Com seu “Natal Amargo”, Almodóvar reflete sobre o fazer cinematográfico e a ética da criação ao som de Chavela Vargas
Por Maria do Rosário Caetano
O mais inquieto dos realizadores espanhóis, o manchego Pedro Almodóvar, faz de seu vigésimo-quarto longa-metragem – “Natal Amargo“, em cartaz nos cinemas – um acerto de contas com sua trajetória artístico-existencial, com a memória da mãe, Francisca Caballero, e com seus amigos de ofício. E presta tributo a uma de suas maiores paixões – a cantora e compositora Chavela Vargas (1919-2012), costarriquenha de nascimento e mexicana por adoção.
O canto intenso, choroso e dilacerante da cantautora latino-americana magnetiza Almodóvar há décadas. Tanto que a colocou em alguns de seus filmes (entre eles, “Kika”, “A For do meu Segredo” e “Carne Trêmula”), além de ajudar a recolocá-la nos palcos, quase octogenária, com seus arrepiantes lamentos sonoros. Mesmo quem não se apaixonou por “Amarga Navidad”, há de admitir que o filme tem, ao menos, quatro momentos de antologia.
O primeiro é aquele em que uma enfermeira, Angelita (Tusti de las Heras), pergunta à protagonista, Elsa (Bárbara Lennie), tomada por brutal enxaqueca e crise de pânico, o que significa ser ‘uma cineasta de culto’? Teria o termo algo a ver com a religião evangélica? A resposta da paciente resulta irresistível.
O segundo momento luminoso tem o bombeiro Benie (o surpreendente Patrick Criado), que fora festejado maliciosamente pela mesma enfermeira, no exercício de seu segundo ofício (o de stripper), sob o olhar malicioso e feliz de jovens mulheres. Um dos momentos mais sensuais e delicados do cinema contemporâneo.
O terceiro nos apresenta a cantora Amaia Romero, de 27 anos, entoando “Las Simples Cosas”(Armando Tejada e Cesar Isella), um dos mais cultuados sucessos de Chavela. Com sua voz poderosa e acompanhada apenas por um violoncelo, Amaia faz de seu canto um bálsamo para os males físicos de Elsa. Que a ouve deitada na cama, tendo Bonifácio como amoroso contorno. O lugar não podia ser mais inusitado: a casa da amalucada Gabriela (Rossy de Palma, em participação especial), que se reconhece tão doida quanto as festas que promove. Elsa bem que tentou fugir da residência da amiga, mas não conseguiu, pois necessitava de remédio tarja preta, portanto vendido somente com receita médica.
A quarta sequência, claro, é aquela dedicada por inteiro a Chavela Vargas. Elsa conversa com uma amiga, Patricia (Vitoria Luengo), sob o olhar displicente de menino de uns três anos. Elas falam (além da crise conjugal de Patrícia) sobre paixão comum às duas – a cantora mexicana. Afinal, estão ouvindo os hits dilacerados da artista. Em especial, um de seus maiores sucessos (senão o maior), “La Llorona”. O que ouvimos, nas falas de Elsa, é puro Almodóvar. Tanto o artista, quando o cidadão. Ele (pela voz de Elsa) lembrará que Chavela (ela morreria depois de bem-vividos 93 anos), em seus derradeiros momentos nos palcos, já não cantava (praticamente declamava os versos), pois vinha perdendo a voz. Almodóvar sabia disso muito bem e de perto, pois fora uma espécie de “produtor-divulgador” dos shows que a artista faria até 2012, ano de sua morte.
“Natal Amargo“ forma, com o belíssimo “Dor e Glória”, um díptico. Nos dois, Almodóvar relembra seu passado e sua mãe, que ele teria negligenciado nos anos loucos da Movida Madrileña e, até, no dia em que ela morreu, pois só pudera fazer visita apressada ao hospital.
O novo filme serve, também e principalmente, como “Dor e Glória”, à reflexão sobre o ofício que constitui sua razão de viver. Ficar três ou quatro anos sem filmar, para ele, é um martírio, uma dor sem fim. Por sorte, em nenhum momento da narrativa, a metalinguagem se torna mais importante que a vida. “Amarga Navidad” é filme dentro do filme, sobre cinema, mas que não deixa de ser uma soma de pequenas histórias íntimas, vividas com emoção, carinho e delicadeza.
Elsa, personagem do filme dentro do filme (ambientado no mês de dezembro de 2004, vésperas do amargo Natal), se envolve com o bombeiro-stripper Bonifácio, o Benie. Ele é só carinho com ela, ombro amigo e parceiro na cama. Envolve-se, também, com a amiga Patricia, que não consegue se separar do marido safado. E com outra amiga, Natalia (Milena Smit), que, ao perder um filho pequeno, mergulha na dor e descuida-se até da aparência. Tudo é narrado no tempo presente, pelo roteiro que Raúl Rossetti (Leonardo Sbaraglia) escreve no computador, sempre cercado de gentilezas e carinhos pelo companheiro Santi (Quim Gutiérez).
Raúl e Elsa são alter-egos de Almodóvar. Em “Dor e Glória”, a função cabia a Antonio Banderas, ator-fetiche do manchego. Que voltava à terra natal para rever sua infância, a mãe e as mulheres de La Mancha, que falavam muito, lavavam roupa, viviam suas pequenas histórias. E, adulto, depois de muitas loucuras e trabalhos variados (inclusive como telefonista), vivenciava a mobilizadora experiência do cinema.
Em “Amarga Navidad”, Almodóvar é já um homem que se aproxima dos 80 anos, enfrenta revezes de saúde (dores de cabeça avassaladoras, crise de pânico) e, para agravar, enfrenta crise criativa. Cada roteiro consome, cada vez mais, tempo e muito esforço.
Veremos, em “Natal Amargo”, um “Almodóvar“ bem assentado na vida, rico (o que é aquela cozinha em que ele e Santi praticam exercícios culinários?), cortejado (o Catar oferece cachê de 200 mil dólares para ele dar o ar da graça num festival), cercado por um mundo fashion. Todos os cenários do filme parecem sofisticados em demasia. Não há pobreza, nem imigrantes, nem problemas sociais. Madri é recortada em ambientes domésticos e ultraconfortáveis. Elsa vai curtir suas dores emocionais na ilha vulcânica de Lazarote, um dos mais festejados redutos turísticos da Espanha.
Isso tira a força do filme? Não, porque o amor do manchego por seus personagens nos envolve, nos transforma em cúmplices. Somos transportados para seu mundo construído de dores íntimas.
Curioso notar que Elsa é uma cineasta bissexta, que vive dos recursos fartos da publicidade. Disso Almodóvar não pode ser acusado. Ele existe para o cinema. Fez 24 longas-metragens, um média e alguns curtas, ganhou dois Oscar (de melhor filme internacional com sua obra-prima, “Tudo sobre minha Mãe”, e de roteiro por “Fale com Ela“), conquistou prêmios em Cannes e Veneza (nesse caso, um Leão de Ouro com um de seus filmes menos memoráveis “O Quarto ao Lado”), formou um time de atores que são tão ‘almodovarianos’ quanto ele (Carmen Maura, Rossy de Palma, Chus Lampreave, Mariza Paredes, Cecilia Roth, Vitoria Abril, Penélope Cruz, Candela Peña e a saudosa Verónica Forqué). Sem esquecer Banderas e o também saudoso Eusebio Poncela.
O cinema é tão parte da vida de Almodóvar, que ele, com o irmão Agustín, vem transformando a produtora familiar, El Deseo, em plataforma de lançamento de novos filmes espanhóis. Os casos mais recentes e chamativos tiveram Cannes como vitrine – Oliver Laxe (com o nitroglicerina pura “Sîrat”) e Los Javi (com “A Bola Negra”). Ambos premiados na Riviera Francesa.
E o futuro de Pedro Almodóvar? Ele encontra-se num impasse? Para alguns, sim. Ele mesmo diz que sua imaginação está posta em crise. Promete, até, recorrer, quem sabe, a um co-roteirista. Pra que, se Pedro, o manchego-madrilenho, que escreveu sozinho todos seus roteiros, sabe como transformar obras alheias – caso do romance “Mygale-Tarântula”, de Thierry Jonquet – em filme arrebatador como “A Pele que Habito”? Mesmo caso de outra obra apaixonante (“Carne Trêmula“, baseado em livro de Ruth Rendell). Se ele sabe nutrir-se dos milhares de filmes assistidos e transformá-los em seiva de maravilhas como “Tudo sobre minha Mãe“. Ou remexer histórias e personagens anônimos de sua amada Espanha, como fez em “Fale com Ela”, “A Flor do meu Segredo” e “Volver”?
E, por fim, uma constatação: como Almodóvar sabe criar títulos sintéticos e de fácil memorização para seus filmes! “Ata-me!”, “Tacones Lejanos”, “Volver”, “Madres Paralelas”, “Amarga Navidad”….
Natal Amargo | Amarga Navidad
Espanha, 2026, 111 minutos
Direção e roteiro: Pedro Almodóvar
Elenco: Bárbara Lennie (Elsa), Leonardo Sbaraglia (Raúl Rossetti), Victoria Luego (Patricia), Patrick Criado (o bombeiro Bonifácio), Aitana Sánchez-Gijón (Mónica, produtora de Raúl), Milena Smit (Natália), Quim Gutiérez (Santi, parceiro de Raúl), Tusti de las Heras (enfermeira Angelita), Rossy de Palma (Gabriela), Glória Muñoz (mãe de Elsa), Carmen Machi (Doutora) e Patrick Caiado
Fotografia: Pau Esteve Birba
Trilha sonora: Alberto Iglesias
Distribuição: Warner
FILMOGRAFIA
Pedro Almodóvar Caballero (Calzada de Calatrava, Espanha, 25 de setembro de 1949)
Cineasta, roteirista e produtor de cinema
1980 – “Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas del Monton”
1982 – “Labirinto de Paixões”,
1983 – “Entre Tenieblas”
1984 – “Que He Hecho Yo para Merecer Esto?”
1986 – “O Matador”
1987 – “A Lei do Desejo”
1987 – “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos”
1989 – “Ata-me!”
1990 – “Tacone Lejanos
1993 – “Kika”
1995 – “A Flor do meu Segredo”
1998 – “Carne Trêmula”
1999 – “Tudo sobre minha Mãe”
2002 – “Fale com Ela”
2004 – “Má Educação”
2006 – “Volver”
2005 – “Abraços Partidos”
2011 – “A Pele que Habito”
2013 – “Os Amantes Passageiros”
2016 – “Julieta”
2019 – “Dor e Glória”
2021 – “Madres Paralelas”
2024 – “O Quarto ao Lado”
2026 – “Natal Amargo”
