“La Vida que Vendrá” e “Si Vás para Chile” colocam país de Guzmán e Agüero no centro das atenções na Mostra CineBH

Foto: “Si Vás para Chile”

Por Maria do Rosário Caetano, de Belo Horizonte (MG)

Dois filmes chilenos — “La Vida que Vendrá”, da jovem Karin Cuyul, e “Si Vás para Chile”, da dupla Amílcar Infante e Sebástian González — constituem até agora, os momentos mais luminosos das mostras Território e Horizonte, as principais competições da CineBH – Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte. O festival, que realiza sua vigésima edição na capital mineira, entregará seus Troféus Horizonte na noite desse domingo.

Para fazer valer a tradição do país andino, que fez do cinema documental um dos esteios de sua criação audiovisual — representada internacionalmente pelos trabalhos de Patrício Guzman (1941-2026), e de Ignácio Agüero —, Karin e a dupla Amílcar e Sebastián apresentaram e debateram, na CineBH, seus sólidos (e mobilizadores) documentários.

Karin Cuyul rememora, com “La Vida que Vendrá”, os últimos 50 anos de história do Chile. E o faz a partir de imagens de arquivo, com narração em primeira pessoa. Pautada “pela euforia e pelo desencanto”, a cineasta de 37 anos, chilena radicada no México, inicia sua densa narrativa com “enterro de chefe de Estado” dado a Salvador Allende (1908-1973). Até chegar (de forma elíptica) ao triunfo de José António Kast, o novíssimo presidente do Chile, seguidor fiel do ideário de Augusto Pinochet. Ou seja, um nome aferrado à extrema direita e ao neoliberalismo ortodoxo. Fincado, inclusive, no combate aos imigrantes, vistos como seres indesejáveis, ligados à pobreza e ao crime.

A chegada de grandes levas de venezuelanos ao território chileno é o tema de “Si Vás para Chile”, da dupla Infante e González. Um filme contemporâneo, composto com belíssimas imagens do país andino, em especial de suas regiões desérticas ou montanhosas. Ou seja, do Altiplano (nas bordas da Cordilheira dos Andes) ao deserto do Atacama. Até chegar aos acampamentos dos “indesejados” que, imersos na dolorosa aventura migratória (todos eles oriundos da Venezuela), se entrincheiram nas regiões de Iquique e Alto Hospício. Recebidos, todos, sob xingamentos xenófobos.

Sebastián González calcula que “vivem no Chile cerca de 300 mil venezuelanos indocumentados”. Portanto, clandestinos.

Por que a chilena Karin Cuyul iniciou seu documentário “La Vida que Vendrá” com o “enterro de Estado” de Salvador Allende?

A resposta é objetiva: porque ela “é filha de chilenos que viveram o sonho da Unidade Popular”, formação partidária que levou o socialista Salvador Allende ao poder. Ele seria derrubado, em 11 de setembro de 1973, por golpe militar comandado pelo General Pinochet. O presidente deposto, sob o cerco dos golpistas, suicidou-se no Palácio de la Moneda, bombardeado por aviões e tomado pelas chamas. O corpo de Allende foi enterrado por seus familiares, de forma (quase) clandestina, em sua cidade natal, Valdívia.

Dezessete anos depois, em setembro de 1990, com a redemocratização do país, Allende receberia enterro com honras de chefe de Estado. O início do filme, que parece mórbido, estimulará delicada, mas contundente, revisita à história do Chile.

Karin Cuyul contará que cresceu cercada por quatro imagens coladas nas paredes de sua(s) casa(s). Uma, do cantor Victor Jara, torturado no Estádio Nacional e assassinado com 41 tiros. Imagem acompanhada de versos da canção “Te Recuerdo Amanda”. Os outros quadros registravam Pablo Neruda (e um de seus poemas), o Deserto do Atacama e retrato de Allende (com data de nascimento e morte). Com o passar do tempo, os quadros de Jara, Neruda e do Deserto desapareceram. O de Allende permaneceu.

Durante a pandemia, Karin Cuyul resolveu pesquisar, na internet, arquivos sobre os febris Anos Allende e tudo que se passara no Chile, desde o alvorecer (e crepúsculo) da Unidade Popular. Priorizou arquivos de cinegrafistas amadores.

O que mais fascinou a documentarista foi o material clandestino produzido pelo militante allendista Luís Costa. Deparou-se, depois, com imagens registradas por Enzo Villanueva e, em tempos recentes, pela jovem Nicole Senerman.

Nicole documentou, com celular, as manifestações do “Estallido”, ocorrido em 2019. Estudantes secundaristas promoveram a “explosão social” que tomou conta de logradores públicos de Santiago. Rebelaram-se contra o aumento da tarifa do metrô. Indignados, decidiram conformar o “Estallido”, movimento que os levou a pular, de forma massiva, as catracas do Metroviário. Um protesto de imenso significado. Depois, ganharam as ruas.

A cineasta constatou que as imagens encontradas nos arquivos amadores e (também) profissionais eram coloridas. Mas que os assistira em preto-e-branco, ao revisitar os filmes de propaganda da Era Pinochet. Em “blanco-e-negro” eles simbolizavam “o caos” atribuído aos Anos Allende e se colocavam em contraste com “realizações ordeiras dos militares”, os novos dirigentes do país.

Nos arquivos do ImCine (Instituto Mexicano de Cinema), Karin Cuyul encontrou imagens valiosas (e coloridas). Mesmo caso do material de Luís Costa, produzido clandestinamente e guardado (secretamente) por uma universidade chilena. No momento mais impressionante deste material “amateur”, vemos uma mulher do povo que ilustrará, com poderoso testemunho, uma das ideias motoras da narração de Karin Cuyul: “o Chile vive de lampejos de esperança” e “constrói sua memória feita de (muitas) derrotas”.

Durante o plebiscito que disse “Não” a Pinochet, em 1990, outros testemunhos se somam impregnados de desalento. Populares dizem que irão votar contra o ditador, mas que o farão tomados por total descrença. Sabem que “pouco, ou nada, mudará em suas vidas”.

Enzo Villanueva filmou caravana de crianças chilenas, filhas de mortos ou desaparecidos na longa noite que se seguiu ao triunfo militar, levadas a Estocolmo, capital da Suécia. As imagens agora mostradas (e pouco conhecidas) estavam arquivadas e esquecidas.

As manifestações registradas por Nicole Senerman priorizam a força das mulheres. Muitas, milhares delas, foram às ruas viver mais um processo de “esperança fugaz”. Com o triunfo da extrema direita representada por Kast, Karin Cuyul preferiu realizar um filme duro, complexo, poroso e recheado de muitas dúvidas. Desprovido, portanto, de certezas. Mas com “uma réstia de esperança”.

“Prometi a mim mesma” — disse ela no debate de “La Vida que Vendrá” — “realizar um filme que trouxesse uma dose de esperança, mesmo que mínima, a quem o assistisse. Se estamos sob um governo de apoiador explícito de Pinochet, eu não poderia afastar o público com um filme construído só com pessimismo”.

A cineasta confessou que seu documentário teve uma versão de 120 minutos, desperançada, que, com certeza, afastaria os espectadores. Mas, com sua equipe, resolveu, coletivamente, enxugar a trama (92 minutos) e impregná-la com réstias de esperança. Para lembrar, por fim, que “o Brasil, que vive os dias finais de novo processo eleitoral, traz algumas (muitas?) semelhanças vividas recentemente pelos chilenos”.

Karin Cuyul, diretora de “La Vida que Vendrá” © Guiga Guimarães/Universo Produção

Sebástian González, um dos diretores de “Si Vás para Chile”, debateu seu documentário, feito em parceria com Amílcar Infante, com o público da CineBH.

Ele fez questão de lembrar que “o Chile (e os chilenos capazes de gestos xenófobos) não têm preconceito contra venezuelanos ou imigrantes vindos de outros países da América Latina”. Têm preconceito, isto sim, “contra pobres”.

“Venezuelanos com dinheiro foram muito bem-recebidos no Chile, instalaram seus restaurantes e outros tipos de atividade econômica. Já os imigrantes pobres são rejeitados, sejam oriundos do México, da Colômbia, do Peru ou de qualquer outro país. A discriminação e a violência sustentam-se no preconceito de classe.

Na sequência mais impressionante do filme, uma família afro-venezuelana, composta de pais e filho pequeno, é acuada dentro de uma casa de câmbio. Dezenas de chilenos ameaçam os “delinquentes”, que chegaram ao norte do Chile para perturbar suas vidas. Para “aumentar a criminalidade”. Uma das manifestantes, ao ver a criança acuada com os parentes, tenta acalmar seus conterrâneos. “Eu também sou chilena” — argumenta —, “mas há uma criança aqui”. Pede calma aos revoltados cidadãos.

“Isso aconteceu” — arrematou Sebastián González — “porque as crianças ainda conseguem despertar algum tipo de ternura. Qualquer pessoa com um mínimo de sensibilidade sabe que ela não é um delinquente, é apenas um ser em formação”.

FLASHES BELO-HORIZONTINOS

PAZ ENCINA E SEU CINEMA CULT — Cleber Eduardo e Ester Marçal Fér, da equipe curatorial do festival mineiro, estão muito satisfeitos com a receptividade do público belo-horizontino à mostra que homenageia a cineasta paraguaia Paz Encina. Ela foi homenageada com o Troféu Horizonte (Trajetória). Ela e a escritora (agora atriz) Conceição Evaristo (esta, online, pois recém-chegada de Nova York e inteiramente dedicada aos debates da FLUP – Feira de Livro das Favelas, no Rio de Janeiro). As atividades da CineBH que contam com a participação de Paz Encina têm mobilizado, para valer, o público mineiro. Sua masterclass foi um sucesso. Mas o que mais entusiasmou Cleber Eduardo foi o público de “Hamaca Paraguaya”, que 20 anos atrás conquistou o principal prêmio da mostra Un Certain Regard, em Cannes. 87 pessoas compareceram à Sala Humberto Mauro, no Palácio das Artes. E todos permanceram no local para debater o filme com a realizadora. O número, que pode parecer modesto (a sala oferta 128 assentos) se mostra dos mais expressivos se levarmos em conta o horário da sessão: 14h de uma quinta-feira, dia útil. “Eu esperava 15 cinéfilos empedernidos”, brincou Cleber. Mas “recebemos plateia cinco vezes maior”. Outro documentário — “Carta a un Viejo Master” —, da realizadora paraguaia, programado pela CineBH, também mobilizou plateia substantiva.

UM ERRO RECORRENTE — Rever “Carta a un Viejo Master” me fez re-ver erro recorrente. Seja lendo ou escrevendo. Sempre li (e escrevi) “Carta a um Viejo Maestro” (Carta a um Velho Mestre). Na Mostra CineBH, a ficha caiu. O título do filme é outro: Carta a um Viejo MASTER. A referência é ambígua: a cineasta Paz Encina envia uma carta ao (Edifício) Master e ao mestre (maestro) do cinema documental, Eduardo Coutinho (1933-2024). Mas troca a palavra “maestro” por “Master”. O dicionário nos diz que a palavra ‘master’ vem do inglês e significa mestre, especialista, senhor. A cineasta paraguaia, praticante do documentário poético, usou, de propósito o MASTER, nome do edifício que deu origem ao segundo entre os mais famosos filmes coutinianos (depois do “Cabra Marcado para Morrer, 1964-1984) — “Edifício Master” (2002). Ver o filme de Paz Encina, uma espécie de “making off póstumo” (e muito poético) do cultuado documentário brasileiro, é uma obrigação de todo cinéfilo. Vê-los em sessão dupla, então, é um ato exacerbado de amor cinematográfico. E uma forma de entender por que Paz Encina escolheu “Edifício Master” como um dos 20 filmes recomendados ao público da Mostra CineBH. E não o épico “Cabra Marcado para Morrer”. Nem o belíssimo (e desconcertante) “Jogo de Cena”.

CINEMA MINEIRO EM DESTAQUE — A Mostra CineBH comemora, com debate e reflexão, a boa fase do cinema mineiro. Que acaba de triunfar nos festivais de Gramado (com “Nosso Segredo”, de Grace Passô) e Brasília (com “Se Eu Fosse Vivo… Vivia”, de André Novais Oliveira). No painel “BH nas Telas: 8 Anos de Programa e Perspectivas para o Futuro”, realizado no Espaço Petrobras de Conexões, os palestrantes revisitaram a trajetória da política de fomento cinematográfico municipal, criada em 2018. E discutiram seus impactos na formação, produção, circulação e internacionalização do audiovisual da capital mineira. Participam do painel a secretária municipal de Cultura de BH, Cida Falabella; a presidenta da Fundação Municipal de Cultura, Bárbara Bof; a gestora da Belo Horizonte Film Commission e do Núcleo BH nas Telas, Thaylane Cristina; a coordenadora de Audiovisual da Escola Livre de Artes Arena da Cultura, Alessandra Brito; a coordenadora do Cine Santa Tereza, Carla Maia; e o coordenador do MIS-Belo Horizonte, Thiago Veloso. Entre 2018 e 2025, o projeto BH nas Telas investiu R$ 50 milhões em editais e ações estratégicas.

PARCERIAS BRASIL-ÁFRICA E COMUNIDADE LUSO-AFRO-BRASILEIRA — A CineBH promove, nessa vigésima edição, quatro debates dedicados aos desafios do financiamento e da cooperação internacional no cinema. Um deles discute o tema “Brasil–África: Como Fazer uma Coprodução Acontecer?”, que reuniu Ana Camila Esteves, Márcio Yatsuda, Yanis Gaye e Pedro Butcher. Os integrantes desse quarteto, buscaram, juntos, soluções para o imenso desafio de aproximar a produção brasileira da africana. Outro debate — “Além dos Fundos: Novos Ecossistemas de Financiamento para o Cinema Independente” — analisou “modelos capazes de articular recursos públicos, investimento privado, filantropia, investimento de impacto e alianças institucionais para novas produções”. Com participação de Isona Admetlla, Leo Ordóñez, Lia Bahia e Mário Borgneth (ligado à CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa). E, por fim, “Coprodução Internacional: entre Parceria, Financiamento e Criação”, voltado à construção de relações entre diferentes territórios, legislações, mercados e culturas, além dos caminhos para preservar a identidade artística dos projetos. Com participação de Juliette Lepoutre, Lei González, do produtor Stefano Centini e de Ivan Melo.

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