Festival de Vitória exibe 90 filmes e presta tributo a Rodrigo Aragão, estrela do terror capixaba, com exibição de “Folclórica”

Foto: “Folclórica”, de Rodrigo Aragão

Por Maria do Rosário Caetano

A trigésima-terceira edição do Festival de Cinema de Vitória, que terá sua sessão inaugural nesse sábado, 18 de julho, prestará tributo ao cinema de terror e à prata da casa, o cineasta Rodrigo Aragão.

Folclórica”, o novo filme do realizador de 49 anos, nascido em Guarapari, será exibido antes da cerimônia de encerramento (e premiação) do evento, dia 25 de julho, no Cine Sesc Glória.

Há que registrar: dessa vez, ninguém deve esperar de Aragão, incansável cultor de sustos, monstros e esguichos de sangue, filmes como “Mangue Negro”, “Mar Negro”, “Mata Negra”, “Fábulas Negras”, “O Cemitério das Almas Perdidas” e “A Noite do Chupacabras”.

Ano passado, com “Prédio Vazio” e sua musa Gilda Nomacce no elenco, Aragão já sinalizava mudanças. Afinal, trocara matas e mangues escuros pela ensolarada Guarapari, cidade capixaba conhecida como a “praia dos mineiros”. Claro que o cineasta deu um jeito de ambientar sua trama num prédio vazio e decadente, enquanto lá fora brilhava a luz do verão e foliões curtiam o Carnaval. Dentro do tal prédio decrépito se materializava a obsessão aragonesa por mortos-vivos e assemelhados.

Folclórica”, porém, é um filme – pasmem! – infantil. Durante a pandemia, papai Aragão resolveu confeccionar bonecos (fantoches) para brincar com a filha, privada da convivência com amigos e colegas de escola. Surgiram, das brincadeiras lúdicas, personagens como Pequi, Teobaldo, Ingá e Pai da Noite. Eles acabaram migrando para o cinema.

Em “Folclórica”, que destina-se, também, ao público juvenil, encontraremos um saci que nasceu com a perna esquerda, sendo, por isso, diferente de todos os outros. O personagem empreenderá, acompanhado de seu melhor amigo e de uma valente Curupira, jornada em busca de aceitação. Tal jornada se dará em terra encantada, a Folclórica do título.

O festival capixaba vai homenagear, também, a atriz fluminense Camila Morgado. Ela, que nasceu em Petropolis, há 51 anos, receberá o Troféu Vitória por seu trabalho no cinema, na TV e no teatro. Mesma láurea destinada a Aragão. Camila já atuou em uma dezena de novelas e séries (entre elas, “A Casa das Sete Mulheres”), muitas peças de teatro (inclusive sob a direção de Gerald Thomas) e em filmes populares, como a franquia “Até que a Sorte nos Separe”.

O personagem cinematográfico que a projetou, para valer, foi o de Olga Benário, judia alemã, mulher de Luiz Carlos Prestes. A militante comunista seria entregue, grávida da filha Anita Leocádia, aos nazistas pelo Governo Getúlio Vargas. Seria assassinada num campo de concentração. O filme, dirigido por Jaime Monjardim a partir de um dos best sellers de Fernando Morais, vendeu exatos 3.078.030 ingressos.

Uma frase dita pela personagem (a Olga de Camila) – “Eu sou a mulher de Luiz Carlos Prestes!!!” – caiu na boca do povo. Virou meme e foi parar em comercial-cult do Canal Brasil. Dessa feita, na boca de outra atriz, a paranaense Fabiula Nascimento. A cada projeção do “reclame”, a galera espectadora se divertia. Fabiula homenageava com deliciosa ironia a colega de ofício. Muita gente, ainda hoje, sente saudade do anúncio.

No terreno dos filmes de arte, Camila marcou presença em “Vergel”, da argentina Kris Niklison, “Albatroz”, de Daniel Augusto, e “Domingo”, ótimo realização da dupla Clara Linhart e Fellipe Gamarano Barbosa. Dentro de poucas semanas, a atriz estará no tapete vermelho e na tela do Palácio dos Festivais, em Gramado, onde competirá ao Troféu Kikito com o terror “Nova Éden”, de Aly Muritiba. O gênero não lhe é estranho. Afinal, ela atuou, sob direção de Gabriela Amaral Almeida, no sangrento (e vigoroso) “O Animal Cordial”.

Ao Troféu Vitória, Rodrigo Aragão e Camila Morgado, que terão suas trajetórias narradas nos Cadernos Homenagem, somarão jóia criada especialmente para cada um deles pela designer Carla Buaiz. Ambos participarão de encontro com o público e com imprensa especializada para reavaliar suas carreiras.

Até 25 de julho, o Festival de Vitória exibirá 90 filmes, divididos em 12 mostras. A noite inaugural servirá de vitrine à produção capixaba. Depois da premiação de Rodrigo Aragão, o público assistirá – nesta que vem sendo, historicamente, a sessão de maior público do festival – a quatro curtas da Mostra Foco Capixaba. O fará num Cine Sesc Glória, plantado no centro histórico da cidade, lotado por visitantes e gente da terra. Apresentar o que de melhor se fez no Estado, ao longo do ano, vem se mostrando uma opção das mais bem-sucedidas.

O programa do Foco Capixaba compõe-se com dois documentários (“Cinema, Poema e Gangrena”, de Gustavo Guilherme da Conceição, e “Liberdade de Morar”, de Penha Souza) e duas ficções (“Superfície”, de Carolina Campista, e “Salve, Rainha!”, de Estevão Ribeiro e Fabio Carvalho). Outros filmes “made in Espírito Santo” estarão distribuídos por diversos segmentos do festival.

Na mostra de longas-metragens, o representante capixaba é “A Caminhada de Tatatxi Ywaraté”, de Wera Djekupe. Ele vai disputar o Troféu Vitória com o piauiense “Babaçu Love”, de Cícero Filho, o paranaense “Virtuosas”, de Cíntia Domit Bittar, o paulistano-carioca “A Fabulosa Máquina do Tempo”, de Eliza Capai, o paraibano “Malaika”, de André Morais, e os paulistas “As Florestas da Noite”, de Priscyla Bettim e Renato Coelho, e “Entre o Sucesso e a Lama”, de Cristiano Burlam.

“A Caminhada de Tatatxi Ywaraté”, de Wera Djekupe © Amãdau Mirim

Entre as mostras dedicadas ao curta-metragem, a produção capixaba comparece com 12 títulos. E chega, com força total, à categoria videoclipe: sete dos 19 concorrentes são produções realizadas no estado sudestino.

Os festivais estão, cada vez com maior empenho, abrindo espaço para que séries produzidas para TV (ou streaming) exibam um ou dois de seus primeiros capítulos ao público cinematográfico.

O evento vitoriano vai apresentar duas séries, uma capixaba, e uma carioca. “Admirável Mundo Gordo”, de Erly Vieira Jr. e Melina Galante, será exibida depois do longa “Folclórica”, na noite de encerramento do festival. “Não se Reprima”, de Rafael Terpins, comporá Programa Especial, na sexta-feira, 24 de julho, em horário nobre, com o curta “Água, Açúcar e Sal”, de Paulo Jabur, Nelson Rodrigues Filho, Noilton Nunes e Rubens Corveto.

Produção do Espírito Santo, Admirável Mundo Gordo” se propõe a celebrar “corpos transbordantes”, aqueles que fogem dos rígidos (e limitadores) padrões de beleza. A série documental soma cinco capítulos de 24 minutos cada e constitui-se em libelo contra a gordofobia.

Com “Não se Reprima”, série sobre os Menudos, banda portorriquenha de imenso sucesso junto ao púbico infanto-juvenil, será lançada, simultaneamente, no Festival de Vitória, na tela grande, e nas telinhas sintonizadas no Canal Brasil. Produção de Denis Feijão (de “Raul, O Início, o Fim e o Meio”), dirigida por Rafael Terpins (“Meu Tio e o Joelho de Porco”), a série é celebratória e sintética (quatro capítulos de 25 minutos).

A Revista de CINEMA assistiu à íntegra de “Não se Reprima”. Vale a pena acompanhar essa narrativa documental?

Sim, desde que você queira relembrar, se foi fã do quinteto de Porto Rico, o que se passou no Brasil naqueles meados da década de 1980, tempos de ressaca pela derrota das Diretas, Já! e posse de Sarney na presidência da República, enquanto Tancredo Neves agonizava no hospital. Só que, para a garotada (em especial meninas), nada disso importava. Elas só queriam saber dos Menudos.

Os garotos porto-riquenhos, que só podiam permanecer no conjunto até os 16 anos (idade que exigia substituição compulsória), conseguiram mobilizar um milhão de brasileiros (90% de brasileirinhas, com suas mães ou tias-acompanhantes) em imensos estádios. O São Januário, do Vasco da Gama, o Morumbi, do São Paulo… A lista era grande.

No campo vascaíno, morreram, pisoteadas, uma mulher adulta e uma criança. Havia 40 mil ingressos à venda. Cambistas receberam repasse de ingressos (que deveriam ter sido inutilizados) de bilheteiros e os revenderam. Calcula-se que 70 mil pessoas tentaram se acomodar nas arquibancadas e gramado de São Januário. Deu-se o desatino. Mesmo assim, a excursão prosseguiu, pois crianças urravam pelos Menudos. Aliás, eles teriam, inclusive, dois similares brasileiros – o Dominó e o Polegar. E em Gugu Liberato o seu mais fiel difusor.

Entre as fãs mirins dos Menudos estava Preta Gil (1974-2025), que dá longo (e picotado) testemunho a “Não se Reprima”. Ex-Menudos, hoje cinquentões grisalhos, também participam da série, assim como a historiadora Mary del Priore, o músico André Abujamra (que sofria com a menudomania, pois suas namoradas pareciam gostar mais dos porto-riquenhos do que dele) e o punk João Gordo, que destestava os garotos cantantes-dançantes (“uma bosta”). O integrante da banda Ratos do Porão servirá de leve contraponto às fãs ardorosas, hoje quarentonas, que seguem loucas pelos ídolos de suas infâncias. E mostram tudo que colecionaram do quinteto: discos, fotos, álbuns de figurinhas, ingressos, bonecos, uma quinquilharia infernal.

Quem exige de um documentário, que seja mais que um amontoado de depoimentos e que adote pegada crítica, há de ver “Não se Reprima” como mero (e nostálgico) entretenimento.

Já o curta “Água, Açúcar e Sal” constitui-se como raridade que merece ser redescoberta (por sorte, vem sendo). Realizado em condições muito especiais, o documentário (de apenas 15 minutos) nasceu dos esforços de Paulo Jabur e Noilton Nunes, que se somaram a Rubens Corveto e ao preso político Nelson Rodrigues Filho para documentar a vida de detentos, encarcerados por razões políticas, no Presídio Frei Caneca. A dupla carioca infiltrou equipamentos de filmagem no espaço penitenciário, num tempo em que a Lei da Anistia se anunciava.

Corria o mês de agosto do ano de 1979. Catorze presos políticos — entre eles Nelsinho Rodrigues, filho do famoso dramaturgo (“Vestido de Noiva”) e Alex Polari — fizeram greve de fome, pois exigiam a ampliação do alcance da Anistia para todos os encarcerados por razões políticas (e para exilados e banidos). Passaram 32 dias na base de soro, composto com água, açúcar e sal. O filme, feito de forma clandestina, registra o dia-a-dia dos grevistas. E, em seu momento mais impressionante, mostra Nelsinho, pele e osso, fazendo ginástica. Um documento histórico de grande relevância.

Mostra de Longas Brasileiros

“A Caminhada de Tatatxi Ywaraté”, de Wera Djekupe (ES)
“A Fabulosa Máquina do Tempo”, de Eliza Capai (SP-RJ)
“Virtuosas”, de Cíntia Domit Bittar (SC)
“Babaçu Love”, de Cícero Filho (PI)
“Malaika”, de Andre Morais (PB)
“As Florestas da Noite”, de Priscyla Bettim e Renato Coelho (SP)
“Entre o Sucesso e a Lama”, de Cristiano Burlan (SP)

Mostra Competitiva Nacional de Curtas

“Espírito São – O Lugar de Toda Fé”, de Matheus Costa, Breno Chamon (ES)
“Assalto”, de PH Martins (ES)
“Um Rio Não é”, de Yurie Yaginuma e Amanda Miranda (ES)
“O que Faço com Isso Agora que Acabou?”, de Julia Uliana e Natália Dornelas (ES)
A Pele do Ouro”, de Marcela Ulhoa, Yare Perdomo (RR)
“Mercado Central”, de Tássia Dhur (MA)
“Ajude os Menor”, de Janderson Felipe e Lucas Litrento (AL)
“Pequeno London”, de Victor Di Marco e Márcio Picoli (RS)
“A Tragédia da Lobo-Guará, de Kimberly Palermo (RJ)
“Floresta do Fim do Mundo”, de Denilson Baniwa e Felipe M. Bragança (RJ)
“Samba Infinito”, de Leonardo Martinelli (RJ)
“Morfeu e Caronte”, de Luiz Ulian e Jocimar Dias Jr. (RJ)

Mostra Foco Capixaba

“Cinema, Poema e Gangrena”, de Gustavo Guilherme da Conceição
“Superfície, de Carolina Campista
“Liberdade de Morar”, de Penha Souza
“Salve, Rainha!”, de Estevão Ribeiro e Fabio Carvalho

Mostra Outros Olhares

“Os Arcos Dourados de Olinda”, de Douglas Henrique, (PE)
“Caldeirão”, de Bruno Fernandes (RN)
“Confluência dos Olhos D’Água”, de Keila-Sankofa (AM)
“Grão”, de Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa (RS)
“Eloísa Joga”, de Yuri Rodrigues e Taís Melo (SP)

Mostra Cinema e Negritude

“Encantos para Omo e Iyá”, de Antonio Balbino (DF)
“Às Compras”, de Luiz Guilherme Assis (RJ)
“Faça uma Pose’, de Alek Lean (RJ)
“O Pai da Rainha de Angola”, de Rodrigo França (SP)
“Dentro do meu Peito Mora um Cão”, de Gabriel (MG)

Mostra Corsária

“Depois Levanta Voo ou Abisma-se”, de Marcus Neves, Aline Dias (ES)
“Vim e Irei Como uma Profecia”, de Fábio Rogério (SE)
“Filme-Copacabana”, de Sofia Leão (RJ)
“Trivakra”, de Sofia Angst (RJ)
“Diálogo Bulbul”, de Bruno Churuska, Gledson Augusto, Nicole Mendes, Yan Altino e Zimá Domingos (RJ)

Mostra Quatro Estações

“Noites Proibidas”, de Júlio Cesar (ES)
“Boi de Salto”, de Tássia Araújo (PI)
“Ricardo”, de Gino Batidão (PE)
“Marimbã Está Acontecendo”, de Maryn Marynho (CE)
“Picumã”, de Sladká Meduza (SP)

Mostra Mulheres no Cinema

“Maira Porongyta – O Aviso do Céu” , de Kujãesage Kaiabi (MT)
“Nadar em Aquários”, de Mariana Corrêa (RS)
“Batata Frita na Chuva”, de Ninah Nogino (RJ)
“Núbia”, de Barbara Bello (MG)
“Lactação”, de Fernanda Taddei (SP)

Mostra Nacional de Cinema Ambiental

“Valor é Tempo, de Lucas Barros de Souza, Mayara Perinni de Aguiar, Victor Costa de Almeida (ES)
“Thayara”, de Mila Leão (PR)
“Um Planeta no Sul do Mundo”, de Lucas Furtado (RS)
“Bijupirá”, de Eduardo Boccaletti (BA)
“Concreto”, de Sheila Rodrigues e Andresa Amaral (MG)
Umassuma – Lascas de Memórias”, de Andrei Miralha, Guaracy Britto Jr. (PA)

Mostra Do Outro Lado – Cinema Fantástico

“Sob Olhos”, de Gabriel Nadippeh (ES)
“Poronga”, de Rafael Rogante (RO)
“Cordão de Prata, de Getulio Ribeiro (RJ)
“Ybi”, de Eliza Telles e Begê Muniz (AM)
“Stregoneria”, de Gian Orsini (PB)

Mostra Nacional de Videoclipes

“Fino Prazer” (Tati Rabelo. Artista: Eloá Puri – ES)
“Telaviva” (Rafael Sandim. Artista: Nobat – ES)
“Distância” (Daniel Bones. Artista: Laika no Espaço – ES)
“A Presa” (Tommy Bellone; Julio Camelo. Artista: Big River – ES)
“Tô Ligando Pra Nada” (Enzo Rodrigues. Artista: Jessica Roberts – ES)
“sozinho numa bike pra 2” (Carlo De Cásula. Artista: casü – ES)
“Até” (Victorhugo Amorim; Taciano Faccini e Gabrielle Nalli. Artista: Ronnie Silveira – ES)
“Histórias Periféricas” (Luan Allen. Artista: Priscila Neres – SE)
“Vida que Segue” (João Wainer. Artista: Dexter – SP)
“Epopeia de uma Vida Feliz” (Douglas Barros; Artista: Luno Torres – SE)
“A Posse é um Fato” (Murilo Munìí; Mar Fagundes. Artista: Murilo Munìí – RS)
“Quase te Esqueci” (Raquel Pinheiro. Artista: Julia Branco – MG)
“Astro Rei” (Gabriel Uchida; Talita Gusmão. Artista: Gabriê- RO)
“Planeta Marte” (João Vitor Linhares; Zéca Vieira. Artista: Cesar Soares – RJ)
“Filtro” (Rayan Casagrande; Vinicius Caus. Artista: Inseton – ES)
“Monalisa” (Lucas Sá. Artista: Frimes – MA)
“Paladar” (André Castro Neto. Sthelô. Artista: Sthelô – BA)
“Herança” (Keila-Sankofa. Artista: Keila-Sankofa – AM)
“Cana Queimada de Desejos” (Ricardo Sékula; Sávio Sabiá. Artista: Sávio Sabiá – PE)
“Coco do Recado” (Clara Campos e Bianca Bomfim; Artista: Christine Valença & Caetana – PE-RJ-BA)

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