“Mama”, documentário equatoriano, e os curtas “Zebra” e “Imaginário Bar” são os grandes vencedores do FAM

Foto © Eduardo Lopes

Por Maria do Rosário Caetano, de Florianópolis (SC)

O documentário equatoriano “Mama”, de Ana Cristina Benítez, foi o grande vencedor da trigésima edição do FAM (Florianópolis Audiovisual Mercosul). O filme agradou ao júri oficial e ao júri popular. Ambos reconheceram a delicadeza e sinceridade do relato de história vivida pela própria cineasta. Aos 36 anos, ela descobriu um câncer de mama em estágio avançado e viveu seu calvário em sessões de quimioterapia, radioterapia e complexa cirurgia.

Benítez veio, em pessoa, apresentar seu filme ao público do FAM. Subiu ao palco do TAC (Teatro Álvaro de Carvalho) depois de distribuir cartões impressos com apelo aos espectadores: “Ajudem-nos a abrir conversas que costumam permanecer em silêncio”. E pediu que todos os interessados entrassem nos espaços digitais do longa-metragem (@mamadocumental.ec) para “troca de ideias sobre assunto tão relevante”.

O tema do filme e o grande empenho pessoal da cineasta poderiam transformar os espectadores em cúmplices acríticos do filme. Por sorte, foi o cinema que falou mais alto.

Ao escolher a câmara como refúgio e meio de expressão, Benítez reflete sobre sua vida a partir das imagens. E estabelece corpo-a-corpo com familiares, amigos, namorado, médicos e enfermeiras. Confronta seus limites. Mostra, sem apelos sentimentais, seu corpo fragilizado e exausto, além de imensa cicatriz, fruto de delicada cirurgia. Com sua câmara, que nada esconde, a realizadora-personagem busca conexão consigo mesma, com o pai, com seu passado e com suas raízes.

Dos seis longas sul-americanos (ficcionais e documentais) apresentados na principal competição do FAM, mais um se destacou – “Apopcalipse Segundo Baby”, de Rafael Saar, que fez jus ao Prêmio Especial do Júri. Trata-se, como “Mama”, de um documentário, cuja intenção é celebrar a trajetória da cantora Baby Consuelo, seu nome nos tempo dos Novos Baianos, e Baby do Brasil, desde que trilhou o Caminho de Santiago (de Compostela, na Espanha) em busca de completa renovação espiritual e existencial.

Se “Mama” agradou ao júri oficial e ao público, sendo duplamente premiado, o mesmo aconteceu com “Imaginário Bar”, de Nilson “Bhig” Villas Boas, reconhecido pelos dois colegiados como o melhor curta catarinense. Bhig iniciou sua carreira na década de 1980. Com o curta ficcional “A Mulher do Atirador de Facas”, protagonizado por Carla Camurati e Ney Latorraca, ele causou ótima impressão em festivais. Mas, com o triunfo do Governo Collor, os organismos de fomento ao cinema brasileiro foram desmontados e dezenas de profissionais, jovens e veteranos, não encontraram condições para sequenciar suas carreiras.

Bhig buscou trabalho no mercado publicitário. Depois, quando a situação começou a melhorar, passou a dedicar-se ao cinema documentário. Seu “Imaginário Bar”, protagonizado por Carlos Francisco (o ator se desdobra em múltiplos papéis), marca sua volta, passados 38 anos, ao cinema ficcional.

A trama resulta de adaptação livre do conto “Versões”, de Luis Fernando Verissimo. Um homem reflete sobre sua vida e se vê cercado pelas alternativas de quem ele poderia ter sido. A fotografia, notável, traz a assinatura de José Roberto Eliézer, o Zé Bob. Um craque, assim como o contagiante Carlos Francisco.

Bhig garantiu ao público que lotou a sessão de “Imaginário Bar”, seguida de debate, ter recobrado o gosto pelo cinema ficcional. E que já tem dois projetos engrenados e em fase adiantada.

O vencedor na categoria curta sul-americano foi “Zebra”, de Victor Nascimento, uma produção de São Paulo. O filme conta a história de Pedro, um jovem da periferia, que se dedica ao futebol e acaba assediado por seu treinador. Em meio à culpa e ao silêncio, ele tenta se abrir com o pai.

As escolhas nessa categoria, que uniu curtas brasileiros e hispano-americanos, mostraram dissonância  entre o júri oficial e o popular, já que este último preferiu o documentário colombiano “Refugiar el Gesto”, de Adrián Villa-Dávila e Andrés Prado.

Os espectadores do FAM se sensibilizaram com as músicas e danças Tabliteras, tema do documentário vindo de San António de Bolívar. Esta manifestação cultural estava destinada ao desaparecimento, pois os jovens do local já não a praticavam. O empenho de quatro anciãos do povoado colombiano conseguiram reverter a situação. Eles resgataram o que haviam guardado na memória e ensinaram os mais jovens a dançar (e preservar) o folguedo.

Os filmes laureados no FAM 30 anos receberam, além do Troféu Panvision, prêmios que, somados, chegam a R$140 mil. Os reconhecimentos incluem serviços e recursos destinados ao desenvolvimento de novos projetos audiovisuais, como pós-produção de imagem e som, locação de equipamentos, tradução, legendagem, preparação de elenco e cursos.

Participantes das categorias Curtas Catarinenses, Infantojuvenil e On-line receberam o prêmio-aquisição da Recam (Reunião Especializada de Autoridades Cinematográficas e Audiovisuais do Mercosul), no valor de 250 dólares (cada). A instituição de apoio ao cinema do Mercosul adquiriu a compra dos direitos das obras premiadas, sem exclusividade, por dois anos para exibições nos países que integram o bloco. Além desta vitrine, a premiação garante recursos de acessibilidade e legendagem em espanhol para filmes brasileiros.

A cineasta e roteirista catarinense Maria Emília de Azevedo foi a homenageada da noite de premiação do FAM. O festival reconheceu sua trajetória dedicada ao cinema catarinense. Diretora de obras como “Alva Paixão”, “Roda dos Expostos”, “Um Tiro na Asa”, “Mulher Azul” e do longa “Porto Príncipe”, Maria Emília atuou, também, na busca por políticas de fomento ao audiovisual e em atividades de preservação da Cinemateca Catarinense. Ela tem significativa participação no longa documental “Caminhos do Desejo”, de Andrey Santiago, que revisita a história do primeiro longa ficcional realizado em Santa Catarina, “O Preço da Ilusão” (Nilton Nascimento, 1957), escrito por Salim Miguel e Eglê Malheiros.

Ao receber o Troféu Panvision, representando por uma Bernúncia (ser mitológico da cultura catarinense-açoriana), Maria Emília, em estado de “emoção indescritível”, lembrou sua “história de amizade” com Antônio Celso (in memoriam) e Denise Naccari, criadores, três décadas atrás, do FAM. E estendeu a homenagem recebida “às pessoas que me impulsionaram e não me deixaram desistir, todos têm sua marca no meu coração, atores, atrizes, técnicos com quem trabalhei e com quem vou trabalhar”.

Ao finalizar, a cineasta agradeceu “ao movimento pelo cinema da década de 1980, à Cinemateca Catarinense, ao Funcine e aos cursos de cinema da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e Unisul”, e desejou “vida longa ao cinema catarinense, brasileiro, latino-americano, palestino e irianiano”.

Confira os vencedores:

LONGA-METRAGEM

. “Mama”, de Ana Cristina Benítez (Equador) – melhor filme pelo Júri Oficial e pelo Júri Popular
. “Apopcalipse Segundo Baby”, de Rafael Saar (Rio de Janeiro, Brasil) – Prêmio Especial do Júri

MOSTRA DE CURTAS SUL-AMERICANOS

. “Zebra”,de Victor Nascimento (São Paulo) – melhor filme
. “Refugiar el Gesto”, de Adrián Villa-Dávila e Andrés Prado (Colômbia) – melhor filme pelo Júri Popular
. “Jemené”, de Ernira Bailarín (Colômbia) – Menção Honrosa

MOSTRA CURTAS CATARINENSES

. “Imaginário Bar”, de Bhig Villas Boas (Itajaí-SC) – melhor filme pelo júri oficial e júri popular
. “Gaita”, de Michele Diniz (Rancho Queimado-SC – Brasil- Portugal) – Prêmio da Imprensa Catarinense
. “O Inquilino”, de Jordana Beck (Florianópolis-SC) – Menção Honrosa da Imprensa Catarinense)

MOSTRA VIDEOCLIPES

. “A Posse é Um Fato”, de Murilo Munìí, Direção de Mar Fagundes e Murilo Munìí (Porto Alegre- RS) – Prêmio do Júri Oficial
. “Sansara – Kfé”, de Neri (Araçatuba, Rubiácea – SP) – Júri Popular

MOSTRA INFANTOJUVENIL

. “O Jardim Mágico”, de Naira Carneiro e Carlon Hardt (Brasília e Curitiba) – melhor filme e Prêmio RECAM (Reunião Especializada de Autoridades Cinematográficas e Audiovisuais do Mercosul)
. “Esperança”, de Amora Moreira e Marcelo Pereira (Rio de Janeiro) – Júri Popular
. “Nosso Tempero”, de alunos e alunas da Escola Municipal João Victor, Equipe Animazul (Lagoa Nova-RN e Vitória-ES) – Menção Honrosa

Menções Especiais (RECAM)

. “Nosso Tempero”, de alunos e alunas da Escola Municipal João Victor, Equipe Animazul (Lagoa Nova-RN e Vitória-ES)
. “Esperança”, de Amora Moreira e Marcelo Pereira (Rio de Janeiro)
. “Chica”, de João Victor Silva e Matheus Malburg (São Bento do Sapucaí, SP)
. “Peixe Seco e Defumado”, de Denis Souza (São Francisco do Sul-SC e Pelotas-RS)

MOSTRA ON-LINE

. “Capim”, de Júlia Munhoz e Caio Pimenta (Bom Jesus do Araguaia e Cuiabá-MT) – Júri Popular

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