“Parem as Máquinas!” equaciona duplo drama ao documentar o fim do jejum de campeonatos do Timão e a salvação da revista Placar
Foto: Basílio comemora o gol histórico do Corinthians contra a Ponte Preta em 1977 © José Pinto/Placar
Por Maria do Rosário Caetano
“O mundo sempre se reflete num campo de futebol”. Por acreditar na potência-espelho do esporte que mais apaixona e mobiliza o povo brasileiro, o cineasta Piero Sbragia realizou o média-metragem “Parem as Máquinas!”, já disponibilizado no canal da revista Placar, no YouTube.
O novo filme sequencia, à sua maneira e sem redundâncias, seu antecessor, o longa-metragem “Placar: uma Revista Militante”, de Ricardo Correa e Sérgio Xavier, lançado nos cinemas em março último. Assistir aos dois filmes é mergulhar na história boleira, jornalística e política do Brasil dos anos 1970 até nossos dias.
Com “Parem as Máquinas! – O Mundo Sempre se Reflete num Campo de Futebol”, o paulistano Sbragia, de 43 anos, compôs narrativa interessada em decifrar o que ele qualifica como “um duplo drama”. O primeiro, protagonizado pelo Corinthians, o segundo pela revista Placar. É preciso assistir ao filme, que dura enxutos 30 minutos e apresenta alta qualidade técnica e artística, para entender melhor esse “duplo drama”.
Um deles é bem conhecido dos velhos torcedores do Corinthians, o mais popular dos times paulistas. Em 13 de outubro de 1977, os corintianos sabiam, e por isso sofriam, que o time não ganhara nenhum título importante nas últimas décadas. Por isso, abarrotaram o Morumbi e torceram, fielmente, para quebrar a incômoda marca temporal de “22 anos, 8 meses e 7 dias”.
Já na Marginal Tietê, na imensa sede da Editora Abril, uma revista esportiva, a Placar, lançada em 1970, corria “o risco iminente de fechar por causa de queda brusca nas vendas”.
Se o Corinthians vencesse o Campeonato Paulista, então prestigiadíssimo – sonhavam editor, repórteres e fotógrafos da Placar –, tal triunfo seria importantíssimo para a sobrevivência da revista. Afinal, os torcedores do clube, integrantes da segunda maior torcida do Brasil (a primeira é a do Flamengo) encontrariam nas páginas impressas da publicação, o registro de momento aguardado por quase 23 anos. E foi o que aconteceu. Para a alegria dos fidelíssimos torcedores do Timão e, claro, dos “placarianos”.
A revista Placar sobrevive até hoje (agora sob novo comando, já que o império editorial de Victor Civita se desmanchou) e faz questão de lembrar sua condição de “revista esportiva que circula, ininterruptamente, há mais tempo na América Latina”. Há que se lembrar que “Parem as Máquinas!” é a primeira produção cinematográfica da Placar, já que “Uma Revista Militante”, lançado em março desse ano, nasceu como produção independente.
A milagrosa vitória do Timão (por magro um a zero) foi impressa na edição de número 391 da Placar, publicada em 21 de outubro de 1977. E, como era de se esperar, estourou nas bancas. Vendeu “mais de 400 mil exemplares”, para delírio dos jornalistas e fotógrafos. E da fiel torcida. Nunca tantos exemplares da revista haviam sido vendidos. A publicação foi salva e segue até hoje sua trajetória, agora mais sedimentada em suportes digitais, mas sem esquecer a edição impressa (já foram publicados 1.532 números impressos e especiais-temáticos).
Para construir seu média-metragem, Piero Sbragia acessou 158 fotos do gigantesco acervo da Placar, a maior parte delas nunca publicadas. “Algumas”, conta ele, “nem haviam sido reveladas, estavam, pois, nos negativos originais da época”. Às imagens, o cineasta e sua diretora de fotografia, Carol Quintanilha, somaram bons depoimentos. O melhor de todos é o de José Maria de Aquino. Que figura! Descolado, cheio de vida (ele contou sua história no livro “Minha Vida de Repórter”, 2020), Aquino enche o filme de humor, paixão e histórias irresistíveis. Destacamos, aqui, duas delas (quem não suporta spoiler, que salte os dois próximos parágrafos).

O país vivia, nos anos 1970, sob rigorosa censura. Aos veículos de imprensa, o rigor se multiplicava sob olhos vigilantes. Nas revistas esportivas, nem tanto. Mas os repórteres do futebol tentavam passar, nas entrelinhas, suas metáforas. Ao falar das jogadas do craque Tostão, em jogo entre as seleções do Brasil e Uruguai, Aquino cravou: “ele (Tostão) brigava e jogava como um vietnamita em campos inimigos”. A ousadia não passou despercebida. “Fui chamado ao Ministério (da Educação e) Cultura (que abrangia a área esportiva) e me repreenderam por evocar a Guerra do Vietnã no meu texto”.
Noutro momento, de caráter familiar (e íntimo), Aquino relembra a dor de Oswaldo Brandão (1916-1989), o treinador do Corinthians, responsável pela quebra da fome de títulos: “ele perdeu um filho jovem, bonito, modelo e estudante de Engenharia, de 22 ou 23 anos, para o câncer. Treinava o time e vivia o drama em casa. Eu sei o que é isso, pois perdi uma filha de 20 anos, com o mesmo problema”.
“Parem as Máquinas!” começa com Aquino chegando ao imenso prédio da Editora Abril na Marginal paulistana. Ao invés de máquinas gigantescas imprimindo revistas, vemos paisagem desoladora. Silêncio, ruínas, papéis amontoados e nada mais. O filme vai explorar muito bem tais imagens. E, depois de nos brindar com textos brilhantes (trechos serão lidos para fruição do espectador) e com imagens arrebatadoras, o filme receberá sua segunda estrela, o jogador Basílio, autor do gol que fez a fiel torcida explodir em felicidade naquele 21 de outubro de 1977.
Aos 77 anos (João Roberto Basílio, o Pé de Anjo, nasceu em fevereiro de 1949), enche a tela com sua imagem luminosa. E dá a deixa para que Sbragia e seu montador nadem de braçada na miltância black e no cinema blaxploitation. E tome imagens dos Panteras Negras estadunidenses e de filmes como o do “Shaft” afro do Harlem.
Basílio dirá que fez o gesto do punho cerrado em homenagem à luta dos afro-americanos. Tinha parentes nos EUA que o mantinham informado sobre o que acontecia por lá. Seu pulo comemorativo encapou a Placar da vitória corintiana naquele ano de interrupção do jejum de títulos.
Complementam as presença de Aquino e Basílio, os testemunhos do fotógrafo Ronaldo Kotscho (que já se destacara em “Uma Revista Militante”, mas agora aparece em reencontro com o colega Aquino – os dois não se viam há dez anos), o então repórter esportivo Carlos Maranhão (e seu filho Tiago, que ganhou texto inspirado do pai, escrito antes do jogo decisivo) e uma típica família afro-brasileira e corintiana, vinda da periferia da metrópole. Liderada por Dulcinéa Soares, a família escolhida insere presença feminina no universo boleiro. Que, aliás, naqueles tempos, era por demais masculino.
A voz de Osmar Santos será ouvida, pela ondas sonoras da Rádio Globo, na narrativa da partida tantas vezes festejada. E outra voz, ainda mais famosa que a do locutor, cuja trajetória profissional foi interrompida por acidente de carro, ganhará relevo em “Parem as Máquinas!” – a do cantor Jorge Benjor (na época, ainda conhecido como Jorge Ben).
Flamenguista roxo, o autor de “Fio Maravilha” se dispôs a cantar a glória do Timão, naquele dia. Decerto mobilizado pelas Organizações Globo, que também usufruíam da bem-vinda vitória corintiana. Afinal via seus índices de audiência elevados às alturas. Sbragia lembra que “o artista estava no Morumbi, assistindo ao jogo Corinthians x Ponte Preta, ao lado da esposa (“corintiana”) Domingas Terezinha Inalmo de Menezes, musa de ‘País Tropical’, ‘Cadê Tereza?’ e ‘Domingas’”.
E por falar em música, o filme de Piero Sbragia conta com as elaboradas e sempre instigantes intervenções sonoras do grupo mineiro O Grivo. Intervenções que ajudam a fazer a diferença.
Parem as Máquinas! – O Mundo Sempre se Reflete num Campo de Futebol
Documentário de média-metragem, 30 minutos, 2026
Direção, produção e roteiro: Piero Sbragia
Testemunhos: Basílio, José Maria de Aquino, Dulcineia Soares, Carlos Maranhão, Tiago Maranhão, Ronaldo Kotscho, Leandro Quesada e Luiz Felipe Castro (atual editor da Placar)
Fotografia: Carol Quintanilha
Música e desenho de som: O Grivo
Montagem: Mariana Denegri
Pós-produção: Zumbi Post
Onde assistir: no placar.doc, no Youtube
Novos filmes da produtora Placar Doc:
Em produção
. “O Jogo da minha Vida” (sobre o título mundial do São Paulo em 1992, com filmagens inéditas e entrevista exclusiva com Raí em Paris)
. “Espírito de Porco” (sobre a origem do apelido que nasce pejorativo e depois foi adotado pela torcida do Palmeiras)
. “Libertador” (cinebiografia de Oswaldo Brandão)
. “15 Copas em 15 Capas” (a trajetória da Seleção Brasileira nas últimas 15 edições da Copa do Mundo vista pelas capas emblemáticas da Placar)
. “Uma Vez Até Morrer” (reparação história da revista em comemoração dos 20 anos de CD com os hinos dos 20 clubes da série A do Campeonato Brasileiro, em 1996. Apenas o hino do Atlético Mineiro não foi interpretado por cantores do clube; dessa vez será)
