“A Noite de Alaíde” chega aos cinemas para resgatar trajetória da cantora que participou da Bossa Nova e do Clube da Esquina
Por Maria do Rosário Caetano
“A Noite de Alaíde”, novo filme de Liliane Mutti, diretora do fascinante “Miúcha – A Voz da Bossa Nova”, chega aos cinemas brasileiros (e portugueses) nessa quinta-feira, 16 de julho.
O filme faz parte dos festejos dos 90 anos de Alaíde Costa. Nove décadas (mais de sete delas no ofício de cantora) muito bem-vividas. Afinal, ela segue cantando, como sempre fez, desde a adolescência.
A carreira da artista começou no circo e sedimentou-se em bares, ainda nos tempos em que vivia no subúrbio de Água Santa, na Zona Norte carioca. Até, um dia, chegar a casas de espetáculo renomadas, como o Carnegie Hall novaiorquino.
A vida de Alaíde não foi fácil. Menina pobre, filha de pais separados, ela dedicou-se, com afinco, e muita disciplina, aos estudos e à música. Passou por programas de calouro (inclusive do exigente Ary Barroso), frequentou a turma da Bossa Nova, foi amiga de Baden Powell, Vinícius e Oscar Castro Neves. E teve a satisfação de ser a única voz feminina do disco “Clube da Esquina”, de Milton Nascimento, dos Borges e companhia. Recebeu o convite do próprio Milton que, com ela, registrou histórica gravação de “Me Deixe em Paz”, de Monsueto.
Há poucos registros audiovisuais dos começos da carreira da artista. O que sobrou do passado, na TV, está em condições precaríssimas. Por isso, Liliane Mutti resolveu apostar em longa documental de formato híbrido, tributário do cinema de animação. Linguagem que, aliás, vem fertilizando o cinema não-ficcional. Basta lembrarmos documentário que desenha notável cinebiografia do pianista Tenório Jr. — “Atiraram no Pianista”, do madrilenho Fernando Trueba.
As técnicas utilizadas pelo espanhol e pela brasileira são diferentes. Liliane Mutti optou pela rotoscopia. Ou seja, filmou atores, encarregados de representar Alaíde (criança, adolescente, jovem e adulta), sua mãe, Dona Manuela, Ary Barroso, Johnny Alf, Tom e Vinicius, João Gilberto, Baden, Moacir Santos, entre muitos outros. As sequências em animação 2D se somam a arquivos históricos. Que se tornarão mais abundantes à medida que o filme for avançando no tempo, indo além das décadas de 1940 e 50.
Por sorte, Liliane Mutti tem bala na agulha. Conseguiu adquirir direitos de uso de muitos filmes e dezenas de composições musicais (de “Dindi” e “Lobo Bobo” a “Sonho de um Carnaval”, “Me Deixe em Paz” e “Pedro Nadie”). Mesmo procedimento adotado pela documentarista em “Miúcha – A Voz da Bossa Nova”, marcado pela fartura de imagens.
Milagrosamente, a diretora conseguiu mostrar raridades guardadas em arquivos e, o que é melhor, equacionar o “impasse” João Gilberto. Todo mundo sabe que a memória sonora e visual do baiano de Juazeiro vive cercada de impedimentos. Acesso mais difícil não há, já que cercado de litígios familiares. Mas Mutti conseguiu romper barreiras. Talvez por ser uma cineasta brasileira radicada na França. Quem não quer ver sua obra difundida na Europa? O fato é que a documentarista conseguiu dialogar (de forma produtiva e efetiva) com os filhos de João.
No longa documental dedicado a Alaíde Costa, o “personagem” João Gilberto aparece impresso nos contornos e jeitos do ator Lucas Frizo, “redesenhado” pelo processo da rotoscopia. O veremos, em especial, dentro de banheira enfeitada com vistosas samambaias (quem amava uma banheira era Vinicius, não? Deliciosa liberdade poética!).
Veremos, também, o cantor em fotos (ao lado de Alaíde) e sequências de filmes. Destaque para “Copacabana Palace”, produção ítalo-franco-brasileira, dirigida por Steno, com assistência de Dino Risi, realizada em 1962.
O roteiro desta comédia divertida, turística e solar (com alguns temperos policiais) ficou sob a responsabilidade de Sergio Amidei e Jorge Dória. A fotografia, em dyaliscope, traz a assinatura de Massimo Dallamano. A este longa franco-ítalo-brasileiro, Liliane Mutti somou trechos de “A Lira do Delírio” e “O Tempo e o Som” (ambos de Walter Lima Jr.), “Pixinguinha” (João Carlos Horta), “Rio de Janeiro” (Humberto Mauro), “Megalópolis” (Leon Hirszman), “Noturno” (Alfredo Sternheim) e “Confete” (Jo Sefaty e Mariana Kaufman).
No campo da produção televisiva, a documentarista deu o devido destaque à participação de Alaíde Costa no histórico “Ensaio”, que Fernando Faro comandou na TV Cultura. E, da mesma emissora, utilizou trechos de um “MPB Especial”, dirigido por Dorival Dellias.
De posse de tal material de acervo, vindo do cinema e da televisão, somado às imagens animadas por rotoscopia, Liliane Mutti construiu sua envolvente narrativa, que dura 100 minutos. Ninguém fala sobre Alaíde, pois o padrão não é o documentário “cabeças falantes”. O filme parte das lembranças da cantora e compositora (parceira de Vinícius, Johnny Alf, Geraldo Vandré, Jessé e Hermínio Bello de Carvalho), que encontrou na “Noite” o seu habitat.
As rememorações são aquelas que foram registradas no livro “Alaíde Costa – Faria Tudo de Novo” (Ricardo Santhiago, Imprensa Oficial de SP, 2013). Com sua voz tranquila, sem marcas de rancor, Alaíde lembrará (em parte impressa em imagens animadas e de cores vibrantes) a infância na Zona Norte carioca.
O subúrbio de Água Santa ganhará o devido relevo. Afinal, por lá, residia a fogosa e despachada Elza Soares (1930-2022). Uma vizinha do barulho, de vida agitada (seria a companheira do craque Garrincha, quando ambos estavam no auge), que – garantiam as revistas de fait divers — eram rivais. O filme encontrará depoimento de Elza, lembrando a suposta “rivalidade”.
A mãe de Alaíde lavava roupa para patroas brancas e bem colocadas na escala social. Uma delas observou que Alaíde tinha uma voz muito bonita. E a incentivaria a cantar, como caloura, no programa de Ary Barroso. Para causar boa impressão naqueles testes dedicados a noviços, a jovem não fazia por menos. Cantava composições difíceis como “Noturno em Tempo de Samba”, de Custódio Mesquista e Evaldo Ruy, que ouvia, com enlevo, em emissões radiofônicas, na voz de Sílvio Caldas (1908-1998). Ouvia no rádio, pois não tinha vitrola em casa. Sonhava com um piano, mas só o teria bem mais tarde. Um presente de Vinícius de Moraes.
O filme mostrará encontros importantes na vida da artista carioca: com Aloysio de Oliveira, Johnny Alf, com os bossanovistas João Gilberto, Vinícius de Moraes, Baden Powell e Oscar Castro Neves, com o professor Moacir “Coisas” Santos e com a amiga de todas as horas, Claudette Soares.
Ao longo do documentário, Alaíde reafirmará, quantas vezes for preciso: escolheu o repertório que quis e um jeito de cantar todo seu. Defendeu-os com todas as suas forças. Deles nunca abriu mão.
Queriam samba de protesto, iê-iê-iê, Tropicália? Não era com ela. Talvez por isso, por fugir dos “modismos”, pagou caro. Sempre teve pouco espaço nas gravadoras. Inclusive na Odeon, que a contratou. Quando Milton Nascimento produziu, para ela, um disco com arranjos de João Donato (“Coração”, 1976), e ele não foi impresso, ela pediu rescisão de contrato e procurou outra gravadora.
Alaíde sabe que foi esquecida em momentos cruciais. Grande Otelo a indicara para crooner do Copacabana Palace. Quando lá chegou para acertar sua contratação, foi informada de que “outra artista já ocupara a vaga”. Até ouviu, de um amigo, constatação dolorosa: “No Copacabana Palace, o único negro aceito é o próprio Otelo, porque o Baixinho faz o público rir”. O filme mostrará, então, imagens de Otelo, numa chanchada, vestido de vedete, cantando e dançando com seu notável fair play. Com sua genial presença cênica.
A cantora de Água Santa não participou do histórico show da Bossa Nova (21 de novembro de 1962) no Carnegie Hall. Mas cantaria no local novaiorquino, seis décadas depois (em 2023).
Alaíde não usa seu filme para desfilar mágoas. Seu reduto, ela sabe disso, foi o bar. “Cantei em centenas de bares, dancings e casa noturnas”. Daí “A Noite” do título do filme. Foi a “Noite” que permitiu que ela criasse os três filhos, fruto de dois casamentos, que lhe deram netos e bisnetos.
Em conversa televisiva, com ironia sutil, a cantora lembrará que descobriu – passados muitos anos – o apelido que ganhara da turma da Bossa Nova: “Ameixa”. Eles perguntavam, entre si: “A Ameixa vem hoje?”
A descoberta se deu somente quando Alaíde leu o livro “Chega de Saudade”, de Ruy Castro (Companhia das Letras, 1990). Textos jornalísticos de épocas passadas a chamavam, o que parece impensável em nossos dias, de “Escurinha Enxuta”.
Um registro final: a discreta Alaíde Costa contará, num certo momento do filme, que foi “do samba e do Carnaval!” Sim, frequentou o Salgueiro, escola do seu coração. E a veremos com a indumentária da agremiação. Em vermelho-rubro, como bandeiras socialistas. Ah, outro detalhe saboroso. Ela lembrará que pessoas influentes quiseram tanto que ela fizesse discos “da moda”, que arrumaram jeito de convocar arranjadores capazes de transformar composições de essência bossa-novista “em verdadeiras rumbas”.
A elegância acompanhou a futura cantora desde o nascimento, em oito de dezembro de 1935. Os pais escolheram para a recém-nascida o belo e sintético nome de Alaíde. Que seria enriquecido com muitas assinaturas (Alaíde Costa Silveira Mondin Gomide). A menina de Água Santa viveu (e vive) história das mais singulares. E Liliane Mutti soube transformá-la num ótimo filme.
A Noite de Alaíde
Brasil, 2026, 100 minutos, 12 anos
Direção: Liliane Mutti
Pesquisa: Geraldo Rocha e Marcelo Paiva
Animação (rotoscopia): Guilherme Hoffman
Produção: Daiane Martins e Canal Curta!
Montagem: Tatiana Gouveia
Distribuição: Bretz
FILMOGRAFIA
Liliane Mutti, brasileira radicada na França, é mestre, pela UFF, em “Diversidade, Desigualdades Sociais e Educação”. Durante seus estudos em Paris (na Sorbonne), realizou o curta “Clarice”, baseado na vida e obra da escritora Clarice Lispector. Fundadora da Associação Franco-Brasileira Ciné Bossa Nova, Mutti é autora de quatro longas documentais:
2026 – “A Noite de Alaíde”
2024 – “Madeleine à Paris”
2023 – “Salut, Mes Ami.e.s!”
2022 – “Miúcha – A Voz da Bossa Nova” (em parceria com Daniel Zarvos)
