Uma centena de filmes brasileiros compõe a programação da Mostra SP e um deles resgata trajetória de Alberto Cavalcanti
Foto: “Cavalcanti”, de Jairo Neto e Graubi Garcia
Por Maria do Rosário Caetano
Oitenta filmes brasileiros (uma centena, se somados a séries e coproduções) serão apresentados na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Seis deles, 100% inéditos, irão – se passarem pelo crivo do público – disputar o troféu Bandeira Paulista, desenhado por Tomie Othake.
Um dos concorrentes é o documentário “Cavalcanti”, de Jairo Neto e Graubi Garcia, e tem a trajetória do mais internacional dos cineastas brasileiros, Alberto Cavalcanti (1897-1982), como razão de ser. O carioca, de origem pernambucana, e cidadão do mundo, que os amigos chamavam de CAV, iniciou-se no cinema na Avant-Garde francesa (“Rien que les Heures”, “En Rade”), passou pelo documentário inglês liderado por John Grierson (”Coal Face”), filmou na Suíca (“Alice”) e no Brasil (além de dirigir a Vera Cruz, realizou “Simão, o Caolho”, “O Canto do Mar”, “Mulher de Verdade”). Na Alemanha Oriental adaptou “O Senhor Puntila e seu Criado Matti”, adaptação de Bertoldt Brecht. E para este mesmo país, e com ajuda de Jorge Amado, produziu o longa-metragem “Rosa dos Ventos”, cujo episódio brasileiro foi dirigido por Alex Viany e serviu para revelar a atriz baiana Marlene França.
Alberto Cavalcanti, que o Brasil parecia ter esquecido, vem sendo resgatado com novos estudos (dissertações de mestrado e teses de doutorado), mostras (com a realizada recentemente pela Cinemateca Brasileira) e filmes como este de Neto e Garcia. Homem de múltiplos ofícios (diretor, roteirista, produtor, diretor de arte e montador), correu mundos. Sua fama nasceu na Avant-Garde francesa (foi amigo de Jean Renoir e dirigiu sua esposa Catherine Hessling, ex-modelo de Auguste Renoir), e seguiu por diversos países europeus.
Cavalcanti nunca afastou-se das vanguardas, embora tenha aceitado dirigir filmes “comerciais”, como o vaudeville “A Coisa Brasileira” (“Un Truc Brésilien”), em Paris, e duas preciosidades fascinantes, os “filmes de gênero” (um noir e outro de horror). Respectivamente, “Nas Garras da Fatalidade” e, a oito mãos, “No Silêncio da Noite” (“Night of Dead”, com os colegas britânicos Basil Dearden, Charles Chrichton e Robert Hamer). Uma das parte deste filme, aquela protagonizada por um ventríloquo e seu boneco, deixou Martin Scorsese impressionadíssimo (e arrepiado).
Outro documentário da competição “Novos Diretores” da Mostra SP – o mineiro “Retratos da Várzea”, de Lucas Campolina – tem como tema uma paixão nacional, o futebol.
O realizador, nesse que é seu primeiro longa-metragem, acompanha quatro personagens retratados como boleiros de várzea. São pessoas comuns, que “vivem o futebol, nas periferias de Belo Horizonte, entre o sonho e a fantasia”. Todos muito distantes da realidade de atletas bem pagos e festejados como os do Atlético Mineiro ou do Cruzeiro. Por não conseguirem viver como boleiros profissionais, eles fazem dupla jornada como garis ou cozinheira. Sim, há uma personagem feminina, Jana, entre os protagonistas.
Lucas Campolina entende muito de futebol e de cinema. Afinal, foi produtor, corroteirista e montador de “Lutar, Lutar, Lutar (O Filme do Galo)”, ótimo longa documental sobre o clube que conheceu a glória com o jogador (depois escritor famoso) Aníbal Machado e o inesquecível Reinaldo.
Um terceiro documentário – “À Sombra do Sol”, de Hugo Haddad e Isadora Canela – tem povos originários brasileiros como tema. Sua estreia se deu no Hot Docs, no Canadá. No centro da narrativa, está o professor guarani Germano Bruno Afonso, referência nos estudos sobre astronomia indígena e saberes ancestrais do céu.
Três ficções completam o sexteto de pré-candidatos ao troféu Bandeira Paulista – o paranaense “Horizonte”, de Jéssica Candal, o capixaba “Adeus Verão”, de Diego de Jesus, e “Os Dias Livres”, coprodução entre Brasil, Argentina, México e França, dirigida por Lucila Mariani.
Se passarem pela peneira do voto popular, um ou dois destes filmes disputarão o prêmio da Mostra SP com produções internacionais dirigidas por realizadores com no máximo dois longas-metragens no currículo. Esse segmento do festival paulistano se propõe a revelar talentos.
Até hoje, só um filme brasileiro venceu o cobiçado Troféu Bandeira Paulista – o fascinante “Cinema, Aspirinas e Urubus”, do pernambucano Marcelo Gomes. O Prêmio Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) também será destinado a filme de jovens realizadores.
Já os filmes de diretores brasileiros experientes (ou veteranos) disputarão prêmios especiais outorgados pelo público (melhor ficção e melhor documentário), pela Netflix (Prêmio Aquisição, que garantirá exibição no streaming de 90 países), pelo Projeto Paradiso (apoio para exibição nos cinemas), Crítica, Troféu Brada (melhor direção de arte) e Prêmio Prisma Queer.

Os júris especiais terão que maratonar. Afinal, dezenas e dezenas de filmes brasileiros estarão espalhados na Mostra Brasil, na Mostrinha e em Sessões Especiais. Sem esquecer as séries brasileiras, que vão se consolidando em pré-estreias de seus primeiros episódios no festival paulistano. Este ano, são quatro. Duas se destacam – Sócrates Brasileiro”, de Walter Salles, sobre o saudoso (e politizado) médico e jogador corinthiano Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira (1954-2011), e “Leve Chico”, da pernambucana Marianna Brennand. A diretora de “Manas”, um dos filmes premiados pela Mostra SP, ano passado, mostrará alguns de seus 13 episódios (de 15 minutos cada) que acompanham o processo de recriação de canções clássicas de Chico Buarque de Hollanda por artistas contemporâneos.
Quem se dispuser a ver ao menos dez (ou 20) dos mais de 80 longas brasileiros selecionados, terá farto material para avaliar. Público e júris especiais poderão começar com o candidato brasileiro a uma vaga no Oscar (“Feito Pipa” ou “O Mundo de Gugu”, do cearense Allan Deberton). Ou com o indicado ao Prêmio Goya de melhor filme ibero-americano (“Vicentina Pede Desculpas”, do mineiro Gabriel Martins). Se quiserem apostar num filme dos mais inventivos e instigantes, devem reservar ingresso para o goiano (de Catalão) “Pequenas Tragédias”, o melhor (e mais mobilizador) dos filmes queer de Daniel Nolasco.
“Se Eu Fosse Vivo…Vivia”, do “filme de plástico” André Novais Oliveira chega recomendado pelo Festival de Brasília, que o premiou com seu principal Troféu Candango. “London”, dos gaúchos Victor Di Marco e Márcio Picoli, conquistou o Leão queer no Festival de Veneza.
Quem viu o documentário “Alucinação”, sobre o mais famoso dos discos de Belchior, garante que ele é imperdível. Uma maravilha que faz jus à sua fonte sonora e chega para somar-se ao culto ao artista cearense, desde sua morte em 2017. Culto que encontra no livro “Apenas um Rapaz Latino-Americano” (Jotabê Medeiros, Editora Todavia), poderoso estímulo. E que prossegue na série “Alucinação” (Canal Brasil) e no filme ficcional “Viver é Melhor que Sonhar” (ambos de Eduardo Albergaria), sem esquecer “Pessoal do Ceará – Lado A, Lado B”, documentário de Nirton Venâncio, cuja estreia acontecerá em novembro, no Cine Ceará. “Alucinação”, o documentário que a Mostra SP exibirá, foi concebido e dirigido por Renato Terra, Marcos e Leo Caetano.
Três veteranos – Ana Carolina, Eduardo Escorel e André Klotzel – destacam-se na Mostra Brasil do festival paulistano. A diretora de ficções como “Mar de Rosa”, “Das Tripas Coração” e Sonho de Valsa” volta ao documentário com “Di Cavalcanti”. Sobre a fértil trajetória do pintor carioca Emiliano Di Cavalcanti (1897-1976). Filme mais que oportuno. Afinal, não existe um longa-metragem sobre o artista, um dos mais importantes do país. Há, claro, “Di”, o curta performático que Glauber Rocha realizou no velório do “pintor das mulatas” e que foi premiado no Festival de Veneza (por um júri que contava com Roberto Rossellini entre seus integrantes). Mas, por infortúnio, “Di” seria interditado judicialmente pela filha do pintor. Ela considerou a homenagem glauberiana “desrespeitosa”.
O cineasta (e montador de “Terra em Transe” e “Cabra Marcado para Morrer”) Eduardo Escorel, que fez breve incursão pela ficção (“Lição de Amor”, “Ato de Violência”, “Cavalinho Azul” e um episódio de “Contos Eróticos”), vem dedicando-se, com paixão, ao documentário. Já são quase vinte títulos, dos quais há que se destacar a Tetralogia do Brasil de Vargas (“1930 – Tempo de Revolução”, “1932 – A Guerra Civil”, “35 – O Assalto ao Poder” e “Imagens do Estado Novo”) e o obrigatório “Antonio Candido, Anotações Finais”.
O público da mostra poderá assistir ao novíssimo “Paraíso Semiárido”, longa documental realizado em duas etapas. Primeiro, em 2007, quando Escorel registrou os sonhos de Geno (Genivaldo Vieira da Silva), que criava bodes no sertão nordestino e buscava seu paraíso privado. Passados dezessete anos, o documentarista regressou à alagoana Inhapi e encontrou outro Geno. Já septuagnário, com mudanças na família e preocupado com as consequências do isolamento.
O paulistano André Klotzel, do irresistível “Marvada Carne” (1985, vencedor do Festival de Gramado) e do instigante “Reflexões de um Liquidificador” (2010), está – felizmente – de volta. E com nova ficção, uma comédia dramática, intitulada “Sem Pai Nem Mãe”. No elenco, um time especial, liderado por Alexandre Nero, que contracena com Manoela Aliperti, Pamella Machado, Caio Horowicz, Dalton Vigh e os divertidíssimos Aramis Trindade, Luis Miranda e Paulo Vieira. O roteiro é da lavra do próprio Klotzel e com parceiro que o ajudou num de seus mais deliciosos curtas (“Brevíssima História das Gentes de Santos”) e no longa machadiano “Memórias Póstumas”.
O quinto longa de Klotzel, separado das “Reflexões de um Liquidificador” por largos 16 anos, conta a história de um comediante de vida desregrada, cujas relações amorosas não andam bem. As portas de sua casa vivem escancaradas. Ele dedica parte de seus dias à produção de livro sobre jovem guerrilheira dos tempos da ditadura militar. Um dia, a única versão do texto, guardada em seu laptop, será levada por ladrões.
Aguardemos, pois, o desfecho do novo Klotzel, que, em quatro décadas de carreira, só dirigiu cinco longas-metragens. E pensar que sua estreia, em Gramado 1985, encheu de alegria os olhos do público e da Crítica. E o filme, ao ser lançado nos cinemas, venderia mais de 700 mil ingressos.
Quem gostou de “A Mulher do Pai”, filme que revelou a gaúcha Cristiane Oliveira, poderá conferir “Ela Foi Ali Guardar o Coração na Geladeira”. Pela primeira vez, a realizadora soma à sua assinatura parceria com seu companheiro (e produtor), o cineasta Gustavo Galvão. No elenco, a atriz (dramaturga e diretora) uruguaia Verónica Perrota.
A produção regional brasileira, aliás, encontra vitrine poderosa na Mostra SP. Do Ceará, além de “Feito Pipa”, chega “Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha”, de Janaína Marques, filme de muitas qualidades, grande vencedor do Olhar de Cinema curitibano. Da Bahia, chega a primeira ficção, “Jardim dos Silêncios”, de Henrique Dantas, autor de cativantes documentários sobre os Novos Baianos, Dorival Caymmi e o Cinema Udigrudi soteropolitano.
Da soma de esforços entre Minas Gerais e o Rio Grande do Sul, chega ao festival paulistano a animação “O Filho da Puta”, de Erica Maradona, Tania Anaya, Otto Guerra e Sávio Leite. O quarteto realizou um filme irrrevente (como tudo que tem o inquieto Otto, dos “Cowboys Gays” e de “Sexo, Orégano e Rock’n Roll”, nos créditos). Filme para jovens e adultos.
Como Minas Gerais vem apostando no cinema de animação (com a Escola de Belas Artes da UFMG na retaguarda), outra produção animada mineira será mostrada no festival paulistano – “Ana, en Passant”, de Fernanda Salgado. Um filme criativo, que soma técnicas diversas (rotoscopia, colagens, 2D, stop motion, aquarela, pintura em vidro e impressão fotossensível sobre notas fiscais). A realizadora, que prepara sua tese de doutorado em Montreal, no Canadá, é a primeira mulher afro-brasileira a dirigir um longa animado.

O cinema no feminino, aliás, marca notável presença na Mostra SP. De Pernambuco chegam a ficção “Coração de Lona”, de Tuca Siqueira, e o documentário “Cão sem Plumas”, de Camila Valença, belo registro do encontro entre Debora Colker, seus bailarinos e o cineasta Claudio “Amarelo Manga” Assis. Do Rio, “O Sertão das Nossas Memórias”, de Lúcia Murat, e “Tribalistas, o Baú da Hora Fértil”, de Dora Jobim. Do Rio Grande do Sul, “Medley”, de Ana Luiza Azevedo. De Minas Gerais, o documentário “Maxita”, de Mariana e Ana Maria Machado“.
São Paulo, o estado anfitrião da mostra, mostrará seis produções — “Maria de Maria”, de Luiza Shelling Tubaldini, “Talismã”, de Thais Fujinaga, “Telúrica, a Íntima Utopia”, de Mariana Lacerda, “Rua e Crua – Artistas Urbanas do Brasil”, de Tatiana Lohman, “Ensaiando o Brasil”, de Elisa Bracher e um filme póstumo, “Quase Família”, da documentarista Joyce Prado (1987-2025). Dona de grande talento, a jovem estreou com o longa “Chico Rei Entre Nós”, premiado na Mostra SP 2020. Ao morrer muito cedo (aos 38 anos), ano passado, Joyce lega mais um filme, “Quase Família”, às novas gerações de artistas afro-brasileiros.
O cinema documentário tem poderosa representação na Mostra SP: “Cansei de Ser Galã”, de Bento Marzo e Eduardo Ades, nos traz face menos conhecida de Claudio Marzo (de “Irmãos Coragem” e “Pantanal”). Além de galã de novelas, ele foi um militante político. O depoimento de sua ex-mulher, a atriz Betty Faria, revela o desaparecimento do artista, depois de participar de comício improvisado. O ator estava no ar com uma telenovela (“A Última Valsa”) em pleno processo de gravação. Quem assistir ao filme, conhecerá a história em detalhes.
Vale lembrar que Marzo protagonizou, no papel de um militante da luta armada, o belo filme “Nunca Fomos Tão Felizes”, de Murilo Salles, vencedor do Festival de Brasília de 1984. O cineasta revelou à Revista de CINEMA que o convite ao ator, para contracenar com seu “filho” (na ficção) Roberto Bataglin, deu-se pelo “imenso talento de Marzo, não por sua militância”. E mais: “eu nem sabia que a atuação política dele tinha a dimensão revelada pelo testemunho de Betty Faria”. Que aliás, cuidava com a filha Alexandra Marzo, pequenina, quando o companheiro desapareceu. Apavorada, ela pediu ao pai, um general reformado, que buscasse o genro. Ele vestiu a farda guardada e saiu à procura de Cláudio Marzo. Para o bem familiar e da arte, ele foi localizado. O ator seguiria sua brilhante carreira na TV, no cinema e no teatro. Até sua morte, em 2015, aos 74 anos.
Há outros documentários, todos dignos de conferência, programados pela mostra: “Tudo é Tempo”, de Marcos Gutmann, que acompanha quatro cidadãos-eleitores ao longo de quatro eleições presidenciais (Troféu Candango pelo Júri Popular no Festival de Brasília 2026 e Prêmio Especial do Júri), “Dragões”, de Miguel Antunes Ramos, “Fernanda” (Montenegro), de Pedro Waddington, “Vitória da Paz”, de Ricardo Kalil, Fábio Gusmão e Dudu Levy, “Ney por Trás das Máscaras”, de Esmir Filho (sobre Ney Matogrosso), “Squel, Confissões de uma Porta-Bandeira”, de Celina Torrealba e Zeca Brito, “A Extraordinária Vida de Vera Valdez”, de Fabio Meira, e “No Passo da Cobra”, de Estêvão Ciavatta.
O cinema brasileiro, que historicamente apostou pouco em coproduções internacionais, está mudando de rumo e buscando, cada vez mais, parceiros em outros continentes. O produtor Rodrigo Teixeira, assim como Vânia Catani (parceira de Lucrécia Martel em “Zama”), desempenham importante papel nesse processo de internacionalização.
Um belo filme – “La Perra”, de Dominga Sotomayor – une Chile e Brasil, por empenho de Teixeira. Ele adquiriu o romance “A Cachorra” (título brasileiro), da colombiana Pilar Quintana, e convidou a cineasta do país andino para adaptá-lo e dirigi-lo. Foi um “produtor-parceiro”, acompanhou todas as etapas do processo e levou Selton Mello para o elenco. O resultado é um drama tenso e intenso, que participou da Quinzena dos Cineastas, no Festival de Cannes, e foi o convidado de honra do encerramento de Gramado.
O produtor brasileiro, aliás, marca presença na Mostra SP com um total de sete produções, algumas latino-americanos, uma (o filme inaugural, “Paper Tiger”, de James Gray) vem dos EUA, e dois outros de países distantes — o Nepal, com “Elefantes na Névoa”, de Abinash Bikram Shah, e o Líbano, com “Furies”, de Rami Kodeih.
Além de “La Perra”, há que se destacar entre os filmes do produtor brasileiro, “Glaxo”, de Benjamín Naishtat (Argentina-Brasil). O cineasta já apresentou, no festival paulistano, um longa de imensa beleza, “Vermelho Sol” (2017), e causou ótima impressão em nosso circuito de arte com “Puan”, dirigido em parceria com a atriz María Aché e protagonizado pelos craques Leo Sbaraglia e Marcelo Subiotto.
O nome de Rodrigo Teixeira, coprodutor do oscarizado “Ainda Estou Aqui”, figura também nos créditos dos brasileiros “Isabel”, de Gabe Klinger (com Marina Person à frente do elenco) e do terror das “privadas assassinas”, “Privadas de suas Vidas”.
A carioca Sabrina Fidalgo somou forças com o suíço Yvan Rodic para realizar coprodução internacional de muitas qualidades – “O Projeto” (não percam). O filme investiga marcas visíveis e invisíveis de seis séculos de colonialismo e supremacia branca no Norte e no Sul global. E o faz com participação pessoal (eles aparecem na narrativa) dos dois realizadores. Ela, Sabrina, é cineasta afro-brasileira, ele, Rodic, europeu, vindo da Suíça, nação rica e privilegiada.
A Mostra SP apresentará, ao público interessado, 15 coproduções entre o Brasil e países da América Hispânica, Europa, Oriente Médio e Ásia. Destaque para “A Margem do Rio”, de Enock Carvalho e Matheus Farias (com a Alemanha), “A Professora de Francês”, de Ricardo Alves Jr. (com França e Portugal), “O Deserto de Luiza”, de Alan Minas (com o Reino Unido), “Leite em Pó”, de Carlos Segundo (com a França), “Me Deixa Ser”, de Viviane D’Avilla (com Índia e EUA), “A Marca do Jaguar”, de Victor Mayorga (com o México), “Seis Meses no Prédio Rosa e Azul”, de Bruno Santamaria (com México e Dinamarca), além do filme vindo do Nepal e do Líbano.
Um título de aparência enigmática (“144 – Apocalipse Não”) uniu Brasil e Portugal. E vem chamando atenção por fato inusitado: seu diretor, João Paulo Cuenca, ficcionista, levava sua vida ocupado com as palavras. Um dia, um de seus textos tornou-se objeto de execração de seguidores de Jair Bolsonaro (em especial, fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus). O escritor acabou atingido por 144 processos judiciais, espalhados por diversos pontos do território nacional. Mas não se dobrou.
Cuenca resolveu registrar sua peregrinação, que resultou em viagem de 11 mil km. O objeto audiovisual, que evoca no título os 144 processos, ajudou o escritor-cineasta a “tentar compreender um país marcado pelo fervor religioso”. Um fervor atrelado a “disputas políticas e a (muitas) contradições sociais”. Ele resume o filme como “um retrato provocador de um Brasil entre a cruz e a espada”.

O cinema brasileiro, que historicamente, nunca dedicou a atenção devida à produção de filmes infanto-juvenis, parece estar acordando. A mostra criou sua “Mostrinha”, para ajudar na formação de público. Dezenas de longas-metragens (sendo sete brasileiros) serão ofertados a infantes e pré-adolescentes.
Do Espírito Santo chega “Folclórica”, de Rodrigo Aragão, nome da linha de frente do ‘terror movie’ brasileiro. Agora, em fase digamos “ligth”, o cineasta mergulha no folclore de nossa gente para contar história cativante (e nada bagaceira). Trata-se de animação em stop motion.
E há mais animações made in Brazil programada pela Mostra SP: “Gildo”, de Thomas Larson e César “Rê Bordosa” Cabral (que será exibido também na Mostra Brasil), “Amadeo e o Hipotético Mundo Novo”, de Brenda Lígia e Edu Felistoque, e “Esconderijo de Gigantes”, de Barbara Cabeça. “A História Mais Triste do Mundo”, do gaúcho Hique Montanari, constrói-se como drama fantasioso em live action. Mas dialoga com a animação e com o teatro de bonecos.
Mais duas produções brasileiras – “O Capitão Engarrafado”, de Guilherme Reis, com o craque Luiz Carlos Vasconcelos, e “Clarice Vê Estrelas”, de Letícia Pires (produção anti-racista apoiada pelo craque Vinicius Jr. e pelo ator Bruno Gagliasso) – são dramas de fantasia em live action e completam a representação brasileira dedicada aos infantes.
No campo do cinema de horror, uma pedida se impõe – “Privadas de suas Vidas”, de Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner. O filme causou espécie no Festival de Brasília. Houve quem se indignasse em ver a competição cinematográfica mais antiga (e politizada) do país emprestando sua tela a um filme de terror gore, com “privadas assassinas” devorando vidas, muitas vidas. Mas a maioria se divertiu muito e o filme agradou, também, ao júri oficial, que consagrou, com total justiça, o trabalho da atriz Martha Nowill (não tinha para ninguém e ela ergueu o Troféu Candango de melhor protagonista). O júri premiou, ainda, a melhor coadjuvante (Olívia Torres, ex-aqueo com Aivan) e direção de arte (Juliana Lobo). Vinagre assina outro filme nessa edição da mostra, “A Paixão Segundo G.H.B.”, parceria com Vinícius Couto.
Confira a safra brasileira:
COMPETIÇÃO DE NOVOS DIRETORES
. “Cavalcanti”, de Jairo Neto e Graubi Garcia (SP)
. “Retratos da Várzea”, de Lucas Campolina (MG)
. “À Sombra do Sol”, de Hugo Haddad e Isadora Canela (MG)
. “Adeus Verão”, de Diego de Jesus (ES)
. “Horizonte”, de Jéssica Candal (PR)
. Os Dias Livres”, de Lucila Mariani (Brasil, Arg., Méx., França)
MOSTRA BRASIL
. “Pequenas Tragédias”, de Daniel Nolasco (GO)
. “Vicentina Pede Desculpas”, de Gabriel Martins (MG)
. “Se Eu Fosse Vivo…Vivia”, de André Novais Oliveira (MG)
. “Sem Pai Nem Mãe”, de André Klotzel (SP)
. “Alucinação”, de Renato Terra, Marcos Caetano e Leonardo Caetano (RJ)
. “Feito Pipa” (O Mundo de Gugu), de Allan Deberton (CE)
. “Paraíso Semiárido”, de Eduardo Escorel (RJ)
. “Ela Foi Ali Guardar o Coração na Geladeira”, de Cristiane Oliveira e Gustavo Galvão (RS-SP)
. “London”, de Victor Di Marco e Márcio Picoli (RS)
. “Cansei de Ser Galã”, de Bento Marzo e Eduardo Ades (RJ)
. “Cão Sem Plumas”, de Camila Valença (PE)
. “Tudo é Tempo”, de Marcos Gutmann (RJ)
. “Di Cavalcanti”, de Ana Carolina (RJ)
. “Disciplina”, de Affonso Uchôa (MG) – média-metragem
. “Dragões”, de Miguel Antunes Ramos (SP)
. “Funk”, de Aly Muritiba (SP)
. “Elza”, de Eryk Rocha (RJ)
. “Talismã”, de Thais Fujinaga (SP)
. “Fernanda”, de Pedro Waddington (RJ)
. “Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha”, de Janaína Marques (CE)
. “O Filho da Puta”, de Erica Maradona, Tania Anaya, Otto Guerra e Sávio Leite (RS-MG)
. “Yellow Cake”, de Tiago Melo (PE)
. “Jardim dos Silêncios”, de Henrique Dantas (BA)
. “Os Fantasmas Gentis”, de Caetano Gotardo (SP)
. “Uma Certa São Paulo”, de Cristiano Burlan (SP)
. “Tribalistas, o Baú da Hora Fértil”, de Dora Jobim (RJ)
. “Privadas de suas Vidas”, de Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner (SP)
. “A Paixão Segundo G.H.B.”, de Gustavo Vinagre e Vinicius Couto (SP)
. “Telúrica, a Íntima Utopia”, de Mariana Lacerda (SP-PE)
. “Zé”, de Paulo Caldas (sobre Zé Celso Martinez Corrêa – SP)
. “Coração de Lona”, de Tuca Siqueira (PE)
. “Rua e Crua – Artistas Urbanas do Brasil”, de Tatiana Lohman (SP)
. “Isabel”, de Gabe Klinger (SP)
. “Se não Eu, Quem Vai Fazer Você Feliz?”, de Hugo Prata e Felipe Novais (SP)
. “A Prisioneira”, de Francisco Ramalho Jr (SP)
. “Justino – Nos Bastidores do Reino”, de José Eduardo Belmonte (DF-SP)
. “Quase Família”, de Joyce Prado (in memoriam) – (SP)
. “Maria de Maria”, de Luiza Shelling Tubaldini(SP)
. “Ensaiando o Brasil”, de Elisa Bracher (SP)
. “Maxita”, de Mariana Machado e Ana Maria Machado (MG)
. “Medley”, de Ana Luiza Azevedo (RS)
. “Nação Ubuntu – A Voz dos Silenciados”, de Paulo Henrique Fontenelle (RJ)
. “Olhe para Mim”, de Rafhael Barbosa (AL)
. “Não Estamos Sonhando”, de Ulisses Arthur (AL)
. “Ney por Trás das Máscaras”, de Esmir Filho (SP)
. “Squel, Confissões de uma Porta-Bandeira”, de Celina Torrealba e Zeca Brito (RJ-RS)
. “Vitória da Paz”, de Ricardo Kalil, Fábio Gusmão e Dudu Levy (RJ)
. “100 Dias”, de Carlos Saldanha (RJ)
. “A Extraordinária Vida de Vera Valdez”, de Fabio Meira (SP-RJ)
. “No Passo da Cobra”, de Estêvão Ciavatta (RJ)
. “O Gesto Entre Nós”, de Roberto Bomtempo (RJ)
. “O Sertão das Nossas Memórias”, de Lúcia Murat (RJ)
. “Ópera Mestiça”, de Bruno Jorge (SP)
. “Pele de Rinoceronte”, de Marcelo Ludwig Maia (RJ)
. “A Noite e os Dias de Miguel Burnier”, de João Dumans (MG)
. “Oceânico”, de Guilherme Coelho (RJ)
COPRODUÇÕES
. “La Perra” (La Perra), de Dominga Sotomayor (co-produção Chile-Brasil)
. “Glaxo”, de Benjamín Naishtat (co-produção Argentina-Brasil)
. “O Projeto”, de Sabrina Fidalgo e Yvan Rodic (coprodução Brasil-Suíça)
. “A Margem do Rio”, de Enock Carvalho e Matheus Farias (parceria com a Alemanha)
. “Leite em Pó”, de Carlos Segundo (parceria com a França)
. “O Deserto de Luiza”, de Alan Minas (parceria com o Reino Unido)
. “Ana, en Passant”, de Fernanda Salgado (parceria com Portugal e França)
. “144 – Apocalipse Não, de João Paulo Cuenca (parceria com Portugal)
. “A Professora de Francês”, de Ricardo Alves Jr. (parceria com a França e Portugal)
. “Me Deixa Ser”, de Viviane D’Avilla (parceria com EUA e Índia)
. “Marcha das Onças”, de Lawrence Wadba (Brasil-França)
. “Furies”, de Rami Kodeih (coprodução entre Líbano e Brasil)
. “Elefantes na Névoa”, de Abinash Bikram Shah (Nepal, Brasil, França, Alemanha, Noruega)
. “A Marca do Jaguar”, de Victor Mayorga (coprodução Brasil-México)
. “Seis Meses no Prédio Rosa e Azul”, de Bruno Santamaria (parceria com México e Dinamarca)
MOSTRINHA
. “A História Mais Triste do Mundo”, de Hique Montanari (RS)
. “Folclórica”, de Rodrigo Aragão (ES)
. “Esconderijo de Gigantes”, de Barbara Cabeça
. “Amadeo e o Hipotético Mundo Novo”, de Brenda Lígia e Edu Felistoque (PE-DF)
. “Gildo”, de Thomas Larson e César Cabral (SP)
. “O Capitão Engarrafado”, de de Guilherme Reis (SP)
. “Clarice Vê Estrelas”, de Letícia Pires (RJ)
SÉRIES PARA TV OU STREAMING
. “Sócrates Brasileiro”, de Walter Salles (RJ)
. “Leve Chico”, de Marianna Brennand (PE-RJ)
. “Colônia, Segunda Temporada”, de André Ristum (SP)
. “Coligay”, de Paulo Machilne (SP)
SESSÕES ESPECIAIS
. “Sul de Teerã”, curta de Kleber Mendonça Filho (PE)
. “Costurando Céus”, de Eliane Caffé (SP)
