FAM e cinéfilos lutam pelo resgate da pequena “Cinelândia Florianopolitana” e exibem filme sobre “O Preço da Ilusão”
Por Maria do Rosário Caetano, de Florianópolis (SC)
No feriado de Sete de Setembro, o FAM (Festival Florianópolis Audiovisual Mercosul) promoveu a ocupação das ruas do centro da capital catarinense para defender a preservação da pequena “Cinelândia Florianopolitana” e o resgate do Cine São José, um dos mais frequentados palácios construídos na era de ouro da exibição cinematográfica. Hoje, o velho cinema, inaugurado em 1954, abriga, no lugar de filmes, cultos de uma igreja evangélica.
A ocupação cinéfilo-territorial do FAM se deu em forma de “Caminhada-cortejo”, tendo o arquiteto e professor Guga Andrade como guia. Mais de cem pessoas percorreram três ruas, todas muito próximas e situadas no centro leste da capital catarinense, para rememorar os anos de glória da região. Foi ali, entre o TAC (Teatro Álvaro de Carvalho) e a Catedral Metropolitana, que funcionaram cinco das mais importantes salas da cidade (Ritz, Roxy, Odeon, São José e Cecomtur), capazes de mobilizar milhares de espectadores entre as décadas de 1930 e 1990.
Nenhuma delas funciona mais como cinema. Uma, a que teria sediado, em 1901, “a primeira sessão cinematográfica de Florianópolis”, transformou-se em teatro, o TAC, e hoje sedia a edição de número 30 do FAM. As outras, depois de anos de decadência (algumas viraram cinemas pornôs), cumprem novas funções. O cine Roxy, integrado ao conjunto arquitetônico da Catedral Metropolitana, abriga a Livraria Catedral (católica). Outro tornou-se templo evangélico. O quarto, uma escola. O quinto está fechado.
Os florianopolitanos, aqueles que seguiram a Caminhada em defesa da “pequena Cinelândia”, são signatários de abaixo-assinado que pretende salvar pelo menos o Cine São José. Se depender de Marilha Naccari, da diretoria colegiada do FAM, seria salva, também, a curto prazo, a Sala Cecomtur.
Durante a peregrinação pelos cinco cinemas (cujas fachadas estão preservadas), Marilha lembrou que, “por causa da data redonda (30 anos), o Florianópolis Audiovisual Mercosul fez questão de regressar ao TAC, palco da primeira sessão de cinema da cidade, realizada há exatos 125 anos”.
Nos últimos anos, o FAM abrigou-se em circuito de salas do badalado Beira-Mar Shopping, à margem do Atlântico. “Queremos permanecer no centro da cidade, mas, para tanto, novos cinemas se fazem necessários, pois nossa programação é vasta e não cabe em uma única sala”.
Depois da Caminhada FAM, realizada numa tarde fria, mas com céu azul e sol radioso, o público assistiu, no TAC, ao longa documental “Caminhos do Desejo”, de Andrey Santiago, 26 anos, formado pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). A sessão somou tributo ao primeiro longa-metragem de ficção realizado no estado, “O Preço da Ilusão” (1957), roteiro dos escritores Salim Miguel e Eglê Malheiros, dirigido por Nilton Nascimento.
O filme de Andrey Santiago, uma espécie de “making off póstumo” de “O Preço da Ilusão”, foi muito bem-recebido pelos espectadores. E motivou animado debate com seu criador e sua diretora de fotografia, Letícia Vitória, que se somaram a Marina Simiolli e Fernanda Ozório, historiadoras e representantes da Cinemateca Catarinense. Esta instituição festeja, em parceria com o FAM, “seus quarenta anos de existência, junto com o Centenário da Ponte Hercílio Luz”.
Santiago contou que o belo nome de seu documentário não nasceu de sua imaginação. “Apenas utilizei o nome original de ‘O Preço da Ilusão’” — detalhou. “Como o produtor do filme entendeu que ‘Caminhos do Desejo’ não soava como apelo comercial, deu-se a troca”.
Troca vã — registre-se —, pois “O Preço da Ilusão” resultou em fracasso comercial e de crítica. Quando teve sua première em Florianópolis, em 1958, um jornal o definiu, em letras garrafais, como “uma bomba cinematográfica”. Um crítico, ao saber que o produtor Armando Carreirão pretendia levar a fita para exibição comercial em São Paulo, externou, veemente, seu temor de que o filme “envergonhasse” seu estado de origem na grande metrópole paulistana.

“O Preço da Ilusão” nasceu da paixão de integrantes do Grupo Sul, projeto literário que projetou Santa Catarina no cenário brasileiro. Cinéfilos fascinados pelo Neo-Realismo italiano e pelo exemplo de Nelson Pereira dos Santos e seu seminal “Rio 40 Graus” (1955), Salim Miguel e Eglê Malheiros, jovens militantes comunistas, e trupe somaram energias para produzir o primeiro longa ficcional made in Santa Catarina.
Os roteiristas engendraram duas histórias paralelas que se encontrariam no mais vistoso cartão postal de Florianópolis — a Ponte Hercílio Luz. Numa delas, Maria da Graça (a bela Lilian Bassanesi) sonha em ser eleita a Rainha do Verão. Para tanto, e por necessidade, aceita o patrocínio do Dr. Castro (Celso Borges). O “protetor” cobrará seu preço. Na outra, um menino, Maninho (Emanuel Miranda), e sua turma somam trocados para organizar o lúdico folguedo do Boi Mamão.
A imprensa brasileira, incluindo a revista O Cruzeiro, deu imenso destaque ao projeto de longa-metragem florianopolitano e sua fase de realização. Pronto, “O Preço da Ilusão” teve sua aguardadíssima avant-première. Aí começou a catástrofe.
A montagem parecia inacabada e rudimentar. O som inaudível. Em longo depoimento ao MIS-SC, a co-roteirista Eglê Malheiros contou, com corajosa franqueza, que ela e o marido Salim Miguel não sabiam o que fazer. Quando a sessão terminou, saíram, por uma lateral da sala, constrangidos com o resultado apresentado na tela.
“Além de problemas de montagem” — testemunhou — “havia o som errado”, pois em determinado momento, “a personagem mexia numa caixinha de joias e o barulho era tão grande, que arrancou gargalhadas do público”. O efeito esperado era outro. Para lembrar, ainda, que não haviam assistido ao filme antes da pré-estreia. “O jeito foi nos afundarmos na cadeira e depois ir embora, envergonhados”.
No começo dos anos 1960 — mostrará “Caminhos do Desejo” —, o produtor Armando Carreirão tentou salvar o filme. Procurou, em São Paulo, um montador profissional, Maximo Barro (1930-2020), para que remontasse o material. Até providenciaram a refilmagem de duas pequenas sequências. E redublaram o filme inteiro.
Tudo indica que produtor e montador se desentenderam, pois negativos e tudo que se relacionasse com o filme caíram numa espécie de limbo. E “o primeiro filme de Santa Catarina virou lenda”. Até que, “nos anos 1980, uma lata com sete minutos e o som completo de ‘O Preço da Ilusão’” apareceram e foram depositados na Cinemateca Brasileira.
Em poético preto-e-branco (e atmosfera que evoca o Neo-Realismo italiano), o público verá o que sobrou do lendário filme no longa documental de Andrey Santiago. Até chegarmos a tais imagens, ouviremos testemunhos de cineastas e pesquisadores como Zeca Pires, Marcos Stroisch, Maria Emília Azevedo, Adriane Canan, Kátia Kloch e Cândido Gazzini. E, no documentário — e ao vivo na sessão do FAM —, as lembranças do ator Detto (José Alberto Alexandre). Hoje, com 75 anos, o sambista é o único sobrevivente do elenco do filme. Era, em 1957, um menino de sete anos quando integrou o grupo de Maninho, o garoto que sonhava brincar com os amigos o folguedo do Boi Mamão.
No filme, Detto evoca “Rio 50 Graus” como uma das matrizes da primeira produção da Sul Filmes. No palco do FAM, ele evocou a alegria de fazer “O Preço da Ilusão”, do qual guarda as melhores lembranças.
Se a première do longa-metragem escrito por Salim Miguel e Eglê Malheiros gerou críticas e manchetes demolidoras nos jornais, o tempo faria justiça ao sonho dos ousados jovens do Grupo Sul. Salim Miguel se orgulharia da ousadia de sua trupe, que sonhara um sonho (quase) impossível. Eglê, com o passar dos anos, concluiria que “O Preço da Ilusão” fora “o fracasso mais criativo e multiplicador da nossa cultura”.
Ela estava certíssima. Muitos filmes de curta e média-metragem seriam feitos a partir da pioneira experiência da Sul. Um deles, “Desilusão”, de Marco Stroisch e Bob Barbosa (2007) retomaria o roteiro de Miguel e Eglê e o adaptaria à Florianópolis contemporânea. Até escola de samba florianopolitana transformaria o filme em tema e samba-enredo.
Andrey Santiago, depois de muita pesquisa, narraria, em sólidos 86 minutos, a saga dos atrevidos manezinhos que ousaram realizar um longa-metragem ficcional, em externas (como pregava o catecismo neo-realista) e com grand finale (o trágico acidente na Ponte Hercílio Luz). Na cara e na coragem.
FLASHES FLORIANOPOLITANOS
BHIG VILLAS BOAS E A FICÇÃO – O cineasta Nilson “Bhig” Villas Boas, que participa da competição de curtas-metragens catarinenses com “Imaginário Bar”, protagonizado pelo craque Carlos Francisco, volta ao cinema ficcional depois de 38 anos. Ele, que estreou, em 1988, com “A Mulher do Atirador de Facas”, protagonizado por Carla Camurati e Ney Latorraca, frisson nos festivais mais vistosos da época, viu sua carreira ser travada já no início do Governo Collor. “Fui trabalhar na Publicidade, pois tornou-se quase impossível fazer cinema naquele período”. Depois, dedicou-se ao documentário, inclusive sobre a trajetória de parentes, os sertanistas, Orlando, Cláudio e Leonardo Villas Boas. Deixou São Paulo e radicou-se em Santa Catarina. Mas, garantiu Bhig durante o debate de seu filme, no TAC, “agora estou com dois novos projetos, muito animado para realizá-los”. “Imaginário Bar” é uma saborosa e livre adaptação de conto-crônica de Luis Fernando Verissimo, fotografado com sofisticação por José Roberto Eliézer, o Zé Bob, e com novo show de interpretação de Carlos Francisco, que desempenha cinco ou seis papéis. Faz barba, cabelo e bigode em inesquecível savoir faire.
MAPAS DE UMA BRASÍLIA MISTERIOSA — O jovem cineasta, roteirista e montador brasiliense Rafael Lobo mostrou seu primeiro longa, “Mapas”, na tela do TAC FAM para plateia atenta e intrigada. Afinal, ele construiu, ao longo de 116 minutos, trama das mais inesperadas. Brasília é presença permanente no filme, mas não com seus postais niemáricos. A capital que nos é dada a ver é desértica, misteriosa e perturbadora. Até porque a narrativa é recoberta por atmosfera tensa e estranha, pois em diálogo com o cinema de horror. O filme, que conquistou cinco troféus Calunga no Cine PE, no Recife (melhor ator, fotografia, montagem, edição de som e especial do público), vai agora ser avaliado em casa. “Mapas” integra a Mostra Câmara Legislativa do DF, braço candango do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
EM BIARRITZ E NO FESTIVAL DO RIO – Dois atores uruguaios, Verónica Perrotta e César Troncoso, estão de volta, em dose dupla, aos festivais brasileiros. Ele, que brilhou no inesquecível “O Banheiro do Papa”, participa da competição do FAM como integrante da trinca de protagonistas de “Queimadura Chinesa”. E, nessa sexta-feira, estará presente no Cine Brasília para a sessão inaugural da quinquagésima-nona edição do longevo festival candango. Ele é um dos protagonistas de “A Pele Morta”, de Bruno Torres e Denise Moraes, produção baiana com DNA candango (e latino-americano) de Sol Moraes. Verónica Perrotta, atriz, roteirista e diretora de “Quemadura China”, também integra a trinca de protagonistas desse intrigante, melancólico e minimalista drama uruguaio (o terceiro personagem fica a cargo de outro craque, Néstor Guzzini). A atriz será vista na principal competição do Festival do Rio, na linha de frente do elenco de “Ela Foi Ali Guardar o Coração na Geladeira”, longa de Christiane Oliveira e Gustavo Galvão. Mas Perrotta não poderá participar do festival carioca, pois levará sua “Queimadura Chinesa” ao Festival de Biarritz, na França. O filme uruguaio conquistou o Troféu Horizonte na Mostra CineBH. Conquistará, aqui em Florianópolis, o Troféu Bernúncia de melhor filme? Aguardemos.
