“Velhos Bandidos” chega com elenco liderado por Fernanda Montenegro e disposição para conquistar o grande público
Por Maria do Rosário Caetano
A comédia de ação “Velhos Bandidos” chega aos cinemas nessa quinta-feira, 26 de março, cercada de expectativas. A principal delas: tornar-se um blockbuster. Sim, existe a convicção de que o filme reúne ingredientes narrativos capazes de mobilizar o grande público e chegar à ansiada marca dos milhões de espectadores.
Conseguirá?
Tudo leva a crer que sim, pois o longa-metragem de sintéticos 95 minutos, dirigido por Claudio Torres e produzido pela Conspiração, foi pensado em função do grande público. Quer agradá-lo e não esconde este propósito.
O maior trunfo do filme é Fernanda Montenegro, de 96 anos. A atriz aceitou imenso desafio proposto pelo filho Claudio (nascido Claudio Pinheiro Monteiro Torres), de 63 anos: protagonizar, junto com Ary Fontoura, 93, Bruna Marquezini, 30, Vladimir Brichta, 50, e Lázaro Ramos, 47, agitada trama que soma humor e ação. Trata-se, afinal, de um filme de assalto a banco, gênero que já rendeu grandes êxitos ao cinema brasileiro (“Assalto ao Trem Pagador”, “Máscara da Traição” e “Assalto ao Banco Central”).
O filho-cineasta não propôs à mãe que fizesse participação especial, como ela fizera no oscarizado “Ainda Estou Aqui” (Walter Salles, 2025). Exigiu da nonagenária atriz tanto quanto, antes, exigira o genro Andrucha Waddington, que fez dela a onipresente protagonista de “Vitória”. Um drama de observação e pegada policial sobre senhora septuagenária disposta, por livre arbítrio, a denunciar o conluio de policiais com traficantes na Ladeira dos Tabajaras, no Rio.
Os cinco atores principais de “Velhos Bandidos” contam com retaguarda luxuosa: Vera Fischer, Reginaldo Faria, Tony Tornado, Natália Thimberg, Hamilton Vaz Pereira, Mary Sheila e Laila Garin são alguns deles.
Além desse elenco dos sonhos, o filme conta, nos créditos técnicos, com profissionais de primeira linha: Yurika Yamasaki na direção de arte, Valeria Stefani nos figurinos, Isadora Boschhiroli na montagem, Laura Zimmermann no som direto, Tayce Vale na caracterização e André Horta na fotografia.
Os figurinos, em especial os de Fernanda Montenegro, são de elegância e sofisticação únicas. O macacão de couro-verniz que envelopa o corpo esguio de Bruna Marquezine, obrigada a contentar-se com café das manhã à base de suco detox (para não engordar um grama que fosse), parece saído de um filme de super-heróis de Hollywood (a Mulher Gato, claro!).
Os cenários são chiques, os diálogos enxutos e bem-humorados, a trama desenvolvida com cuidado. Claro que estamos a anos-luz dos personagens culpados e violentos de Martin Scorsese. Tudo se passa no terreno da comédia de entretenimento, em diálogo com charmosas referências cinematográficas. Que vão do nome dos personagens mais jovens (Sid & Nancy) a clássicos da diversão-mainstream refinada. Os personagens interpretados pelos coroas Montenegro e Fontoura parecem saídos de um filme da velha Hollywood.
Quando Claudio Torres realizou, com parceiros da Conspiração, um longa coletivo (“Traição”, 1998), seu episódio encheu os olhos do público do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Afinal, “Diabólicas”, com Ludmila Daher, Daniel Dantas e Francisco Cuoco, revelou o raro talento de Torres para narrativas inteligentes e bem-urdidas. Além de pagar feliz tributo ao cinema de matriz rodriguiana, filtrado pela exuberância de Arnaldo Jabor. Pertencia ao filho de dois Fernandos (Torres e Montenegro) — naquela “Traição” — o melhor dos três segmentos do filme, que viria a tornar-se o cartão de visitas dos novos Conspiradores.
A badalada produtora carioca passou a dividir com a paulistana O2, de Fernando Meirelles, e a (também carioca) Videofilmes dos Irmãos Salles, a linha de frente do cinema brasileiro. Isto no final dos anos 1990 e começo dos anos 2000. As três continuam, passadas quase quatro décadas, no topo.
O que se viu com o transcorrer dos anos foi a singularidade da trajetória de Claudio Torres, realizador discreto, distante das badalações da mídia e das polêmicas cinematográficas. Um profissional “na dele”, que seguiria dirigindo (poucos) filmes e séries (como “Magnífica 70”) e trabalhando, sem alarde, nos bastidores da Conspiração.
Só agora ele lança seu longa-metragem solo de número 5. Correu riscos com o delirante “Redentor”, um fracasso de bilheteria, e passou, por suas evidentes preocupações com a conquista de mercado, a dedicar-se a produções mais acessíveis. Foi assim com “O Homem do Futuro” (protagonizado por Wagner Moura), “A Invisível” (Luana Piovani) e “A do meu Amigo” (Mariana Ximenes). Todos alcançaram bilheterias bastante satisfatórias.
“Velhos Bandidos” tem tudo para somar significativo número de espectadores. Torres e seus roteiristas pensaram em cada detalhe. Paisagens fascinantes (casas idem), figurinos fashion, bom mocismo (quem rouba o faz por alguma razão, digamos, nobre) e finais felizes (para todos).
O filme 5 ½ (ou melhor, cinco e um terço) de Torres chega para entreter. Não traz discussões profundas sobre nenhum aspecto da (dura) realidade brasileira, não aspira a prêmios em festivais, nem se propõe a ocupar espaço na história do cinema brasileiro. Quer apenas dialogar com o grande público. Aquele que curte as comédias hollywoodianas, aquelas adrenalidadas com um pouco de ação (tipo “Onze Homens e um Segredo”).
Um verso de canção de Gonzaguinha (personagem de um dos filmes do saudoso Conspirador Breno Silveira) cabe como luva no estado de espírito que gerou “Velhos Bandidos”:
“A plateia ainda aplaude/ ainda pede bis/ a plateia só deseja/ ser feliz” (de “Pois É, Seu Zé”, do disco “Comportamento Geral”, 1973). E nos resta aguardar os borderôs dos “bandidos velhos e novos”. Aqueles publicados semanalmente pelo Boletim Filme B.
Velhos Bandidos
Brasil, 2025, 95 minutos
Direção: Claudio Torres
Roteiro: Rean Flumian, Fábio Mendes e Claudio Torres
Elenco: Fernanda Montenegro, Ary Fontoura, Bruna Marquezine, Vladimir Brichta, Lázaro Ramos, Vera Fischer, Reginaldo Faria, Tony Tornado, Nathália Timberg, Teca Pereira, Hamilton Vaz Pereira, Mary Sheila, Laila Garin, Hugo Bonemer
Fotografia: André Horta
Produção: Conspiração e Globo Filmes
Distribuição: Paris Filmes
FILMOGRAFIA
Claudio Torres, diretor, produtor e roteirista, nascido no Rio de Janeiro em 17 de agosto de 1962
2026 – “Velhos Bandidos”
2011 – “O Homem do Futuro”
2009 – “A Mulher Invisível”
2008 – “A Mulher do meu Amigo”
2004 – “Redentor”
1998 – “Traição” (episódio “Diabólica)

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