“Brasil 70 – A Saga do Tri” mostra Pelé como um “Hamlet” marcado pelo passado e João Saldanha como um comunista siderado por futebol
Por Maria do Rosário Caetano
Dois protagonistas brilham na série “Brasil 70 – A Saga do Tri”, produção ficcionalizada em cinco capítulos, criada pela poderosa O2 e recém-lançada (na íntegra) pela ultrapoderosa Netflix.
O primeiro protagonista é Pelé, “o atleta do século (XX)”, apresentado como um Hamlet shakespeariano, atormentado por tragédia da infância (morte por soterramento de um colega) e angustiado por nunca ter jogado uma Copa do Mundo inteira. O ator Lucas Agrícola interpreta o Rei do Futebol com relativa segurança e escorado em certa semelhança física.
O segundo protagonista, João Saldanha, encontra em Rodrigo Santoro a sua reencarnação. O ator, que já deu vida ao atormentado jogador-galã Heleno de Freitas, não tem semelhanças físicas com o técnico (e jornalista) gaúcho, mas dispõe de recursos dramáticos suficientes para envolver o público.
O roteiro da “Saga do Tri” dá matizes rodriguianos ao treinador, responsável pela classificação da Seleção Brasileira para a Copa de 70, no México. E combustível capaz de desesperar os antitabagistas. Ele fuma como uma chaminé.
O cara só pensa em bola (e cigarro). Em intervalos de suas lides jornalísticas e briguinhas com seu substituto (Mário Jorge Lobo Zagallo), Saldanha telefona para a esposa Therê (Júlia Stockler), brasileira e militante comunista como ele. Ela não foi ao México. Ficou no Brasil, atenta às suas tarefas políticas, paciente e solidária com a siderada obsessão do criador das “Feras do Saldanha” pelo futebol.
A série “A Saga do Tri” foi criada por uma penca de roteiristas e comandada por pai e filho (Paulo e Pedro Morelli) e por Quico Meirelles, este, filho do sócio mais famoso da produtora O2, Fernando “Cidade de Deus” Meirelles.
Nepotismo? Não. Quico vem se revelando um diretor seguro e compenetrado, com bons momentos em seu currículo (destaque para o curta “A Galinha que Burlou o Sistema” e a adrenalinada série amazônica “Pssica”).
O trio Morelli-Meirelles e seus roteiristas basearam-se em fatos reais e deram cordas à imaginação. Engendraram diálogos e mais diálogos para preencher as necessárias lacunas advindas de conversas de vestiário e das querelas de Saldanha com Zagallo.
Coitado do Lobo, obrigado a treinar o escrete canarinho com seu antecessor presente e vigilante, investido da condição de jornalista. E um jornalista vociferante, sempre à beira do alambrado. E capaz de criar e proferir frases banhadas de humor corrosivo.
Como todo mundo sabe – só a turma que odeia spoiler não deve saber –, o Brasil tornou-se tricampeão do mundo em 1970. Quebrou o tabu uruguaio e eliminou a campeã de 1966, a Inglaterra. A ponto de encantar (até) dois britânicos geniais, o cineasta Ken Loach e o historiador Eric Hobsbawm.
Como veremos em letreiro final da “Saga”, a “Seleção Brasileira de 1970 é considerada a maior equipe de futebol da história”. Liderada por Pelé, Tostão, Jairzinho, Carlos Alberto, Rivelino e pelo “maestro” Gérson, ela só não fez chover nos gramados de Guadalajara (Estádio Jalisco) e Ciudad de Mexico (Estádio Asteca).
“Brasil 70 – A Saga do Tri” foi filmado no Brasil (inclusive em Carapicuíba) e em Guanajuato e Guadalajara (no México). Veremos o imenso Estádio Jalisco e algumas ruas da bela metrópole tapatia. Mas, graças aos cada vez mais poderosos e onipresentes recursos tecnológicos, tudo (todas as paisagens) se transforma em exuberante amálgama digital de mais uma eficiente (e sedutora) superprodução da Netflix.
Inserções panorâmicas comporão a imagem do país anfitrião (a majestosa e monumental Praça do Zócalo, as belezas líquidas de Xochimilco, o povo com seus chapelões e devoção ao escrete brasileiro, a Pelé, em especial).
O que a série deseja, mesmo, é tocar a memória afetiva do espectador. Por isso, cria (reforça) antagonismos. Entre Saldanha e Zagallo, entre Saldanha e jornalistas uruguaios (um deles interpretado por Roberto Birindelli), entre Pelé e e seu passado, entre os jogadores “alienados” e os “conscientes” (todos na primeira categoria, exceção para Tostão e Paulo Cesar Lima, o Caju).
O criador das “Feras do Saldanha” é tão protagonista da série, que – após o letreiro-registro da glória planetária do Tri – somos avisados: “João Saldanha nunca voltou à Seleção, mas seguiu como uma das figuras mais emblemáticas e corajosas do futebol brasileiro”.
Os que quiserem reduzir a série a mero exemplar do “padrão Netflix” (tramas marcadas por clareza didática, com começo-meio-fim, protagonistas versus antagonistas etc. etc.) poderá fazê-lo. Mas só um cego não verá as qualidades da “Saga”. E a melhor delas é a inserção do futebol no período ditatorial. Os Anos Médici foram os mais brutais dos governos militares. A repressão e a tortura eram prática corrente.
João Havelange (Nelson Baskerville) estará sempre com um milico do lado (o Brigadeiro Braga, Vanderlei Bernardino), vigiando a Seleção e até a imprensa.
Por causa do sequestro do embaixador alemão no Brasil (Ehrenfried von Holleben, ocorrido no dia 11 de junho de 1970, em plena Copa), se acreditará (segundo a série) em suposto sequestro de Pelé, por grupo guerrilheiro.
O craque passaria a andar cercado de seguranças fardados em verde-oliva. Para rezar em igreja católica mexicana, Pelé seria obrigado a recorrer (ainda segundo a série) a estratagema e cumplicidade de Saldanha (nesse caso, com a anuência de Zagallo).
Os comandantes da ditadura teriam solicitado ao escrete Canarinho que desse declarações favoráveis aos governantes. Pelé, em especial. A proposta causaria certa controvérsia no vestiário. Tostão, interpretado por Ravel Andrade, será visto como rapaz estudioso, que quer fazer vestibular para o curso de Medicina (o que ele fará depois!), e que lê Machado de Assis nas horas de descanso. Enquanto os outros só querem se divertir.
Jairzinho (Gui Ferraz) protagonizará solo arrebatador nos momentos derradeiros da trama. Cheio de vida, lembrará que ficou orfão de pai muito cedo, teve vida dura e que encontrou na bola a sua redenção, sua razão de viver. Só um bruto, com coração de pedra, não se comoverá com o texto dito, com sinceridade e calor, por seu intérprete.
A ditadura será lembrada, claro, como algoz de Saldanha. Emílio Garrastazu Médici exigia a escalação de Dario. Saldanha saíria com algumas de suas frases de efeito: “Havelange, eu não vou deixar esse milico de merda usar minha seleção para fazer média”; “eu não escalo o time dele (ministros de Médici) e ele não escala o meu time”. Resultado: seria afastado 90 dias antes do início do torneio mundial”.
Zagallo, o supersticioso treinador-substituto, ganha boa interpretação de Bruno Mazzeo. Vindo do humor, o filho de Chico Anysio se somará (no elenco) a outro humorista, Marcelo Adnet, intérprete de personagem ficcional, de nome Eusébio, amálgama de locutores esportivos da época. E que jogará um bolão com o Saldanha de Rodrigo Santoro.
O goleiro Félix (Hugo Haddad) ganhará história (núcleo) familiar, pois foi chamado de “frangueiro” e, por azar, ficara de fora do álbum de figurinhas. Para desgosto da filha, zoada na escola pelos coleguinhas. E, detalhe saboroso, Felix arrumaria um vistoso par de luvas, novidade na época. Para desespero do supersticioso Zagallo, que não queria saber de tal acessório nas mãos do arqueiro. Temia que “desse azar”.
O capítulo mais vibrante da série é o que antagoniza Brasil e Uruguai em jogo decisivo. Era ganhar ou ganhar. Se perdesse, o Brasil voltaria para casa, tomado pelo “Complexo de Viralata”, tão rodriguiano. Repetiria o que acontecera na Copa de 1950, conhecida, naquele dia fatal do “Maracanaço”.
Os roteiristas da “Saga do Tri” nadaram de braçada no referido episódio. Recorreram a flashback para lembrar o triste passado. E com os olhos de hoje construíram narrativa épica. Como estamos cansados de saber, filmes (ou séries) de época falam mais do presente do que do passado. Até um fantasma (o do goleiro Barbosa, injustamente culpado pela traumática derrota) atormentará o arqueiro Félix.
Todo mundo sabe que Wilson Simonal, o rei da pilantragem, era amigo de Pelé e visitou o time na concentração. Tocou violão com o Rei e espalhou seu suingue marrento.
Falta ginga ao ator que interpreta o cantor, mas a sequência é rápida e serve à inserção de hit da pilantragem na trama. E, como gosta Fernando Meirelles (cujo nome não aparece nos créditos), ouviremos Cartola e um de seus maiores sucessos (“Alvorada”) na parte final da trama. E gírias daqueles tempos em que o Brasil conquistou o mundo: “trilouuu o apito”, “ô bicho”, “lelé da cuca”, “vai tomar na tarraqueta”.
Ah, os roteiristas não se esqueceram do famoso sonambulismo de Pelé. E veremos o atleta, caxias como ele só, disposto a treinar cobrança de falta (e penâlti) enquanto alguns dormiam, Tostão estudava e outros (a maioria) se divertiam no calor das noites mexicanas. Mesmo que concentrados.
A equipe que lavrou o roteiro da “Saga do Tri”, liderada por Paulo Morelli, coloca na boca do comunista Saldanha, frase atribuída a Emiliano Zapata: “Prefiro morrer de pé, a viver ajoelhado”. Tudo a ver com as ideias do técnico-jornalista. E, como complemento, a sequência vem embalada por bela versão orquestral de “Aquarela do Brasil” .
Para dar sabor netflixiano à trama, acompanharemos o fervor boleiro de dois torcedores-símbolo (e jovens). A moça e o rapaz vendem um Fusca para bancar as despesas no México. Serão regiamente recompensados. Assim como os espectadores, em especial aqueles que amam Edson Arantes “Hamlet” Nascimento. A série é dedicada a ele, cujo nome futebolístico se fará acompanhar de data natalícia (1940) seguida do símbolo do infinito. Pelé, o símbolo da Copa de 70, não morreu.
Brasil 70 – A Saga do Tri”
Brasil, 2026, em cinco capítulos que variam de 50 a 60 minutos cada
Direção: Paulo Morelli, Pedro Morelli, Quico Meirelles
Roteiro: Felipe Sant’Angelo e Naná Xavier, com colaboração de Paulo Morelli (supervisor criativo), Álvaro Mamute, Rafael Dornellas, Maíra Oliveira e Leonardo Ortiz
Pesquisa: Gus Chagas e Catherine Marques
Montagem: Guilherme Porto, Marcelo Junqueira e Alan Alves
Música original: Beto Villares, Érico Theobaldo e Fil Pinheiro, com supervisão musical de Amabis e Ambulante
Figurino: Andrea Simonetti
Produção de design: Frederico Pinto
Direção de performance: Luís Carone
Produção: O2 e Netflix
