Noite dos Otelos pauta-se pelo distributivismo e divide prêmio principal entre “Manas” e “O Agente Secreto”

Foto: Kleber Mendonça Filho e equipe de “O Agente Secreto” © R2 Foto

Por Maria do Rosário Caetano

A cerimônia de entrega do Prêmio Grande Otelo, o “Oscar do cinema brasileiro”, foi longa, distributivista, nordestino-paulista e pautada por discursos mornos. Exceção para a derradeira intervenção de Kleber Mendonça Filho, no momento derradeiro da festa oficiada no Teatro Municipal do Rio.

Dois filmes pernambucanos dividiram o troféu principal, o de melhor longa ficcional – “Manas”, de Marianna Brennand, rodado na Ilha do Marajó (cinco troféus entre os 10 possíveis), e “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça, ambientado no Recife. Só que este filme, o franco favorito (18 indicações), só converteu quatro delas. Mesmo assim, chegou a seu centésimo-segundo troféu em carreira iniciada em Cannes 2025 e referendada por quatro indicações ao Oscar de Hollywood.

O discurso final de KMF colocou dois pontos em questão. Primeiro, o “forte ar sudestino na Academia (Brasileira de Cinema)” e a “grande mídia”. A esta, com elegância contundente, o pernambucano dedicou o prêmio que acabara de ganhar (o de melhor filme). Para em seguida sugerir (evocando as Eleições Presidenciais, tema ignorado durante os 210 minutos da interminável solenidade): que a grande mídia cumpra seu papel. “É como escrever, nesse momento tão importante, um bom roteiro”. Basta “dizer o que está acontecendo. Não precisa nem enfeitar. Sem esconder nada, sem preparar outra realidade”.

Um filme paulista – “Homem com H”, de Esmir Filho – foi o que somou mais troféus na Noite dos Otelos – seis (em 12 possíveis). Ou seja, triunfou na metade das postulações, assim como “Manas”.

A cinebiografia de Ney Matogrosso garantiu a estatueta de melhor ator para Jesuíta Barbosa. Ele encarna, com garra e paixão, o cantor-bailarino-performer. Aliás, Ney Matogrosso foi o responsável pelo número musical que abriu a cerimônia. Evocou Cazuza (com “O Tempo Não Para”), outro personagem do filme produzido pela Paris, de Marcio Fraccaroli. Um longa-metragem que levou 650 mil espectadores aos cinemas. E venceu no veredito do Júri Popular. Vale destacar aqui a bilheteria de “O Agente Secreto” (2,5 milhões de ingressos) e a de “Manas” (25 mil).

Como é que um filme que fez 650 mil espectadores derrota um que vendeu 2,5 milhões de tíquetes?

Nesse caso, há explicação lógica: a Academia promove sessões em várias cidades brasileiras com os filmes que concorrem a melhor longa ficcional e melhor comédia. O público, que prestigia as sessões, recebe uma cédula e vota no seu preferido. Aí, a cinebiografia homoafetiva de Esmir Filho e Ney Matogrosso, um “filme família” (nas palavras do próprio diretor), mostrou seu poder de sedução. Está, portanto, justificado.

O que não dá para entender são prêmios divididos (que enfraquecem os dois laureados) e injustiças evidentes. Rodrigo Santoro derrotar Carlos Francisco e/ou Robério Diógenes, coadjuvantes luminosos de “O Agente Secreto” nos leva a crer que o star-system televisivo-carioca pesou de forma excessiva. Não que Santoro esteja mal (muito pelo contrário) em “O Último Azul”. Mas premiar um dos outros dois (Francisco ou Robério) era reconhecer trabalhos excepcionais, que causaram furor. O cearense Robério, o Delegado Euclides, de composição sacana, safadíssima, construiu desempenho que guardaremos para sempre em nossas retinas. Nessa decisão, em especial, parece estar a base da crítica de KMF ao “ar sudestino” da Academia.

Premiar mais uma vez Dira Paes, outra grande atriz, parece brodagem à moda carioca. O papel dela em “Manas” está no mesmo nível do que ela apresenta costumeiramente, grande intérprete que é. Mas não tem a força e o frescor de Camila Márdilla no candango “A Natureza das Coisas Invisíveis”, de Rafaela Camelo.

Academias de Cinema não são, por natureza, concentradoras de prêmios. Querem agradar ao máximo de associados (e concorrentes). Mas esse ano, os acadêmicos exageraram. Dividiram até o prêmio de melhor filme ibero-americano. O que gerou certa confusão.

Diretora de “Manas”, Marianna Brennand, e atrizes do filme © R2 Foto

O ator Jonathan Guilherme, do elenco do lusitano-afro-brasileiro “O Riso e a Faca”, de Pedro Pinho, falou primeiro. Foi seguido pela atriz argentina Camila Plaate, representante de “Belén – Uma História de Injustiça”, de Dolores Fonzi. Se o filme português tivesse ganho sozinho, a Academia teria ousado. Afinal, trata-se de narrativa de longa duração (umas três horas), inventivo, disruptivo, sem amarras.

“Belén”, se fosse a opção única, funcionaria como mostra de fraternidade entre Brasil e Argentina, nesse momento de tantas dissonâncias, a maior delas gerada pela rivalidade futebolística em tempos de Copa do Mundo. Sem esquecer a falta de compostura do presidente boca-suja (e de extrema-direita espalhafatosa), que governa a pátria de Ricardo Darín. E que agrediu o presidente da República do Brasil e um dos ministros do Supremo. Mas, na Noite dos Otelos, vigorou o espírito de reforma agrária de troféus.

A Academia quis, visível e explicitamente, baixar a bola de KMF e sua equipe. Esnobou “O Agente Secreto”, o filme-sensação de 2025. KMF até ironizou: depois de raras subidas ao palco, bradou “Ainda Estou (estamos) Aqui!”.

O filme recebeu, vale enfatizar, 18 (dezoito!) indicações, mas só lhe foram concedidas quatro (com divisão na categoria principal e mais três categorias técnicas: fotografia, direção de arte e efeitos visuais). Pouco mais de 25% de aproveitamento, um quarto do esperado.

O realizador recifense não deixou barato. Mandou recado de aparência sutil, mas destino certeiro: “Wagner (Moura), você é um grande ator, um grande homem”.

O baiano, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes e foi finalista ao Oscar de melhor interpretação masculina, acabou preterido. O bom-senso nos leva a constatar que não foi uma decisão absurda. Reconhecer o trabalho do cearense-pernambucano Jesuíta Barbosa na contrução do camaleônico Ney Matogrosso não é um disparate. Mesmo que Wagner esteja magnífico na pele de Marcelo-Armando-Fernando.

Houve, registremos, muitos acertos na Noite dos Otelos. O troféu de melhor atriz para Denise Weinberg foi um deles. Ela está arrasadora no papel da idosa segregada por lei absurda. E fez agradecimento sintético e notável. Festejou seus 70 anos, seu primeiro papel como protagonista cinematográfica (Gabriel Mascaro a escolheu para carregar “O Último Azul” nas costas) e seu primeiro prêmio audiovisual.

Outro belo momento: o reconhecimento de Rafaela Camelo como melhor diretora estreante. Seu primeiro longa, “A Natureza das Coisas Invisíveis”, é uma pequena joia, delicada, sintonizada com as causas de nosso tempo, mas sem esfregá-las na nossa cara, pois acredita na nossa sensibilidade-acuidade. Uma diretora e um filme que apostam na sutileza, no lacunar, na busca de atmosfera envolvente.

A escolha de “Apocalipse nos Trópicos”, de Petra Costa (que embalou sua barriga grávida de muitos meses, com vistoso vestido de listras vermelhas) foi justíssima. O filme, que alguns amam e outros odeiam, é muito importante e bem-construído. De temática complexa – as relações dos que professam fé evangélica com a política partidária –, “Apocalipse” foi eleito o melhor documentário e teve sua montagem reconhecida. Por merecimento.

Os curtas-metragens escolhidos geraram discursos emocionantes (dois deles) e divertidíssimo (o das maluquinhas da animação, em sentido duplo).

Pedro Alencar comoveu a plateia ao dedicar o prêmio de melhor curta documental aos pais. O que constituiu chatice imominável em qualquer cerimônia (agradecer aos parentes), aqui tinha razão de ser. O filme evoca trágica história familiar. E o laureado soube usar da síntese em sua fala emocionada. Um pouquinho mais prolixo, mas igualmente certeiro, foi André Hayato Saito, diretor do belo “Amarela”, melhor curta ficcional. Acompanhado de sua atriz-protagonista, Melissa Uehara, Saito evocou os preconceitos que cercam os “amarelos” (asiáticos). Brilhou.

Em contraste, as jovens Kimberly Palermo (diretora) e Lícia Ferro (diretora de arte), de “A Tragédia da Lobo-Guará”,  fizeram de seus agradecimentos uma deliciosa comédia. Maluquetes – e com seus personagens (em forma de bonecos) nas mãos –, elas externaram imensa felicidade por verem seu pequeno filme, produzido como trabalho de conclusão de curso universitário, feito com merreca financeira (“ganhamos R$5 mil do Festival Kinoforum e pensamos que estávamos ricas!”), laureado com um Troféu Otelo. No final, teceram loas à “universidade pública que nos preparou”. E citaram sua alma mater, a UFF (Universidade Federal Fluminense).

A cerimônia de premiação foi conduzida pelas atrizes Marieta Severo e Silvia Buarque, elegantes e discretas (as duas, mãe e filha, poderiam ter brincado mais para descontrair o ambiente) e contaram, na retaguarda, com direção, roteiro e pesquisa da dupla Batman Zavareze e Bebeto Abrantes. Dois craques. Mas, constatemos, como dar ritmo a uma solenidade que dura intermináveis 210 minutos?

Apesar da duração excessiva (32 prêmios e uns 40 agradecimentos!!), a cerimônia, que se propôs a destacar “a diversidade no cinema brasileiro”, presente “na ascensão do cinema indígena, produções periféricas, pretas e antirracistas, além de obras do universo LGBTQ+”, foi bonita.

Emocionante a homenagem aos que partiram (Barretão, Orlando Senna, Maria Ribeiro, Joyce Prado, Teuda Bara, Titina Medeiros, Macalé, Rui Rezende, Silvio Da-Rin, Veríssimo, entre outros). Imagens dos pranteados foram exibidas em preto-e-branco, sobre fundo azul-cobalto. O efeito foi dos mais eficientes.

O nome dos premiados, em “telão”, com efeito em rosa-choque, também foi impactante. Mas, ano que vem, vale dar mais destaque ao que está escrito em fina sintonia com as figuras dos premiados, “miniaturizados” num primeiro momento. O contraste entre a profundidade da imagem e o corte para os artistas premiados (em destaque) resultou desmedido. Telinha de TV não é telona de cinema. Naquela, tudo tem que ser pensado de forma mais próxima, calorosa.

A homenagem ao empresário Luiz Antonio Viana, “o primeiro presidente da Academia Brasileira de Cinema”, resultou estranha. Ninguém se destinou a explicar quem era o personagem. A bela mulher que o representou proferiu discurso panorâmico, que quase nada trouxe de esclarecedor. OK, ele fundou, 25 anos atrás, com parceiros, a Academia e a presidiu, mas a homenagem seria bem mais eficiente se o Canal Brasil tivesse realizado um pequeno vídeo lembrando o apoio do ex-CEO do Pão de Açúcar, BR Distribuidora, Net e Makro, com passagens pelo grupo Ultra, IFC e BNDES. Informaria o público e pronto!

Há que se reconhecer que Renata de Almeida Magalhães, a presidente da Academia, vem buscando eficiência para as cerimônias de premiação. Milagrosamente, conseguiu que alguns (alguns!) dos premiados se pautassem pela síntese nos discursos de agradecimento.

Que o comando da Academia estabeleça regras mais duras em nome da celeridade da festa. Se sobem seis roteiristas (caso de “Manas”), que um só fale em nome do coletivo. Quem estiver falando demais, que seja advertido por sonora campainha.

A trip “agradecedora” dos premiados não pode desanimar o espectador. Ele é a razão de ser da transmissão feita pelo Canal Brasil e pelo YouTube. Uma festa com média de 120 minutos de duração, o tamanho de um longa-metragem que almeja ao Oscar de Hollywood, deve ser a meta ambicionada.

O prefeito do Rio, Eduardo Cavalieri, não tem a desenvoltura de seu antecessor, o descolado Eduardo Paes. Mas deu seu recado e garantiu que a Noite dos Otelos “está, definitivamente, agregada ao calendário oficial” da capital fluminense.

Confira os vencedores:

CINEMA

. “Manas”, de Marianna Brennand (PE) – melhor filme (ex-aqueo), direção, roteiro original (Felipe Sholl, Marcelo Grabowsky, Mariana Brennand, Carolina Benevides, Antonia Pellegrino, Camila Agustini), montagem ficção (Isabela Monteiro de Castro), atriz coadjuvante (Dira Paes)

. “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho (PE) – melhor filme (ex-aqueo), fotografia (Evgenia Alexandrova), direção de arte (Thales Junqueira), efeito visual (Alexandre Boiron, Luuk Meijer, David van Heewijk)

. “Homem com H”, de Esmir Filho (SP) – melhor ator (Jesuíta Barbosa), maquiagem (Martín Macías Trujillo), trilha sonora (Guilherme, Mariana e Rica Amabis), figurino (Gabriella Marra), som (Ana Luiza Penna, Martín Grignaschi, Armando Torres Jr), melhor filme pelo juri popular.

. “O Último Azul”, de Gabriel Mascaro (PE) – melhor atriz (Denise Weinberg), melhor coadjuvante (Rodrigo Santoro)

. “Apocalipse nos Trópicos”, de Petra Costa (RJ) – melhor longa documental, melhor montagem doc (David Barker, Tina Baz, Nels Bangerter, Jordana Berg, Victor Miaciro, Eduardo Gripa)

. “Belén – Uma História de Injstiça”, de Dolores Fonzi (Argentina) e “O Riso e a Faca”, de Pedro Pinho (Portugal) – melhor filme ibero-americano (ex-aqueo)

. “Velhos Bandidos”, de Claudio Torres (RJ) – melhor comédia (Conspiração Filmes)

. “Tainá e os Guardiões da Amazônia – Em Busca da Flecha Azul”, de Alê Camargo e Jordan Nugem – melhor longa de animação

. “O Diário de Pilar na Amazônia”, de Eduardo Vaisman e Rodrigo Van Der Put – melhor longa infantil (Conspiração Filmes)

. “A Natureza das Coisas Invisíveis”, de Rafaela Camelo (DF) – melhor direção de filme de realizador estreante

• “O Filho de Mil Homens – melhor roteiro (Daniel Rezende, adaptado da obra “O Filho de Mil Homens”, de Valter Hugo Mãe)

• “Amarela”, de André Hayato Saito – melhor curta ficcional

• “A Tragédia da Lobo Guará” de Kimberly Palermo – melhor curta de animação

• “Sebastiana”, de Pedro de Alencar – melhor curta documental

TELEVISÃO E STREAMING

. “Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente”, de Marcelo Gomes (RJ) – melhor série de ficção, melhor ator (Johnny Massaro)

. “Caçador de Marajás”, de Charly Braun – melhor série documental

. “Omar, A Primeira Fatia do Pão de Forma – 3ª Temporada”, de Ale McHaddo – melhor série de animação

. “Cangaço Novo (2ª Temporada)” – melhor atriz (Alice Carvalho)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.