Barretão, fotógrafo, diretor, produtor e militante do PCB (Partido do Cinema Brasileiro), morre aos 98 anos
Por Maria do Rosário Caetano
O cearense, de Sobral, Luiz Carlos Barreto morreu, no Rio de Janeiro, sua cidade adotiva, nessa quarta-feira, 22 de julho. A 22 meses de seu centenário. Ele estava internado no Hospital Copa Star, em Copacabana, onde se tratava de infecção pulmonar decorrente de uma pneumonia.
Barretão, seu nome de guerra e vida cotidiana, deixa poderosa herança como diretor de fotografia (“Vidas Secas” e “Terra em Transe”), um longa documental como diretor (“Isto é Pelé”, em parceria com Eduardo Escorel) e, em seu ofício principal, o de produtor, quase uma centena de longas-metragens e projetos feitos para TV.
O produtor de “Dona Flor e seus Dois Maridos” foi, também, um incansável militante do PCB (Partido do Cinema Brasileiro). Ele mesmo se apresentava com tal aposto. Fôra, na juventude, simpatizante do Partido Comunista Brasileiro. Na maturidade, tornou-se eleitor do PT (Partido dos Trabalhadores) e produziu o filme “Lula, o Filho do Brasil”, dirigido por Fábio Barreto.
O mundo caiu sobre a cabeça de Barretão. Ele foi acusado de estar fazendo propaganda política do presidente (em segundo mandato) da República. Entusiasmado como ele só, Barretão sonhou com milhões de espectadores para a saga do menino pobre, que viera do Nordeste num pau-de-arara e fora, junto com a família, morar numa favela (Itapema) do Guarujá. Cresceria com a mãe, Dona Lindú (interpretada por Glória Pires), abandonada pelo marido (Milhem Cortaz), e com os irmãos pequenos. Até mudar-se para o ABC Paulista e, anos mais tarde, tornar-se torneiro mecânico e filiar-se ao Sindicato dos Metalúrgicos. O resto é história.
O filme não chegou a um milhão de ingressos (estacionou em 900 mil). Mas foi realizado com recursos saudáveis (e privados) e serviu para consolidar o talento do ator Ruy Ricardo Diaz, que deu vida ao nordestino pobre, nascido na zona rural da Garanhuns pernambucana. E que chegaria, no século 21, à presidência da República.
A trajetória cinematográfica de Barretão começou com “Assalto ao Trem Pagador”, longa-metragem de Roberto Farias, que o teve como coprodutor e co-roteirista. E prosseguiu em momentos áureos do Cinema Novo. Além de “Vidas Secas” e “Terra em Transe”, ele ajudou a produzir “A Hora e Vez de Augusto Matraga”, “Garrincha, Alegria do Povo”, “O Padre e a Moça”, entre muitos outros títulos-referência.
Quando a produção brasileira adotou o cinema-espetáculo, aquele que pretendia dialogar com o grande público, Barretão não fez por menos. Produziu “Dona Flor e seus Dois Maridos”, baseado em best-seller de Jorge Amado, dirigido por seu filho Bruno Barreto, fotografado por Murilo Salles e protagonizado por uma das maiores estrelas de nossa história cinematográfica, Sônia Braga. Um sucesso estrondoso: 10,5 milhões de ingressos. Recorde que só seria ultrapassado, décadas depois, por “Tropa de Elite 2”, de José Padilha.
Nos difíceis momentos que se seguiram à Era Collor, que destruiu organismos de fomento e fiscalização, como a Embrafilme e o Concine, Barretão produziu “O Quatrilho” e “O que é isso, Companheiro”, o primeiro de Fábio, o segundo de Bruno, seus filhos. Ambos foram indicados ao Oscar de melhor produção estrangeira da Academia de Hollywood.
O nome de Luiz Carlos Barreto transformar-se-ia em verdadeira legenda do cinema brasileiro. Um personagem incontornável, polêmico, desmedido, controvertido. Mas apaixonado. Houve quem o chamasse de “adorável mafioso”. Acreditava-se que Barretão tinha influência excessiva junto aos organismos de fomento do cinema brasileiro.
Também pudera. O homem era um azougue. Não parava. Estava sempre produzindo novos filmes e/ou fazendo política. Era presença assídua em mobilizações nos gabinetes de deputados e senadores. Afinal, ele lembrava, sem descanso, sua condição de “militante do Partido do Cinema Brasileiro”. Orgulhava-se desse “destino”. Cumpria com renovado prazer tal missão.
Tem-se como certo que ele criou, também, o nome de batismo da Tropicália, o movimento musical liderado por Caetano Veloso e Gilberto Gil. Registre-se: ele era, como jornalista da poderosa revista O Cruzeiro, de seu amigo Chatô, um excelente criador de títulos e frases de efeito.
Num Festival de Gramado, ao ver os desmandos da censura caírem sobre a exibição do curta “Pornografia”, manifesto em verde-amarelo de Murilo Salles e Sandra Werneck (contra o Governo Collor e os males que este causara ao cinema brasileiro), Barretão não perdeu o rebolado. O curta de apenas oito minutos tinha o Hino Nacional como trilha sonora. O censor avisou: “só autorizamos a exibição sem o Hino”. Assim foi feito. O filme foi apresentado sem som. Barretão ponderou, com sua verve certeira: “Era SOM o que faltava”.
O cearense-carioca foi, sempre, um negociador incansável. Esteve na linha de frente das negociações que fortaleceram a Embrafilme na Era Geisel. Foi um dos criadores da Difilm (distribuidora cinemanovista). Foi sócio-fundador do Canal Brasil. Lutou pela criação da Ancine e da EBC (Empresa Brasileira de Comunicação). Antes que a Videofilmes, dos Irmãos Salles, a O2, de Fernando Meirelles e sócios, e a Conspiração, de Breno Silveira, Leonardo Monteiro de Barros, Andrucha Waddington & Cia, se transformassem nas potências brasileiras do século 21, a LC Barreto era a tal. Seus filmes estão espalhados pelo streaming, em especial na Globoplay, por emissoras abertas e pelo Canal Brasil. Ou guardados nas Cinematecas.
Jorge Furtado cita, nos testemunhos abaixo, seus filmes preferidos do Acervo Barretão. Cada um há de ter os seus. Um dos meus favoritos é “Memórias do Cárcere”, que ele produziu para Nelson Pereira dos Santos. Mas, antes de tudo, cito três títulos da Pentalogia Máxima do Cinema Novo (“Vidas Secas”, “Matraga” e “Terra em Transe”). O quarto, “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber, e “Os Fuzis”, de Ruy Guerra, não pertencem ao espólio barretônico.
E conto história ocorrida em Brasília, na sede do MEC, que abrigava escritório da Embrafilme. Repórter, fui à Esplanada dos Ministérios entrevistar o diretor e o produtor de “Memórias do Cárcere”, longa que recém-conquistara o Prêmio Fipresci (Crítica Internacional), em Cannes.
Barretão e Nelson estavam a postos, me esperando, sentados num sofá. Eu me acomodei numa cadeira, sob minúscula mesinha. Comecei a perguntar. O inflamado Barretão danou-se a responder às minhas perguntas. E o fez com tanto entusiasmo que, ao dirigir pergunta a Nelson Pereira dos Santos, notei que ele dormia, embalado pela fala torrencial do parceiro. O discreto Nelson deve ter concluído que bastava que o tribuno sobralense falasse.
Ah, quem quiser assistir a um longa documental sobre o produtor de “Inocência”, maravilha pastoral de Walter Lima Jr., deve buscar o longa documental “Barretão – O Filme”(foto, 2020), de Marcelo Santiago. Um passeio pela vasta trajetória de LCB, desde o fotojornalismo praticado na revista O Cruzeiro (é dele foto histórica de Luiza Maranhão e Helena Ignez, nos bastidores de “Barravento”) até tornar-se um dos principais artífices do Cinema Novo e produtor e coprodutor de quase 100 títulos. E os espectadores devem aguardar “Barreto em Transe”, documentário de Júlia Barreto, filha de Fabio e neta do produtor, em fase de finalização.
Abaixo, cineastas, diretores de fotografia, atriz e exibidor dão seu testemunho sobre o produtor Luiz Carlos Barreto:
JORGE FURTADO (diretor de “Ilha das Flores”) – Adeus ao Barretão, quase um século de Brasil e de cinema brasileiro. O maior dos produtores, grande fotógrafo, agitador cultural, único, insubstituível. Seguem 15 grandes filmes, os meus preferidos, do produtor Luiz Carlos Barreto. Nenhum outro cineasta brasileiro tem uma lista como esta. “Romance da Empregada (1988), “Memórias do Cárcere” (1984), “O Beijo No Asfalto” (1981), “Bye Bye Brasil” (1980), “Dona Flor e seus Dois Maridos” (1976), “O Casal” (1975), “Guerra Conjugal” (1974), “Isto É Pelé” (1974), “Como Era Gostoso o meu Francês” (1971), “Terra em Transe” (1967), “A Grande Cidade” (1966), “Padre e a Moça” (1966), “A Hora e Vez de Augusto Matraga” (1965), “Vidas Secas” (1963) e “Garrincha – Alegria do Povo” (1962).
MURILO SALLES (diretor de “Como Nascem os Anjos”) — Luiz Carlos Barreto, em “Vidas Secas”, mudou o conceito de exposição de luz do cinema moderno. Antes, quem era mandatário nas filmagens externas era a luz do sol. Era preciso iluminar as regiões de sombras senão elas não apareciam na imagem. Por isso, a necessidade de REFLETORES enormes (Arcos) ou rebatedores que ‘chapavam’ a luz dando até um aspecto falso a cena. O Luiz Carlos, vindo da melhor escola fotojornalística do brasil, que era a revista O Cruzeiro, trouxe para o cinema esse conhecimento: expor para a sombra, não para o SOL… o que resultou na luminosidade impressionante do ‘Vidas Secas’; que ao bater nas telas de Cannes, espantou os fotógrafos e extasiou a plateia e cineastas com sua beleza surpreendente, e NOVA! Luiz Carlos Barreto revolucionou o padrão de exposição à Luz, em externas, expondo para a sombra. Hoje, isso é padrão no mundo. É claro q os codecs hoje têm uma latitude que inclui/capta todas as informações de contraste das cenas. Portanto, os jovens fotógrafos hoje não têm noção desse ‘problema’ que foi resolvido pelo querido mestre Barretão! Um fotógrafo que revolucionou a visualidade da fotografia em preto e branco no mundo!.
LUCÉLIA SANTOS (atriz e diretora) – Barretão e o cinema brasileiro se misturam no meu imaginário. Difícil pensar cinema no Brasil sem Barretão, sua obstinação, determinação e força para alavancar projetos e traçar propostas de políticas públicas para o cinema. Era uma instituição, não apenas um produtor e fotógrafo. Nascemos no mesmo dia. Todo meu aniversário comemorava com ele presente no meu coração. Boa viagem querido Barretão. Certamente você irá iluminar outras paragens com sua enorme estrela.
JOEL ZITO ARAÚJO (diretor de “A Negação do Brasil – O Negro na Telenovela Brasileira”) — Barretão foi um incansável guerreiro do cinema brasileiro. Com sua partida, ele nos fará falta. Meu respeito por sua trajetória e meu abraço à sua família.
SUSANNA LIRA (diretora de “Torre das Donzelas”) — Barreto seguirá sendo o maior expoente do cinema brasileiro por tudo que fez como fotógrafo e produtor, e por ter feito a gente acreditar que era possível fazer cinema no Brasil. E fazer disso uma profissão.
ROBERTO GERVITZ (diretor de “Feliz Ano Velho”) – Imensamente triste com a partida de Luiz Carlos Barreto, um querido amigo, um ser humano ímpar, uma usina de ideias, motor do moderno cinema brasileiro, sempre generoso e solidário. Vinha fazendo e ainda fará muita falta como batalhador de nossas pautas mais importantes.
HELENA SOLBERG (diretora de “Carmen Miranda – Bananas is My Busines”) – Um amigo que não tinha medo da verdade…
ALFREDO MANEVY (diretor de “Lupicínio Rodrigues – Confissões de um Sofredor”) – Barretão será lembrado com justiça como um dos maiores produtores e fotógrafos do nosso cinema. Alguém que foi referência para mim e minha geração. Mas quero ressaltar a importância de Barreto para construção das políticas do cinema. Ele sempre fez uma política no mais alto nível, e faz e fará imensa falta neste momento em que precisamos regular o streaming. No momento em que o sul global se vê privado de um projeto de indústria cultural soberana. Que era o sonho dele.
WALTER CARVALHO (cineasta e diretor de fotografia) — Barretão, uma força da natureza. Responsável pelo moderno cinema brasileiro. Uma locomotiva que puxava todos os vagões, cheio de ideias e histórias vividas. Isso era Luiz Carlos Barreto. Sua passagem nos surpreende, apesar do estado de saúde em que se encontrava. Estamos muito tristes. Por isso, dói tanto. Barreto vive.
AURÉLIO MICHILES (diretor de “Segredos do Putumayo”) — Barretão, um dos personagens mais importantes da história do cinema brasileiro. Ele é uma testemunha não só ocular, mas agente da produção do audiovisual no Brasil, desde quando era fotógrafo, depois diretor de fotografia, depois produtor. E, também, como aliado político da causa do cinema. A sua ausência é uma ausência que nos obrigará a batalhar muito para que possamos ocupar o seu lugar.
SERGIO MACHADO (diretor de “Cidade Baixa”) — Tive pouco contato com o Barretão e não tive a sorte de trabalhar com ele. Mas sempre o vi como uma figura absolutamente fundamental. Fotógrafo brilhante e produtor de algumas das maiores obras-primas do cinema brasileiro.
ADHEMAR OLIVEIRA (distribuidor e exibidor de cinema) — Perdemos um guerreiro! Barretão foi responsável por tudo que o cinema brasileiro fez, para o bem e para o mal. A partir da Embrafilme, ele percebeu que a coisa estava estranha. Veio Collor e arrebentou com o cinema. Ele partiu pra luta e movimentou tudo para a criação de uma nova estrutura para o cinema brasileiro. Que Deus e os cineastas que o precederam na passagem o acolham com festa. Descanse em paz meu Guerreiro, continuaremos a luta por aqui.
WOLNEY OLIVEIRA (diretor de “Os Últimos Cangaceiros”) — Numa madrugada de 2008, um grupo de cineastas brasileiros liderado por Luiz Carlos Barreto, o nosso Barretão, estava no Congresso Nacional fazendo pressão pela aprovação da EBC/TV Brasil. Barretão, aos 80 anos, era o mais entusiasmado de todos. A seu pedido, o então presidente do Senado, Renan Calheiros, nos recebeu. A mobilização seguiu até a votação e a aprovação da proposta, já na madrugada do dia seguinte. Em 2024, Barreto veio ao Ceará para ser homenageado pelo Governo do Estado e pelo Cine Ceará – Festival Ibero-Americano de Cinema, pelos 60 anos da produtora LC Barreto. Estava com 96 aninhos. O governador Elmano de Freitas nos recebeu, com Barretão à frente de um grupo de cineastas cearenses. Na ocasião, Barreto pediu ao governador que atendesse ao nosso pleito de criar a Ceará Filmes, um sonho antigo do Cine Ceará e de todo o audiovisual cearense. No dia 19 de dezembro de 2025, o governador do Ceará, Elmano de Freitas, sancionou a lei que criou a Empresa Cearense do Audiovisual (ECAVI), popularmente conhecida pelo nome do programa que lhe deu origem: Ceará Filmes. Vamos sentir muitas saudades do Barretão. Não apenas de um dos maiores produtores da América Latina e de um brilhante fotógrafo, responsável pela fotografia de “Vidas Secas”, mas, principalmente, do incansável defensor do cinema brasileiro, cuja luta diária marcou gerações. Descanse em paz, Saravá Mestre!.
LAURO ESCOREL (cineasta e diretor de fotografia) — Luiz Carlos Barreto abriu o caminho para a modernidade da fotografia do cinema brasileiro com suas imagens em “Vidas Seca” e “Terra em Transe”. Estivemos juntos em “Terra em Transe”, “Bye Bye Brasil” e “Amor Bandido”. Foi sempre um produtor entusiasmado e generoso com os fotógrafos dos filmes que produzia. Deixa muita saudade.
LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA (presidente da República) — O cinema brasileiro deve muito a Luiz Carlos Barreto, que nos deixou nesta quarta-feira. Seu amor pelo Brasil, seu talento e, sobretudo, seu espírito inquieto o transformaram no mais importante produtor do cinema nacional nos últimos cinquenta anos. Em reconhecimento à sua obra e à sua contribuição para a cultura brasileira, decreto luto oficial de três dias. Desde o tempo do Cinema Novo, nos anos 1960, quando a arte tinha que lutar contra a censura e o autoritarismo, Barretão ocupou papel central em nossa produção cinematográfica. Ao longo das décadas seguintes, seguiu revelando talentos, viabilizando produções que marcaram época, a exemplo de “Dona Flor e seus Dois Maridos”, “O Quatrilho” e o “O que é isso, Companheiro”, e dando musculatura ao cinema brasileiro. Como poucos, Luiz Carlos Barreto soube defender nossa produção audiovisual. Lutou por políticas públicas para o setor. Ajudou a criar, no Brasil, toda uma cadeia de gente talentosa e extremamente profissional que hoje nos traz o orgulho na forma de Oscars, Leões de Ouro e muito prestígio internacional.
À sua esposa, Lucy, aos seus filhos, Paula e Bruno, e a todos seus familiares, amigos e colegas, eu e Janja deixamos um abraço muito carinhoso.
JOSÉ DIRCEU (ex-ministro do Governo Lula) — Barretão nos deixou, depois de lutar durante anos pela vida com a coragem de quem sempre teve uma causa e uma paixão. Barreto e sua família foram minha segunda casa nos anos duros das perseguições e das prisões. Ali encontrei carinho, acolhimento e afeto, e abracei também sua luta pela cultura e pelo cinema brasileiro. Barretão era um líder, uma luz. Como produtor, diretor e fotógrafo, expressou como poucos a alma brasileira, movido por uma profunda paixão pelo nosso povo e pela nossa cultura. Foi uma lenda do cinema e um lutador incansável pela democracia, que jamais renunciou às suas convicções políticas.
