Cinema alagoano apresenta o fantasmagórico “Olhe para Mim”, no Olhar de Cinema, e Ignácio Agüero envia “Carta aos Pais Mortos”

Por Maria do Rosário Caetano, de Curitiba (PR)

Alagoas se fez representar com “Olhe para Mim” (foto), primeiro longa ficcional de Raphael Barbosa, na competição de longas brasileiros do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba. O realizador, que estreou com o longa documental “Cavalo”, subiu ao palco do Cinema do Museu Oscar Niemeyer com sua numerosa e vibrante equipe.

O elenco dessa ficção é encabeçado por Rejane Faria, Ulisses Arthur e Luciano Pedro Jr. E conta com três performances de Aura do Nascimento. Uma delas, a de figura recorrente e muito popular em circos brasileiros, a Monga. Seu desempenho causou imenso frisson na plateia e foi aplaudido em projeção aberta.

A mineira Rejane Faria, que interpreta Sandra, mãe dedicada de Ivan (Luciano Pedro), contou que o Nordeste brasileiro vem abrindo portas para ela. Presença constante em produções da Filmes de Plástico, sediada na mineira Contagem, a atriz participa, como protagonista, de dois longas nordestinos, ambos selecionados pelo Olhar. O primeiro, “Yellow Cake”, do pernambucano Tiago Melo, foi o convidado da noite inaugural. “Olhe para Mim” participa do evento curitibano como concorrente da mostra de produções brasileiras. Trata-se — como lembrou Raphael Barbosa — “de um dos 19 longas-metragens em fase de produção, finalização ou lançamento, realizados em Alagoas, nesses últimos anos”.

Ulisses Arthur, que interpreta o jovem Marcelo, é, além de ator (com imenso destaque no filme), um dos artífices da primavera vivida pela cena cinematográfica alagoana. No segundo semestre, ele lançará, no circuito de festivais, seu primeiro longa-metragem (“Não Estamos Sonhando”). E Luciano Pedro Jr., outro artífice do cinema nordestino, como o colega, soma os ofícios de ator e diretor. Seu “O Mapa em que Estão meus Pés” venceu, ano passado, em Gramado, o Troféu Kikito de melhor curta-metragem.

A pernambucana Aura Nascimento, além de causar sensação com a sensual Monga, performa, em “Olhe para Mim”, como mulher leprosa e, cheia de penas, a coruja Rasga-Mortalha. Esta ave, com seu grito agudo e estridente, prenuncia a morte. Duas outras atrizes nordestinas se destacam no filme, Ivana Iza, mãe do curioso, embora medroso, Quim (Hugo Ramires), e Ane Oliva, que dá vida a Solange, mãe de Gabriel (Lucas Carvalho).

No debate do filme, no cinema, após a exibição, e no dia seguinte, no Cine Passeio, Rafhael Barbosa assegurou que seu filme tem “mais afinidades com o cinema fantástico” que com o terror. Contou que foi um menino atormentado, na sua Arapiraca natal, por histórias amedrontadoras. Entre elas, a da coruja Rasga Mortalha. E que era proibido, pela reduzida idade, de assistir a filmes de terror. Quando conseguiu, graças ao videocassete, ver exemplares do gênero, foi tomado por certa decepção. Mas não perdeu o interesse por histórias assombradas.

O cineasta alagoano confessou seu desejo de realizar um filme narrativo, “não um filme enigmático”. Quis contar “uma história capaz de estimular o interesse do público”. Mas admitiu que sua trama incorporou camadas simbólicas. Que, num primeiro contato, nem todos conseguirão desvendar.

“Olhe para Mim” começa como um conto de horror literário. Frase-prólogo nos ensina que “o grito da Rasga Mortalha traz o agouro da morte”. Com imagens fortes, veremos uma mulher, Sandra, chegando à sua região de origem. Um rapaz, Marcelo, se prepara para uma festa à fantasia. Lá, proporá a Ivan uma viagem conjunta. Ele partiria em companhia de Sandra e do amigo. Apesar de Ivan achar que seria difícil o trio enfrentar junto as mesmas estradas, tudo se ajeitará. Mesmo com a má vontade inicial de Sandra. O público, ao longo de 89 minutos, a maior parte deles em ritmo de road movie, será levado a uma jornada Alagoas adentro, de Penedo, às margens do Rio São Francisco, até o sertão.

Sandra, ao volante, carrega o filho, que sofre transformações-mutações e, por isso, acaba confinado no banco traseiro do veículo, em espaço coberto por cortinas.

A natureza experimental do cinema de Rafhael Barbosa acabou impregnando o filme com certo hermetismo. Quem desconhece a cosmovisão Iorubá, que dá fundamentos à narrativa, poderá sentir certos trechos do roteiro como impenetráveis. Mas a fotografia (do cearense Roberto Iuri, o mesmo de “Cavalo”) é de beleza arrebatadora, o elenco se entrega com paixão ao projeto e o filme injeta inquietação no ‘terror movie’. Ou filme fantástico, como prefere o cineasta.

A prova dos nove da recepção pública ao longa alagoano se dará quando a Olhar Distribuidora colocar “Olhe para Mim” nas salas de cinema, o que deve acontecer no segundo semestre. Aí poderemos avaliar se o hermetismo da trama soterrou as doses de invenção do roteiro, concebido sem a intenção de ser “enigmático”.

O segundo dia das mostras competitivas de longa-metragem completou-se com o chileno “Cartas para meus Pais Mortos”, um documentário de 124 minutos, dirigido pelo mestre Ignácio Agüero, de 74 anos.

O diretor de “Cien Niños Esperando un Tren”, vencedor do Festival de Havana 1988, e de “O Vento Sabe que Voltarei para Casa”, vencedor do Olhar de Cinema 2016, realizou um filme de grande beleza e força narrativa. E que causou profunda impressão no público.

Tudo começa numa casa ajardinada, com muito verde e flores, onde um gato se exercita, inquieto. Uma voz, subjetiva, evocará os pais do cineasta. O Senhor Agüero trabalhava numa fábrica de chapas metálicas e morreria no ano em que Salvador Allende se elegeria presidente do Chile. Sua esposa, dedicada ao lar, partiria anos depois. Deles restariam muitas lembranças, algumas delas registradas em Super-8. E o jovem Ignácio, estudante de Arquitetura, acabaria escolhendo o cinema como ofício. A ponto de tornar-se um dos grandes documentaristas de seu país.

Agüero filho decidirá, pois, no tempo presente, enlevado pelas lembranças que povoam os jardins e os cômodos da casa familiar, enviar carta aos pais mortos. Buscará, para enriquecer a narrativa, um contemporâneo de seu pai, o líder sindical Marcos Medina. Estabelecerá com ele, que fora operário na mesma fábrica onde o Sr. Agüero exercera função de chefia, uma longa (e reveladora) conversa.

O testemunho do militante sindical é de grande riqueza e desvelará muito da brutalidade que levou ao triunfo do golpe de Estado de 1973. Aquele que depôs o presidente eleito Salvador Allende e entronizou o General Augusto Pinochet, por 20 anos, no comando do país. Profissionais do cinema, conhecidos de Ignácio Agüero, e muitos operários, colegas de Medina, desapareceriam, vítimas do aparelho repressivo montado pelos militares.

Não há cabeças-falantes em “Cartas para meus Pais Mortos”. Só Marcos Medina terá o tempo necessário para evocar suas memórias fabris e lembrar dos colegas operários (eles serão vistos unidos em belo registro fotográfico). Sem esquecer, claro, da repressão desencadeada e prolongada pelo Golpe. A matéria-prima do filme é a memória.

As duas horas de narrativa fluirão como as águas de um rio tranquilo, sem solavancos. Agüero deslisa lembranças, registra um primeiro gato, que enfrentará outro felino ao encontrá-lo nos jardins, se deterá na beleza de plantas, flores e frutos, referenciará projetos cinematográficos de colegas, como Raúl Ruiz. E lembrará encontro do mesmo Ruiz com Godard e André Racz, todos defensores e praticantes de um cinema fincado na poesia, na invenção e, também, na memória.

No momento mais impressionante do documentário, Ignácio Agüero evocará o velório do General Pinochet. Ele mesmo — confessará — quis ir ver o que se passava naquele momento crucial. Ficou transido de surpresa ao ver a imensa multidão de chilenos empenhada em despedir-se do ditador e ídolo político. Desistiu de enfrentar a fila e se recolheu.

Nem por isso o cineasta deixará de evocar, em suas “Cartas aos Pais”, momento impressionante da história política de seu país: Francisco Cuadrado Prats, cujo avó, o allendista General Carlos Pratz, assassinado (por bomba explosiva posta no veículo onde se encontrava, em companhia da esposa), resolveu enfrentar a imensa fila do velório. Esperou sua vez de passar defronte ao caixão de Pinochet. Na hora exata, cuspiu no ditador morto. Um pequeno gesto, que lhe rendeu detenção temporária, mas serviu como ato de coragem e revolta.

Quem conhece os outros (e são muitos) filmes de Agüero sabe que ele prefere o tom subjetivo, íntimo e cotidiano ao registro épico. O que não significa que siga alheio à História de sua gente e de seu país. A grande História se compõe, em seus múltiplos documentários, da soma de pequenas estórias.

Na terceira noite do Olhar de Cinema, mais dois filmes entraram em competição. Um — “Bouchra”, de Orian Barni e Meriem Bennani — chegou ao festival curitibano sob três bandeiras, a dos EUA, do Marrocos e da Itália. O outro, veio de Minas Gerais, “Maxita”, dirigido pela primas Mariana e Ana Maria Machado.

Orian e Meriem não estão em Curitiba, mas mandaram um vídeo de apresentação do filme, que acabou divertindo a plateia por fato inusitado. Uma delas, Orian, nascida em Tel Aviv/Israel, contou que residiu temporariamente em Botucatu, interior de São Paulo, pois o pai, biólogo marinho, veio realizar pesquisas no Brasil. Contou, ainda, que por falta de prática perdeu a capacidade de expressar-se em português. Mas guardou, com carinho, pelo menos uma palavra: “contigo”.

O público assistiu, então, ao filme “Bouchra”, uma animação da dupla de realizadoras, radicadas ambas em Nova York. Trata-se de narrativa de alma queer, que representa suas personagens com muito de autoficção. E, como nas fábula de La Fontaine, em forma de animais. Bouchra é uma coiote marroquina, homoafetiva, que vive nos EUA. A cineasta Meriem Bennani, lembremos, nasceu em Rabat, no Marrocos.

As duas diretoras e também roteiristas (em parceria com Ayla Mrabet) emprestam suas vozes às coiotes-protagonistas. Bouchra, de 35 anos, trabalha no Brooklyn novaiorquino, enquanto sua mãe, Aicha, vive em Casablanca, no Marrocos. Depois de período de seca criativa, a jovem decide realizar viagem cinematográfica, de caráter introspectivo e semiautobiográfico, que lhe permita explorar sua identidade e sexualidade.

Bouchra (nome próprio que evoca o mensageiro de boas novas) vive relação afetiva com outra mulher, o que confronta os valores de sua família marroquina. Com a realização do filme, ela espera compreender a reação da mãe quando esta tomar conhecimento de sua opção homoafetiva. Para tanto, a cineasta-roteirista usará de artifício cinematográfico. Sondará (por telefone) à Senhora Aicha, sobre o que ela pensa sobre o assunto. Na conversa com a mãe, Bouchra diz que está pesquisando o tema homoafetivo para um filme em fase de preparação. O que veremos ao longa da narrativa somará vivências reais e ficcionais.

O documentário brasileiro “Maxita” (termo Yanomami que significa solo, terra, barro) dura apenas 64 minutos. Tempo suficiente para nos aproximar, em profundidade, da luta do povo amazônico Yanomani contra a invasão de garimpeiros. Mariana Machado, cineasta mineira que vive em Bruxelas, na Bélgica, juntou-se à prima Ana Maria, indigenista e antropóloga, para, ao longo de sete anos, construir “Maxita”.

O filme tem um personagem central, o pensador Yanomami Davi Kopenawa, autor do célebre livro-ensaio “A Queda do Céu”. Líder de seu povo e xamã, o Kopenawa que veremos no filme soma à sua sabedoria, um grande senso prático. Quer lembrar a importância da “maxita”, a terra que lhe serve de solo-morada, para os Yanomami. E do perigo representado pelo garimpo, que destrói a floresta, as águas, a vida enfim.

As duas diretoras, mineiras de Belo Horizonte, levarão Kopenawa, vindo das alturas de Roraima, extremo norte do país, a Minas Gerais. Afinal, o estado sudestino viveu, quando elas conceberam o filme, as tragédias minerais de Brumadinho e Mariana. Viram a empresa Vale, em sua selvagem busca pelo lucro, ceifar vidas e contaminar rios, inclusive o Doce.

O espírito predatório da mineração encontrou no estado de origem de Mariana e Ana Maria a sua mais completa tradução. Por isso, elas registrarão o encontro de Kopenawa com outro líder indígena, Ailton Krenak, nascido e criado em comunidade originária, nas cercanias das águas do Rio Doce. Os dois caminharão por mata mineira, cortada ao meio por uma estrada, e refletirão sobre a sanha dos que buscam “o progresso”, custe o que custar.

Numa das sequências mais impactantes do filme, veremos os imensos espigões que compõem a metrópole belorizontina, abrigo de 2,4 milhões de habitantes. Imagens registradas por drone descortinarão o trágico arremate do aglomerado urbano, composto por montanha retalhada pela mineração predatória. A capital mineira perde a insinuante ondulação das montanhas que a cercaram, desde o final do século XIX. E Minas Gerais testemunha, atônita, a perda da qualidade de vida somada a desastres como os que desgastaram as cercanias de Brumadinho e Mariana.

O filme foi rodado em Watoriki, a maior e mais importante aldeia do território Yanomami, em Roraima, e no Amazonas, além de Minas Gerais. Ao mostrar os estragos da mineração no estado natal de Drummond, Mariana e Ana Maria alertam o país sobre os riscos da nova fronteira de exploração predatória de minerais. Se o garimpo não for detido em sua voracidade, a Amazônia (e sua floresta), como hoje conhecemos, será em futuro não muito distante apenas um retrato na parede.

“Maxita” resulta de montagem precisa do cineasta Affonso “Arábia” Uchoa, que soube combinar imagens captadas pelos cinco fotógrafos do filme a imagens de arquivo, que vão do pioneiro Silvino Santos aos registros televisivos dos desastres de Brumadinho e Mariana, passando por cinejornais da década de 1970, aquela que engendrou o “Milagre Brasileiro”.

“Nosso filme” — lembrou Mariana Machado, no debate ocorrido após a sessão no Cinema do Museu Oscar Niemeyer — “quer mostrar encontros (como o de Kopenawa e Ailton Krenat) e muitos desencontros ao público formado por não-indígenas, para que se espelhem no que se passou em Minas Gerais, estado que carrega a mineração no próprio nome”. Que Minas sirva como espelho e alerta.

O cineasta Morzaniel Yanomami, nome da linha de frente do audiovisual indígena, que representa Davi Kopenawa (ocupado com assembleia que debate temas decisivos para seu povo) no Olhar de Cinema, acrescentou: “esse documentário será, também, muito importante para o povo Yanomami, pois o ajudará a compreender o que poderá acontecer com nosso território, caso ele continue sendo invadido por garimpeiros”

A Mostra Mirada Paranaense, segmento do Olhar de Cinema dedicado à produção do Estado, apresentou o primeiro e único longa-metragem de sua seleção, “A Holandesinha”, de João Gabriel Kowalski e Luiza Godoy, que se completa com sete curtas.

O filme, uma ficção de 90 minutos, soma-se a mais dois longas ‘made in Paraná’ — “Quase Inverno”, ficção de Rodrigo Grota, selecionada para a competição nacional, e “O Mez da Grippe”, documentário ensaístico de William Biagioli (mostra Novos Olhares).

O Cine Passeio dedicou suas duas salas (Ritz e Luz) para a exibição da “Holandesinha”. Ambas mobilizaram significativa plateia, inclusive espectadores vindos de Maringá, onde o filme foi realizado. Quem pensou que assistiria a um novo exemplar do cinema militante, aquele mais preocupado em defender uma causa, que com sua natureza cinematográfica, deparou-se com uma comédia metalinguística, divertida e arejada. Tudo começa com a voz de uma mulher que descreve o momento em que tomou conhecimento de que a filha nascera portadora de Síndrome de Down.

Frente ao momento, não esperado, ela recorrerá a metáfora que servirá de fonte geradora do título do filme: “imagine que você tenha preparado uma sonhada viagem de férias na Itália, mas desembarca na Holanda. Você terá que se adaptar”.

Aí conheceremos a protagonista do filme, a “holandesinha”, interpretada por Luíza Godoy, uma das protagonistas do filme “Colegas e o Herdeiro”, ou “Colegas 2” (Marcelo Galvão, 2026). A adolescente, também portadora de Síndrome de Down, prepara, com sua equipe de produção, as filmagens de seu primeira curta-metragem, “Lágrimas de Pierrot”.

Seus desejos são grandes, ousados até. Ela deseja filmar em complexas locações, contar com animais em várias sequências e, até, escalar o ator Tony Ramos para interpretar um dos personagens. Cabe aos seus colegas baixar o nível de expectativas da cineasta estreante. Mostrar que o orçamento não dará para cobrir seus múltiplos desejos, que ela terá que se adaptar à realidade. A estreante acaba se conformando com os limites impostos pelos auxiliares e aceitando usar de criatividade e jogo de cintura para transformar seus sonhos em realidade.

“A Holandesinha” nos leva a uma curiosa constatação. Como dizia Wim Wenders, “o cinema de Hollywood colonizou nosso imaginário”. O que aconteceu também com a estreante Luiza Godoy. A quase totalidade de seus referenciais cinematográficos vem do cinema hollywoodiano. Por sorte, o carnaval aparece com sua carga de festa pagã brasileira, para nos lembrar que estamos no Brasil, no Paraná, em Maringá!

Em compensação, o filme tem qualidades para compor trinca de filmes que merecem exibição conjunta – os longas “Do Luto à Luta” (documentário de Evaldo Mocarzel, 2005), a ficção “Colegas” (Marcelo Galvão, 2012) e, agora, o metalinguístico e cativante “A Holandesinha”.

O espectador, sem exceção, há de encantar-se com o trabalho da atriz-protagonista. Luiza Godoy, que veremos nos cinemas a partir de agosto, no elenco de “Colegas 2”, é capaz de dizer com desenvoltura, diálogos complicados. E, o que é melhor, sem perder o humor.

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