Lado | Les Gens d’à Côté
França, 2024, 85 minutos
Direção: André Téchiné
Elenco: Isabelle Huppert (Lucie), Hafsia Herzi (Julia), Nahuel Pérez Biscayart (Yann), Romane Meunier (Rose), Moutapha Mbengue (que interpreta os irmãos Slimane e Serge), Stéphane Rideau (Comissário), Emmanuelle Hiron (Lola), entre outros
Roteiro: André Téchiné, Régis de Martrin e Thomas Gourdy
Fotografia: George Lechaptois
Distribuição: Imovision
FILMOGRAFIA
André Téchiné (Valence d’Agen, França, 13 de marco de 1943)
Diretor, roteirista e ex-crítico de cinema
2024 – “As Pessoas ao Lado” (Les Gens d’à Côté)
2003 – “Almas Gêmeas”
2028 – “L’Adieu à la Nuit”
2017 – “Nos Années Folles”
2016 – “Quand on a 17 Ans”
2014 – “L’Homme qu’on Aimait Trop”
2011 – “Impardonnables
2009 – “La Fille du RER”
2007 – “Les Témoins”
2004 – “Les Temps que Changent”
2003 – “Les Égarés”
2001 – “Loin”
1996 – “Os Ladrões”
1994 – “As Rosas Selvagens”
1993 – “Minha Estação Preferida”
1991 – “J’Embrasse Pas”
1987 – “Les Innocents”
1986 – “O Lugar do Crime”
1985 – “Rendez-vous”
1981 – “Hotel das Américas”
1979 – “As Irmãs Brontë”
1976 – “Barroco, o Jardim do Suplício”
1975 – “Souvenir d’en France” (Memórias de uma Mulher de Sucesso)
1970 – “Michel, l’Enfant du Roi”
1970 – “Pauline s’en Va”
