Globoplay apresenta mirabolante “Testamento” de Anita Harley, maior acionista das Lojas Pernambucanas e produtora de “Parahyba, Mulher Macho”

Por Maria do Rosário Caetano

As cineastas Tizuka Yamasaki, Katia Mesel e Karen Harley participam da série “O Testamento – O Segredo de Anita Harley”, que tem entre seus roteiristas o também cineasta Ricardo Calil, diretor dos ótimos documentários “Uma Noite em 76” e “Cine Marrocos” e do intrigante “Os Arrependidos”.

As três diretoras, responsáveis por filmes como “Gaijin – Caminhos da Liberdade” e “Parahyba, Mulher Macho” (Tizuka); “O Rochedo e a Estrela” (Kátia) e “Lixo Extraordinário” e “Para Vigo me Voy” (Karen, com parceiros) aceitaram participar dessa série por depositar a necessária confiança em sua equipe de criação, liderada por Camila Appel. Profissional dedicada ao jornalismo investigativo, a documentarista vem de trajetória construída com experiências teatrais e literárias. Filha da dramaturga Leilah Assumpção, ela estudou os segredos da Dramaturgia na NYU (New York University).

Karen Harley, 61 anos, como o nome indica, pertence à poderosa família de proprietários das Casas Pernambucanas. É irmã, por parte de pai, de Anita. Nada mais natural que participasse dos cinco capítulos de “O Testamento – O Segredo de Anita Harley”. Já Tizuka, de 76 anos, e Kátia, 77, são vistas como amigas de Helena Groshke Lundgren, a matriarca da família, e de sua filha, Anita Harley. Esta, a personagem central da série, cujo roteiro — ponderemos —, se tivesse sido escrito por um ficcionista, seria caracterizado como inverossímil. E, até, como sensacionalista e apelativo. Mas os cinco capítulos de “O Testamento”, temperados por múltiplas e inacreditáveis reviravoltas, compõem documentário construído da soma de duas dezenas de testemunhos, boa parte deles vinda de experientes advogados.

Para reconstruir a história da empresária pernambucana Anita Louise Regina Harley, que viria a radicar-se em São Paulo (primeiro no Hotel Ca d’Oro, depois em imenso “castelo” na Aclimação), os roteiristas (Camila Appel, Ricardo Calil e Iuri Barcelos) recorreram a três dispositivos.

Primeiro, à coleta de testemunhos (alguns contidos, outros desmedidos e contraditórios) realizada ao longo de quatro anos. Segundo, à discreta encenação (com atores) de trechos do que é dito por algumas das várias vozes que se propõem a condensar a história. E, em terceiro, a participação da própria diretora, Camila Appel, que entra em cena para ajudar o espectador a melhor entender o que se passa. E evocar as dificuldades enfrentadas pela equipe para conseguir alguns dos depoimentos (em especial o de Sônia Soares, a “operística” Madame Suzuki).

A figura central da história, a empresária Anita Harley, não tem voz na teia de narrativas de “O Testamento”. Primeiro, porque limitou, por segurança e índole reservada, suas aparições e amplificação de suas falas no espaço público. Segundo, porque encontra-se em estado de coma há quase 10 anos. Ela, a principal herdeira (e acionista) das Lojas Pernambucanas – empresa criada há 117 anos – vive alheia ao mundo, no leito de sofisticado hospital paulistano.

O coma de Anita fez com que, desde 2016, seus herdeiros passassem a lutar pelo controle acionário da rede varejista (470 lojas espalhadas por todas as regiões do país). Entre eles, os beligerantes, há parentes de sangue (irmãos e primos) e duas figuras que a Justiça reconheceu como parceira homoafetiva (Sônia Soares, a Suzuki) e seu único filho, Arthur Miceli (reconhecido como “filho socioafetivo” de Anita).

Os advogados se dividem na ocupação do proscênio nos momentos mais reveladores da série. Em especial o despachado e condoreiro Daniel Silvestri, defensor de Suzuki (homenagem dela à principal personagem da ópera “Madame Butterfly”). Ele atua como se fosse um astro de telenovela do SBT. Fala aos borbotões, usa pares de óculos descolados, gesticula como ator teatral e não esconde sua ambição, digna de personagens de textos shakespeareanos. À medida que a trama avança, ele será visto em cargo de imenso poder.

Os outros advogados (entre eles José Eduardo Cardozo, ex-ministro da Justiça da presidenta Dilma Roussef) são mais discretos. Portanto, menos histriônicos. E atuam mais nos bastidores que no proscênio. Mas essa intuição do espectador só se transformará em dedução clara quando a trama chegar a seu desfecho.

Os quatro primeiros capítulos de “O Testamento” são muito mobilizadores. Levam os aficcionados por tramas cheias de reviravoltas mirabolantes a optar pela prática da maratona. O capítulo derradeiro – o quinto – soa ligth, se comparado aos quatro precedentes. Dito isso, voltemos às três cineastas que participam, todas de forma equilibrada, da narrativa.

Tizuka conheceu Helena Lundgren e sua filha Anita no começo dos anos 1980. A diretora paulista, depois do sucesso de “Gaijin”, resolveu levar às telas o livro “Anayde Beiriz – Paixão e Morte na Revolução de 30”, do historiador José Joffily, pai do cineasta e diretor de “Sinfonia de um Homem Comum”. Como o Nordeste (Pernambuco e não a vizinha Paraíba) seria palco das filmagens, Tizuka e seu braço direito, o produtor Carlos Alberto Diniz, se aproximaram das donas das Lojas Pernambucanas.

As empresárias abraçaram calorosamente o filme, protagonizado por Tânia Alves (Anayde Beiriz), Claudio Marzo (João Dantas) e Walmor Chagas (João Pessoa), e o assinam como produtoras (ao lado do próprio Diniz e de Luiz Pastore e Guide Vasconcelos).

Ao longo dos capítulos, fotografias de Tizuka ao lado das amigas (e produtoras) serão usadas como “provas” em determinada fase do processo judicial, que vai se revelando cada vez mais intrincado. Processo que passou a antagonizar, na linha de frente, Suzuki, reconhecida como “parceria homoafetiva de Anita”, e Cristine Rodrigues, fiel secretária e braço direito da empresária. Em momento inesperado e constrangido, Cristine se assumirá como outra parceira homoafetiva da patroa.

Afinal, a quem caberia a “curatela” (representação cível de pessoa incapacitada para a administração de bens) de Anita Harley, maior acionista individual das Lojas Pernambucanas (fortuna calculada em R$2 bilhões), depois do coma que a deixou em estado vegetativo?

O advogado de Suzuki garante que a curatela pertenceria à sua cliente, esposa homoafetiva de Anita. E também ao filho dela, Arthur Micelli. Já os parentes pernambucanos (incluindo Karen Harley) e amigas de Anita – entre elas Tizuka e Kátia – defendem os interesses dos que se fazem representar por Cristine Rodrigues e por outros acionistas pernambucanos da centenária rede varejista (e por advogados menos espalhafatosos que Daniel Silvestri).

A recifense Kátia Mesel, do círculo de amizades pernambucanas de Anita, agregará provas audiovisuais ao processo judicial, pois gravou em vídeo encontros e festas promovidas pela empresária. Karen, com depoimento discreto (principalmente se comparado ao de duas parentes mais jovens, dispostas a destinar adjetivação pesada a Suzuki), não perderá a classe. A dupla pernambucana chegará a definir a companheira homoafetiva de Anita como oportunista “dama de companhia”, capaz de assenhorar-se da mansão paulistana da empresária, composta de 96 cômodos e 37 banheiros. E, pior, de querer se assenhorar, também, da condição de principal acionista das Lojas Pernambucanas.

O depoimento da sexagenária Suzuki, envolta em blusa branca laboriosamente tecida (qual renda Renascença) nos faz lembrar o espantoso testemunho de Shanna Garcia, em outra série que contou com Ricardo Calil em sua equipe de realizadores (“Vale o Escrito – A Guerra do Jogo do Bicho”, Globoplay, 2023). Vigiada pelo descolado Daniel Silvestri, a companheira homoafetiva de Anita Harley não esconde sua vocação de atriz. Tanto que, num dos momentos mais surpreendentes da trama, durante inauguração de unidade das Lojas Pernambucanas, ela, de pele morena e longos cabelos, se fantasia com peruca loura e curta. E com o costumeiro par de óculos e roupas usadas pela empresária. Para revolta e indignação dos parentes de Anita. Alguns deles dirão que, àquela altura, além dos bens da maior acionista da rede varejista, a operística Suzuki deseja emular a própria empresária. Parece, então, que estamos frente a uma versão canhestra de “Psicose”, de Hitchcock. Aquele filme, que — diz a piada — os portugueses teriam rebatizado como “O Filho que Era Mãe”,

“Rei Lear”, de Shakespeare, se comparado ao imbroglio judicial de “O Testamento – O Segredo de Anita Harley”, assemelha-se a uma Sessão da Tarde da Rede Globo.

 

O Testamento – O Segredo de Anita Harley
Globoplay, 2026, série documental em cinco capítulos com média de 50 minutos cada
Direção: Camila Appel
Roteiro: Ricardo Calil, Camila Appel e Iuri Barcelos
Participantes: Sônia Soares (a Suzuki), Arthur Micelli, Daniel Silvestri, Cristine Rodrigues, José Eduardo Cardozo, Camila Appel, Karen Harley, Tizuka Yamasaki, Kátia Mesel, entre outros

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