Canal Brasil apresenta “Alucinação”, versão ficcional e melancólica da trajetória de Belchior
Por Maria do Rosário Caetano
O bardo cearense Belchior, autor de sucessos como “Apenas um Rapaz Latino-Americano”, “A Palo Seco” e “Como nossos Pais”, tem sua vida revisitada por Eduardo Albergaria em série ficcional, que o Canal Brasil lança nesse sábado, em horário nobre.
A narrativa seriada, composta de quatro capítulos, servirá de aliciante e suculento recheio para dois documentários dedicados ao compositor. O primeiro, “Apenas um Coração Selvagem”, de Camilo Cavalcanti e Natália Dias, foi lançado há quatro anos. E, agora, reprogramado pelo Canal Brasil, para servir como esquentamento à estreia da “Alucinação” seriada.
O outro documentário – também chamado “Alucinação” – foi realizado por Renato Terra, Marcos e Leo Caetano e terá sua première no Festival do Rio, na primeira quinzena de outubro.
“Coração Selvagem” narra a trajetória de Belchior, que morreu “clandestino”, nove anos atrás, e a enriquece com participação do ator Silvero Pereira, responsável pela interpretação de poemas do artista. Já o documentário “Alucinação” restringe-se ao disco de mesmo nome, o mais festejado de Belchior (Philips, 1976).
Eduardo Albergaria ocupou-se, com a ajuda de ótimo time de atores, em desenhar a trajetória do rapaz latino-americano, sem dinheiro no bolso e sem parentes importantes.
O que o público verá na narrativa ficcional produzida pela Urca Filmes e difundida pelo Canal Brasil?
A Revista de CINEMA assistiu à série completa e adianta que os espectadores verão um delicado e melancólico perfil do artista nascido em Sobral, em 26 outubro de 1946, e que faria sua passagem 70 anos depois, na gaúcha Santa Cruz do Sul.
Belchior morreu longe dos palcos, dos inúmeros fãs, dos quatro filhos e dos amigos. Em especial, da turma do Pessoal do Ceará. Mas na companhia amorosa (a se julgar pela dedicação mostrada na série) da namorada Edna Prometheu.
O diretor e co-roteirista de “Alucinação” inicia os quatro capítulos de sua série com pequenas introduções documentais. Quando a ficção entra em cena, vemos Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes (encarnado pelo paraibano Luiz Carlos Vasconcelos) vivendo a conturbada quadra final de sua existência. As condições que o cercam são misteriosas, fugidias, absurdas. Ele refugiou-se no Uruguai, depois no Rio Grande do Sul, junto com sua companheira Edna, interpretada por Isabela Garcia.
Por vontade própria, o artista se afastara de sua carreira poético-musical. Tinha dívidas a pagar. A perambulação de hotel em hotel só ampliaria seus percalços (e despesas). Com as contas bloqueadas (e sem trabalho), sua situação financeira iria se agravando cada vez mais. Um dos credores, dono de hotel na uruguaia Artigas, teria a receber o correspondente a R$90 mil em diárias e despesas contraídas ao longo de alguns meses.
Sempre fugindo de hotéis (e da curiosidade da imprensa), o casal passaria por grandes aperreios. Incluindo até o item alimentação. Antes de cada fuga, Edna, auxiliada por Belchior, escondia modestos e improvisados sanduíches na bolsa.
A série alternará as dolorosas fugas do Belchior adulto aos seus momentos de glória artística (obtida a duras penas). O jovem compositor cearense será interpretado por Caian Zattar, um galã cabeludo, que gosta de apreciar sua fina estampa no espelho. Mas sempre com um quê de melancolia.
No capítulo final da série, veremos o menino Antônio Carlos Belchior em bucólicos passeios com a mãe, Dona Dolores (Ana Luiza Rios). E já assombrado por muitos medos. Mas também seduzido pela arte. Curioso e aberto à invenção, seja de artistas do jazz (representados pelo pianista Amaro de Freitas, em solo notável), seja dos cantadores populares. De um destes — quem sabe do próprio Zé Limeira — ouvirá os versos “Morri no ano passado, mas esse ano não morro”. Na canção “Sujeito de Sorte”, Belchior evocaria esses versos ‘absurdos’, devidamente reproduzidos, oralmente ou impressos em muros, por seus admiradores. Um tributo ao artista depois de sua inesperada morte.
O Belchior menino será interpretado por Márcio Levi. Os três “belchiores” da série são ensimesmados e tristes. Raros são os momentos de alegria. O mais velho troca beijos e olhares amorosos com a companheira em fuga. Num lance de ironia, o casal assistirá, na TV de um quarto de hotel, ao clássico “Bonnie and Clyde – Uma Rajada de Balas” (Arthur Penn, 1967).
O Belchior jovem, até no dia de seu primeiro casamento com Ângela (Alli Willow), realizado dentro dos ditames do véu e grinalda, parecerá angustiado. Mesmo assim, garantirá à amiga Amelinha “estar feliz”.
A versão infantil do futuro poeta e compositor já é atormentada por medos. Em passeio com a mãe, o menino se nega a nadar nas águas do açude. Teme que uma sucuri possa aparecer. Em vão Dona Dolores tentará atrai-lo para desfrutar do prazer das águas.
A série tenta compreender a melancolia do artista. Afinal, sua vida não foi fácil. Aos 18 anos, por livre arbítrio, ele foi para o Seminário dos Capuchinhos, em Guaramiranga. Passou três anos se preparando para o sacerdócio. Era o mais dedicado dos noviços. Adorava as aulas de canto e lia muito. Inclusive a “Divina Comédia”, de Dante. Quando o Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, cearense como ele e primeiro presidente do ciclo militar de 1964, visitou o centro religioso, uma foto foi feita e difundida pelos jornais. Belchior faria jus a posição privilegiada no retrato, próximo ao poderoso mandatário da República.
O jovem, porém, abriria mão de sua vocação sacerdotal. Faria vestibular para Medicina na Universidade Federal do Ceará. Teria sido aprovado em primeiro lugar. Frequentou aulas por longo tempo e assistiu a sucessivas dissecações de cadáveres. Mas, ao enturmar-se com o coletivo musical Pessoal do Ceará (Ednardo, Fagner, Amelinha, Jorge Mello, Rodger e Téti), “todos da Federal”, sentiu que encontrara sua turma. Com aqueles jovens daria vazão à sua veia poética e musical. Ele amava Drummond, João Cabral, Dante Alighieri, Rimbaud e Baudelaire.
O grupo de músicos cearenses tomou o rumo do Sul. Seus integrantes passaram por duros apertos financeiros, moraram em casa em construção, como “posseiros”. Houve dias em que não tinham dinheiro para comprar comida. É famosa a história (e ela está narrada na série) vivida por Belchior com a cantora Elis Regina. A voz mais refinada da MPB procurou o compositor para pedir canções novas para seu show “Falso Brilhante”.
Belchior, sem esconder sua real situação, avisou à estrela: não tinha gravador para registrar as músicas, não tinha violão (quebrado – segundo a série – durante altercação física com Fagner, que envolveu tesoura, socos e deixa-disso). Não tinha dinheiro nem para pagar a passagem do ônibus. Até insinuou que a visita se desse na hora da refeição, pois não havia almoçado, nem jantado nos últimos três dias.
A futura intérprete de “Como nossos Pais” e “Velha Roupa Colorida” mandou seu motorista buscar o artista, providenciou gravador e o recebeu com lauto jantar. Os dois saíriam ganhando daquele encontro. Ela, com dois hits do disco e show “Falso Brilhante”. Ele, com as gravações de intérprete que lhe proporcionaria imensa visibilidade.
“Alucinação”, a série, reuniu elenco de grande valor. Além do “trio de belchiores”, há que se destacar a dedicação de Isabela Garcia ao ingrato (e tenso) papel de Edna Prometheu e a surpreendente composição de Carlos Francisco para o Rei do Baião, Luiz Gonzaga, visto em comovente encontro, num camarim de teatro, com o discípulo e admirador confesso. E também a doce Dolores (Ana Luiza Rios), mãe de Belchior, o Frei Pacífico de Gero Camilo, o Carlos Drummond de Tim Rescala e o pintor Carlos Bracher, que interpreta a si mesmo e pinta retrato convulsivo (e famoso) de Belchior.
Registre-se que os intérpretes de Vinicius de Moraes e de Elis Regina não têm semelhanças físicas com seus personagens. Mas Ricardo Guilherme, ator cearense e amigo de Belchior, consegue convencer na pele do Poetinha. Mesmo caso de Tainá Medina, que cumpre a difícil missão de representar Elis. Num primeiro momento, nos perguntamos: quem ela está interpretando? Depois, pelos diálogos, sabemos que dá vida à voluntariosa Pimentinha. Ao cearense Robério Diógenes, que causou furor na pele de delegado muito do safado em “O Agente Secreto”, coube papel dificílimo (e fugaz) – o do presidente Castelo Branco.
No terreno musical, a presença mais luminosa é a de Amaro de Freitas. O pianista pernambucano interpreta a si mesmo. E pode desenvolver notável solo como músico (e ator). Como a série se chama “Alucinação”, o que se busca é um mundo referencial. Uma atmosfera impregnada em poesia. Não a “verdade”. Se o jazz é a arte do improviso, por que impedir Amaro de Freitas de ministrar “sintética masterclass” ao Belchior infante (e ao público)?
Os intérpretes da trupe do Pessoal do Ceará – Vinícius Cafer, como Fagner; Lua Martins, como Amelinha; Pedro Fasanaro, como Ednardo; Ítalo Rui, como Jorge Mello; Mateus Honori, como Rodger; e Larissa Góes, como Téti – superam as “dessemelhanças” físicas com bons desempenhos e vocais convincentes. Devem ter familiaridade com a música, pois sabem dedilhar as cordas de um violão e entoar canto afinado.
O espectador notará que os roteiristas Daniel Dias e Eduardo Albergaria preferiram lançar mão de liberdades poéticas. Promover encontros fictícios (entre Belchior e Drummond, por exemplo), criar situações não documentadas, dar vazão à imaginação. Quem desejar se ater à história acontecida e documentada de Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes deverá ler o livro que inspirou a série – “Belchior, Apenas um Rapaz Latino-Americano”, de Jotabê Medeiros (Editora Todavia, 2017). E rever o documentário de Camilo e Natália, enquanto aguarda o documentário “Alucinação”, de Terra e dos Caetanos.
Eduardo Albergaria conseguiu, com discrição e sobriedade, realizar sua intenção inicial: “Procuramos revelar o homem por trás desse mito. Compreender o jovem que buscava o sagrado, o estudante de Medicina fascinado pela vida e pela morte, o filho profundamente marcado pela relação com a mãe, o amigo, o apaixonado e o artista que nunca deixou de fazer perguntas. Mais do que explicar o desaparecimento de Belchior, queríamos compreender o caminho que o conduziu até ele”.
A série chega em momento especial. Se vivo fosse, Belchior completaria 80 anos no próximo 26 de outubro. E seu disco mais cultuado (“Alucinação”) foi gravado há exatos 50 anos. E, por sorte, a série revaloriza composições como “Légua Tirana” (do repertório de Gonzagão, paixão do Pessoal do Ceará) e hits da trupe que colocou o estado nordestino na mapa musical brasileiro – “Mucuripe”, “Terral”, “Canteiros” e “Pavão Mysterioso”.
Alucinação
Brasil, 2026, série ficcional em 4 capítulos, média de 50 min. cada um
Direção: Eduardo Albergaria
Estreia: nesse sábado (29 de agosto) às 22h. E nos sábados seguintes (5, 12 e 19 de setembro)
Onde: Canal Brasil (depois na Globoplay)
Criação e roteiro: Eduardo Albergaria e Daniel Dias, a partir do livro “Belchior, Apenas um Rapaz Latino-Americano”, de Jotabê Medeiros
Produção: Leonardo Edde e Eduardo Albergaria (Urca Filmes)
Fotografia: Marcelo Camorino
Montagem: Marília Moraes, Felipe Bibian e Eduardo Albergaria
Trilha sonora: Plínio Profeta e Amaro Freitas
Classificação indicativa: 14 anos
Horários alternativos: aos domingos, às 20h; segundas-feiras, às 18h30, e quartas, às 14h
Maratonas: sábado, 26 de setembro, a partir das 18h30; domingo, 27, a partir das 21h; quarta, 30, a partir das 14h
Belchior – Apenas um Coração Selvagem
Brasil, 2022, documentário, 91 min.
Direção: Camilo Cavalcanti e Natália Dias
Onde: Canal Brasil , às 20h30, nesse sábado (29 de agosto), antes de “Alucinação” (série).
Classificação indicativa: 14 anos
Sinopse: este longa documental se propõe como um mergulho no coração selvagem do poeta, cantor e compositor cearense que com sua obra e suas ideias cortantes marcou e ainda marca a vida de tanta gente.
