Cannes faz edição com astros europeus e asiáticos, dá destaque à Espanha e ressente-se da ausência de grandes nomes de Hollywood
Foto: “El Ser Querido”, de Rodrigo Sorogoyen
Por Maria do Rosário Caetano
Às vésperas de chegar à sua octogésima edição, o Festival de Cannes, o mais badalado do mundo, reunirá em sua festa anual (na Riviera Francesa, de 12 a 23 de maio), um formidável time de astros do cinema europeu e asiático. O país anfitrião conta com quatro longas, seguido por Espanha e Japão, com três cada.
O cinema-espetáculo de Hollywood está praticamente ausente, seja em sessões badaladas, seja na competição. E a Itália, fato raro, não disputará a Palma de Ouro, nem a mostra Un Certain Régard. Um baque para o cinema peninsular, que já causou furor em Cannes com Rossellini, De Sica, Fellini e Antonioni.
O Brasil, que ano passado brilhou com “O Agente Secreto” (melhor direção para Kleber Mendonça e melhor ator para Wagner Moura), só pode sonhar com vitrine para um (ou uns) de nossos filmes em mostras e premiações paralelas (Quinzena dos Cineastas, Semana da Crítica, Cannes Classics e Olho de Ouro – Documentários). Até agora, nos eventos oficiais, o país só figura como um dos coprodutores de filme nepalês – “Elephants in the Fog,” de Abhinash Bikram Shah.
A França, na condição de país anfitrião, disputará a Palma de Ouro com “Histoires de la Nuit”, de Léa Mysius, “La Vie d’une Femme”, de Charline Bourgeois, “Garrance”, de Jeanne Herry (com Adèle Exarchopoulos) e “L’Inconnue”, de Arthur Harari, co-roteirista de “Anatomia de uma Queda”, de Justine Triet. Este filme, que causou furor em Cannes e no Oscar 2024, rendeu estatueta dourada ao casal Trier-Harari (melhor roteiro).
Léa Seydoux, parceira de Adèle Exarchopoulos no “Azul é Cor Mais Quente” (detentor da Palma de Ouro em 2013), protagoniza o austríaco “Gentle Monster”, e integra o elenco de “L’Inconnue”. A octogenária e lendária Catherine Deneuve aparece, também, no elenco de dois dos concorrentes (o filme de Ashgar Farhadi e no mesmo “Gentle Monster”).
A Espanha desfruta de algo que jamais aconteceu em sua história cinematográfica: está na disputa da Palma de Ouro com três representantes. O novíssimo Pedro Almodóvar (“Natal Amargo”) se soma a “El Ser Querido”, filme protagonizado pelo astro Javier Bardem, que marca a volta de Rodrigo Sorogoyen (depois do excelente “As Bestas”), e “La Bola Negra”, de Los Javi (Javier Ambrosi e Javier Calvo).
Outro país, este do extremo-oriente, o Japão, reuniu dois pesos pesados em sua representação tripla: “Sheep in the Box”, do palmaré Hirokazu Kore-eda (vencedor da Palma de Ouro com “Assunto de Família”, em 2018) e “Soudain”, do oscarizado Ryusuke Hamaguchi. O terceiro título é “Quelques Jours à Nagi”, de Koji Fukada.
Com duas vagas destaca-se a Bélgica, parceiro histórico do cinema francês – com Lukas Dhont (“Coward”) e Emannuel Marre (“Notre Salut”).
A brigada europeia fecha fileiras com “Fiorde”, do romeno Cristian Mungiu, vencedor da Palma de Ouro 2007 (com “Quatro Meses, Três Semanas e Dois Dias”), com o russo Andrei Zviaguintsev (“Minotauro”), a austríaca Maria Kreutzer (“Gentle Monster”), a alemã Valeska Gusebach (“Das Geträumte Abenteuer”), o polonês Pawel Pawlikowski (“1949”), e o húngaro Lázló Nemes, com “Moulin” (sobre Jean Moulin, herói da Resistência Francesa ao nazismo).
O cinema, que vem globalizando cada vez mais seus mecanismos de produção, encaminha-se, a cada novo ano, para a globalização também de seus temas. Não é só o húngaro Lázló Nemes que escolheu um personagem francês para seu (Jean) “Moulin”. O romeno Cristian Mungiu ambienta “Fiordi” na Noruega. Lá, nas franjas de um fiordi, assenta-se a família Gheorghiu, que vive em sintonia com seus vizinhos nórdicos, os Halsberg. Os filhos das duas famílias têm boa convivência, embora tragam formações morais bem diferenciadas. Até que aparecem hematomas no corpo de Elia, a filha mais velha dos Gheorghiu.
O polonês Pawel Pawlikowski, de “Ida” e “Guerra Fria”, é outro que empreende aventura cinematográfica fora das fronteiras de seu país. Ele escolheu o escritor Thomas Mann, Prêmio Nobel de Literatura, como protagonista (August Diehl). Em 1949 (data que nomeia o filme em francês, enquanto em inglês optou-se por “Fatherland”), o romancista viaja de Weimar a Frankfurt, em companhia de sua filha Erika (Sandra Huller, protagonista de “Anatomia de uma Queda”). Mann e a filha vão deparar-se com uma Alemanha dividida ao meio pela Guerra Fria.
Registre-se, aqui, que a França vem ampliando, cada vez com mais ousadia, suas parcerias internacionais. E o faz com países dos mais diversos cantos do mundo. Indo, pois, além da África Francófona e dos vizinhos que, também, falam francês (caso da Bélgica e Suíça). Sem esquecer os bolsões na outrora chamada Indochina. O país dos Lumière vem transformando-se em abrigo de cineastas que encontram dificuldades políticas em seus países de origem. O caso mais paradigmático é o de Jafar Panahi, que concorreu ao Oscar, sob bandeira francesa, com “Foi Apenas um Acidente”.

O Irã, aliás, concorre à Palma de Ouro com “Histórias Paralelas”, de Asghar Farhadi. O filme é protagonizado por estrelas mais francesas que a Torre Eifell – Catherine Deneuve, Isabelle Huppert, Virginie Efira, Vincent Cassel e Pierre Niney.
Ao contrário de Panahi, que fez de “Acidente” um filme com DNA 100% iraniano, Farhadi (Oscar internacional por “A Separação”e “O Apartamento”) filmou na França. E o fez pela segunda vez, já que a primeira se deu com “O Passado”. O iraniano filmou em outro país europeu (a Espanha) “Todos Já Sabem”, protagonizado por Javier Bardem, Penelope Cruz e Ricardo Darín”. Vale lembrar que Farhadi protestou, com veemência, contra a Guerra dos EUA e de Israel contra o Irã e convocou todos os cineastas a fazerem o mesmo. A convocação ganhou ênfase no momento em que Donald Trump ameaçou exterminar (riscar do mapa) a milenar civilização persa.
Quem ainda não entrou, totalmente, na onda da globalização artística é o russo Andrei Zviaguintsev, dos poderosos “O Retorno”, “Sem Amor” e “Leviatã”. Seu novo filme, “Minotauro”, selecionado para disputar a Palma de Ouro, segue com história russa, atores russos e idioma russo. A França entra com o capital financeiro e o diretor, de 62 anos, com seus dramas intensos (e eslavos até a medula).
A representação asiática no Festival de Cannes completa-se com “Hope”, do sul-coreano Hong-jin. Ausências a se notar: da China continental e da insular Taiwan.
Os EUA têm, por enquanto, um representante solitário – “The Man I Love”, de Ira Sachs. O comando do festival – a presidenta Iris Knobloch e o curador Thierry Frémaux – sonham com “solução de problemas contratuais” para ter mais um cineasta norte-americano na disputa pela Palma de Ouro – James Gray (com “Paper Tigre”).
A ausência de futuros blockbusters made in USA deixou o comando cannois em desespero. Era aguardada a presença do novo Steven Spielberg (“Disclosure Day”) e o novíssimo Alejandro Gonzalo-Iñarritu (“Digger”, protagonizado por Tom Cruise). Do trio de ouro que colocou o México nas telas planetárias e no Oscar, Guillermo del Toro, Iñarritu e Alfonso Cuarón, só este deu sinais de voltar ao berço materno. E o fez com o magnífico “Roma”.
Na disputa pela Palma de Ouro, a América Latina e a África foram ignoradas. Mas na mostra (oficial) “Un Certain Regard” houve espaço para produções vindas do Chile, Costa Rica, Marrocos e República Centro-Africana.
A América Latina (Cuba, em especial) ganha carona em produção francesa comandada por Christophe Dimitri – “Os Sobreviventes do Che”. Construído com materiais de arquivos, o filme acompanha a trajetória de três guerrilheiros que juraram lealdade a Che Guevara e foram lutar com ele na Bolívia. Um deles era (é) o francês Régis Debret. Com o assassinato do líder guerrilheiro argentino-cubano (em outubro de 1967), em solo boliviano, os três sobreviventes empreenderam impressionante fuga, ao longo de cinco meses, por 2.400 km. Até chegar ao Chile.
Cannes selecionou, para disputa da Palma de Ouro, cinco filmes assinados por mulheres. Faz parte do projeto do festival destinar espaço nobre às realizadoras. Três delas são francesas (Léa Mysius, Jeanne Herry e Charline Bourgeois), uma austríaca (Marie Keutzer) e uma alemã (Valeska Grusebach).
O sul-coreano Park Chan-wook presidirá o júri. Analisará, pois, quatro produções do Extremo Oriente (três japonesas e uma de sua Coreia do Sul). A atriz afro-francesa Eye Haïdara, de “Luta de Classes” e “Assim é a Vida”, apresentará as cerimônias de abertura e encerramento da festa cannoise.
Por falar em atriz, os espanhóis estão duplamente orgulhosos. Victoria Luengo repete feito histórico: compete com dois filmes de seus país (está no elenco de Sorogoyen e participa de “Natal Amargo”). Isso só aconteceu, na história do país de Buñuel, com Marisa Paredes. Ela brilhou simultaneamente em dois filmes (o almodovariano “Tudo Sobre minha Mãe”, e o mexicano “Ninguém Escreve ao Coronel”, de Arturo Ripstein) em Cannes 1999.
Confira os selecionados (Palma de Ouro):
FRANÇA
. “L’Inconnue”, de Arthur Harari
. “Histoires de la Nuit”, de Léa Mysius
. “La Vie d’une Femme”, de Charline Bourgeois,
. “Garrance”, de Jeanne Herry
ESPANHA
. “Natal Amargo”, de Pedro Almodóvar
. “El Ser Querido”, de Rodrigo Sorogoyen
. “La Bola Negra”, de Los Javi
JAPÃO
. “Sheep in the Box”, de Hirokazu Kore-eda
. “Soudain”, de Ryusuke Hamaguchi
. “Quelques Jours à Nagi”, de Koji Fukada
BÉLGICA-FRANÇA
. “Coward”, de Lukas Dhont
. “Notre Salut”, de Emannuel Marre
FRANÇA-IRÃ
. “Histórias Paralelas”, de Ashgar Farhadi
ROMÊNIA
. “Fiordi”, de Cristian Mungiu
FRANÇA-RÚSSIA
. “Minotauro”, de Andrei Zviaguintsev
AUSTRIA-FRANÇA
. “Gentle Monster”, de Maria Kreutzer
ALEMANHA-FRANÇA
. “Das Getraumte Abenteuer”, de Valeska Gusebach
POLÔNIA
. “1949” (“Fatherland”), de Pawel Pawlikowski
HUNGRIA-FRANÇA
. “Moulin”, de Lázló Nemes
COREIA DO SUL
. “Hope”, de Na Hong-jin
ESTADOS UNIDOS
. “The Man I Love”, de Ira Sachs
MOSTRA UN CERTAIN REGARD
. “El Deshielo”, Manuela Martelli (Chile)
. “Siempre Soy Tu Animal Materno”, Valentina Maurel (Costa Rica)
. “Elephants in the Fog,” Abhinash Bikram Shah (Nepal, com participação brasileira na produção, ao lado de outros países)
. “La Más Dulce,” Laïla Marrakchi (Marrocos-França)
. “Benimana,” Marie-Clementine Dusabejambo (Ruanda e Costa do Marfim)
. “Congo Boy,” Rafiki Fariala (República Centro-Africana)
. “Yesterday the Eye Didn’t Sleep,” Rakan Mayasi (Palestina na diáspora)
. “Everytime,” Sandra Wollner (Áustria)
. “I’ll Be Gone in June,” Katharina Rivilis (Alemanha-EUA)
. “Le Corset” (“Iron Boy”), Louis Clichy (animação, França)
. “Words of Love,” Rudi Rosenberg (França)
. “All the Lovers in the Night,” Yukiko Sode (Japão)
. “Uļa,” Viesturs Kairišs (Letônia)
. “Club Kid,” Jordan Firstman (EUA)
. “Teenage Sex and Death at Camp Miasma,” Jane Schoenbrun (terror, EUA)
SESSÕES ESPECIAIS
. “Les Survivants du Che”, Christophe Dimitri (França)
. “John Lennon, the Last Interview”, Steven Sorderberg (EUA)
. “Avedon”, de Ron Howard (EUA)
. “Les Matins Merveilleux”, de Avril Besson (França)
. “L’Affaire Marie-Claire”, de Lauriane Escaffre e Yvo Muller (França)
FILME INAUGURAL
. “La Venus Elétrique”, de Pierre Salvadori (França)
FORA DE COMPETIÇÃO
. “Vol de Nuit pour Los Angeles”, de John Travolta (EUA)
. “Le Château d’Arioka”, de Kiuoshi Kurosawa (Japão)
. “La Troisième Nuit”, de Daniel Auteuil (França)
. “Karma,” Guillaume Canet (França)
. “Objet du Deli,” Agnes Jaoui (França)
. “De Gaulle: L’Age de Fer,” Antonin Baudry (França)
. “Her Private Hell,” Nicolas Winding Refn (Dinamarca)
. “Diamond,” Andy Garcia (EUA)
MIDNIGHT SCREENINGS
. “Roma Elastica,” Betrand Mandico (França, com Marion Cotillard)
. “Full Phil,” Quentin Dupieux (França)
. “Colony,” Yeon Sang-ho (terror, Coreia do Sul)
. “Jim Queen,” Nicolas Athane e Marco Nguyen (animação francesa)
. “Sanguine,” Marion Le Coroller (França)
PALMA DE OURO (de honra)
. Para a atriz e diretora Barbra Streisand (EUA)
. Para o cineasta Peter Jackson (Nova Zelândia)
