Lírio Ferreira desenha com “Vivo 76” retrato de Alceu Valença da infância aos anos lisérgicos e molhados de suor
Por Maria do Rosário Caetano
Lírio Ferreira já realizou doze longas-metragens, metade ficção, metade documentário. No terreno documental, ele já dialogou com as vidas de Cartola (“Música para os Olhos”), Humberto Teixeira (“O Homem que Engarrafava Nuvens”), Hermeto Paschoal (“Menino d’Olho d’Água”) e Cafi, que nunca cantou, mas encapou alguns dos mais importantes discos de nossa MPB.
Agora chegou a vez de Alceu Valença, representado em “Vivo 76”, filme de um cineasta pernambucano sobre um compositor-cantor-ator-
“Vivo 76” é um documentário arrebatador, cheio de vida e paixão. Lírio caprichou ao retratar “Al Seu (dispor) Valença”, que em julho próximo chegará aos 80 anos. E irá comemorar a data com energia de menino sertanejo, alma palhaça, buliçosa. E como uma máquina de cantar, narrar, evocar lembranças.
Tudo no filme é notável. Mas, dessa vez, Lírio Ferreira, que demonstrou (com seus parceiros) a capacidade de criar títulos fascinantes como “Baile Perfumado”, “Árido Movie”, “Sangue Azul” (do Mar), “Acqua Movie” e, principalmente, “O Homem que Engarrafava Nuvens”, pisou na bola: “Vivo 76” não dá clareza a seu tema, não traz o calor, suor, eletricidade e irreverência de seu personagem. Enfim, não diz a que veio. E, pior, induz o espectador mais antenado com a trajetória de Alceu a pensar que assistirá somente à história do instigante “ao vivo”, que o cantor gravou nos começos da sua vitoriosa carreira.
Onde já se viu? Artista quase iniciante já gravando disco ao vivo? E num tempo em que a qualidade técnica dos teatros não era tão sofisticada quanto hoje. Com Alceu tudo é possível. Claro que saberemos sobre a importância desse disco na carreira do menestrel pernambucano. Mas o filme, que dura aliciantes 102 minutos (e parece pouco!), é muito mais que a história dos 50 anos do “Vivo 76”.
O décimo-segundo longa-metragem de De-Lírio Ferreira empreende viagem doidona (“lisérgica”) pela trajetória do menino que contou com a cumplicidade da mãe (“sou edipiano e todo mundo devia ser”) para tornar-se um dos mais importantes nomes de nossa música popular. Um compositor-cantor que seria ator (em “A Noite do Espantalho”, de Sérgio Ricardo), cineasta (no nordestern “A Luneta do Tempo”), publicitário de si mesmo (de megafone na mão, salvou seu primeiro grande show do fracasso) e contador de histórias, capacidade que herdou dos cordelistas do sertão.
Tudo indica que a Cinemateca Brasileira vai ferver – na noite dessa sexta-feira, 17 de abril – com sessão hors concours de “Vivo 76”, atração nobre da trigésima-primeira edição do Festival É Tudo Verdade. O filme deverá contar (o artista ainda não confirmou) com a presença de Alceu em carne, osso e irreverência.
Lírio reuniu, para mostrar a “lisérgica” trajetória de Alceu, um time da pesada (o cineasta recifense sabe cercar-se de gente talentosa): o diretor de fotografia Ivo Lopes Araújo, o pesquisador Antonio Venancio e os montadores Mair Tavares e Luísa Dowsley. Destaque, também, para a profissional Carla Sarmento, autora dos letreiros, plugados na psicodelia que desdobram-se em mandalas hipercoloridas.
No roteiro, Lírio contou com a contribuição de Claudio “Amarelo Manga” Assis e Dillner Gomes. A eles se somaram testemunhos de alguns parceiros de estrada de Alceu (o filme, como se quisesse ser um road movie, recorrerá a verdejante e longa rodovia).
A presença mais importante na trama, fora o onipresente Alceu, é a do parceiro e amigo Geraldinho Azevedo. Os outros são a cineasta Katia Mesel, os estudiosos de nossa música popular Carlos Alberto Sion, Charles Gavin e Antônio Carlos Miguel. Júlio Moura e Iracema Ferreira da Silva completam o time. Os depoimentos são curtos e nada didáticos. Lírio não gosta de filmes do tipo “cabeças-falantes”. Ele quer ação, cores e movimentos lisérgicos, histórias engraçadas e reveladoras.
Impossível errar a mão quando se tem Alceu na frente das câmaras. Graças ao apoio de instituições culturais de Pernambuco, os produtores puderam adquirir direito de uso de dezenas de canções e bancar sólida pesquisa de imagens (do craque Antonio Venancio). O filme nos traz riquíssimo acervo de histórico (da Guerra no Vietnã à repressão da ditadura brasileira), daquelas de deixar os devotos de Nossa Senhora do Contexto arrepiados. E, claro, maravilhas sonoras que embalaram nossas vidas (nós, que já somamos muitas décadas de existência).
Claro que não ouviremos a epifânica “Anunciação”, nem a erótica “Como Dois Animais”, nem a cinematográfica “La Belle du Jour”. O filme, embora recue à infância de Alceu (se Lírio pensou que impediria as reminiscências de seu indomável “personagem”, enganou-se redondamente!), pretende dar conta dos anos LISÉRGICOS do artista pernambucano. Nesse item, o testemunho de Katia Mesel será fundamental. Ela, companheira de estrada do músico Lula Côrtes (1949-2011), evocará os anos em que a vanguarda musical recifense mergulhou de cabeça nas sonoridades propostas pelo rock lisérgico. E Alceu buscou no grupo os músicos que o acompanhariam em disco e show.
A viagem sonora de “Vivo 76” será musical e, óbvio, cinematográfica. Lírio faz filmes para os olhos. E para os ouvidos. Em montagem vertiginosa, veremos Alceu encarnado no Espantalho de Sérgio Ricardo. Capiba, o gênio do frevo, que Alceu amava, aparecerá em trecho de filme de Fernando Spencer. E, dali em diante, vale tudo: comercial do sabonete Lever, trechos de “Jaramataia”, de Paulo Gil Soares, “Magia do Beberibe”, de Katia Mesel, “Nordeste, Cordel e Repente”, de Tânia Quaresma, o “Lampião”, do cineasta-mascate Benjamin Abrãao Boto, fonte seminal do “Baile Perfumado” (Lírio e Paulo Caldas, 1996). E, para gáudio dos fãs do “cinema marginal” sganzerliano, veremos Luiz Gonzaga cantando “Reimão, Reimão…” em sequência antológica de “Sem essa Aranha” (1970). O Rei do Baião, com sua sanfona, aparece cercado de gente e embalando a performance de Helena Ignez.
Todo mundo sabe que Gonzaga e Jackson do Pandeiro foram fontes seminais de Alceu. E ele lembrará no filme duas histórias vividas com os mestres: Jackson, que não gostava de cabeludos, recebeu dois deles (Alceu e Geraldinho Azevedo) com desconfiança. Mas acabou gostando deles, que exaltaram a música nordestina de raiz, e aceitando subir com os dois ao palco de um grande festival, o FIC, da TV Globo, em 1972, para, em trio, apresentar “Papagaio do Futuro”. Já Lua diria, de viva voz, ao discípulo que fora assisti-lo e gostara do que ouvira, pois o que você faz com seus músicos resulta numa “banda de pife (pífano) elétrico”.
O filme é doidão e de montagem frenética, mas abrirá espaço para reproduzir longa peroração de um “menino de Olinda”, guia turístico, que descreve minuciosamente (e com muitas datas) as belezas da linda Olinda. Irresistível.
Outra sequência de antologia: Dona Adelma (“passei 9 meses no útero dela e um ano mamando no peito dela”) e o marido, Sr. Décio, endossando, depois que o filho ficou famoso, a opção dele. A mãe, orgulhosa, dirá, feliz, que sempre apoiou o sonho de Alceu (ser cantor). O pai, que queria o filho advogado atuante, reconhece que o rapaz fez a escolha certa.
Outro momento forte do filme: aquele em que Alceu conta que a família o mandou para Garanhuns, onde iria estudar e afastar-se dos casamentos endogâmicos, comuns na isolada São Bento do Una. “Tava nascendo menino com problema de rim, de fígado e muito doido, pois parentes casavam com parentes”.
Geraldinho Azevedo ganha espaço mais que merecido no filme (o veremos montado num jegue, como ator de “A Noite do Espantalho”) e relembrando os dois encarceramentos a que foi submetido nos tempos mais duros da ditadura militar. Generoso como ele só, o pernambucano de Petrolina aparece cantando com Alceu, em estúdio magicamente iluminado e captado pelas lentes de Ivo Lopes. O cinema ganhará mais uma referência vinda da boca de Alceu, que evocará as qualidades da fotografia de Dib Lufti, o homem-câmara, que “carregava o pesado equipamento nos braços, sem tremer”. Homem steadicam. Dib fotografou “A Noite do Espantalho”, do irmão Sérgio Ricardo, e títulos de antologia do Cinema Novo.
Se Geraldinho ganha o espaço merecido, o mesmo não se pode dizer do guitarrista Paulo Rafael (1955-2021). Não que fosse obrigatório falar dele. Mas sua presença na vida de Alceu é citada duas vezes, sem que os não-iniciados saibam a quem se dirige a referência. Lírio teima em não “conspuscar” as imagens de seus documentários com legendas identificadoras. O pobre do espectador que se vire.
O diretor de “Vivo 76” só recorrerá a legendas – e o fará com motivo divertido – no final, quando implorará, com vistoso letreiro, que o projecionista não acenda as luzes, pois ainda ouviremos Alceu cantar “Edipiana Número 1” (para sua amada e reverenciada mãe) e assistiremos aos créditos impressos em mandalas psicodélicas.
Histórias deliciosas prosseguirão ao longo do filme: o fracasso inicial do primeiro grande show carioca de Alceu (no Teatro Tereza Rachel, de 789 lugares e que só mobilizou “uns 35 espectadores”, forcando-o a levar megafone às ruas); outro show (“O Ovo e a Galinha”) dos mais ébrios, pois patrocinado pela aguardente Lapada; os tempos em que se meteu com a macrobiótica, logo abandonada pois andava meio triste e sorumbático (sempre gostou de ser “travesso, elétrico, meio maluco”).
O artista pernambucano acredita que sem algumas doses de loucura, a criação definha. Por isso, um de seus versos diz que “ela foi ao analista e ainda não voltou”. Num de seus shows, ele era “metralhado” e encenava queda do banco que o acomodava. “Nunca me machuquei”.
Como o filme pega os loucos anos em que o artista se firmou no Recife e migrou para triunfar nacionalmente no Rio de Janeiro, as fãs e os fãs o verão com seu visual hippie, de longos, fartos e cacheados cabelos, molhado em suor e sensualidade. Sim, Alceu foi um poderoso e dionísíaco símbolo sexual da geração do ao Vivo 76.
Vivo 76
Pernambuco-Rio de Janeiro, 2026, 102 minutos
Direção: Lírio Ferreira
Roteiro: Lírio Ferreira, Claudio Assis e Dillner Gomes
Fotografia: Ivo Lopes Araújo
Montagem: Mair Tavares e Luisa Dowsley
Pesquisa: Antonio Venancio e Camila Valença
Produção: Perdidas Ilusões e Jurema Filmes
Distribuição: Arthouse e Comuna
FILMOGRAFIA
Lírio Ferreira (Recife, 01/03/1965)
1996 – “Baile Perfumado”, com Paulo Caldas (ficção)
2005 – “Árido Movie” (ficção)
2007 – “Cartola, Música para os Olhos”, com Hilton Lacerda (DOC)
2009 – “O Homem que Engarrafava Nuvens” (DOC)
2014 – “Sangue Azul” (ficção)
2020 – “On Off” (ficção)
2021 – “Cafi”, com Natara Ney (DOC)
2021 – “Acqua Movie” (ficção)
2024 – “O Menino d’Olho d’Água” (DOC sobre Hermeto Pascoal)
2024 – “Serra das Almas” (ficção)
2025 – “Para Vigo me Voy” (DOC sobre Cacá Diegues)
2926 – “Vivo 76” (DOC)
